Revista Rosa

Volume 4

4

Kronstadt, mais uma vez1

(julho de 1938)

Recebi a revista com grande prazer. Trata-se, com certeza, da melhor publicação marxista revolucionária de nossos dias. Todas as minhas simpatias, creiam-me, estão com vocês, e, se me for possível prestar-lhes algum serviço, irei fazê-lo com entusiasmo.

Algum dia irei responder aos artigos de Wright e de L.D. Trotsky sobre Kronstadt. Esse grande tema merece ser retomado em profundidade, e os dois estudos que a revista publicou até agora estão longe, muito longe, de exauri-lo. Antes de tudo, surpreende-me ver nossos camaradas Wright e L.D. Trotsky valer-se de um raciocínio que, me parece, deve nos inspirar cuidado e rejeição. Eles observam que o drama de Kronstadt em 1921 atualmente inspira comentários, ao mesmo tempo, dos social-revolucionários, dos mencheviques, dos anarquistas e de outros grupos; deste fato, natural numa época de confusão ideológica, de revisão de valores, de batalhas entre seitas, eles constroem um tipo de amálgama. Desconfiemos dos amálgamas e de raciocínios mecânicos. Houve grande abuso disso na Revolução Russa e sabemos aonde isso leva. Liberais burgueses, mencheviques, anarquistas e marxistas revolucionários avaliam o drama de Kronstadt a partir de pontos de vista diferentes, e com objetivos diferentes, o que se deve levar em conta, em vez de fundir todas as vozes críticas sob um único rótulo, imputando a todas a mesma hostilidade contra o bolchevismo.

O problema, na verdade, é muito mais vasto do que os acontecimentos de Kronstadt, que foram apenas um caso isolado. Wright e L.D. Trotsky defendem uma tese extremamente simples: o levante de Kronstadt era objetivamente contrarrevolucionário e a política de Lênin e de Trotsky no Comitê Central foi correta antes, durante e depois de tudo. Numa escala histórica e, mais ainda, grandiosa, essa política era correta, o que fez com que fosse trágica e perigosamente falsa e errônea em várias circunstâncias específicas. Eis o que seria útil e corajoso reconhecer hoje em dia, em vez de afirmar a infalibilidade de uma linha geral de 1917 a 1923. De modo geral, subsiste o fato de que as insurreições de Kronstadt e de outros lugares representavam para o partido a absoluta impossibilidade de perseverar nos rumos do comunismo de guerra. O país estava morrendo de uma “estatificação” levada às últimas consequências. Quem estava certo, então? O Comitê Central, que se aferrava a um caminho sem saída ou as massas, levadas pela fome a atos extremos? Parece-me inegável que Lênin, naquele momento, cometeu o maior equívoco de sua vida. Será necessário lembrarmos que, poucas semanas antes da introdução da NEP, Bukharin produziu um trabalho de economia mostrando que o sistema vigente era na verdade a primeira fase do socialismo? Por ter defendido, em suas cartas a Lênin, medidas de conciliação com os camponeses, o historiador Rozhkov tinha sido recentemente deportado para Pskov. Uma vez iniciada a rebelião de Kronstadt, era necessário sufocá-la, por certo. Mas o que havia sido feito para prevenir a insurreição? Por que foi rejeitada a mediação dos anarquistas de Petrogrado? Pode alguém, finalmente, justificar o insensato e, repito, abominável massacre dos vencidos de Kronstadt, que ainda estavam sendo fuzilados em execuções coletivas três meses depois do fim do levante?

Eram filhos do povo russo, atrasados talvez, mas que pertenciam às massas da própria revolução.

L.D. Trotsky enfatiza que os marinheiros e soldados da Kronstadt de 1921 não eram mais os mesmos, no que diz respeito à consciência revolucionária, do que os de 1918. É verdade. Mas o partido de 1921 — era o mesmo de 1918? Já não estava sofrendo de um apodrecimento burocrático que frequentemente o afastava das massas e tornava-o desumano frente a elas? Valeria a pena reler, neste aspecto, as críticas ao regime burocrático formuladas há muito pela Oposição Operária e lembrar também as práticas malignas que surgiram durante as discussões sobre os sindicatos em 1920. De minha parte, sentia-me ultrajado ao ver as manobras da maioria em Petrogrado para abafar as vozes dos trotskistas e da Oposição Operária (que defendiam teses simetricamente opostas).

A questão que hoje domina toda a discussão é, em essência, a seguinte: quando e como o bolchevismo começou a degenerar?

Quando e como começou a empregar, sobre as massas trabalhadoras, cujas energias e consciência o bolchevismo expressava, aqueles métodos não socialistas que devem ser condenados, uma vez que terminaram assegurando a vitória da burocracia sobre o proletariado?

Posta essa questão, pode-se ver que os primeiros sintomas desse mal vêm de antes. Em 1920, os social-democratas mencheviques foram falsamente acusados, num comunicado da Tcheka, de manter entendimentos com o inimigo, de fazer sabotagem etc. Esse comunicado, monstruosamente falso, serviu para colocá-los fora da lei. Naquele mesmo ano, anarquistas foram presos em toda parte da Rússia, depois da promessa formal de legalizar o movimento; mais tarde, o tratado de paz assinado com Makhno foi deliberadamente rasgado pelo Comitê Central, que não mais precisava do Exército Negro. A justeza revolucionária não justifica, a meus olhos, essas práticas nefastas. E os fatos que cito estão longe, infelizmente, de serem os únicos.

Voltemos ainda mais no tempo. Não terá chegado o momento de dizer que foi fatídico o dia do glorioso ano de 1918 em que o Comitê Central do partido decidiu permitir às comissões extraordinárias a aplicação da pena de morte com base em processos secretos, sem ouvir os acusados, que não podiam se defender? Naquele dia o Comitê Central podia escolher entre restaurar ou não um procedimento inquisitorial que já havia sido esquecido pela civilização europeia. Seja como for, cometeu um equívoco. Não convém a um partido socialista vitorioso cometer um equívoco desses. A revolução poderia ter-se defendido melhor sem isso.

Estaríamos sem dúvida errados se escondêssemos de nós mesmos o fato de que todo ganho histórico da revolução russa está sendo colocado em questão. De toda a vasta experiência do bolchevismo, os marxistas revolucionários só poderão salvar o essencial, o duradouro, enfrentando todos os seus problemas desde o início, com genuína liberdade de espírito, sem vaidades de partido, sem hostilidade irredutível (ainda mais no campo da investigação histórica) face às outras tendências do movimento dos trabalhadores. Ao contrário, sem reconhecer antigos erros, cuja gravidade a história não cessa de trazer à cena, o risco que se corre é comprometer todos os ganhos do bolchevismo. O episódio de Kronstadt coloca, simultaneamente, as questões da relação entre o partido do proletariado e as massas, a questão do regime interno do partido (a oposição operária foi esmagada), a questão da ética socialista (enganou-se toda Petrogrado falando de um movimento branco em Kronstadt), do tratamento humano na luta de classes e, sobretudo, na luta interna entre as nossas classes. Por último, coloca-se em teste a nossa capacidade de autocrítica.

Sem poder no momento responder com maior profundidade aos camaradas Wright e L.D. Trotsky, espero que tenham a bondade de submeter esta carta aos leitores de New International. Contribuirá talvez para aprimorar uma discussão que deveríamos saber como conduzir a bom termo num saudável espírito de camaradagem revolucionária.

Paris, 28 de abril de 1938.