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A revolução, c’est nous — Observações a propósito do documentário Libelu e o grupo Liberdade e Luta

Quem assiste ao documentário Libelu ― Abaixo a ditadura, de Diógenes Muniz, pode bem ficar com a impressão de que aquele grupo de militância trotskista foi o principal responsável pelas manifestações estudantis contra a ditadura que marcaram o ano de 1977.

Nostalgia e certa glamurização acrítica costumam cercar esse gênero de documentários, e certamente contribuem para distorcer as coisas.

Entrei na USP naquele mesmo ano, 1977, para estudar ciências sociais. Como calouro, sentia-me confuso com a quantidade de discussões e de disputas entre as diversas “tendências” (agrupamentos, organizações) de esquerda dentro do movimento estudantil.

Já tínhamos, naquela época, o DCE (Diretório Central dos Estudantes), que representava todos os alunos da USP, e, em cada faculdade, os nossos centros acadêmicos. As duas correntes majoritárias, que ocupavam as principais entidades de estudantes, eram Refazendo (herdeira da antiga organização de esquerda Ação Popular) e, em segundo plano, Caminhando (do PC do B). O velho “partidão” só apareceria como tendência um ou dois anos depois, sob o nome de Unidade. O MR-8 tinha alguma presença em São Paulo, aliando-se em geral ao PCB. Havia outros grupos menores, com expressão mais ou menos visível conforme a faculdade: Resistência, por exemplo, ou Manifestação. Nunca soube direito a que partido na clandestinidade correspondiam. E havia dois grupos trotskistas, Liberdade e Luta e Novo Rumo.

Era difícil, no começo, entender quais as diferenças entre todos. Sessões intermináveis de apresentação de propostas, longas análises de conjuntura, documentos mimeografados, debates preparatórios para eleições, encontros e congressos se sucediam, com abuso de jargão e oradores pouco eficientes.

Embora fosse forte em poucas faculdades (comunicações, arquitetura, filosofia), Liberdade e Luta era a tendência que mais se diferenciava das demais — coisa que soube explorar, numa campanha eleitoral, com o belo e simpático pôster de um gatinho azul, a que se refere o documentário de Diógenes Muniz.

“Nem todos os gatos são pardos”, dizia o cartaz, projetando uma juvenilidade amistosa, mais para “liberdade” do que para “luta”. Essa imagem “descolada” escondia, na verdade, as garras muito afiadas da militância.

Liberdade e Luta era diferente por dois motivos. O primeiro é que rejeitava ferozmente as táticas mais moderadas de suas concorrentes, Refazendo e Caminhando.

Seu “radicalismo”, na época, fundamentava-se na avaliação de que a ditadura estava a ponto de cair; dessa perspectiva, importava intensificar, sempre mais, as greves estudantis, as passeatas, as manifestações, enquanto as tendências mais “à direita” notavam que a repressão policial aumentava, que as passeatas diminuíam de tamanho e que as assembleias estudantis se esvaziavam.

A “vanguarda”, para os não trotskistas, estava se “descolando da massa”. Liberdade e Luta apostava menos na média da opinião dos estudantes do que no seu próprio vigor; era comum, e o fato está longe de ser inédito, que assembleias noturnas para decidir os próximos passos do movimento se estendessem por horas, levando a que os menos entusiásticos se cansassem e fossem para casa, sobrando sempre, na hora da votação, os que pertenciam à militância mais aguerrida e profissionalizada. Nesse contexto, e com a avaliação de que o regime estava a ponto de extinguir-se, Liberdade e Luta insistia, por exemplo, em que o movimento adotasse o lema “Abaixo a ditadura”, que a outras tendências do movimento, em 1977, parecia imprudente e provocativo. Refazendo e Caminhando preferiam o mais genérico “Pelas liberdades democráticas”.

Sem dúvida, quando alguém insiste em ir mais devagar com as coisas, e procura manter abertas suas ligações com setores sociais menos revolucionários, é natural que sua atitude pareça menos charmosa, mais atrasadona, mais medrosa e destituída de vontade revolucionária.

E aí entra o segundo fator que fazia Liberdade e Luta se destacar de suas rivais. Eles eram nitidamente mais charmosos, mais cáusticos, mais arrogantes. Enquanto PCB e MR-8 defendiam uma fiel aliança com o MDB, e Refazendo (assim como meu grupo, o diminuto Vento Novo) logo apoiariam o PT, Liberdade e Luta passaria ainda um bom tempo chamando Lula de “pelego”, vendo com desprezo as lideranças grevistas do ABC e considerando que só quem aderisse a Trotsky tinha a autoridade moral e a visão política necessárias para vencer o regime. Eles eram melhores; se achavam melhores; ficavam melhores por se acharem melhores.

Nada de babaquice com eles. Por medo de se “descolar das massas”, tendências como Caminhando seguiam as preferências estéticas da “cultura popular”, do CPC, do repente e do baião; numa linha mais de classe média USP, Refazendo estava imersa em Caetano Veloso e Gilberto Gil. Com Liberdade e Luta, a coisa era muito mais sofisticada e internacional, sobrando à sua prima pobre, Novo Rumo, certa opacidade em qualquer visão sobre o assunto.

O que me espanta, vendo os depoimentos de antigos militantes de Liberdade e Luta no documentário de Diógenes Muniz, é que, mesmo tendo tomado rumos políticos divergentes depois de tantos anos, quase todos parecem manter um velho ar de família. Ainda se acham melhores que o resto; não digo isso em termos de vaidade pessoal, que cada um tem a sua. Mas continuam a ver a história daqueles anos como se eles próprios, e mais ninguém, a tivessem feito. Se alguém, nos depoimentos recolhidos para o filme, fez uma análise do que estava acontecendo nos anos 1977-1980, de qual a conjuntura, de quais as forças envolvidas na democratização do Brasil, a edição do filme cortou. A história, bem ao modo vanguardista, começa e termina com eles. Se as coisas não deram certo, é porque há, como sempre, traidores da revolução. E, se nós mesmos a trairmos, ela que se dane.