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Desencontro de imaginações: uma carta aos autores do projeto

Usina hidrelétrica de Belo Monte, Altamira.

Clube.

O dia em que essa imagem se abriu na minha tela, foi também o dia em que Lilo Clareto, meu melhor amigo e meu duplo na reportagem, sentiu os primeiros sintomas da covid-19. Desde aquele momento, a vida, que já era luta, virou luta para salvar a vida do Lilo. Desde 21 de abril, quando os olhos dele foram fechados, a vida virou também luto. A vida só pode ser luto e luta nesse momento em que testemunhamos um genocídio que já matou quase meio milhão de brasileiras e brasileiros. Perder o Lilo foi para mim uma amputação. E vivi esse luto publicamente, porque Lilo é vítima do projeto de extermínio de Jair Messias Bolsonaro e de seu governo. Às vésperas do prazo final de entrega do meu texto para o projeto, eu já sentia que o luto fincava suas unhas desde dentro. Era tempo de buscar minha caverna. Ainda assim, tentei escrever, mas a imagem na tela entrava em mim e não ressoava, não fazia eco. Já não havia ar nesse lugar dentro de mim. E sem eco eu não viro verbo.

Preciso pedir desculpas. Falhei com vocês. Falhei com o projeto. Acredito, porém, que preciso dizer um pouco mais a vocês. Penso que essa imagem, a do Supremo Tribunal Federal naufragando no rio Xingu diante do poder de Belo Monte, não encontra sentido em mim. O que aconteceu é que tivemos um desencontro de imaginações. Nós, os do Xingu ― meu lugar de pertencimento para muito além da convenção geográfica desde que escolhi, junto com Lilo, viver a ideia de que a Amazônia é o centro do mundo ― esperamos que o Supremo Tribunal Federal um dia julgue Belo Monte e todxs que fizeram Belo Monte se tornar essa nave alienígena colonizadora que destruiu e destrói a floresta.

A forma como pessoas, porque os juízes são pessoas, tornaram possível Belo Monte avançar sem ser julgada e barrada, às vezes em nome da “segurança nacional”, é um longo e vergonhoso capítulo que mancha qualquer ideia humana de justiça. Mas nós precisamos acreditar que, se aqueles que representam as instituições traem a justiça, ainda haverá justiça a ser feita também pelas instituições. Nós sempre acreditamos que aqueles que abusaram da justiça para converter Belo Monte em um “fato consumado” um dia responderão. Já estão sendo julgados pela história, mas serão também pela instituição máxima do judiciário disso que chamamos Brasil.

Nós não queremos ver o Supremo derrotado por Belo Monte, aos pedaços, os destroços boiando nas águas como boiaram as casas dos ribeirinhos, os macacos guariba, as preguiças, as onças, as sumaúmas e as castanheiras, boiaram até as cinzas daquelas que um dia foram ilhas. Não. Nós queremos o Supremo pousado sobre Belo Monte como um pássaro de asas coloridas e garras fundas, num julgamento histórico que seja capaz de ampliar a ideia de democracia também para os não humanos que morreram pela força das milhares de toneladas de aço e de concreto. Nós queremos um julgamento por ecocídio. E teremos.

Sim, nós teremos.

Aprendi com os povos da floresta que o fim do mundo não é fim, mas meio. Como expressou Eduardo Viveiros de Castro, o mundo dos povos indígenas acabou em 1500. E os indígenas seguem resistindo e lutando, agora contra um governo que usou o novo coronavírus como arma biológica para eliminar a resistência ao avanço sobre a Amazônia. Belo Monte foi um fim do mundo, mais um. E muitos morreram, humanxs e não humanxs, pela sequência de acontecimentos que arrancou a possibilidade de viver. Mas um número maior está vivo e resistindo. E viverá e resistirá para além de Belo Monstro.

A imagem da derrota, que é a usina materializada no rio Xingu e controlando a água de um dos maiores rios da Amazônia, nós já temos. A imagem do naufrágio do judiciário é nossa realidade. Nós olhamos para essa imagem todos os dias. Ela é a nossa janela. Lilo foi contaminado pelo vírus da covid-19 justamente quando documentava a crise humanitária e ecológica produzida por Belo Monte na Volta Grande do Xingu. Belo Monte controla a água do rio, como se o rio fosse sua banheira particular, e está secando 120 quilômetros de uma das regiões mais biodiversas da Amazônia. Era isso que Lilo, fotógrafo da resistência à Belo Monte, fazia quando o vírus colonizou seu corpo. E por isso Lilo está morto.

Por favor, não nos interpretem equivocadamente. Não somos ingênuos. Não acreditamos que toda a justiça será feita pelo Supremo ao julgar as ações contra Belo Monte. Essa é só parte da justiça que exigimos. E exigimos.

Sabem qual é o futuro que nós imaginamos? Belo Monte em ruínas. Belo Monte como um museu sobre um crime, um crime contra humanxs e contra não humanxs. Belo Monte como um dos museus do holocausto produzidos pelo nazismo, mas para muito além dos humanos, porque não colocamos os humanos no centro da criação. Entendemos a vida como um intercâmbio constante de relações entre tudo o que é vivo, entre o que se vê e também o que não se vê.

(Quando Lilo morreu, ele veio me ver. Estava furioso, os músculos retesados sob a pele. Já não era humano, mas onça. Sei que agora é como onça que ele anda comigo. Como vocês sabem, na floresta as pessoas não morrem, se encantam. Desde 21 de abril, Lilo onceia.)

Criamos um movimento chamado #liberteofuturo porque acreditamos que a imaginação é um instrumento político de libertação do futuro. Recusamos o sequestro do futuro pela minoria dominante que governa o planeta e que provocou o colapso climático. Essa minoria humana, majoritariamente branca, masculina e binária. No futuro que imaginamos, e imaginamos como ação de criar futuro, o Xingu estará livre. O Xingu romperá Belo Monte, o Xingu se libertará do “povo da mercadoria”, como o pensador Davi Kopenawa Yanomami nomeia essa parcela dominante dos humanos. Aço e concreto serão vencidos pelas águas e Belo Monte será apenas um capítulo de horror e de vergonha contado no museu de suas ruínas, museu que um dia deverá virar ruínas também porque a floresta o engolirá.

No espetáculo teatral “Altamira 2042”, criado por Gabriela Carneiro da Cunha com todxs nós, ao final a barragem rompe numa cena apoteótica, e o Xingu se liberta. Nós, que somos protagonistas e palco, ao mesmo tempo, nos atiramos sobre os destroços com picaretas, alguns com dentes e unhas, para terminar de arrebentá-la. Aço e concreto mastigados por dentes humanxs e não humanxs, dentes de quem se converte em outrXs, o que está muito além do conceito de alteridade.

Assim será.

Belo Monstro será ruínas, e as árvores e os peixes arrebentarão o corpo de aço e concreto com suas raízes e guelras grávidas de mundos. Sobre elas caminharão os humanos que viraram onças e formigas. Essa é uma guerra para muito além dos humanos, e nós a venceremos. Nós, os entres e os entes.

É por isso que essa imagem não encontra ar para respirar em mim.

Xingu — 21 de maio de 2021