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Autoritarismos à esquerda

Cascaras, Pablo Saborido

Quem acompanha os protestos que eclodiram em Cuba semanas atrás, pode achar que está assistindo a um simples déjà-vu. Mesmo reconhecendo “problemas”, o governo do país, como em outras vezes, busca deslegitimar os manifestantes dizendo que são manipulados por antipatriotas, gusanos, agentes infiltrados da CIA — enfim, os inimigos de sempre; prática, diga-se de passagem, ainda em voga em boa parte da esquerda latino-americana, quando se trata de calar vozes críticas no campo da própria esquerda. Em seguida, incita militantes dos assim chamados “comitês de defesa da revolução” — gente vestindo camisetas estampadas com dizeres como “Pátria ou morte”, não raro portando intimidadores tacos de basebol — para sair às ruas e rechaçar os “contras”. E então convoca um grande ato público na praça principal de Havana, para o qual acode uma multidão garantindo que o “povo cubano” continue leal ao regime. Finalmente, fora de Cuba, espalhados por toda a América Latina, Brasil inclusive, velhos e novos porta-vozes voluntários brotam em publicações de esquerda (e agora também nas redes sociais) para repetir a mesma ladainha veiculada pelos órgãos oficiais em Havana.

Um olhar mais atento, contudo, não deixará de perceber algo diferente nessa paisagem. Primeiro, as reações de figuras importantes da cultura e da intelligentsia cubanas que, depois de 1959, decidiram viver e seguir suas carreiras na ilha: outrora entusiastas do “legado revolucionário” e apoiadores incondicionais do regime, já não são mais tão unânimes assim. Evitam, por exemplo, desqualificar os manifestantes e chegam mesmo a expressar simpatias, quando não criticam o modo com que o governo os trata. Fratura tímida, por certo, porém muito significativa no interior de um regime que sempre exigiu dessas figuras uma fidelidade bem maior do que a simples cumplicidade passiva. Segundo, mesmo fora da ilha, se é verdade que as conquistas sociais da revolução cubana — cujo sentido libertário o próprio Estado-partido que as promoveu se encarregou de esvaziar — ainda servem de álibi para arrebanhar simpatizantes e epígonos, é nítido que Cuba tornou-se mais motivo de constrangimento do que de orgulho. Sinal da crescente dificuldade de negar um fenômeno decantado há muito tempo, mas que, no interior desse campo, raramente foi discutido a sério: o autoritarismo de esquerda.

Sim: desde a queda da ditadura de Fulgência Batista e a revolução de 1959, Cuba foi submetida a uma implacável oposição de sucessivos governantes norte-americanos, o que inclui a prática absurda do bloqueio econômico. Essa política submete os habitantes da ilha a um duplo sofrimento: de um lado, a injustiça e a crueldade do ato em si; de outro, a escusa que fornece ao regime para impingir a qualquer gesto de dissidência a pecha de “traição da pátria”. Ao contrário de fazer os hierarcas cubanos afrouxarem as cordas contra seu próprio povo, só os faz apertá-las ainda mais.

Quando observamos as reações ao que acontece na vizinha Nicarágua, a percepção do fenômeno se reforça. Porque ali ele já se encontra em estágio avançado de putrefação, para o qual a palavra “vexame” parece servir melhor do que “constrangimento”. Ali assistimos, em pleno curso, a uma regressão pura e simples à típica ditadura centro-americana, tantas vezes descrita pelos historiadores: um país governado não por um partido, mas por uma família que, enquanto acumula sua escandalosa fortuna privada, intimida, persegue e aprisiona a todos e todas que ensaiam qualquer ameaça a seu domínio. Curso que agora se intensifica — com a proibição de partidos de oposição, inclusive movimentos fundados por antigas lideranças revolucionárias, agora presas e sem direito à defesa —, conforme se aproxima o pleito que definirá a sucessão presidencial.

Eis em que se transformou a heroica Frente Sandinista de Libertação Nacional, cuja façanha de derrubar a longa ditadura da família Somoza ainda recordamos, hoje tristemente reduzida a mero instrumento de poder e carcaça ideológica do atual presidente Daniel Ortega e sua esposa, não por acaso ocupando o cargo de vice-presidente. Como corajosamente denuncia um recente manifesto assinado por militantes e intelectuais da esquerda uruguaia, “Ortega e o setor da Frente Sandinista de Libertação Nacional que o segue, foram percorrendo um amplo processo de aviltamento, que registra episódios de corrupção, abandono de princípios, enriquecimento ilícito, manobras e acomodações junto com a pior direita, destinados a acumular fortunas e perpetuar-se no poder”.

Igualmente triste é constatar o silêncio dos principais partidos e vozes da esquerda brasileira sobre o que está acontecendo. Isto, quando não lemos comentários levianos — como os feitos pelo ex-presidente Lula, sobre os protestos em Cuba — ou manifestações explícitas de desqualificação dos protestos e de apoio aos atos daqueles governos. Gestos que só nos fazem lembrar a velha e cínica duplicidade stalinista, perfeitamente reconhecível em suas posições relativas a protestos populares que se alastram em outros países latino-americanos, como os ocorridos no Chile e na Colômbia: fazem questão de denunciar a conduta repressiva dos respectivos governos, não obstante a conduta similar dos regimes sobre os quais silenciam ou apoiam. Impossível deixar de ponderar quão deletéria é essa duplicidade para a luta, aqui no Brasil, contra a escalada autoritária e golpista promovida pelo governo Bolsonaro.

O que podem significar tais posições para aqueles que hoje se dispõem, arriscando seus nomes e até sua integridade física, a resistir a essa extrema direita cada vez mais ameaçadora? Que, sob uma hipotética alternativa de esquerda, terão suas vozes e protestos tolerados, desde que venham a estar do “lado certo da história”? Que poderão ficar tranquilos, pois um eventual porrete de esquerda será mais suave? A permanecer nessa toada, muito longe estaremos de fundar em princípios sólidos a oposição aos autoritarismos que hoje despontam do lado direito do espectro ideológico. Na atual conjuntura, mesmo que não possamos saber o que se passa na cabeça de todos aqueles que resolveram não se manifestar, é óbvio que o silêncio sobre o que acontece em Cuba e Nicarágua acaba exalando — para regozijo dos neofascistas — uma cumplicidade tácita, quiçá uma adesão pouco sincera aos valores democráticos.

Alguém já observou, ao fazer o balanço das desventuras de diversas nações europeias ao longo século XX, que “um país não é apenas o que ele faz, mas também o que admite e tolera”.1 Indagação semelhante se poderia fazer da identidade de qualquer campo político que pretenda agir em concerto, mas especialmente o campo situado à esquerda, para cuja renovação esta revista busca contribuir. Pois bem: já não chegou a hora de perguntar a esse campo, como o fazem os signatários do manifesto uruguaio, o quanto “seu silêncio contribuiu, mesmo sem o desejar, para a soberba e a impunidade” de líderes como Ortega ou os irmãos Castro, e “quanto mal faz este silêncio à consciência humanitária que tanto necessitamos para ajudar a construir um mundo mais justo, livre e fraterno”?