Revista Rosa

Volume 4

4

Formidáveis cascos do desaparecer
— sobre o trabalho Ultrasuperfície, de Amanda Devulsky

Ultrasuperfície, Amanda Devulsky

24/06/2021 — 00h01 — Quinta-feira

É difícil circunscrever onde começa o trabalho, onde começa este trabalho, chamado aqui de Ultrasuperfície.1

24/06/2021 — 06h24 — Quinta-feira

De alguma forma, esse é também o nome do meio, uma das cabeças dessa hidra é metacrítica: fala sobre falar, expressa sobre expressar. Talvez a operação principal seja justo essa: encontrar uma maneira, num jogo todo pré-marcado de armadilhas, de expressar não exatamente algo livre ― pois podemos concluir que essa é uma falsa questão (“Vamos jogar no lixo o paradoxo da autenticidade/artificialidade”) ― mas algo que desvie da programação, ao menos um pouco, um gesto qualquer que não refaça o já refeito e acene, em alguma proporção, em direção a alguma energia contraditoriamente emancipatória.

24/06/2021 — 16h43 — Quinta-feira

Digo contraditoriamente porque essa é a marca do trabalho. Tem algo em navegar por este espaço sem espaço que transpira “não há saída”. Porém, há outra coisa, que se diz junto a isso, um pouco difícil de sacar ― talvez por ser tão evidente. Esse é outro modo do trabalho, que remete ao nome da coisa: o processo onde a superfície esconde, justo por mostrar, os mistérios do superficial.

25/06/2021 — 07h36, 10h01 — Sexta-feira

O foco aqui não é o segredo, a face privada da pompomzinha que não sabemos. Não há sinais que incentivam esse interesse, mas justo esse jogo com os restos, de uma experiência que parece ter sido (e ser) desesperada e doce.

30/06/2021 — 18h13 — Quarta-feira

Algo que me parece distintivo é a maneira de sugerir uma espécie de reserva de violência calada. Não só a presença das armas de fogo em algumas publicações constrói essa atmosfera. A ideia de violência é mais ampla e difusa. O conjunto fotos-plataforma sugere algo que ali encontrou uma forma de vida não exatamente por uma autoanulação afetiva, mas por um investimento numa certa inversão.

02/07/2021 — 12h07 — Sexta-feira

Inversão soa como uma ideia chave: primeiro inversão da venda, com as NFTs. Produzindo autenticidade em torno de uma matéria que, em princípio, é o justo oposto da ideia de autêntico. Portanto, esse cruzamento já catalisa a tensão que é o gesto final, que ampara todo o resto. Se tudo é venda (também no sentido de “vendar”), há algo a fazer: não exatamente interromper o fluxo, mas inverter seu escoamento numa outra direção ou, no mínimo, fazer com que o “rendimento” tome outra direção, oscilando entre render e render-se.

02/07/2021 — 18h34 — Sexta-feira

Seguindo pela palavra, tem algo no gesto geral do trabalho que sussurra “eu me rendo”. No sentido de que não é uma luta pelo verdadeiro ou pelo autêntico. Porém, a agência é muito menos ou muito mais do que a passividade da “derrota”. É inversão pois é reafirmação do meio e não da fuga, é uma espécie de ação que sublinha uma espessura insuspeita naquilo. Por isso, escrevi no começo a dificuldade de limitar, porque a pompom já estava fazendo essa “exposição” há quase vinte anos atrás. É claro que a organização que Amanda faz agora catalisa a engrenagem e sublinha o jogo, porém não dá pra dizer que o trabalho começou “agora”. Há o site, há as redes, as mediadoras, porém, é uma espécie de performance de longa duração que se dá aqui, onde o trabalho é ao mesmo tempo extensão e autoarqueologia difusa.

03/07/2021 — 05h31 — Sábado

Algo da tristeza que o trabalho emana tem a ver com isso, com esse “autorrendimento/rendição”. Porém, me questiono sobre minha própria sensação pois ela provavelmente emana de um automatismo utópico onde haveria um lado “de fora”. Superfície é o fora, concreto, as coisas existem, estão lá: os prints, os objetos, as datas, os ornamentos e uma menina. Não só as fotos que tem baixa resolução, mas todo o trabalho: isto é, a coisa não se resolve. O que se apresenta é um feixe de tensões irresolutas: entre o público e o privado, entre a opressão biopolítica e autoperformance, entre a venda e a venda, entre os signos eventualmente eróticos e os signos infantis, entre o diário pessoal e testemunho de uma geração, entre a paleta multicolorida e o monocromatismo afetivo, entre a máquina de projeção que é poder dialogar com o imaginário da garota-padrão e a vivência subjetivamente precária (tornada ― como resposta ― abundante), entre uma espécie de psicologia supostamente rasa e um inventário sutil de sensações e matérias, e muitas outras. Inclusive a tensão de não haver trabalho (no sentido de que falo da dificuldade de delimitá-lo). Talvez esse seja seu gesto mais corajoso ― mais do que a autoexposição do que chamamos de “intimidade” ― essa coragem de poder ser nada, de ser mais uma coisa, uma espécie de véu, feito de led ― que meu monitor participa ― assim como o seu. A lisura da tela na qual escrevo esse texto, o mesmo fundo branco, os hiper(ultra)links, tudo isso participa do que o trabalho dispara. E para tal, ele precisa desse jeito, um pouco discreto, um pouco mudo, um pouco fingido e um pouco sentido. Porque é também essa posição que aqui se inventaria, essa posição perspectiva: é preciso muita firmeza pra se atirar no “dispensável”.

03/07/2021 — 06h24 — Sábado

Um texto pregresso da pesquisa de Amanda, “Superfícies/feminilidades: O imperceptível como estratégia sobre o olhar” sistematiza a política do olhar que está em jogo em seus trabalhos, onde o “imperceptível” é um elemento crucial. Esse ponto tem uma marca de gênero que é crucial pra que este trabalho se dê. O jogo performático do fingimento, da mudez e do trânsito dentro das performances sociais que foram geradas para você, de forma que não parece que você tenha opções. Portanto, o que se faz? Veste a roupa, passa o batom, vai ficar bonita e, dentro desse look, devolver algo que possa ― quem sabe ― ajudar a rachar um pouco a violência compulsória dessa grande coreografia ou, no mínimo, exprimir algo de sua extensão e densidade.

04/07/2021 — 14h27 — Domingo

Um jogo de aceitação e investimento crítico de entrar no meio, vestir os presets afetivos e de dentro reproduzir a si mesma como perturbação ― justo porque não é negação. A ordem das imagens no fluxo do site é visivelmente atenta a não fazer dessa reorganização da experiência uma espécie de viagem biográfica. Noto uma clara atenção para se desviar do default narcísico que hoje é como o ar que respiramos todos. O objeto do trabalho, seu foco, sempre escapa. Há sempre mais. Afinal, dá a impressão de que o objeto é o meio, mas não o meio como espaço neutro, mas meio como experiência, como sítio por onde coisas passam, se incorporam, se contagiam, mas ele, o meio, permanece soberano e invisível. A pompomzinha era uma espécie de meio. As coreografias pré-determinadas da feminilidade fazem das mulheres um meio ― e elas inventaram uma forma dissimulada de passividade que é uma habitação crítica desses pressupostos, forma essa que é um dos corações desse ambiente criado por Devulsky.

04/07/2021 — 16h20 — Domingo

Entretanto, Ultrasuperfície é a reinvenção de um meio para revelar a situação das plataformas performáticas, técnicas e sociais ― como tensão. Pois elas não são totalmente soberanas, apesar de condicionantes, e a autonomia, dentro delas, se utiliza de sua gramática. E toda gramática fatalmente se prestará a recombinações que a desprogramam. Navegar por esse trabalho é reencontrar a interrogação sobre as possibilidades de desprogramação, sobre como desprogramar por dentro, como tornar-se secretamente um hackeamento.

05/07/2021 — 19h01 — Segunda-feira

Existe uma coisa que acontece nos trabalhos anteriores dessa lavra, tente não existir (2018) e tem sido um dia realmente triste (2018), e que se adensa neste aqui em questão. O ambiente técnico das imagens, ao longo dos trabalhos, vai se tornando o centro, o foco, mas não em si, mas alterado pelo que mostra. Todos esses são formados por material autoperformativo como base. Porém, o que os trabalhos fazem é um pouco enlouquecer o meio, desfuncionalizando-o. Seja no giro do mapa sintético em Tente ou no desenvolvimento antirrevelatório de tem sido… E talvez aí more a zona de ânimo do trabalho de Amanda Devulsky, uma certa obstinação artesanal, um otimismo suboblíquo, cujo próprio exercício diz “isso serve pra mais coisas”, “isso diz mais coisas”, “isso não é só isso” ― porém não há nada “por trás”. Esse é o desafio e a pedagogia. Que espaço é esse onde há “mais” mas que não é fora, não é saída nem recusa. Seu meio é um “sim” povoado de contradições, porque não é uma celebração. Tem algo de luto na experiência de Ultrasuperfície.

06/07/2021 — 03h07 — Terça-feira

Quando o gif de Britney Spears diz que “now I’m stronger” provavelmente ele diz algo verificável. No sentido de que olhar pra esse material quinze anos depois e poder organizá-lo, pensá-lo como reexposição exige um certo trabalho subjetivo denso na medida em que se trata de reoferecer-se em vulnerabilidade, em se vender de novo, se vendar de novo, na confiança de que nem tudo é dado de antemão.

07/07/2021 — 09h47 — Quarta-feira

Há um certo desafio na experiência de atravessar Ultrasuperfície que é da ordem do conseguir ver o que se mostra, ver as coisas, as cores, os textos e as formas. A opressão de gênero trabalha ativamente no âmbito cognitivo, sei bem: sou programado pra não dedicar atenção ao trabalho de mulheres, em geral. Neste sentido, o trabalho é desconcertantemente direto: o caderno, o tênis, o maço de cigarro, a fonte, a língua, tudo narra. E pra manter essa função ativa, a ordem das postagens, sua montagem no sentido fílmico, vai criando pequenas constelações onde os autorretratos são parte, mas não exatamente o principal. Há algo de extremamente evocativo na presença dos objetos, das cores e dos prints de chat. É um inventário simultâneo de uma geração, de seus tons, códigos, produtos e da internet em sua fase inicial no Brasil metropolitano.

20/07/2021 — 22h42 — Terça-feira

Entretanto, o trabalho não se chama “o diário de pompomzinha” (não é exatamente uma “individual”). Porque o objeto — talvez essa seja uma má palavra pra isso —, o tema, não seja nem essa adolescente, nem o meio que criou a personagem pública. O tema (no sentido do tema que escolho no meu sistema operacional) é um modo de perceber, é uma ressintonização, uma espécie de pedido de demora. É isso é radicalmente oposto ao clichê de temporalidade das redes. Por isso, a dobra do meio sobre ele mesmo, internet 1.0 performada sobre internet 2.0 pós-redes sociais de feeds algoritmos. Ao mesmo tempo em que é uma operação supermaterial do olhar (tudo aquilo existe, existiu e o que é, é o que aparenta), é uma operação de moldura, de produzir uma situação de olhar, um meio, uma posição. A curadoria de si da pompom, colocada sobre a curadoria de si da Amanda Devulsky, sendo o drama do trabalho a tensão entre as duas.

22/07/2021 — 22h43 — Quinta-feira

Só que o sistema mudou para a artista de quinze anos depois. Agora é o sistema da arte, é a internet hipercentralizada. Porém, os processos não são tão diferentes, no sentido de seu resultado sobre as vidas que negociam com esse meio, e aqui, em especial, as mulheres. Esse golpe de atenção que, em princípio se dirige ao ecossistema do Fotolog do começo dos anos 2000, também se insinua para o sistema de arte do começo da terceira década do milênio. A continuidade da venda é crucial nesse laço entre uma e outra. O jogo é tentar tomar a venda para si, com o NFT. E venda, novamente, com duplo sentido, porque para jogar o jogo de dentro é preciso também não ver, porque é uma posição de risco total. A atmosfera dessa poética parece ser essa de uma borda muito fina entre não significar nada ― portanto aderir a tudo que subjuga ― e sugerir ― ali onde parecia não haver nada ― uma silenciosa e intensa zona de guerra, ou no mínimo, de densa perturbação.

02/08/2021 — 00h08 — Segunda-feira

Esta área de arrebentação estético-política tem tudo a ver, portanto, com fungibilidade (NFT significa “token não fungível”). O que há de único no que parece radicalmente comum e padronizado? Sou mais velho, mas usei Messenger, Fotolog, MIRC. Em princípio, diria: “conheço”. Entretanto, habitar este espaço, este site que é o próprio trabalho, produz um campo de questões que me é pessoalmente novo. Não só sobre o que é aquele meio, sobre os muitos níveis que ele age na vida de uma adolescente, mas sobre como isso está em continuidade e descontinuidade em relação à circulação afetiva e digital hoje. Essa oscilação permanente entre uma coisa e outra é muito efetiva na experiência desse espaço. O ambiente produz a imagem da menina ou a menina produz o ambiente? Essa pergunta pode hoje ser formulada pela artista e o trabalho é experimentarmos a densidade dessa dúvida ou a evidência de que é uma pergunta mal formulada, porque o que temos, o que se vê, é a permanente permuta como única possibilidade de existência. Há uma tensão permanente entre o fungível e o fingível. Porque fazer parte é ser explorada. Mas, a proposição aqui é radicalmente anti-heroica, não é mesmo sobre uma quebra do criptocapitalismo patriarcal ― daí, talvez, seu tom melancólico ― mas o reconhecimento de um sutil espaço de resistência que se dá pela experiência do estudo, pela produção de uma distância, um afastamento.

06/08/2021 — 09h26 — Sexta-feira

Desde os curtas com Pedro B. Garcia (Fantasma, cidade fantasma, de 2016, e As aulas que matei, de 2018), até tente não existir e tem sido um dia realmente triste é notável a insistência dos processos de afastamento e uma certa sensibilidade para distâncias e para variação de escala. As situações tendem a aparecer nesses filmes relacionadas aos espaços, às meias distâncias. Quando temos um close é porque ele é estritamente necessário para um golpe que afinal será na direção de uma irresolução (baixa resolução). Há sempre uma ciência das distâncias trabalhando e uma certa insistência de uma estrutura geral de zoom out que dá o tom dessas jornadas, desaguando em términos indeterminados. Em geral, partimos do pessoal, às vezes do íntimo, e caminhamos na direção da materialidade do meio e do espaço. Meio espacial, meio social, meio afetivo, meio técnico. Parque, escola, fotolog, internet… Lugares onde habitamos, onde ticamos “sim” nas autorizações que não lemos, lugares de venda, onde uma vida possível se encontra no que é mais difícil de perceber, nas sutis rachaduras dos espaços, nas variações insuspeitas dos modos fugitivos de habitar.

11/08/2021 — 21h11 — Quarta-feira

Ultrasuperfície é mais um desses zoom outs. E essa sensibilidade para as distâncias sublinha a plasticidade dos materiais. A insistência dos azuis, dos rosas e dos cinzas, a pixelização variante de cada material, são dados presentes. Um certo senso plástico e pictórico muito preciso e marcante dos trabalhos anteriores a esse ― no que diz respeito a um equilíbrio das massas visuais no quadro, à expressividade das paletas de cores ― dá lugar aqui a um tipo de abundância que não funciona por unidade plástica. Há um ecletismo visual inerente ao ambiente que o trabalho se ocupa, e a ordem das postagens é nitidamente atenta a isso, a fazer variar os padrões visuais dos materiais consecutivamente, concebendo uma desunificação muito ativa. Em algumas vezes, temos, por exemplo, um retrato posado, sob o fundo branco do site, em outras vezes temos um print de uma tela branca, com fontes pretas, que duplica a nossa, “atual”. E o fluxo do trabalho nos obriga a trafegar a linha comum entre uma coisa e outra, no sentido de achar na tela só de texto, uma massa visual e cromática, e encontrar, no retrato, uma face puramente informacional. Isso é parte de seu efeito de deslocamento de leitura.

11/08/2021 — 21h28 — Quarta-feira

O texto que acompanha o site acaba atestando a face abundante e eclética do trabalho nos lembrando que é também de literatura que se trata. A maneira como ele varia entre línguas está ligada a permutabilidade que é o coração aqui. Não só a alternância entre primeira e terceira pessoa (fungibilidade&fingibilidade), mas a entrada de um sistema de codificação altamente cifrado. O golpe silencioso de Amanda Devulsky nos faz experimentar a produção de uma língua cifrada que era um código popular à época, e que hoje se apresenta com alta dose de indecifrabilidade pra alguém como eu.

12/08/2021 — 00h07 — Quinta-feira

E aí temos outra face da mesma coisa: os processos de exploração histórica, em geral produzem ou estão relacionados com a geração de codificações, línguas e idiomas. Os sem lugar no mundo costumam inventar seu lugar na linguagem. Se não há lugar para elas, a linguagem vira um. Longe do idílico, mas algo cujas regras sejam moduláveis, mesmo que o alfabeto inicial tenha objetivos opostos. Em geral, esses códigos são línguas torcidas, são recombinações que violam as regras. Quando vejo aqui um print de chat, não sei bem o que é texto e o que é apelido. E é interessante que as abreviações não atendem somente a uma simplificação ou uma maior praticidade. Existe, ao mesmo tempo, uma face barroca no modo de escrever daquele meio, daquela época, porque ele está baseado na premissa de que o texto é também visual. O que é paradoxal ― porém, facilmente verificável ― é essa tendência dos historicamente subjugados a “enfeitar” quando diante do que os submete. Esta é uma ideia política muito complexa e delicada. Porém, isso é muito nítido, por exemplo, na produção artística e subjetiva daquelas que não seguem as regras das linhas de força de gênero, classe e raça. Esse “exagero”, essa “abundância” (essa face paródica, talvez), funciona ao mesmo tempo como uma reação a um jogo que já está perdido de saída e uma imagem de um mundo outro, dentro desse, mas com outro tipo de temporalidade e de regras. Essas regras abandonam a perspectiva pragmática e funcionam num outro andamento, mais efêmero, mais sensorial, em que não se trata de ganhar, mas talvez de mesmerizar. Produzir um estado ínfimo de êxtase ou feitiço que pare as máquinas por um instante. É uma estratégia de sobrevivência, mas também a produção de uma abertura partilhável e escondida, um tempo dentro e outro, transversal a este, mas que o habita. Talvez seja justo a manifestação do pensar da língua, quando irrompe se dobrando sobre si mesma e algo então se desgarra, ao mesmo tempo fingindo, fugindo, produzindo vislumbres dessa coisa ― que não sei bem o que é ― cuja segurança é garantida pela aparência de um capricho.