Revista Rosa

Volume 4

4

Gershon Baskin: uma vida de militância pacifista

Resenha do livro Israel e Palestina: um ativista em busca da paz, de Gershon Baskin

Gershon Baskin ficou internacionalmente conhecido por ter sido o pacifista israelense que iniciou negociações com o Hamás, visando a liberação do soldado israelense capturado pelo braço armado do grupo extremista islâmico-palestino, num ataque a uma base militar de Israel próxima à Faixa de Gaza, em 25 de junho de 2006. Após pouco mais de cinco anos intermediando tratativas secretas entre o Hamás e o governo de Israel, ele conseguiu o que até então parecia impensável: Gilad Shalit, o jovem cabo israelense prisioneiro do Hamás, foi finalmente libertado em troca da libertação de 1027 prisioneiros palestinos de Israel, num acordo que foi selado sob o governo do primeiro-ministro direitista israelense Benjamin Netanyahu.

Em Israel e Palestina: um ativista em busca da paz, livro escrito por Baskin em 2017 e que agora ganha tradução brasileira pela editora Ayllon, o autor nos conta a história de sua vida, uma impressionante história de engajamento na luta pela paz entre israelenses e palestinos. O livro, autobiográfico, é narrado em primeira pessoa e tem o valor de testemunho. Não obstante, nele, o discurso do autor é vazado de modo muito objetivo e seco. Quase jornalístico. Isso cria um interessante contraste com o conteúdo narrado, no qual são abordadas não apenas as emoções e características pessoais do autor, mas também, e sobretudo, eventos extraordinários de uma vida nada comum. O resultado produz no leitor um forte impacto, a um só tempo sóbrio e comovente, pelo qual Baskin nos conduz pelos meandros do intrincado conflito israelense-palestino e no qual são elaboradas reflexões importantes para a sua compreensão.

A história de Gershon Baskin começa em 1956, no Brooklin, onde nasceu — assim como também seus pais, judeus-americanos laicos que, como muitos outros, fizeram questão de dar aos filhos uma educação judaica. Logo aos 4 anos de idade, a família de Baskin mudou-se para Long Island, também no estado de Nova York, onde ele morou até o fim da adolescência. A primeira referência propriamente política na história de vida do autor parece ter ocorrido aos 8 anos de idade, quando viajava com seus pais pelo sul dos Estados Unidos, pouco antes da aprovação pelo Congresso Americano da Lei dos Direitos Civis. Estavam visitando a cidade histórica de Williamsburg, na Virgínia, quando o garoto Gershon avistou, pela primeira vez, um restaurante com uma placa na vitrine, onde estava escrito: “só para brancos”. “Choque e confusão”, foi o que o pequeno garoto judeu diz ter sentido, sendo logo amparado pela mãe que, como professora que era, aproveitou a oportunidade emocionalmente carregada para explicar ao filho o que tinha sido a escravidão dos negros nos Estados Unidos e a importância da luta contra o racismo e a discriminação. De volta à sua casa, Gershon leu um livro chamado Black Like Me, de um autor americano branco (John Howard Griffin), que havia tingido sua pele de modo a escurecê-la e, em seguida, começado uma viagem pelos Estados Unidos. Essa leitura parece ter tido grande impacto na visão de mundo do autor, que, a partir daí, começou a ler jornais, a se politizar e a participar dos embates políticos dos Estados Unidos. Essa politização, de certo modo precoce, parece ter alcançado a maturidade na época da faculdade de História, na New York University, quando ele tomou parte nas lutas antirracistas e pacifistas da época.

O outro polo decisivo na formação de Baskin foi o movimento nacional judaico, isto é, o sionismo. Desde muito cedo, começou a manifestar para seus pais o desejo de conhecer Israel. Em sua adolescência, no período de Long Island, entrou para uma organização sionista juvenil, chamada Young Judea, que teria, muito mais do que a escola, um papel formativo em sua mentalidade. Lá diz ter aprendido três lições básicas, nas quais se inspiraria pelo resto da vida: liderar pelo exemplo, agir segundo o que se acredita e tomar a iniciativa. Também se lembra do orgulho que sentiu após a vitória israelense na Guerra dos Seis Dias — um marco histórico fundamental, não apenas para Israel, mas também para as comunidades judaicas no mundo inteiro. Após o fim do ensino médio, passou um período em Israel, trabalhando e estudando num kibutz. Lá, tomou a decisão de fazer aliah (imigração para Israel), a qual se concretizaria, no entanto, apenas após a conclusão de sua formação universitária nos Estados Unidos.

Até este ponto, o leitor atento não deixará de notar uma contradição na formação intelectual e política do jovem Gershon Baskin. Pois a sua consciência crítica a respeito da história e da política americanas não parecia se prolongar para o seu sionismo, o qual, até então, era muito pouco crítico em relação aos mitos nacionais israelenses. Isso começaria a mudar a partir de um momento que Baskin localiza um pouco antes de sua entrada na universidade, quando estava trabalhando de monitor num acampamento da Young Judea. Lá, ele havia pendurado em seu alojamento um mapa da chamada “Grande Israel”, isto é, um mapa do Estado de Israel que inclui como parte do território do país os territórios palestinos conquistados em 1967. Foi quando o seu colega de quarto, um jovem chamado Barak Berkowitz, numa atitude ousada, usou uma caneta hidrográfica para traçar uma Linha Verde, demarcando os territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia. Aqui, podemos brincar dizendo que um leitor lacaniano facilmente perceberia o efeito que um “corte” pode produzir sobre um sujeito. É o próprio autor que o descreve:

Foi então que tive uma espécie de epifania: durante todo o meu ano em Israel, nunca tinha tido uma conversa séria com um árabe. Sequer uma (…). Foi então que comecei a lembrar de todos os mitos que havíamos aprendido sobre os árabes e sobre o conflito árabe-israelense. Percebi que havia algo de muito errado na minha educação. Havia uma lacuna enorme, um abismo, e eu sabia que seria preciso estudar para decidir por mim mesmo o que era verdade e o que era apenas boato. Eu precisaria aprender muito e ter novas experiências para entender o lugar que planejava transformar no meu novo lar. Minha própria ignorância me deixou chocado.

(pp. 60-1)

Essa tomada de consciência em relação ao sionismo oficial se desenvolveria no período em que Baskin estudou na New York University, quando começou a ler autores sionistas que criticavam o modo como Israel historicamente vinha tratando a questão palestina. Como produto de suas novas leituras, Baskin publicaria, já em 1975, um artigo para o jornal judaico Jewish Radical, no qual defendia o fim da ocupação israelense de Gaza e Cisjordânia e a criação de um Estado Palestino. Em 1976, junto com outros estudantes judeus de sua universidade, teve uma reunião com Labib Zuhdi Terzi, o representante da OLP na ONU. Nesta reunião, Baskin e seus colegas tentaram convencer o representante da OLP a reconhecer o Estado de Israel, como um passo necessário para o diálogo e a criação de um Estado Palestino ao lado de Israel, e não em substituição a este. A resposta que obtiveram então, do embaixador da OLP, foi a de que o reconhecimento de Israel somente aconteceria “por cima do meu cadáver” e que os judeus deveriam voltar para o lugar de onde eles vieram. Esta era, então, a posição oficial da OLP, que não admitia outro Estado entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo que não fosse um estado árabe-palestino. A conclusão de Baskin foi a de que um verdadeiro diálogo entre israelenses e palestinos ainda era impossível, pois se tratava de uma situação de “não reconhecimento mútuo”, caracterizando o conflito entre os dois povos com tintas existenciais, do tipo “ou nós, ou eles”. Mas isto parece não ter desanimado em nada o nosso autor. Muita coisa teria que mudar para que um verdadeiro diálogo entre os dois povos fosse possível. E Baskin queria fazer a diferença para que tal mudança ocorresse.

Após obter seu título de bacharel em Política e História do Oriente Médio pela New York University, em setembro de 1978, Baskin realizou sua tão esperada e planejada aliah para Israel. Mas foi uma aliah nada convencional, pois, ainda nos EUA, ele havia se inscrito como estagiário num tipo de ONG, coordenada por um rabino reformista americano, que tinha como objetivo aproximar judeus e árabes israelenses por meio de trabalho comunitário em vilas e cidades árabes de Israel. Foi assim que Baskin obteve uma experiência de imigrante judeu para Israel, para dizer o mínimo, bastante peculiar, pois, após um breve treinamento de seis meses no Kibuz Barkai, foi morar por dois anos em Kufr Qara, uma vila árabe próxima ao kibutz.

Em seu período de estagiário na ONG Interns for Peace (IFP), passado na vila árabe de Kufr Qara, Baskin fez um diário, onde registrou sua rica experiência. No presente livro, mais de trinta anos depois, ele reproduz vários trechos desse diário, cuja leitura remanesce, todavia, muito interessante. Nele, vemos um jovem empenhado sinceramente em se integrar à comunidade árabe local e em conhecê-la de verdade. Ele descreve com admiração a acolhida que recebeu da população da vila. Mesmo sendo judeu — ou até mesmo por isso — foi acolhido com muito interesse e respeito. Mais do que isso, afirma: com carinho. Trabalhou como professor de inglês no ensino fundamental da escola local e, nessa condição, foi convidado por dezenas de alunos e alunas a visitar a casa de suas famílias. No relato de tais visitas, são vívidas suas impressões de espanto e até de desconcerto pela grande generosidade e hospitalidade dos árabes do povoado. Destaca o “tratamento de realeza” que recebia de seus anfitriões e o quanto para eles era importante o ato de receber visitantes em suas casas. Daí, tira a conclusão de que, enquanto para os ocidentais a honra está em ser convidado, parecia-lhe que, para os árabes, ela está mais do lado de quem recebe e acolhe. Foi então que teve o insight de que, no mundo árabe, essa forte noção de honra se propaga da família para a vila e, desta, para toda a nação, de modo que, por conta disso, a questão da honra nacional toma um lugar central no conflito árabe-israelense, fato que nem sempre é devidamente entendido pelos judeus israelenses.1

De sua experiência de dois anos trabalhando na comunidade árabe de Kufr Qara, Baskin tira algumas outras importantes lições. Embora já houvesse sinais de radicalização islamista, não percebe prevalecer entre os membros da comunidade ódio em relação aos judeus, ao contrário do que muitos poderiam imaginar. Em vez disso, o que salta aos olhos é um genuíno sentimento de querer se integrar ao país, o qual resultava, muitas vezes, dada a falta de reciprocidade do Estado de Israel, em um compreensível ressentimento, derivado da aguda percepção da desigualdade e das contradições entre as propagadas aspirações democráticas do Estado e seu escasso interesse em integrar a sua população árabe em condições justas e equânimes. Percebe também que, enquanto a questão da independência palestina não for equacionada, as relações entre judeus e árabes dentro de Israel estarão sempre prejudicadas de parte a parte. Assim, a questão da democracia em Israel e a do fim da ocupação dos territórios palestinos resultam interdependentes e complementares, como duas faces da mesma moeda.

Depois que termina seu trabalho em Kufr Qara, no início da década de 1980, a vida de nosso autor parece uma sequência quase ininterrupta de iniciativas, as mais diversas, de construir pontes políticas e culturais entre árabes-palestinos e judeus-israelenses, tanto fora quanto dentro de Israel. Sua primeira iniciativa nesse sentido foi um tanto surpreendente: ele resolve pesquisar a existência de algum departamento do governo israelense de direita (era a época de Menachem Begin), cuja função fosse trabalhar a relação entre ambas as comunidades dentro do Estado de Israel. “O resultado foi fantástico, mas não uma grande surpresa: zero! Não havia um único membro de todo o funcionalismo público de Israel responsável pela melhoria das relações entre árabes e judeus no país” (p. 103). Ato contínuo a essa constatação, Baskin escreveu uma carta para ninguém menos do que o primeiro-ministro de Israel, pedindo a criação de um cargo novo no governo, que seria para ele mesmo desempenhar esse trabalho tão fundamental para a democracia. Astutamente, usou como argumentação em seu pedido a Declaração de Independência de Israel:

O Estado de Israel será aberto para a imigração judaica e para o recebimento de exilados; patrocinará o desenvolvimento do país para todos os seus habitantes; irá se basear na liberdade, na justiça e na paz, como imaginaram os profetas de Israel. Garantirá igualdade completa de direitos sociais e políticos para todos os seus habitantes, independente de religião, raça ou sexo; garantirá a liberdade de religião, consciência, língua, educação e cultura; protegerá os lugares sagrados de todas as religiões e será fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas.2

E também uma citação de Zeev Jabotinsky, patriarca político da direita israelense: “Estou preparado para jurar em nosso nome e dos nossos descendentes que nunca faremos nada contrário ao princípio dos direitos iguais e que nunca tentaremos expulsar ninguém. Para mim, parece um credo relativamente pacífico.”3

Surpreendentemente, pessoas no governo se interessaram pela proposta de trabalho de Baskin, mas, devido à crise econômica do momento, havia uma proibição de contratação para cargos novos. A solução seria encontrada por um amigo do autor, chamado Mohammed Watad, um membro árabe do parlamento de Israel (Knesset) pelo Mapam, um partido socialista-sionista que era forte à época. Pesquisando no orçamento da Knesset, Watad descobriu uma brecha orçamentária para contratar Baskin e permitir que este iniciasse, então, como primeiro funcionário público do governo de Israel encarregado de melhorar as relações entre árabes e judeus, cidadãos de Israel. Criou-se, então, no Ministério da Educação, a Unidade de Educação para a Democracia e Coexistência.

O trabalho da Unidade de Educação para a Democracia e Coexistência centrou-se, principalmente, nas escolas de Israel, promovendo interação e diálogo entre professores e alunos judeus e árabes. Baskin nos traz descrições muito interessantes desse trabalho, que nos levam à compreensão de que fazer a paz e promover a reconciliação entre dois povos que lutam há décadas uma guerra que, em muitos momentos, adquiriu terríveis matizes existenciais, não é algo trivial. Exige trabalho e dedicação de pessoas qualificadas para tanto, que saibam escutar o outro lado e que sejam capazes de ter experiências autênticas e de aprender com elas.

Em 1987, aos 30 anos, Baskin foi convocado para servir o Exército de Israel durante alguns meses, nos quais faria seu treinamento básico e obrigatório para reservista. Mesmo aí, sua experiência não foi nada comum, pois entrou em contato com oficiais do exército sobre a possibilidade de oferecer cursos sobre os árabes-israelenses para soldados e oficiais, tarefa que conseguiu efetivar ao ser convidado para se juntar à equipe do Colégio Militar de Treinamento e Educação para oficiais. Começou, então, a dar palestras para oficiais do exército de Israel sobre a população árabe-israelense. Sobre essas palestras, Baskin nos conta:

Eu falava sobre a história da população árabe-israelense no país, enfocando no desejo dela de igualmente ser integrada a Israel. A questão da discriminação surgia e eu dava diversos exemplos de como o Estado discriminava contra os árabes (…). Minha palestra seria, provavelmente, a primeira vez na vida em que esses jovens israelenses se deparavam com a questão da discriminação contra os árabes em Israel. Eles haviam escutado várias e várias vezes que Israel é a única democracia no Oriente Médio. A realidade que eu apresentava era muito indigesta para eles.4

Se o trabalho de Baskin conseguia se desenvolver dentro de Israel, entre as comunidades judaica e árabe do Estado, com os palestinos dos territórios a coisa era muito mais difícil. Havia proibição dos cidadãos israelenses de se encontrarem com membros da OLP, amplamente considerada em Israel uma organização terrorista e antissemita, cujo objetivo final era destruir o país. Também para os palestinos residentes nos territórios ocupados, fazer contatos com judeus israelenses poderia ser facilmente tachado como traição. Além disso, desde sua conversa com o representante da OLP na ONU, em 1976, estava claro para Baskin que inexistiam as condições básicas para um verdadeiro diálogo, já que o reconhecimento ao direito de existência de Israel era um tema tabu para a OLP, portanto descartado desde o início. Mas em dezembro de 1987 tudo isso sofreria uma drástica e impressionante mudança.

Ninguém previu a eclosão da primeira Intifada. De 10 de junho de 1967 a 9 de dezembro de 1987, ou seja, por cerca de vinte anos, Israel dominara de modo relativamente fácil os territórios palestinos ocupados com a vitória na Guerra dos Seis Dias. As fronteiras ficavam abertas e a passagem de bens e pessoas era liberada em ambos os sentidos. Mais de 200 mil palestinos trabalhavam em Israel, o PIB dos territórios crescia numa velocidade duas vezes superior ao crescimento do próprio PIB israelense e nada parecia indicar a revolta popular palestina que então se gestava. De repente, um acidente com um automóvel israelense em Gaza que deixou quatro palestinos mortos serviu como estopim da grande mudança. A palavra Intifada era desconhecida do vocabulário político tanto israelense quanto palestino. Em árabe, significa algo como “sacudida”, indicando a recusa ativa do status quo, isto é, da ocupação.

Enquanto em Israel a Intifada gerava incompreensão e indignação entre muitos que “repetiam como papagaios o mito da ocupação benevolente”,5 Baskin logo percebeu a dimensão monumental do que estava acontecendo e tratou de dedicar todas as suas forças para compreender o evento. Começou a ler avidamente todos os documentos produzidos pelos revoltosos que podia. E, argutamente, notou dois fatos fundamentais: a) as ordens não partiam da liderança da OLP em Túnis, mas de lideranças novas que surgiam nos próprios territórios palestinos; b) a linguagem da Intifada era algo totalmente novo, pois tinham sumido as tradicionais reivindicações palestinas de destruição da “entidade sionista”. Em seu lugar, apareciam reivindicações por liberdade e pelo fim da ocupação. Começava-se, também, a falar de relações pacíficas entre os povos e Estados da região. Também surgia, pela primeira vez, a aceitação palestina da Resolução 242 da ONU, a qual reconhecia o Estado de Israel e indicava o caminho da troca de paz por terra. Sobretudo, o texto da Declaração de Independência da Palestina, encomendado em 1988 por Yasser Arafat a Mahmoud Darwish, o poeta nacional palestino, parecia demonstrar cabalmente que a Intifada havia moderado a posição da própria OLP, pois o texto desta declaração fazia, pela primeira vez, referência à Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU, que havia decidido pela partilha da Palestina em dois Estados, um judeu e um árabe:

Apesar da injustiça histórica perpetrada contra o povo árabe-palestino, resultando em sua dispersão e na privação de seu direito a autodeterminação, de acordo com a Resolução 181 da Assembleia Geral das Nações Unidas (1947), que dividiu a Palestina em dois Estados, um árabe e um judeu, é essa resolução que ainda fornece as condições de legitimidade internacional para garantir o direito do povo árabe-palestino à soberania.6

Assim, concluiu Baskin:

Quando lia a Declaração de Independência da Palestina e, nela, a declaração de aceitação do Conselho Nacional Palestino, me convenci de que o movimento nacional palestino havia virado a página da história e estava preparado para participar daquilo que viria a ser um processo de paz com Israel, baseado na ideia de dois Estados para dois povos. Finalmente havia chegado o momento que eu tanto havia esperado, desde o meu encontro com o embaixador da OLP em Nova York, em 1976.7

Foi imbuído de tal certeza que Baskin pediu demissão do Instituto de Educação para a Coexistência Judaico-Árabe, que ele mesmo havia fundado, para criar o que seria o IPCRI, Instituto Israelense-Palestino para Pesquisa e Informação. A novidade do IPCRI era a proposta de reunir lideranças e especialistas de ambos os lados, nas mais diversas áreas, para preparar e planejar o que seria o fim da Ocupação israelense dos territórios palestinos e o estabelecimento da paz entre o Estado de Israel e o futuro Estado Palestino. O IPCRI seria, portanto, uma entidade política binacional, uma inédita parceria de lideranças de ambos os povos para pavimentar o que se esperava ser o caminho da paz entre eles.

Durante o período de 1988 até a fim do ano 2000, lideranças de ambos os povos desenvolveram, no âmbito do IPCRI, um trabalho notável, que influenciou o processo de paz de Oslo e continuou até que este implodisse, com o estouro da Segunda Intifada, em setembro do ano 2000. Sobre este período, Baskin faz análises muito interessantes tanto do progresso das conversações quanto dos motivos que teriam levado ao fracasso final do processo de Paz iniciado par Rabin e Arafat. Em suas análises, fica claro como a ação dos grupos rejeicionistas de ambos os lados lograram implodir o frágil processo de paz que esboçava seus primeiros passos, erodindo fortemente a confiança entre seus principais líderes. De um lado, o assassinato de Rabin por um terrorista judeu, o crescimento contínuo dos assentamentos judaicos ilegais em território palestino ocupado e a proliferação de barreiras e checkpoints foi destruindo a confiança dos palestinos em Israel. De outro lado, os atentados terroristas do Hamás em Israel e a incapacidade da liderança da OLP de evitá-los, fortaleceu a discurso da direita israelense de que os acordos de Oslo não passavam de uma fraude usada pela OLP para trazer a guerra de destruição de Israel para dentro da Judeia e Samaria.8 Por fim, o autor nos traz uma interessante descrição do clima de desconfiança e nervosismo que se sucedeu ao fracasso das negociações na cúpula de Paz de Camp David, no ano 2000, que levariam à eclosão da Segunda Intifada.9

Diferentemente da Primeira Intifada, que organizou a sociedade civil palestina, moderou a posição política da OLP e desmoralizou a política de ocupação israelense, produzindo assim as condições de possibilidade do processo de Paz israelense-palestino; a Segunda Intifada, eclodida em setembro do ano 2000, ao contrário, resultaria em terríveis efeitos desagregadores em ambos os lados do conflito. Embora ela tenha, a exemplo da primeira, se iniciado com protestos massivos, aos poucos foi se afunilando nos atentados terroristas do Hamás, sempre seguidos das terríveis retaliações israelenses. O chamado “campo da paz” de Israel, que ganhara ímpeto com os desdobramentos políticos da Primeira Intifada, seria violentamente golpeado pela Segunda Intifada, vista amplamente pelo público israelense como visando não à independência palestina e à paz, mas à própria destruição de Israel. Com efeito, a narrativa que prevaleceu (e ainda prevalece) em Israel é a de que, após Ehud Barak, em Camp David, ter feito a Arafat o que seria uma “proposta irrecusável”, este teria, com seu rechaço, se “desmascarado” enquanto falso parceiro para a paz. Se a Primeira Intifada terminou produzindo em Israel a crença de que “eles querem a independência”; a Segunda levaria a um retorno da terrível crença de que “eles querem nos destruir”.

É triste acompanhar como Baskin descreve a rápida destruição, nos anos que se seguiram à Segunda Intifada, de todo o progresso feito pelo campo da paz de ambos os lados durante o período de Oslo. Em Israel, a direita começaria seu longo e quase ininterrupto domínio, que já ultrapassa duas décadas. Já no lado palestino, a Autoridade Palestina perderia muito de sua força, face ao crescimento do Hamás, que, em 2007, após um violento golpe, passaria a dominar completamente a faixa de Gaza. O IPCRI se enfraqueceu muito. Embora não tenha desaparecido, foi obrigado a abandonar o seu escritório na Cisjordânia, dada a deterioração da segurança, e teve dois de seus professores palestinos mortos. Baskin descreve suas tentativas fracassadas de estabelecer um canal secreto de negociação entre o governo israelense e Mahmoud Abbas. Apesar da boa vontade do presidente palestino, a quem o autor descreve como um verdadeiro homem de paz, o governo israelense, sob Netanyahu, se mostrou invariavelmente impermeável a todas as tentativas de retomada séria de algo que se pareça a um processo de paz.

Por fim, diante de um quadro tão desolador como o atual, surgem as perguntas: o que fazer? O que podemos esperar? Baskin não se esquiva das respostas. Ao fim do livro, refaz sua profissão de fé na paz justa entre israelenses e palestinos como única saída do labirinto em que ambos os povos se encontram. Acredita que as condições necessárias para a paz são muito bem conhecidas de ambos os lados. O que se faz necessário é perseverar no trabalho de educação para a paz e de reconstrução dos canais de diálogo. Também é imperioso aprender com os erros do processo de paz de Oslo, trançando estratégias de negociação que evitem repeti-los.