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O futuro é uma abstração obscena
— considerações sobre O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho

Músculo (série Circuito), Mariana Par

Não é raro, em 2021, constatarmos nossa incapacidade frequente de distinguir realidade e ficção. Fato é que o presente soa delirante: não sobraram muitos acordos a respeito de fatos sociais básicos, os parâmetros de leitura do real caducaram e o pacto democrático parece cada vez mais longínquo. Há gente adoecida por toda parte. Dormência, enjoo e vertigem. Multiplicam-se as abstrações e subtraem-se os estados de direito. O que resta?

O último gozo do mundo (Companhia das Letras, 2021), livro recém-publicado por Bernardo Carvalho, se estrutura em torno dessa crise. A princípio encomendado como roteiro para o cinema e posteriormente convertido em romance breve, a obra se passa num contexto de pós-pandemia recente, no qual impera a sensação de fim do mundo tal qual o conhecíamos e um discernimento reduzido dos acontecimentos, em meio a ascensão de um pensamento conservador. A experiência de um tempo em suspensão, sequestrado pela própria quarentena e transformado em puro-presente, é o que justifica que o livro seja compreendido enquanto fábula distópica. Se não encontramos aqui qualquer personagem animal ou lição moralizante que justifique o gênero, resta na estrutura da narrativa de Carvalho certa atmosfera de conto de fadas ou história para crianças.

Isso porque a personagem principal, uma professora de sociologia que atravessou uma série de perdas, vai com o filho ainda bebê numa viagem algo romanesca pelo interior do Brasil em busca de um profeta que adquiriu a habilidade de vislumbrar o futuro após ter tido a memória devastada pelo vírus. Ela passa a viagem conversando sobre o passado com o filho que ainda não sabe falar e, durante o percurso, seu encontro com outras personagens põe em tensão as relações entre memória e imaginação, o nó entre passado e futuro que estressa uma população de mãos atadas, entre dramas pessoais e coletivos.

Na trama, a pandemia ocupa lugar de um estado de consciência radical da realidade, o que implica em posturas sociais múltiplas. De um lado, há aqueles que, na impossibilidade de lidar com suas próprias contradições, culpas e irresponsabilidades, se negam disciplinadamente a enxergar o pesadelo em que estamos metidos para seguir realizando suas próprias vontades numa fantasia paralela, a despeito de qualquer crise coletiva (“Na falta de imunidade ao vírus, mais de um terço da população tornou‑se imune à realidade”).1 São os narcisistas suicidas que justificam o título do livro, pois lhes interessa desfrutar o último gozo do mundo, acelerar o fim de uma vez por todas. Não coincidentemente, tal posicionamento aparece enquanto projeto de país, fazendo-nos refletir a respeito da pulsão mortífera que orienta os novos regimes autoritários na destruição simultânea do passado e do futuro, em especial o brasileiro (“O país conspirava contra si mesmo. É possível que tivesse conspirado contra si mesmo desde sempre e que a doença fosse seu coração”).2

De outro, há aqueles, não menos desesperados, que ainda confiam na possibilidade de um futuro possível, desde que corresponda às suas próprias expectativas otimistas. O romance ironiza o pensamento positivo que acaba operando como fator paralisante e emburrecido, na medida em que também flerta com o negacionismo. Afinal, na esperança cega de que as coisas melhorem, o fundo do poço se acentua. Suicidas ou esperançosos, todos, no entanto, apresentam um sintoma coletivo por excelência: a dificuldade de imaginar, a sensação de certa letargia e incapacidade de produzir saídas para as inúmeras catástrofes que atravessam o presente.

Permanece nesta obra a narrativa fragmentária e algo dispersa que marca o escritor (o que faz a temperatura do romance variar consideravelmente e questionar a pertinência de um capítulo ou outro), bem como a construção de personagens perdidos e desenraizados e uma escrita destituída de firula e embelezamento. Diferente de seus livros precedentes, há aqui mais conteúdo de cunho ensaístico e interesse sociológico, bem como uma abordagem de tom onírico, fruto do interesse na fabulação.

De todo modo, Carvalho faz bem em circundar o contexto pandêmico de modo mais aberto e especulativo. Não se trata de levantar uma grande hipótese para as consequências desse evento (afinal, esse sequer seria o papel da ficção), mas fornecer e sondar os traços de um real estilhaçado e às voltas consigo mesmo. Desde que a quarentena começou, multiplicaram-se as obras, para além da literatura, que buscaram abordar essa circunstância social de modo ansioso ou ilustrativo, em geral convertendo-se em exercícios datados e fracassados que geraram no público fadiga e impaciência. Resta saber se, com algum distanciamento, estaremos mais receptivos (e preparados, quiçá) para esse tipo de produção. Quando o horror é inassimilável e insuportável, a ficção pode ser um lugar cuidadoso de negociação e elaboração.

Mas o trunfo d’O último gozo do mundo está em ir além do contexto sócio-político estrito, reivindicando memória e imaginação como instâncias indissociáveis. Sabe-se que é difícil imaginar sem mergulhar, com mais ou menos intenção, nas gavetas do passado. Imaginar (isto é, expandir os horizontes negociáveis do possível) implica engajar-se com nossas próprias experiências e repertórios constituídos. Mas também não é possível lembrar sem uma dose de fabulação. Como diria Waly Salomão, a memória “é uma ilha de edição”, inclusive ameaçada de apagamentos, fraudes e obliterações, como tem sido o projeto deste governo. Mesmo por isso, passado e futuro são vetores que se entrecruzam e se transformam continuamente; ambos são campos de batalhas que não cessam, e cujo espaço de significação simbólica se dá no próprio presente. Segundo o ditado iorubá, “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”.

Nesse jogo, resta também uma crítica à certa literatura identitária, que estaria mais apegada à memória do que à imaginação, já que tende a funcionar como confirmação das experiências e opiniões do leitor, obcecado pelo espelhamento e verossimilhança entre personagens e pessoas reais. Trata-se de uma pauta recorrente nos textos de Carvalho como ensaísta, que vem defendendo a literatura enquanto espaço de relação com a alteridade e com experiências e sentimentos que em geral não queremos assumir ou lidar frontalmente, o que vai de encontro à noção de ficção como produtora de identidade totalizante. Para o escritor, o encontro com a diferença no texto é o modo de alargar nossa compreensão e a consciência do mundo, o que também justifica seu trânsito entre vozes polifônicas distintas.

No livro, o entrelaçamento entre memória e imaginação se dá em camadas múltiplas (o pai da professora que perdeu a memória e, consequentemente, a capacidade de nomear; o filho pequeno que ainda não fala e que, portanto, ainda não lembra nem se constitui enquanto sujeito, espécie de metáfora de todos nós, já que é incapaz de compreender a realidade; e o profeta que passa a vislumbrar o futuro enquanto alucinação justamente na medida em que é vetado de rememorar). Mas para além das histórias individuais, o que se demarca é uma relação mais ampla, de atribuição coletiva: quem não lembra, e tampouco imagina, está fadado à visão curta e nublada do presente-beco-sem-saída, esse onde nos encontramos, e de onde será preciso sair.