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O incômodo de uma tradução
— comentário à nova tradução de Das Unheimliche, de Sigmund Freud

Baldes, Débora Bolsoni

Foi lançada no mês de julho uma nova tradução de um famoso ensaio de Sigmund Freud: Das Unheimliche, de 1919.1 A curiosidade é que não se trata exatamente de um texto desconhecido e inédito em português brasileiro; pelo contrário, contamos com pelo menos três outras versões no país: “O estranho” (Imago, 1996), “O inquietante” (Companhia das Letras, 2010) e “O infamiliar” (Autêntica, 2017). Além disso, Oscar Cesarotto havia sugerido que o texto também poderia ser vertido como “O sinistro” (Max Limonad, 1987), tal como se encontra em traduções argentinas. Agora, as pessoas interessadas na leitura de Freud também poderão encontrar nas livrarias “O incômodo”, na versão publicada pela Editora Blucher. O lançamento inaugura uma nova série intitulada “pequena biblioteca invulgar”, capitaneada pelo tradutor e psicanalista Paulo Sérgio de Souza Jr., que promete abrigar no catálogo textos psicanalíticos inusitados. As principais novidades presentes no volume são: 1) a inclusão do ensaio “Psicologia do incômodo”, de Ernst Jentsch, escrito em 1906 — esse, sim, inédito em português; e 2) o emprego do vocábulo “incômodo” para traduzir o termo Unheimliche, a que se referem tanto o texto freudiano quanto o ensaio de Jentsch. A edição também conta com dois paratextos: uma nota do tradutor que, de maneira intrigante, abre o livro — e a série — na forma de um verbete de dicionário, no qual encontramos as definições de “cômodo” e “incômodo”; e o posfácio, intitulado “Das zonas do incômodo” (2016), da autoria do germanista e biógrafo de Freud, Peter-André Alt, que oferece aos leitores uma excelente contextualização do ensaio de 1919 e uma rigorosa dissecação do argumento freudiano presente no texto.

Há pouco mais de dez anos, as obras de Freud tornaram-se domínio público no Brasil. Até então, haviam ficado circunscritas aos domínios das editoras Delta e Imago, dos anos 1950 até o final dos anos 1990. Depois da liberação dos direitos, novas traduções e coleções começaram a surgir; e nesses últimos dez anos de livre publicação, tivemos acesso aos mais diversos tipos de traduções: comentadas, críticas, especializadas, simplificadas, acompanhadas por textos de apoio e, até mesmo, em formato de mangá. Isso fez emergir nos círculos psicanalíticos questões relacionadas às divergências de tradução, tanto em termos de precisão de conceitos quanto no que se refere ao estilo de escrita freudiano. Com isso, o campo psicanalítico pareceu se dividir entre, de um lado, profissionais que argumentam que o estilo de Freud ambicionava uma escrita prosaica que tentaria se aproximar do uso coloquial da língua alemã; e, do outro, aqueles que sustentam que as publicações freudianas tinham como horizonte o desenvolvimento de uma linguagem científica rigorosa, segundo a qual a precisão conceitual seria o principal eixo da psicanálise. Essa divisão incidiu diretamente nas querelas relativas à tradução de conceitos, surgindo especificamente no Brasil um campo intelectual de disputa no qual se discutem as traduções da obra de Freud, algo que não é tão comum em outras áreas do conhecimento.

Entretanto, no caso da tradução de Unheimliche não se trata apenas de uma questão de rigor conceitual, mas também de um problema de objeto, destacado com maestria por Freud em seu ensaio. Afinal, o que é esse sentimento incômodo de que trata o ensaio? Se tivéssemos que ser rigorosamente freudianos, a resposta seria a de que incômodo é tudo aquilo que deveria permanecer dissimulado, em segredo, mas que escapou e veio à tona. É o que incomoda por reviver de maneira aterradora aquilo que é familiar, mas que havia sido rejeitado do pensamento, tornado um estrangeiro. Porém, o primeiro capítulo do ensaio nos sugere que na literatura alemã a ideia de Unheimliche encontra-se intimamente vinculada ao terreno do insólito, das fantasmagorias e do obscuro. Como é possível observar no longo mergulho filológico que Freud faz pela etimologia da palavra, ela remete ao âmbito do horror, daquilo que evoca medo, pavor ou terror — mesmo que não coincida exatamente com nenhum desses sentidos. A questão ao redor de Unheimliche é precisamente esta: trata-se de um termo que busca definir um sentimento relativamente comum, mas que se define justamente por uma imprecisão. É quase como se ele operasse através de uma negatividade, no sentido de algo que “se define por sua indefinição”. Uma casa que parece mal-assombrada é unheimlich, assim como o é passar o dia deparando-se com um mesmo número em lugares diferentes. Um conto de terror pode ser unheimlich, tanto quanto uma casa de espelhos em um circo.

Não seria o caso de buscar uma palavra do português brasileiro que abranja por completo o sentido de Unheimliche, pela mera impossibilidade que há nesse tipo de correspondência entre línguas ou, dentro de uma mesma língua, entre os seus sinônimos. A importância da tradução, nesse caso, é fazer girar o significado do conceito, de forma que se destaquem sentidos que estavam presentes na língua de origem, mas que teriam sido extraviados no caminho para a língua de destino. Na nova tradução, o emprego de “incômodo” se justifica com mais vigor na relação estabelecida entre o texto de Jentsch e o ensaio de Freud. É o próprio psicanalista quem nos indica que havia lido “Psicologia do incômodo”; e, na realidade, após o contato com o texto do psiquiatra, o leitor passa a conseguir reconhecer como as suas reflexões são, de fato, um ponto de referência para o ensaio de 1919. “O incômodo” mantém constante diálogo com a “Psicologia do incômodo”, não se tratando apenas de costuras implícitas entre os escritos. Mais que isso, são constantes as referências diretas e explícitas que, quando nos encontramos privados da referência, podemos optar por dar de ombros. Por exemplo, o ensaio de Freud compartilha do interesse de Jentsch pelo tema do incômodo como um fenômeno usual, do cotidiano, que beira a uma reflexão antropológica. Isso é importante, pois, por mais que Freud realize articulações com a perspectiva da clínica psicanalítica, há no ensaio um interesse particular pela experiência cotidiana que, em última instância, é substancial para a clínica.

Quando Freud relata em nota de rodapé a ocasião de seu incômodo ao se sentir perdido e ameaçado pelas labirínticas ruas da cidade de Florença, ele não está falando estritamente de uma experiência clínica, mas principalmente de algo que poderia acontecer com qualquer pessoa na mesma situação ou em outra parecida. Daí a importância da constatação: a partir do momento em que passamos a pensar esse tipo de experiência relatada por Freud através da alcunha de incômodo, temos que conceder a ela o estatuto das coisas mundanas. Muitas vezes tendemos a acreditar que aquilo que é clínico se refere aos eventos extraordinários da vida de alguém; pelo contrário, boa parte dos sofrimentos e das felicidades escutadas na clínica remetem a vivências ordinárias, quase tão imperceptíveis que comumente não se dá valor. Como diria a expressão, “o demônio mora nos detalhes”. Claro que essa discussão levanta o questionamento: então qualquer incômodo poderia ser alçado à categoria do Unheimliche freudiano? — pergunta fundamental que é suscitada pela nova tradução.

É exatamente esse tipo de fronteira entre psicanálise e vida cotidiana presente no ensaio “O incômodo” que fez com que Tzvetan Todorov considerasse Freud um importante interlocutor para a compreensão de algumas especificidades da literatura fantástica no livro A introdução à literatura fantástica (Perspectiva, 1970). Lembremos que, no ensaio de 1919, Freud aborda alguns contos e romances de horror como modo de exemplificar o fenômeno do incômodo, sendo o principal o “O homem da areia”, publicado em 1816 por E. T. A. Hoffmann — citado por Jentsch em 1906, inclusive, como um autor habilidoso na produção de incômodo em seus leitores. Segundo as considerações de Todorov, o gênero literário “fantástico” divide-se entre aqueles que podem ser considerados subgêneros da narrativa maravilhosa e os da narrativa estranha, sendo que esses últimos seriam aqueles em que a personagem ou o leitor descobrem que um acontecimento insólito da narrativa está associado a um determinado horror que aos poucos vai se tornando cada vez mais opressor, dominando a mente do sujeito, que acaba dissociando-se da realidade. O gênero “estranho” proposto por Todorov é uma articulação declarada com o ensaio freudiano de 1919.

Nesse sentido, a nova tradução contribui de maneira significativa para a manutenção do diálogo interdisciplinar da psicanálise com outros campos. Ao estabelecer que há um ensaio freudiano que trata do fenômeno do incômodo, abre-se uma nova zona de interlocução da psicanálise com outras áreas do conhecimento acadêmico e popular. Por exemplo, inclui-se assim a relação do sentimento de Unheimliche com a perspectiva de desorientação espacial — Jentsch é bastante insistente nesse ponto, que, como Freud observa, está bastante presente no personagem Nathanael, de “O homem da areia”. A oposição com o sentido de “cômodo” como espaço físico (quarto) e psíquico (conforto) retoma a importância da coincidência entre heimlich e unheimlich, na qual o primeiro pode designar algo que, de tão encruado no seio do espaço familiar, se torna um segredo — transformando-se em um cômodo isolado, à parte. O sentimento a que Freud se refere seria então esse incômodo, essa “coisa ruim” que não nos deixa ficar confortável em uma situação e que aponta para algo que, de tão guardado, torna-se inconveniente e repulsivo.

Mesmo que xs leitorxs fiquem incomodadxs com a nova proposta de tradução e não se sintam convidadxs, pela leitura, a incluir no rol de significações do Unheimliche a ideia de incômodo, o volume publicado pela Blucher é definitivamente uma insubstituível fonte de notas que, elaboradas pelo tradutor, fazem a diferença na compreensão do ensaio freudiano. Os comentários realizados por Paulo Sérgio de Souza Jr. ao longo do livro em notas de rodapé não são invasivos, tampouco datados. É possível notar que houve um aprofundamento implicado em conhecer as inúmeras referências citadas explícita e implicitamente por Freud, possibilitando que algumas importantes correções fossem realizadas pela primeira vez em versões desse texto. Todas estão apontadas na tradução, junto com comentários que enriquecem a possibilidade de uma leitura mais aprofundada. É praticamente inevitável que a publicação de “O incômodo” contribua para a já existente querela entre as diferentes versões de Freud no país. Apesar de acreditar que há algo especificamente brasileiro nesse fenômeno, é possível argumentar que isso ocorre devido ao desvelamento da relação onerosa que há entre tradição e tradução. O controle sobre a versão hegemônica da obra de um autor é um campo de poder. O mais interessante nesse ponto é que a disputa tende a ficar mais gritante quando a inevitabilidade do domínio público se choca contra os muros da tradição. De certa forma, a função de toda nova tradução é incomodar.