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Rastros

Conversa de A. com B.

Parque José Affonso Junqueira, Poços de Caldas.

Clube.

— Cada vez que vejo na televisão uma sessão do STF, tenho uma alucinação olfativa com cocô de bode. Demorei a entender a associação, aliás, demorei a perceber que ela existia. Tem coisas que são, assim, parecem tão. Tão nada demais, que não me dava conta que uma coisa tinha a ver com a outra.

Cocô de bode?

— Na verdade não sabia que o cheiro diferente que sentia, quando via as sessões do STF na TV, era de cocô de bode, porque. Cocô de bode não tem muito cheiro, ou tem, não sei. Só depois, quando voltei para Poços já adulta, com meus filhos, me dei conta de que aquele cheiro me fazia lembrar o STF. Cheguei na praça, senti o cheiro e imediatamente o STF me voltou à cabeça. Nem à cabeça. Foi uma lembrança total, meu corpo lembrou-se do STF pousado naquela praça, lembrou-se das sessões na televisão. O que voltou com mais força foi a lembrança de mim mesma, com 8 anos, a boca aberta, pasmada com aquela sala sem paredes no meio da praça.

Mas antes você não se lembrava de que isso existia? Que isso tinha existido, a réplica do STF no meio da praça de Poços?

— Não. Apaguei.

E seus pais, seus tios, eles não comentaram depois, não virou um assunto?

— Então, talvez por isso que eu não guardei, acho que nunca mais se falou nisso.

Conversa de B. com alguém (não importa quem)

— Me sinto quase envergonhada de ter me esquecido de uma coisa dessa dimensão. Digo dessa dimensão pelo inusitado, para a gente, crianças. A gente ia sempre naquela praça, era um espaço de liberdade. Podíamos andar para qualquer lado sem a supervisão de um adulto (que provavelmente ficava em algum lugar de onde podia nos ver, imagino). Subir e descer dos bancos, correr, se esconder. Eles nos davam dinheiro, comprávamos sorvete ou andávamos nos carrinhos puxados por bodes. Devia ser pouco dinheiro. Hoje eu me dou conta de que os meninos que conduziam os bodes deviam ganhar bem pouco dinheiro. Naqueles dias eu não pensava nisso, eu os invejava, porque cuidavam dos bodes, eram seus amigos.

São muitas lembranças que guardo das páscoas e carnavais que passamos lá quando a gente era criança, muitas fotos, coisas que até hoje a gente fala a respeito, mas não do Plenário do Supremo na praça. Como que isso nunca me voltou? Como que não se falou muitas vezes a respeito disso nesses anos todos?

O que ela me contou, um pouco no telefone e mais quando veio aqui em casa, foi que uma réplica do Plenário do Supremo foi colocada na praça de Poços e lá ficou por alguns dias.

Isso foi registrado pelo artista, C. é o nome dele. Ela me mandou as fotos da praça com o Plenário do STF no final dos anos 60. Quem sabe, ela disse, quem sabe você não se lembra de alguma coisa olhando essas fotos.

Ela é bonita?

— Muito, como você sabe?

Pelo jeito de você falar.

— Eu não sei. Fiquei meio pasmada com a beleza dela. E fico agoniada, inquieta, querendo tirar mais coisa da minha memória.

Pasmada?

— É. Não é do mesmo jeito, mas foi a mesma palavra que eu usei para falar da memória que me tomou o corpo quando vi aquela sala desconhecida na nossa praça. Pasmada, pasma. Queria ter uma história para dar a ela.

Inventa uma.

— É, eu sei. Não, não sei. Não consigo achar nada, nada. Nenhum rastro de lembrança.

Mente.

Monólogo interior de B.

Uma coisa tão extraordinária deveria ter deixado em mim alguma coisa. Tinha 8 anos. Lembro de muitas coisas de quando eu tinha 8 anos. Canas inteiras, mesmo que não encadeadas entre si.

As fotos confirmam e às vezes atrapalham, não sei mais o que é lembrança da coisa e o que é lembrança da história que me contaram quando me mostraram as fotos.

As memórias de 5 anos, essas eu não tenho inteiras, são só clarões.

Uma varanda clara com a gaiola de passarinho, uma tolha de crochê pequena sobre a mesa de madeira escura, a saia de seu vestido claro chegando perto de mim. Acho que me ofereceu uma limonada, algum suco fresco.

A outra bisavó no quarto escuro, vestida de preto, pesada, quase imóvel em uma poltrona ao lado da janela, cabelo branco sob um véu de tule preto, me chama com a mão gorda e um riso bom. No quintal eu brinco com as primas e na copa comemos bolo.

Bobagem de B. para se distrair (usando algumas palavras que foram ressaltadas no que foi dito antes)

Dessa dimensão. Pasmada.

Conversa de B. com A.

— As fotos que você deixou comigo fez. Fizeram. Quer dizer. As cores desbotadas das fotografias fizeram com que parecesse fotomontagem. Não a imagem do Plenário do Supremo na praça. Não como se a foto que você me deu fosse uma fotomontagem. As cores das fotos me levaram por um caminho que pensei, quer dizer. Tive um vislumbre de mim ali naquele lugar. Eu pequena, com a roupa e o tamanho que eu apareço nas fotos que vejo nos álbuns dos meus pais quando eu tinha essa idade. A idade que teria, ou tive, tinha quando isso aconteceu. Então era como se alguém tivesse recortado uma foto de mim com meu irmão dentro do carrinho de bode e colado na foto da praça com a sala do STF ao fundo. A fotomontagem está nos meus olhos, não na fotografia.

Talvez tenha acontecido, talvez por isso você tenha feito essa montagem na sua cabeça.

— Isso está mexendo comigo. Eu preciso te contar uma história. Mas eu só tenho. Eu não tenho. Quer um café?

Sim, obrigada.


Você se levanta, coloca água para ferver, pega o bule.


Ah, desculpe, pensei que fosse de máquina. Não quero dar trabalho.

— Não, trabalho nenhum. Fazendo coisas quem sabe relaxo e a memória sobe. Como a água, sabe? Borbulha.

Bonita essa imagem.

— É.


Você faz um barulho de bolhas subindo da água fervente e espocando na superfície, acompanhada de um sorriso-careta que ela não pode ver por causa da máscara.


— Blã-blã-blã-blã.


Ela franze os olhos, talvez um sorriso, vocês ficam em silêncio. O jeito que ela abaixa a cabeça. A água começa a borbulhar, vocês se olham e riem, dá para ver pelos olhos que se fecham um pouquinho. A água passa pelo coador e o cheiro do café se espalha. Nós duas estamos sentindo o mesmo cheiro, você pensa.

Cada uma se senta em uma ponta da mesa, afastadas tiram as máscaras para tomar café sem perigo de se contaminarem. Às vezes ela sorri e você fica encantada com a luz que os dentes dela refletem. Ela está sentada de frente para o sol que a essa hora começa a se pôr na janela atrás de você.


— Quando eu voltei para Poços com meus filhos e tive aquela coisa que eu te disse, que eu chamei de lembrança total, na verdade foi uma epifania. Não tenho certeza se sei o que é uma epifania, mas acho que foi isso. Naquele segundo uma coisa se abriu no meu cérebro, no meu pulmão e sexo e eu entendi o Brasil. Depois se fechou, foi muito rápido. E eu me esqueci. Ontem de noite eu sonhei com isso. Foi uma sensação boa. Estava meio. Meio. Entende? Posso estar inventando. Eu sonhei, não foi que eu me lembrei. Um sonho, não uma memória.

Tudo bem. O que foi? Como foi?


Você respira fundo e cora.

Conversa B. com alguém

E então?

— Eu disse que não sabia se queria contar, não me lembrava mais, que precisava de mais um tempo. Me fiz meio de. Sei lá.

Por quê?

— Fiquei muito envergonhada. Puxa, comecei a gaguejar, não conseguia seguir.

Com o quê? Por que ficou envergonhada? Como assim?

— Porque eu falei sexo. O que que sexo tinha a ver com aquilo? Nada, nada. Nada a ver com o STF e Poços de Caldas, mas veio no meio da frase. Ridículo.

Ela nem deve ter se dado conta.

— Talvez não, mas eu me dei. Travei. Travei total.

B consigo mesma

E é verdade. Pode ser verdade, você não sabe se inventou, se o seu desejo inventou. Não importa, você realmente sonhou a memória do que aconteceu naquele dia em que voltou à praça.

Eu tinha 33 anos, estava na praça com meus filhos pequenos, senti o cheiro e vi a luz que só aquela praça tem.

O sexo doeu, assim como seu pulmão e a cabeça, e, de repente, eles se abriram, se encheram de ar e aquilo fez você planar.

Não sei. Talvez. Comecei a planar no mesmo universo que a sala do STF, fora desse tempo. Não sei se foi assim. Nem de verdade nem no sonho. Acho que doeu.

Tudo que você inventa aconteceu. Tudo.

Hum, hum, sim, claro. E aí?

Aí você entendeu o Brasil entendeu o Brasil entendeu o Brasil.

Meus filhos começaram a brigar por qualquer coisa e o entendimento se fechou.

Você entendeu que aquilo que apareceu na praça, quando você era pequena, era uma sala. Naquela altura, quando tinha 33 anos e estava na praça de Poços com seus filhos, você não enxergou a sala do STF, porque você ainda não a tinha visto na televisão, mas, mesmo sem esse nome, era evidentemente um lugar de poder. E foi uma lembrança ruim. Tinha sangue.

Essas idas e vindas do meu pensamento aceleram meu coração, de um jeito que chega a doer. Eu você eu você. Todos são eu, eu sei.

E tudo é você, que me pergunta, tão inocente do que me provoca, se eu me lembro do Plenário do Supremo Tribunal Federal na grande praça de Poços de Caldas em 1969.

O que vou falar para você?

Bobagem de B.

Sexo borbulha na sala do STF.
Como se, lembrança total.


B/A

— Comecei a assistir as sessões do STF em 2005, com o mensalão. A partir daí assisti muitas vezes, criei simpatias e antipatias. Sabia as teses, os argumentos. Gostava do Carlos Ayres Brito. Era zen e irônico. O Joaquim Barbosa sempre foi meio perturbador. Dava para sentir a dor dele. Ele não conseguia ficar sentado por muito tempo. Lembro-me dele se apoiando no espaldar da cadeira, cada vez mais irritado com as delongas e os subterfúgios dos outros ministros. A impaciência era com os outros e com a dor. Aquilo o limitava. A estultice alheia, os casuísmos e a dor. Quando começaram a endeusá-lo, eu achei tão impróprio. Porque deuses são coisas do campo do etéreo, e não havia nada mais físico do que a dor dele. Ele de pé, os braços apoiados no espaldar da cadeira, seu rosto redondo, o olhar muito focado, cheio de indignação para fora e para dentro.

Claro, podia ser teatro. De qualquer me maneira, eu ficava comovida.


A. permanece quieta.


— Eu só posso ter reconhecido a origem da minha alucinação olfativa depois de 2005. E bem depois, porque foi depois do mensalão que eu comecei a seguir mais. Assistir as sessões. Acho que nem era transmitido pela TV, antes disso.


Isso aqui está ficando chato.


B. isso está ficando atrapalhado, para mim.

— É, eu sei.

Qual o problema da data?

— Quando eu revi o Plenário do STF na praça de Poços, e o reconheci. Isso precisa ter acontecido depois de 2005. E, então, meus filhos já eram grandes e talvez os bodinhos nem existissem mais ali.

Quando você teve a epifania?

— Já nem sei mais se tive. Se é verdade.


Isso está ficando meio chato.


— Isso está ficando meio chato, né?


Ela sorri, constrangida. A máscara tapa a luz que pode haver em seu sorriso. Queria que ela não estivesse aqui, nada disso tivesse começado. Eu quero parar. Eu estive lá com meus filhos e fui tomada por um sentimento forte. E tem a ver com a lembrança que me voltou de uma coisa estranha à praça dentro da praça.


Não, não, de jeito nenhum.

— Vamos começar do começo. Me explica de novo o que você quer.

Em janeiro de 1969, os militares destituíram três juízes do STF. Em dezembro de 68 assinaram o AI-5 e em janeiro obrigaram três juízes a se aposentar, não, juízes não, ministros do STF. Outros dois renunciaram em solidariedade aos colegas e em resposta a esse ato absurdo. Ninguém fala disso, nem hoje em dia nem naquela época. Em 69 porque tinha a censura, agora porque ninguém quer saber de nada, tudo é recém-nascido, nada tem raiz, todas as explicações estão logo ali, impeachment, golpe, queimadas, PSDB, PT, Bolsonaro. A história não explica nada, só quem fala agora existe agora. A história.


Ela para, dá uma bufada. Acho que irritada comigo e com a situação aqui, na sala da minha casa, e mistura isso com a maneira como hoje em dia as pessoas querem explicar o bolsonarismo, as queimadas, o trato ou maltrato com a pandemia, e segue com seu raciocínio.


Bem, estou escrevendo um ensaio sobre alguns momentos em que a arte dialogou diretamente com o momento político e quais os rastros que esses gestos deixaram, se é que deixaram algum. Não uma arte de protesto, não uma reação, mas algo que tenha incorporado o ato político como matéria prima de seu gesto. O ato que, nesses casos, funciona como a argila que é trabalhada de forma a revelar algum aspecto até então não evidente. Essas salas do STF em diferentes dias em diferentes lugares do Brasil são um desses gestos que estou pesquisando.

Os Plenários eram montados e desmontados durante a noite, em terrenos baldios, pracinhas de bairros. Em Poços foi dos poucos lugares em que ele foi montado em um lugar central da cidade. Quer dizer, um Plenário foi montado no Maracanã, outro no Pelourinho. Mas esses foram logo desmontados. Só viram os Plenários quem os desmontou.

Os que foram feitas nos terrenos baldios e em pequenas praças, foram sendo saqueados dia após dia. As cadeiras, pedaços dos carpetes, os microfones. Isso é a suposição de C., pois quando foi retirar essas salas, estavam faltando várias coisas. Não encontro ninguém que se lembre de ter visto, ninguém que se lembre de ter saqueado. Acho que mesmo se eu achasse uma cadeira dessa instalação na casa de uma pessoa, ela não iria se lembrar de onde tinha vindo.

Como não existe nada na imprensa da época, por causa da censura, dependo de pessoas que se lembrem.

Em Poços foi o lugar que a Sala durou mais tempo, dois dias, mesmo que vandalizado. Ele tem fotos de todas as Salas. Te mostrei as fotos de Poços. Te mostrei já digitalizadas, mas ele tem ampliadas em papel. Quer dizer, elas existiram. Elas existiram.

Digo isso, elas existiram, digo os plenários existiram, eram salas, as Salas existiram, porque às vezes acho que ele inventou essa história.

Mas sei que não. É que aqui nada fica mesmo. Como tudo no Brasil, não gerou atrito. Mesmo quem destruiu não se lembra mais. Nada fica.

Então surgem as histórias. Acho que a ideia é tão inusitada que as pessoas, como você, começam a achar que viram e começam a fantasiar um monte de coisa.

Cocô de bode, por exemplo.


Ela está brava, desanimada, mas também está. Está inteira aqui. Isso tudo é verdadeiro para ela.


Cocô de bode!


Ela praticamente grita. Depois baixinho.


Cocô de bode?

Me olha meio cansada, sem curiosidade. Assim como quem pede um copo d’água, por favor.

Levo um copo d’água para ela, encho um para mim.


— Eu não menti, nem fantasiei. Eu sei, eu mesmo achei que estava mentindo, inventando uma boa história, porque você é bonita.


Falo com algum cinismo. Coisa de gente velha e má. Ela não parece se importar. Nunca dá para saber muito bem, por causa da máscara.


Melhor ficarmos do lado de fora. Para poder tirar a máscara.


Levamos as cadeiras para o quintal, uma longe da outra, tomamos nossa água.


— Fiquei pensando que o melhor lugar que ele poderia ter colocado a Sala era do lado de fora do Supremo Tribunal Federal. Logo ali em frente, a poucos metros da original.

É… talvez.

— Não sei. Ia parecer que tinha sido desalojado. Parou de pagar o aluguel: fora! Despejado, era o que queria dizer. Despejado. Ia parecer tão frágil ali, do lado de fora da sua casa. Alguma coisa meio de mendigo, morador de rua.

É.


Ela coloca a máscara, levanta-se e leva a cadeira para dentro de casa.


Se você se lembrar de alguma coisa, me passa um e-mail.


Bobagem

Despejadas, elas existiram.
Sonho sexo.

mensagem de B. para A. com comentários, de B., e recomeços


Então é isso, acabou-se a história, vou escrever um e-mail e é isso. Acabou-se história.


A.,


[não]


Oi, A., tudo bem?


[não]


[nossa, como detesto esse tudo bem. Tudo bem coisa nenhuma. Enfim, assim vamos mal. Nas cartas antigas começavam com: cara a., espero que essa carta vos encontre bem. Oro a Deus, nosso pai, que todos estejam com saúde. Aí começava o assunto da carta. esse tudo bem vem desse espero que essa carta vos encontre bem. É, não faz tanta diferença. Também detesto “como sempre no Brasil, blá, blá, blá”, mesmo sendo ela legal e tudo mais. Mas essa é outra história e assim não vamos mesmo em frente.]


A.,

Em 1969 eu tinha 8 anos e, como em anos anteriores, passei a Páscoa em Poços de Caldas na casa da família da minha avó. Éramos seis irmãos, meus pais, minha avó, um casal de tios e seus filhos, mais ou menos da mesma idade que meus irmãos e eu. A casa tinha um parque grande com jabuticabeiras, arbustos e canteiros de flores onde os adultos escondiam os ovos.


[não]


[na praça tinha uma casa de banhos, por causa das boas águas de Poços. Era uma casa antiga e imponente, como muita coisa ali, sobra do tempo em que o cassino funcionava em Poços. Um tempo que os adultos chamavam de a era do jogo]


A.,

Sei que você não acredita no que te digo, sei que cocô de bode te soa uma invenção que ofende sua credulidade, inteligência (perspicácia?)


[não]


A.,

Um dia, na Praça de Poços de Caldas, em frente ao Palace Hotel, eu tive uma epifania. Meus filhos eram pequenos e me invadiu uma pena imensa e pesada de todas as crianças do mundo. O medo encheu o meu corpo. Não era uma epifania, não me lembrei de sala alguma.


[não]

Monólogo

Não consigo escrever a mensagem. Sempre me voltam detalhes do lugar e da história. Havia também grandes peças de xadrez, na praça. Como certeza um pipoqueiro, mas desse eu não me lembro.

Lembro-me cada vez mais da Sala, não a sua arquitetura, mas um espaço onde coisas aconteceram.

Bobagem

tudo ali era do jogo, era cocô de bode.

mensagem de B. para A.

A.,

Na Câmara de Vereadores houve discussões sobre a pertinência de se destruir algo que simbolizava o poder. (Eu escrevi ao meu tio e ele me escreveu de volta. Ele não se lembra do Plenário, mas sim da discussão sobre a Sala que aconteceu na câmara dos vereadores.) Até que ponto o símbolo não é a coisa ela mesma? Ao destruir o simulacro de STF, você poderia, simbolicamente, estar destruindo a Corte Suprema, o que, naquela altura, era o que havia sobrado de esperança institucional da ordem democrática. Então logo se lembravam (os vereadores) dos cinco Ministros afastados e se perguntavam se essa instância ainda existia de fato como garantidora da democracia brasileira, ou se já não era, exatamente, apenas uma sala vazia cheia de falação… (meu tio foi me contando por alto, em uma longa mensagem que vou resumindo aqui) Sim, entendo, dizia o vereador amigo do meu tio (marido da minha tia), para a vereadora Jaçanã, você diz que pouco valem se estão ocas. Deputados e senadores cassados e exilados (naquele momento ainda não havia os desaparecidos), Ministros expulsos e um presidente não eleito. Mas no final prevaleceu a ideia de que haver um judiciário, mesmo que esvaziado de suas funções, mesmo incapaz de garantir seja lá o que for, era importante. Existe a aparência a se preservar para atravessar o período de trevas e chegar do outro lado com esses escombros sobre os quais poderemos reconstruir a ordem democrática. Jaçanã e Rosa Maria, vereadoras da oposição, arguiram que manter a aparência era uma maneira de avalizar o governo antidemocrático, fazer um teatrinho de democracia, porque era disso que se tratava, aquele Plenário do STF não era um símbolo, era um cenário. Um cenário sem peça e sem atores. Era uma provocação artística que, pelo amor de Deus, a essa altura do campeonato uma provocação artística com o STF? Elas diziam que, ao contrário de preservar as estruturas podres, deveríamos implodi-las espetacularmente como forma de denunciar a sua vacuidade. Elas foram voto vencido, mas isso não foi suficiente para se saber o que fazer com o Plenário do STF na Praça do Palace Hotel. Porque se fosse um símbolo a ser preservado, estava certo ficar exposto ao tempo, aos moleques, namorados e cocôs de bode? Não deveria ser levada a um lugar protegido? Rosa e Jaçanã ironizavam: será que não deveríamos construir o Palácio de Justiça em torno do Plenário, e uma Brasília em torno do Palácio de Justiça?

Enquanto essas discussões aconteciam, eu tinha 8 anos, e


[não]

A.,


O que eu me lembro é nítido e pouco. Nítido como as grandes peças de xadrez e a fonte iluminada, sem me lembrar onde ficava uma em relação à outra.

Pouco: Estava correndo com minha prima quando demos com uma coisa que não estava lá no dia anterior. Era de manhã bem cedo. A praça ainda estava vazia. Subimos no anteparo de madeira que circunda a Sala e andamos sobre ele nos equilibrando. Nos deitamos no carpete que era gostoso. Minha prima subiu numa cadeira, se ajoelhou e falou em um dos microfones e sua voz saiu alta e com microfonia. A gente riu e quis se esconder. Mas ficamos por ali mesmo, sentadas nesse anteparo, olhando. Uns meninos grandes apareceram e começaram a brincar com as cadeiras. Seus sapatos enlameados sujaram o carpete e eles acharam isso engraçado. Chegaram outros puxando um bodinho que não queria entrar. O menino que tomava conta tentou impedir, mas os arruaceiros eram maiores e empurraram o menino. O bode balia, o dono, que era adulto, veio dar um jeito na situação. Não sei como, mas de repente havia uns cinco bodes ali. Os meninos gritaram com o dono dos bodes e o mandaram embora. Isso era mais errado do que os bodes fazendo cocô e balindo. Hoje eu me pergunto se já naquele dia minha aflição e desacorçoo tinha a ver com intuir que os pais daqueles meninos podiam fazer mal ao dono dos bodes se ele ficasse bravo de verdade. Porque eles tinham dinheiro e o dono dos bodes, não. Não tinha como ter essa clareza, mas essa antinatureza, ou desnatureza de meninos tratarem mal um adulto, foi o que mais me assustou e envergonhou, mais até do que o que veio depois.

Junto com os grandes, havia, também, meninos pequenos, do nosso tamanho e menores. As meninas não entraram na confusão, não me lembro disso. Na bagunça, um menino pequeno bateu com a cabeça na quina da mesa e começou a sair sangue. O irmão mais velho acudiu, limpou o sangue com a camiseta dele, mas estava saindo muito. Ele tirou a camiseta, amarrotou e mandou o irmão ficar apertando-a contra a cabeça, no lugar do corte. O pequeno se sentou sobre o chão amarelo e felpudo ainda soluçando. Quando afastava a camiseta escorria sangue e manchava a roupa dele e o carpete.

Três meninos (quantos havia ao todo? quinze, vinte? eram muitos) empurravam um outro mais fraco para cima de uma cabra (hoje imagino que fosse uma cabra). Um segurava a cabra pela cabeça e os outros forçavam o menino com o pinto de fora para cima da bunda da cabra.


Minha prima e eu saímos e fomos brincar em outro lugar. A praça é grande, a Sala e a bagunça dos meninos e bodes não eram onipresentes, saímos de perto e a Sala sumiu.

A gente foi para praça de novo, de noite, com os adultos para passear e, então, vimos a Sala pegando fogo. Umas pessoas mascaradas faziam o fogo acontecer (não me lembro de tochas, nem de coquetel molotov, mas sabia que eram elas que estavam causando o fogo na sala, no Plenário). Não era propriamente um fogo, estava queimando uma cadeira, um pedaço da mesa, o tapete fumegava. Ficou um cheiro de plástico queimado, era mais fumaça preta do que fogo. Hoje eu penso que era um fogo de quem não sabe fazer fogo.

Chegaram outras pessoas, sem máscara, os dois grupos começaram a brigar. Nós resolvemos ir embora para casa. No caminho, logo na rua da praça, havia muitos policiais e carros de polícia, eles estavam parados, de braços cruzados, olhando as pessoas se machucarem.


Um beijo, B.

Reposta de A.

Oi, B., tudo bem?


Que incrível o que aconteceu! Interessante ver esse tumulto pelos olhos de uma criança. Obrigada, B., você ajudou muito. Caso lembre-se de mais alguma coisa, é só me escrever.

Mas e a epifania? Era mesmo só um sonho?


Um beijo, A.

Conversa de B. com alguém

E a epifania?

— Acho que era viagem minha. Mas fiquei pensando no que eu falei, falei que fiquei com a boca aberta, pasma com aquela sala sem paredes no meio da praça. Com 8 anos eu não vi uma sala, eu estive dentro da sala, sem entender que tipo de estrutura era aquela.

E o cheiro de cocô de bode?

— Isso é verdade. Não foi na data que eu imaginei, mas já mais velha eu voltei para Poços e me lembrei das sessões que tinha assistido do STF. Na minha cabeça as coisas estão relacionadas.

E eu entendi o Brasil?

— É tão louco. Fico pensando se foi a minha atração por ela que fez surgir todas essas bobagens na minha cabeça. Ou se tem alguma coisa de verdade. Só depois de ir imaginando coisas que não existiram que o caminho da memória foi se limpando. Mas foi ruim.

O que foi ruim?

— Foi ruim ter lembrado o que aconteceu naquele dia. Ficou um gosto ruim, de vergonha. Acho que a mesma vergonha que as mulheres que são abusadas sentem.

Bobagem

eu entendi o Brasil