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Supremo Tribunal Zombeteiro

Patricia Zandonade,
a partir de argumento de Manuel Corman

Córrego da Onça-Pintada.

Clube.

Ao mesmo tempo em que eu saía ao mundo, subiam as águas da represa Capivara, encobrindo as paisagens, a tábua-de-lavar-roupa das mulheres na mina d’água. Nasci numa terra onde morreram afogadas as goiabeiras e os ipês, jacarandás e guajuviras. Como bom caipira paulista, filho de migrantes muito pobres, meu pai se adaptava aos desmandos dos governos, ciente de que “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, dizia com resignação. Viu sumir parte de seu chão, submerso no reservatório da nova hidrelétrica, no final da década de 1970, assim como tantos outros ribeirinhos e sitiantes. O córrego deixou de ser o Córrego da Onça-Pintada, e esta, se viu destituída de seu lar, certa de que não havia mais espaço para seres sagrados em todo o Vale do Rio Paranapanema. As pontas das árvores submersas, pontas secas de árvores mortas, povoaram meu imaginário de criança por muito tempo, como se pudessem ser braços, querendo se agarrar aos viventes que passavam de barquinho, resistindo. Depois de um tempo, mesmo estes galhos, submergiram decompostos e apagados da memória.

Mais uma subida de águas em 1982, e com muito mais volume, a da Represa Itaipu, condenou 1.350 km² de terras a serem água parada. Árvores, arbustos, rochas, terras, cachoeiras, rios, plantações, frutos, aldeias, cidades, pontes, bichos de todo tamanho, cemitérios, memórias, histórias, modos de vida. Pouco mais de quarenta anos depois, agora no Rio Paraná, era alta noite, quente, e sem vento, a água parada na represa, e a lua se admirando. Era um espelho duplo, no alto e na superfície, com poucas estrelas mais fortes, e as luas prateando os perfis nas margens da água.

De repente, nesta terra submersa, como um objeto voador não identificado, mergulha o supremo do Brasil, o Supremo Tribunal Federal. Cai do alto, pesado com é, com velocidade refreada repentinamente pelo impacto no espelho d’água, e vai mergulhando devagar, devolvendo cada bolha de ar para o mundo de cima. E vai se instalar a 80 metros abaixo, junto de todos os submersos e sepultados, numa grande cava em forma de arena onde foi construída a enorme pirâmide-barragem. Sua chegada levanta lama, a água avermelhada, cor da terra que um dia já foi lava correndo. Os carpetes, os tecidos, se cobrem de um manto vermelho, as cadeiras e mesas servem para assento de água barrenta, agora tudo da mesma cor.

Com a chegada do objeto, depois do movimento nas águas, a noite começa a retomar sua calmaria, até que a água volta a ficar parada novamente, a lama se assenta e volta o silêncio na superfície. Além da lama, a chegada do objeto levanta também alguns espíritos, de objetos, bichos, árvores e indígenas, repousados há décadas na profundidade do lago, cansados de gritar. Levantam devagar, despertam, rememorizam. Se movem devagar, e com certa naturalidade, vão ocupar as cadeiras enlameadas do Supremo submerso. Agora este Tribunal está no país da Memória Afogada, mais ou menos na linha divisória entre um brasil e um paraguay, muito povoada pelos espíritos que se opunham ao concreto, acabando exilados e molhados.

Chegou o espírito das árvores-submersas, reivindicando no supremo-submerso a discussão sobre o seu direito à floresta. Chegou o espírito das onças-pintadas, na tentativa de rever as prioridades de espécie e seu lugar de bicho sagrado. Chegou o espírito dos córregos, querendo o direito de permanecerem em movimento. Chegou o espírito dos ribeirinhos, querendo discutir o direito de morar nas barrancas e pescar. Chegou o espírito das canoas, reivindicando o direito de ser ligação entre as margens. Chegou o espírito das Sete Quedas, reivindicando no tribunal o julgamento cosmogônico, o direito à sua geografia. Chegou o espírito das pequenas cidades nas antigas margens, querendo ainda ser lugar. Chegaram os espíritos ancestrais avá-guaranis, querendo ser memória e continuidade, reivindicando território e contra os Estados, e a água como ligação, e não separação. Chegaram os espíritos de trabalhadores que ficaram presos nos concretos da grande barragem, também submersos e esquecidos. Chegou Onofre Pinto, vindo das bandas de Santa Helena, lá calado e deposto desde antes da represa, carregando todo o peso federal do “Tem que esquecer este troço”. Cada um deles foi deslizando pela água, encontrando seu lugar no tribunal, reivindicando o testemunho de sua memória e a justiça, o justo, o necessário. Como ministro supremo, sentou-se o Tempo na cadeira central. E começaram.

Tempo, estamos exilados desta mesa há quarenta anos. Estamos sentindo que o limite está chegando, não se pode sepultar tantas memórias. Tempo, recordo-me que a palavra era desenvolvimento, e acabamos envolvidos, presos e sem liberdade. Meus parentes subiam e desciam as correntezas. Não há mais correnteza. Me recordo que a água era vida, mas acabamos por sermos mortos sob ela. Tempo, não aguentamos mais este trepidar, este zumbido, este rotor que abafa as lembranças. Me recordo que o rio era ligação e hoje ele separa tudo. Tempo, o sentido das coisas e das palavras foi separado e invertido? Por que as águas também bebem veneno? Por que as águas estão diminuindo seu volume, não chegam mais? Tempo, e os turistas, por que os turistas tiram fotos sem me olhar realmente? O que retratam? É selfie que fala? Temos seres parentes que estão vivendo em jaulas. Assim como também as pessoas na cidade, Tempo. Tempo, uma grande quantidade de lava de concreto entupiu o leito em forma de pirâmide, as águas subiram, o rio sumiu, as turbinas giraram. Tempo, as aves nos contam: a energia gerada aqui, alimenta o desastre de lama de lá. Somos a Pompeia moderna em cadeia? Separou acima e abaixo. Separou direita e esquerda. Separou famílias de gente, famílias de bichos, de vegetação. Separou as partes em países diferentes, o que antes era uma terra só.

Ressuscitou-se um debate difuso e resistente, como um doente que tenta respirar sem aparelhos, carente de oxigênio. Cada memória tomando forma e conteúdo. Os espíritos antes apagados tomaram forma e se alimentam agora de zombaria do progresso. Os primeiros raios de luz começam a aparecer nas margens do lago, indicando que a tribuna se prolongou até o nascer do dia. E ocuparam e organizaram o Supremo Tribunal Zombeteiro. No centro, cresceu uma bruma líquida, tomando o submerso, brumado. Quando esta memória não tinha mais espaço para estar dentro da água, afogada, ela emergiu como nevoeiro, sobre o espelho d’água, que agora reflete no ar o tribunal desperto dos espíritos submersos, se misturando como uma lama em todos os olhos viventes. O nevoeiro desliza pela aurora, cobre os três países ao longo do leito do rio e se dirige aos outros reservatórios. Os não submersos olham aquele tribunal difuso, gasoso e úmido e não compreendem, pessoas entram nas casas, esperando que um dia a memória gasosa se precipite por conta própria e a Bacia do Paraná volte a ser servil e Doce.

Mas não mais. Os espíritos gasosos seguem adiante e vão reproduzir o Supremo Tribunal Zombeteiro em cada lago-reservatório, em cada cava de mineração, em cada lama tóxica, em cada torre de alta-tensão, despertando as memórias a sentarem-se nas cadeiras supremas, onde a zombaria faria a revolução.

Faz três anos que meu pai se juntou à nuvem das memórias e, a partir daquele momento, o reservatório se drenou para longe e surgiu novamente o Córrego da Onça-Pintada. Dizem até que anda rondando por lá um felino enorme, zombando dos medrosos nas noites enluaradas de nevoeiro.