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O matadouro do Guabirotuba

Instituto Federal do Paraná, Curitiba.

Clube.

Da conjunção entre celestial e subterrâneo nascem os rios, metamorfose de águas, alquimia que filtra o sal. Não deve ter sido diferente com esse. E por espiráculos quase invisíveis, a terra-baleia viva, plena de amor e ímpeto, convidou concebendo para a sua festa aquosa uma miríade de gentes: Araucária, Ipê, Pitangueira, Bracatinga, Araçazeiro, Pinheiro-bravo, Canela, Araticum, Cedro-rosa, Mocho-diabo, Pica-pau-do-campo, Saicanga, Lambari-do-rabo-vermelho, Traíra, Jundiá, Beija-flor-preto, Sabiá-laranjeira, Nutriá, Gambá-de-orelha-branca, Garça-branca-grande, Siriri, Guarani, Kaingang, Xokleng, outros e mais outros, tudo povo. Nessa época, que durou muito tempo, todos ouviam a música do rio, aquele fluir por entre as margens, mundo sonoro que compõe mundos, sendo ao mesmo tempo ritmo alternado e melodia capaz de guiar as criaturas, mas também o que Aldo Leopold chamou de “vasta e pulsante harmonia”, “partitura inscrita em milhares de morros, suas notas sendo a vida e a morte de plantas e animais, seus ritmos abrangendo os segundos e os séculos.” Quando Leopold, porém, entendeu que “a vida de cada rio canta sua própria música”, o terror já havia se instaurado e naquele rio o que corria era sangue.

Contam invasores, chamando a si mesmos de civilizados, que um selvagem de nome Tindiquera indicou a eles pacificamente um quinhão de terra entre esse rio e um seu irmão como um bom lugar para se fixarem. Para fazerem dali sua morada, que eles, seus moradores originários, os ajudariam como honrados serviçais e se retirariam, não faltava chão nem generosidade. Isso foi há quase mil estações. Ninguém acredita nessa história que dizem do mito que corre com o rio. O que as gentes todas viram e seguiram vendo e contando em muitas línguas e canções foram a expulsão e o massacre de povos, espíritos e deuses. É que não se chega sozinho a um lugar. E quando esses tais civilizados chegaram, fincaram seus templos e soltaram seus espíritos, deuses e demônios, machucando a terra viva e seus parentes-aliados. Nosso rio, que tinha mil nomes, sendo muito para muitos, foi ganhando nomes-sujeição até que, despessoa, virou Belém. No tempo profundo da sua vida de rio, isso ocorrera havia tão pouco, mas tinha sido tão-muito que ele quase não aguentava mais. Havia quem o chamasse de infecto, mendigo sujo, presença vergonhosa. “O importante é que o rio desapareça de uma vez.”

Eu escrevo na língua dos invasores, meu e seu legado maldito. Mas é por isso que sei tanto sobre o sofrimento do rio e dos outros. O que fizeram com ele e o que aconteceu depois. Vou contar o que sei e o que posso. O Belém, como ficou sendo, corria livre, mas livre era ruim, irregular. Assim como tudo no que chamavam novo mundo embora fosse antigo, ele necessitava de domesticação, que é tirar do fora e colocar dentro, sem conversa mesmo, como meditavam. É que o rio não gostava nada do que faziam ao seu redor e se rebelava, tentando lavar e levar embora o que achava feio nos seus domadores. Prenderam-no à pedra e cimento, enterraram-no, proibiram-no de encontrar seus amigos, censuraram seus caminhos e carinhos, diminuíram-no. Humilharam-no, aquele filho do céu e da terra.

O espaço alagadiço ao lado do Belém ficou conhecido como Curitiba, a falsa história difundida como “a fundação da cidade de Curitiba”. Havia muitos lugares assombrados nessa cidade. E havia quem garantisse a explicação estar em uma gigantesca, metafísica aranha marrom que, não se sabe quando, fizera pouso em cima dela inoculando, lenta e invencível, seu veneno em tudo o que se construía ali. Só ofensa bem grave para levar uma das de pernas oblíquas a agir assim, visto que normalmente se trata de um povo pacífico. Muitas chegam a apresentar a marca de uma estrela na cabeça para lembrar sua natureza doce e cósmica. Um outro nome seu, mais secreto, é aranha-violino. É que elas são parte fundamental da música. Por isso mesmo, seus seis olhos são divididos em pares que observam tudo ao redor, assim nenhum desarranjo na partitura passa em branco.

Ninguém sabe se foi obra sua, mas muito perto de uma altura em que ao rio ainda era permitido ser beijado pelo sol e acariciado pelas gramíneas, onde resistiam peixes espertos que esperavam na barriga de suas mães para nascer ou respiravam ar atmosférico e, acima de tudo, se mantinham contaminados demais para serem comidos, bem naquela altura materializou-se uma grande sala. Tinha uma mesa em forma de U, com cadeiras distribuídas ao seu redor, um púlpito para que se falasse de pé e uma mesinha no meio com duas cadeiras, uma diante da outra, como se fosse para o que chamavam de interrogatório ou jogo de tabuleiro. Nesses dias quase ninguém aguentava mais e a vida se segurava por um fio.

Aquilo causou espanto nos que haviam usurpado o mundo. Não é que nunca tivessem presenciado nada assim, mas cultivavam memória curta e gostavam de fingir esquecimento. Pelo menos é o que se deduz. O caso é que vieram vindo, cada um com sua ilusão. Pois havia muita diferença, no quase-fim, entre eles. Quem ainda guardava os mistérios civilizacionais de sua ancestralidade se regozijou. Mesmo em forma de simulacro, tratava-se de seu maior Tribunal, lugar onde aquele povo decidia o destino final de qualquer um, preferencialmente dos outros, de todo o território outrora pilhado. Juntaram-se em volta da sala, aguardando os vaticínios e as novas regras, certos de que logo chegariam os detentores desse poder. Sentariam-se nas cadeiras, sonhavam os espectadores, e decidiriam. Julgariam. Esse ato era muito importante.

A lua se deitou e acordou mais de uma vez, porém, e nada aconteceu. Aquela gente seguia firme, mas outras, que já de princípio desconfiavam de tribunais, discordavam e debatiam entre nervosas caçoadas e expressões de horror. Houve até os que partissem da cidade, amigos dos povos dos bosques e florestas que ainda se equilibravam a uma distância considerável dali. Intuíam que a fuga, decerto tomando todas as suas forças, era um plano com mais cabimento que o devaneio de permanecer. O véu da antimemória que feiticeiramente pairava pela cidade nunca os capturara por completo, e assim puderam lembrar: fugir era bom. Estavam acostumados.

Ainda havia quem estivesse se lembrando na fuga quando viu o céu se abrir. Ou foi o que pareceu quando duas enormes pinças orgânicas surgiram no firmamento, seguidas de afiadas presas, com o vagar paciente que os imortais às vezes guardam para si. Aí o respeitável público já havia sido tomado pelo horror, mas o mesmo movimento que fazia descer da amplidão aquela quimera os impedia de se mover, presos à sua sala hipnótica. Afinal perceberam com uma repugnância que serpenteava entre as fibras de seu corpo e o enigma de sua alma um titânico cefalotórax. Não havia mais dúvidas. Era ela, a Aranha-Marrom, que tocou longamente com seus pedipalpos todos os presentes, além das construções ao redor, antes de enxertar seu bendito suco no Tribunal.

O que sobreveio é até difícil de contar. A sala brilhava como se radioativada ou bioluminescente, a depender da perspectiva. Pulsava irradiando luz azulada. E cada pulso, produzindo uma onda que atravessava todo o espaço, causando náuseas nos mais suscetíveis, era uma espécie de chamado, foram entendendo. Uma conjuração. Não era necromancia, senão um despertar. Uma aurora obscura. Os que haviam permanecido dormindo em espera triste ou raivosa, todos eles começaram a se apresentar em assombro, como se fosse visagem. E aquela multidão cada vez mais incontornável de fantasmas, não aqueles todos-brancos cobertos por mantos, mas etéreos coloridos e multiformes, veio chegando, sobrevoando, rastejando, caminhando com dois, três, diversos membros até apinhar o espaço da sala, transbordando-a. Seu estado de vigília continha tanta memória que, para os que dependiam do ar, por alguns instantes ficou quase impossível respirar, o tempo que levou para aquela memória infectar todos os presentes, ecumenicamente. Quando o ar voltou à sua densidade original, alguns iam caindo, quase desmaiados menos pela falta do sopro do que pelo choque que tanta lembrança tensionada é capaz de produzir em um corpo vivo.

E foi então que o desígnio das almas, que em conluio com muitas entidades tinham tramado aquela cena, começou a se demonstrar. Elas tomavam de assalto aquele apregoado tribunal supremo, agora transformado em arena nebulosa, para se fazerem ver e ouvir. Ou principiavam assim. Guardavam ainda uma surpresa, a maior, se ainda fosse possível cogitar, mas só a manifestariam em bom tempo. Não possuíam boca nem aparelho fonador, que disso não precisavam mais. Seu modo de comunicação era uma mistura de lembranças em imagens, polifonia e afetos que atravessava cada um dos presentes, um vento ao mesmo tempo quente e frio, mas principalmente carregado de eletricidade. E cada um sentiu vibrar em si, durante aqueles momentos fora do tempo que se pode contar, em estado como que de transe, a experiência dos mortos.

Foi então que chegou o rio, sôfrego, no seu quase-fim, e, formando um halo de água malcheirosa em cima do tribunal, deu início ao ritual. Não se chamava Belém, souberam, nem revelaria seu nome. Mas quis que soubessem que ele sabia — Belém era o nome de outro lugar, onde havia nascido o deus-menino dos invasores, um refugiado. Do outro lado do mundo. E que havia muitas histórias sobre ele. O rio então fez saber que uma delas contava que no momento do vir ao mundo desse menino, assim como no seu, muitos povos estiveram presentes, povo Mago, Adivinhador, Pastor, Boi, Burro e quem sabe muitos outros. Fez lembrar que o povo Boi não conhecia o novo antigo mundo, portanto não participou da sua festa quando ele dançava livre nem fez parte de sua vida música. Que para esse povo, os invasores guardaram um destino tenebroso que seu cruzou com o seu. Odiava o nome Belém não pelo mito, mas porque, como seu duplo funesto, em lugar da dádiva da vida, forçavam-lhe a engolir diariamente o fruto da profanação das testemunhas.

Fizera o esforço tremendo de rastejar até ali para ver a construção, ainda de pé, da catedral da morte na qual hecatombes diárias eram promovidas em nome de algum deus-canibal. Nesse pacto demoniacamente divino, como agora sentiam todos, imortais e mortais dividiam o fruto do esquartejamento diário de um sem-fim de gentes para aplacar uma fome amaldiçoada. A gente Boi, forçada à frente do cortejo, vinha seguida de gente Porco e gente Cabra, entoando lamento cada uma a seus deuses e espíritos, às tetas sagradas de suas mães na terra e no céu, derramando mil vezes por dia lágrimas que penetravam o chão tão repisado de terra. Terminavam todos desfeitos, despedaçados, divididos em reverência àquela blasfema aliança ancestral em que cada parte, mortal e imortal, recolhia para si o que era imundície pra a outra. As oferendas eram lançadas no Belém, que borbulhou e se engasgou pelo período de uma vida de invasor, uma longeva, com o sangue e o que mais esse povo invasor, apreciando sujo, presenteava seu deus ou demônio. Às vezes é difícil distinguir. Esse lugar fora escolhido, aliás, conforme rezava a coalizão, à boa distância de onde vivia aquela gente; é que não desejavam macular seus lares com os eflúvios daquelas mortes, embora já o tivessem feito com sofrimentos indizíveis impostos a outros povos, bem dentro de suas casas, o que, no entanto, fingiam esquecer. Ninguém nunca vira uma fome tão grande, que quanto mais matavam e comiam, mais se especializavam na devoração. Nada em troca que não fosse para o deus-canibal. Por isso é que logo o longe ficou perto. Quando o rio tentava abrir a boca para cantar, cuspia sujeira.

A nuvem de almas que se fundia e separava, arfando sem pulmões, assumiu a comunicação. Aquela mesma construção, mal se equilibrando sobre a terra empanturrada de sangue, passou a receber filhotes humanos, crias da miséria que os invasores impunham aos povos sem fazer distinção. Esses rebentos da tristeza e da segregação não encontravam ali um refúgio nem eram festejados por ninguém. Precisavam, naquele lugar já enfantasmado e jamais purificado, trabalhar para os mesmos senhores que sujeitaram o rio e toda a sua gente, recomposta em aliados nativos e expatriados. Os menores, como chamavam esses filhotes para distinguir dos seus, eram mandados lavar panos sujos de palácio e assar pães. Aprendiam a servir. Isso era chamado de caridade e às vezes de justiça social. A assombração dos menores durou menos tempo que a catedral da morte, mas muitas almas caminhavam por ali, sem paz nem redenção, encolhidas pelos cantos, crendo ouvir os urros de dor dos despedaçados. O medo nesses momentos só não era superado por aquele que sentiam quando imaginavam ouvir a voz de alguns de seus benfeitores.

Muito mais foi partilhado na forma de experiência-lembrança. Sujeições, escravidão, desaparecimentos, confinamentos, destruições, golpes e até atos de crueldade mesquinha. Naquele dia, morreu-se muitas vezes. Não houve chaga que permanecesse coberta e as suculentas fúnebres pesavam de tanto fluido pesaroso. Mas os afetos, como as vilezas, são múltiplos. Era a raiva que animava os mortos e aviltados, não o luto. E só muita raiva para animar tanta gente a cruzar mundos. Os espectadores demonstravam sentir tudo que conheciam: ódio, medo, desespero, euforia e até mesmo júbilo. Talvez imaginassem que aquele ritual era uma grande lição, que poderiam sair dali modificados para empreender uma nova vida, uma nova cidade. Esqueciam-se, como era de seu feitio. Esquecer-se-iam.

Naquele pequeno tribunal supremo nenhum julgamento seria realizado. Essa época havia passado. O destino dos invasores já havia sido decidido muito antes. Tindiquera, o inventado, surgiu num rompante de luz que fez tudo silenciar e apontou de novo. Agora sim entendiam. Não os convidava para fazer morada, mas mostrava onde a terra os engoliria. Nesse momento, a plateia desconcertada foi testemunha do maior dos acontecimentos de suas vidas. Todos os rios, os canalizados, os assoreados, os enterrados, os drenados, os poluídos, até mesmo o sopro dos secos, todos se ergueram e formaram uma gigantesca teia de aranha. Essa teia ergueu as construções que a Aranha-Marrom pacientemente marcara, suspendeu a cidade-doença e seus senhores no céu, pulsando entre raios e trovões, e desceu ferozmente até alcançar a camada de magma mais profunda do planeta. Esse magma, segundo se conta, tem propriedades transformativas. E, em troca da enorme oferenda que lá deixaram, as águas subiram mais limpas e retomaram seus cursos, sem sinal da feiura anterior.

Nunca mais se ouviu falar de invasores por aqui. No lugar do renascimento do mundo, ao lado de árvores de Guabiroba, brotou uma Araucária, que cresceu quase imediatamente, tocando o céu. Ela segue de pé até hoje, vigiando e cuidando, já que a Aranha-Marrom precisou cochilar depois de ter despendido tanta energia e, como se sabe, seus cochilos costumam durar muito. Mas nós sabemos que elas se comunicam e temos confiança. Os povos de agora não são os mesmos; o que se perde permanece assim. Há menos e há mais. Por vezes a terra ainda borbulha sangue, mas andei observando pequenos roedores que aprenderam a sorvê-lo e a digeri-lo.

Nosso rio voltou a correr livre. Seu nome é um segredo que dividimos. Quando nado nele a braçadas e sinto o frescor no meu focinho, quando submerjo minha cabeça e só meus chifres ficam do lado de fora no contraste do sol quente, nessas horas quase parece que estive aqui no momento da festa de seu nascimento.