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Antímia / Baldio

I.

Terreno baldio, Portugal.

Clube.

(Música de Carlos Chávez “Sinfonía de Antígona”; Antímia e Iracema andam no sobe-e-desce; Crécio, alheado, está sentado no baloiço, pés no chão, cabeça baixa, agita o corpo molemente; o Juiz Tirésias consulta processos em braille na sala do tribunal; ao fundo, no canto superior direito da imagem, vê-se o que parece ser o corpo de um homem tombado.)

Antímia.
Crécio que se foda, ouviu? Ele que se foda. Ele e todo o mundo. Que se fodam. Todos.
Iracema.
Anti, mas ele é nosso tio, o soberano, a autoridade, a lei. Ele é a lei!
Antímia.
Um bosta, é o que ele é.
Iracema.
Não fale assim, minha irmã. Aos deuses não agradam tais palavras.
Antímia.
Os deuses, minha doce e néscia irmã? Faz tempo que os deuses nos amaldiçoaram. Tudo acontece na porra da nossa família. Zeus não nos poupou a nenhuma desonra, nenhuma vergonha. Fomos obrigadas a amar a humilhação. Quanto pó comi guiando nosso pai que feriu os olhos com as próprias mãos? Me diga se souber, minha irmã. Chega! Não fingirei mais. Políbio, nosso irmão, merece um enterro digno, ocultado sob a terra, que nem Tinoco. (Pausa) Você viu o fausto das exéquias de Tinoco? Como estava lindo seu cadáver! Lindo de beijar!
Iracema.
Mas Crécio proibiu… um édito foi promulgado…
Antímia.
Que se foda Crécio e os seus éditos! Ouviu o que eu falei? Não permitirei que a desonra caia sobre um dos nossos irmãos enquanto o outro recebe o respeito devido aos mortos. (Lenta, alucinada) O corpo de Políbio me pertence… pertence à família. (Separando bem as sílabas) Nossa família. O corpo de Políbio. Nossa. Família.
Iracema.
Nossa família amaldiçoada, como você diz.
Antímia.
Nossa família, Iracema. Nossa. Mesmo amaldiçoada. Ainda mais amaldiçoada, ainda mais nossa. Venero a maldição, sabe? Venero. Agora desejo loucamente a maldição.
Iracema.
(quase sussurrando) Crécio matará quem desobedecer.
Antímia.
E acaso é a morte destino mais indesejável que uma vida de covardia? Se enxerga, Iracema. Viver não é tudo, não. Minha vida há muito terminou para servir os que morreram.
Iracema.
Isso é loucura, Anti. Loucura! Blasfémia!
Antímia.
Loucura? Loucura é esse édito imbecil de Crécio. Quem concederia a Tinoco todas as honras e os vexames a Políbio, largando seu cadáver para pasto das aves de rapina e animais necrófagos? Ele morreu! Não basta a morte para apaziguar Crécio? Precisa da humilhação, do opróbrio? Oh, homenzinho cruel! Pois fique sabendo que me alimento de humilhação, vergonha e desgraça. E não ficarei de braços cruzados.
Iracema.
Minha irmã, mas as leis…
Antímia.
“Minha irmã, mas as leis…” Sai dessa, boba. A lei pode ser iníqua. As ordens, pérfidas. Não há lei no mundo que me impeça de honrar meu irmão, Políbio. Com a morte ele regressou ao domínio da família. Não pertence mais à cidade. Farei as abluções necessárias, cobrirei seu corpo de terra, beijá-lo-ei ternamente. Beijá-lo-ei! Não quer beijar comigo? Vem, vem beijar nosso irmão morto.
Iracema.
Você está louca, Anti. Tinoco também era nosso irmão e defendeu Tessalebas. Políbio atacou a cidade.
Antímia.
Medo! Como você tem medo, Iracema. Medo, medo, medo. Os dois tombaram e um só foi honrado. Cuidarei do doce cadáver de meu irmão ainda que isso me custe a vida. Devo lealdade à Políbio e a nossos antepassados. (Pausa) Como é lindo meu irmão morto, lindo, lindo, lindo…

(Interrupção)

“Estamos apresentando: Antímia no Baldio”

(ouve-se “Na hora do almoço”, interpretada por Cida Moreira)

“…Medo, medo, medo, medo, medo, medo
E molhada de medo…”

II.

“Voltamos a apresentar: Antímia no Baldio”

(Sobre o cadáver de Políbio, Antímia derrama terra de um vaso. Na cadeira principal da sala, o Juiz Tirésias, cego, levanta-se, pousa os óculos escuros na mesa, afasta delicadamente os processos e vira o rosto para o público.)

Juiz Tirésias.
Quem poderá travar Antímia? Seu coração está decidido a honrar o cadáver do irmão, Políbio, que Crécio, seu tio, proibiu de receber os ritos fúnebres. Desrespeitando a vontade e o poder de Crécio, usando da sua liberdade, Antímia faz o que julga correto mesmo que infrinja a lei, mesmo que a pena para o seu ato seja a morte.

(Entretanto, dois guardas aproximam-se de Crécio que continua sentado no baloiço. Ao ouvir a mensagem dos guardas, levanta-se abruptamente)

Juiz Tirésias.
Mas não terá razão Crécio? Não ficará sua autoridade ferida se conceder ao inimigo as mesmas oferendas que àquele que morreu defendendo a cidade? Quem prefere o seu sangue à pátria não comete um crime contra a cidade? Ei-la que volta. (Falando para Antímia) De onde vens, Antímia?
Antímia.
De rodear o mundo e ser miserável (Uma gargalhada, pássaros explodem num voo súbito) Quem és tu, velho? Um pau-mandado do meu tio?
Juiz Tirésias.
Ele vem a caminho. Já foi informado da tua ação. Que alegarás em tua defesa?
Antímia.
Que posta perante a morte ou a desonra, escolhi a morte. O que foi, velho? (Aproxima-se do juiz com um movimento sensual.) Desejas-me? Ou por não me veres não me desejas?
Juiz Tirésias.
Fica a saber que com mais força se deseja o que não se vê. Insensata. Porém, gabo-te a coragem.
Antímia.
Falas como um cobarde, pois é costume que os cobardes gabem cinicamente a coragem de que não são capazes. Não conspurques com o teu cinismo a pureza do meu gesto, nem que seja para o elogiar. Se meu tio me condenar à morte, considerá-lo-ei mais do que agora, que só me merece despeito, asco. O meu tio é asqueroso, dá-me náuseas.

(Crécio entra)

Crécio.
(cantando) “Es muss sein! Es ist das Gesetz! Gesetz! Ich bin das Gesetz! Gesetz!” Assim seja..
Juiz Tirésias.
Eis que Crécio chega. (Faz-lhe uma vénia)
Crécio.
É verdade o que me contaram os meus guardas?.
Antímia.
Crécio, meu tio, bem sabes que eles não te mentiriam. Para tanto sobra-lhes em pavor o que lhes falta em imaginação…
Crécio.
Tudo fizeste para que te vissem, infeliz?.
Antímia.
Por minha vontade, teria convocado toda a cidade. Porém, se o fizesse, seria impedida de prestar homenagem ao meu irmão. Não me envergonho do que fiz. Quando me apercebi de que me viam, senti um êxtase, o meu corpo inteiro tremeu como se possuída por um varão. Eu, inupta e virgem, experimentei o prazer mais puro. Temia que o meu ato fosse atribuído a outros. Temor maior do que o nojo pelo tratamento que dispensaste ao meu irmão…
Crécio.
O que veio para destruir a cidade? Desonrou-a, desgraçou-se e morreu. A terra não o deve cobrir. A cidade ofereceu o seu cadáver aos cães e aves de rapina. É honra suficiente para quem tão pouca revelou. Não é assim que procedem por hábito os persas com os seus varões quando morrem?.
Antímia.
Políbio não era persa, nem são nossos esses costumes bárbaros. Com a morte todas as dívidas foram saldadas. Pagou-as com o sangue derramado sobre a terra. Com a morte cessa o domínio da cidade sobre o homem. Devolve-o, pois, à família, a mim, que sou a única que o reclama. Que direito tens de lhe impor um castigo que avilta os nossos antepassados, os nossos mortos, insulta os deuses e fere os costumes?.
Crécio.
É a lei. A lei! Quem a não cumprir pagará com a vida..
Antímia.
Mil vidas tivesse e mil vezes pagaria..
Crécio.
Por que me desafias, Antímia? Porque desafias a minha autoridade?.
Antímia.
Tudo o que fiz foi lançar sobre o corpo de meu irmão uma finíssima camada de pó e dar-lhe as oferendas que aos mortos são devidas. Assim me ensinaram meus pais e antes deles os pais deles e antes destes os seus pais até ao início dos tempos..
Crécio.
Conhecias a proibição?.
Antímia.
O que me dita a consciência, nenhum édito mo proíbe..
Crécio.
Então escolheste a desobediência? Preferiste transgredir? Amesquinhar o teu tio? Pôr à prova o meu poder?.
Antímia.
Tudo o que tens é o poder de legislar e promulgar éditos. Não é pouco para um homem como tu. Mas por mais longos que sejam os braços do teu poder não alcançam os recessos da minha consciência. Nada fiz para te desafiar ou para te amesquinhar. O poder é teu, majestade, a escolha é minha..
Crécio.
Escolhes a morte?.
Antímia.
Escolho a honra, o dever, a lealdade. Se a morte é o que me aguarda no fim da escolha, recebê-la-ei como prémio e não como castigo..
Crécio.
Não a temes?.
Antímia.
Como hei de temer o que me é favorável?.
Crécio.
Filha de minha irmã, não serei leniente contigo, alerto-te. E não serei tão misericordioso que te conceda a morte..
Antímia.
Mais do que a tua ira, insultar-me-ia a tua misericórdia. Se me indultasses, se aqui mesmo me perdoasses, saberia que tinha falhado ao meu irmão…
Crécio.
Amanhã, a esta hora, serás levada para um caminho que não o pisam os homens e serás encerrada numa caverna escavada na rocha e receberás de alimento apenas o necessário para evitar o sacrilégio e a culpa da cidade. Não tornarás a ver a luz do dia e jamais escutarás voz humana até que cessem os teus dias sobre a terra. Não é este um destino pior do que a morte?.
Antímia.
Tirésias viveu a vida inteira nas trevas, porém o seu espírito é iluminado. O disco sagrado nasce e o disco sagrado se põe e os olhos não podem ver mais luz do que essa, mas o negrume do espírito dia e noite nos faz companhia. Não descansa, nem adormece. Não se levanta e não se deita. Pior destino do que a morte seria contaminar de negrume o meu espírito desonrando os meus mortos. O sofrimento que advém das ações justas traz o seu próprio refrigério. Que me interessa o mundo? A luz do disco sagrado? As vozes dos outros? Muito depois da minha morte, haverá ainda luz, o mundo continuará cheio de vozes, mas enquanto eu viver e até depois que a minha luz se apague e se feneça a luz de toda a criação nunca mais se ouvirá a voz de Políbio, meu irmão.

(Iracema entra e lança-se aos pés de Crécio)

Iracema.
Meu tio, imploro-te que não ouças as palavras de um coração que sangra. Quem fala assim não é Antímia, nossa irmã, tua sobrinha, é a dor de ter perdido um irmão.
Crécio.
Ora essa! E não era ele teu irmão? Não foi gerado no mesmo ventre? Não corre em vossas veias o mesmo sangue? Não sangra o teu coração? Desobedeceste-me? Desrespeitaste a lei da cidade?
Iracema.
Desejei fazê-lo e, por medo, o não fiz. No meu íntimo, quebrei a lei da cidade. Sou tão culpada quanto Antímia.
Antímia.
Pára, infeliz. Perante os deuses, não sou portadora de culpa. Aos olhos dos meus antepassados, estou limpa de mácula. Tens razão, ó, cego, és sábio e iluminado. Falei e agi como uma insensata pois o sentido do dever não nasce apenas da razão. É do coração que brota. Porém, orgulho-me da minha insensatez. Orgulha-te tu da tua sensatez e prudência, minha irmã, e do teu apego à vida. (Vendo a tristeza de Iracema, fala só para ela) Perdoa-me. Não te quero magoar. Fiz o que tinha de ser feito. Aguardo serenamente o meu destino. Peço-te que não me perturbes.
Crécio.
Enlouqueceste, Antímia. Viras-te agora contra a tua irmã? Que te defende e não te abandona? Que ódio é esse que transborda de ti?
Antímia.
Nasci para amar, não para odiar.
Crécio.
Não é amor o que te move, antes vaidade, presunção. Julgas-te melhor que todos os outros. Que os caprichos do teu coração superam a força da lei da cidade. No buraco, nem viva, nem morta, apartada do convívio humano, terás muito tempo para meditar no teu erro.
Antímia.
(sussurrando) Não terei.
Crécio.
No escuro, sem testemunhas, ainda terás vaidade? Ainda terás presunção? Alerto-te que a minha palavra é só uma. Não voltarei atrás.
Antímia.
Humilhar-me-ias se o fizesses. De Crécio, meu tio, soberano de Tessalebas, nada espero que não seja o exercício do poder. Nada teremos a lamentar. Nem eu. Nem tu. Cumpriremos os nossos deveres. O meu para com os antepassados e a família. O teu para com a cidade e o poder.
Iracema.
(chorando) Morrerás, louca. Não terei ninguém. Crécio não ter perdoará.
Antímia.
E então saberá que nem todo o poder do mundo lhe serviu para quebrar a vontade de uma mulher.
Crécio(falando para os guardas).
Levem-na e, ao amanhecer, encerrem-na na caverna. E a esta (aponta para Iracema), retirem-na da minha presença antes que lhe decrete destino idêntico. (Os guardas levam Antímia, que não oferece resistência, e arrastam Iracema, que esperneia e grita) É a lei. Eu sou a lei. Cumpra-se a lei. (Cantando) “Es muss sein! Es ist das Gesetz! Gesetz! Ich bin das Gesetz! Gesetz!”

III.

Juiz Tirésias.
(falando para o público) Em certas circunstâncias, a morte não faz cessar o domínio do Estado sobre o homem. Disto está convencido Crécio. Quer que Antímia sirva de exemplo para a cidade. Quer que saibam que a lei não se compadece com os vínculos do sangue.
Crécio.
(falando para o público) Não considero nem respeito aquele que tem mais amor a outrem do que à pátria. Aquele que se rebela contra a cidade, vivo ou morto, permanecerá sob o jugo da lei. E o que for propício à cidade, vivo ou morto, será honrado por mim.
Juiz Tirésias.
(falando para Crécio) Antímia obedeceu aos deuses.
Crécio.
A eles responderá. E não fales dela pois já não existe. Assim o diz a lei.
Juiz Tirésias.
Assim o dizes tu.
Crécio.
Eu sou a lei.
Juiz Tirésias.
Porque não a poupas? Será o crime dela tão grave que mereça a mais severa das punições? O excesso de lei resulta em injustiça e o castigo que supera o crime é violência. Injustiça e violência são as calamidades da cidade.
Crécio.
A calamidade maior é a anarquia. Se eu tolerar a desordem da minha família, o que farão os outros nas veias dos quais não corre o mesmo sangue? Se a que já não existe não fosse minha sobrinha, não teria eu sido tão célere no exercício da justiça. Porventura, perdoá-la-ia porque a magnanimidade é prerrogativa do soberano.
Antímia.
(ouve-se a sua voz) Sou feliz por ser do teu sangue para que não te tivesses demorado na cólera e no castigo, ó soberano de Tessalebas.
Crécio.
Quem fala destarte?
Juiz Tirésias.
A que já não existe, majestade.
Crécio.
Cala-te!
Juiz Tirésias.
Ouvirás para sempre a sua voz pois condenaste-a a viver nem com os homens, nem com os cadáveres. Viva, poderias silenciá-la. Morta, não a escutarias mais. Encerrada numa caverna, ouvirás a sua voz pois recusaste dar paz aos mortos e dar a morte à que, porém, já não vive. Persiste no erro e descobrirás, a penas próprias, que não é a anarquia o maior dos males. Ouve o lamento de Antímia pois o mesmo ecoará para todo o sempre sobre a cidade de Tessalebas.

(As luzes apagam-se)

Antímia

Oiçam, cidadãos de Tessalebas, homens de todos os tempos,
o que sofro por à piedade ter prestado culto,
por ter cumprido o meu dever,
por ser leal aos do meu sangue,
por ter amado,
por ter amado.

(Ouve-se um piano na escuridão. Ainda a voz de Antímia)

Antímia

E se desentende no instante em que fala
Medo, medo, medo, medo, medo, medo
E molhada de medo
Medo, medo, medo, medo, medo, medo…


F I M