Revista Rosa

Volume 3

3

Orwell na Guerra Civil Espanhola: as Jornadas de Maio de 1937 e a traição de Stalin

Isabella C. Reiche

Quando chegou à Barcelona revolucionária em dezembro de 1936, o escritor e jornalista inglês Eric Arthur Blair certamente não imaginou que deixaria um legado em seu testemunho da Guerra Civil Espanhola. Tomado pela revolta perante o levante fascista de Francisco Franco, George Orwell foi até a Catalunha com o objetivo de tomar um fuzil e lutar pela República Espanhola. Caso viesse a escrever alguma coisa, muito bem, mas o essencial era combater o fascismo. Após um breve encontro com o amigo Henry Miller (descrito no ensaio “Dentro da baleia” [1940]), que tenta dissuadi-lo de participar do conflito, Orwell cruza a fronteira e dá de cara com uma Barcelona tomada pelas bandeiras vermelhas e pretas dos anarquistas e socialistas que tomaram conta de hotéis, bares, igrejas e teatros. Lá, ele se encanta com essa atmosfera revolucionária e, após um curto treinamento, é enviado ao front em Aragão junto com adolescentes, estrangeiros e trabalhadores. Dormindo ao relento e convivendo com o frio e a falta de cigarros, ele passa meses atirando nos vultos distantes das trincheiras franquistas ― sem acertar em nada ou ninguém. Em seu retorno, percebe a capital catalã deveras mudada.

Os eventos ocorridos em Barcelona entre os dias 3 e 7 de maio de 1937 seriam cruciais para a transformação de Eric Arthur Blair no George Orwell que viria a ser reconhecido por 1984 (1949) e Animal Farm (1945, publicado no Brasil como A revolução dos bichos ou, mais recentemente, A fazenda dos animais). Narrado em primeira pessoa pelo escritor, o período foi o momento culminante de um processo de transformação ideológica em percurso, que resultaria em um despertar de consciência do autor, perante os crimes do stalinismo. Dessa maneira, segundo o pesquisador catalão Miquel Berga, Homage to Catalonia1 (1938, publicado aqui como Lutando na Espanha e Homenagem à Catalunha) é também um “bildungsroman ideológico”.2

Orwell retorna a Barcelona após três meses no front aragonês, em 27 de abril de 1937. Ele descobre que a cidade já não possuía mais a “atmosfera revolucionária” que havia encontrado ao chegar pela primeira vez na capital catalã. No lugar dos macacões azuis, os ternos de linho branco; as crianças descalças misturavam-se aos homens e mulheres, gordos e elegantes, que passeavam em seus automóveis de luxo. Os sinais exteriores da divisão de classes estavam voltando, e já não era perigoso ostentar. Membros das classes abastadas já não se disfarçavam de trabalhadores nas ruas, e señor e usted voltavam, aos poucos, a ser utilizados no lugar de camarada e . Apesar da dificuldade crônica no abastecimento de suprimentos, não faltavam mercadorias nos restaurantes e hotéis chiques. Eram sinais que denotam o processo de interrupção da Revolução, que havia começado, mas nunca veio realmente a se consolidar. Essa parte do retorno a Barcelona funciona como um contraponto em relação à primeira visita de Orwell, narrada no primeiro capítulo do livro. Como disse um dos principais comentaristas da obra de Orwell, John Newsinger: “a sua educação política começou no dia em que voltou à cidade”.3

E não era apenas a apatia que se percebia nas pessoas da cidade. As ruas estavam carregadas de tensão. Boatos corriam soltos, e apostava-se em quem iria fazer o primeiro movimento. Anarquistas e socialistas não alinhados contra comunistas, o governo central republicano e o governo regional da Generalitat. Em jogo, estava a continuidade ou não da Revolução. Em suma, era o choque ideológico de forças antes aliadas, agora opostas, que em última instância se radicalizaram por perceber que não seria possível manter a coesão por muito mais tempo. Esses acirramentos resultaram em um confronto armado nas ruas de Barcelona ― uma pequena guerra civil dentro da Guerra Civil, que ficaria conhecida como as Jornadas de Maio de 1937.

Na manhã do dia 3 de maio de 1937, um grupo de cerca de duzentos policiais das Guardas de Assalto da Generalitat cercou o edifício da Telefónica de Barcelona, situado na Plaça de Catalunya. Especulava-se que um dos motivos para o ataque àquele prédio, controlado pelas forças anarco-sindicalistas da CNT-FAI, teria sido a possível espionagem das comunicações que eram transmitidas e recebidas lá (telefonemas e telegramas). Esse evento foi uma fagulha que gerou um incêndio na Barcelona revolucionária, resultado de tensões antigas dentro do campo republicano, que se dividia em: um bloco a favor da manutenção de um estado de revolução com fortes tintas anarquistas, em que a classe trabalhadora, organizada em milícias, mantinha o controle dos meios de produção; e um retorno ao status quo de antes da Guerra Civil, quando o governo republicano de centro-esquerda fazia lentas mudanças estruturais na sociedade. Os anarquistas e socialistas do POUM,4 partido do qual George Orwell fazia parte, acreditavam que essas mudanças não eram intensas ou rápidas o suficiente, e que um estado de revolução permanente seria necessário para fazer frente ao avanço das tropas fascistas de Francisco Franco. Stalin, e seus subalternos do Partido Comunista da Espanha, achavam que isso poderia ser perigoso, por conta da influência trotskista e anarquista das forças que mantinham a revolução. Criou-se então essa situação contraditória, em que a União Soviética decidiu impedir a Revolução Espanhola.

Orwell não hesitou em escolher um lado no meio da confusão: “De um lado as CNT, do outro a polícia […] Quando vejo um trabalhador de carne e osso, em conflito com seu inimigo natural ― o policial ― eu não preciso perguntar a mim mesmo que lado deverei estar”.5 Orwell estava, em última instância ― apesar do seu background imperial e burguês, do machismo típico da sua época ―, alinhado com as lutas da classe trabalhadora. Quando Orwell menciona que o policial é o inimigo natural do trabalhador, a frase advém da sua experiência empírica, enquanto policial do Império Britânico na Birmânia colonial. Ele foi testemunha dos abusos que eram cometidos contra aquela população (ver os ótimos ensaios “Shooting an Elephant” [1936] e “A Hanging” [1931]) e, após deixar o serviço e voltar à Inglaterra, passou por um processo de autoconhecimento em que percebeu a educação e os valores racistas e xenófobos que havia recebido.

No Hotel Falcón, um dos prédios controlados pelo POUM, o caos havia se instalado: crianças e mulheres, que estavam na rua no momento em que os disparos começaram, procuraram refúgio no Hotel. Para piorar a situação, quase não havia armas no edifício. Os boatos corriam soltos: Salas, o comandante do ataque à Telefónica, teria sido preso. Na realidade, ele havia sido deposto do cargo. No dia 4 de maio, Orwell saiu junto com outros companheiros para buscar alimento no Mercado de la Boquería, e para tentar entender melhor o que se passava. Nesse ínterim, encontrou Georges Kopp, que fora seu superior imediato no front aragonês e, de repente, perceberam estar no meio de uma batalha campal no quarteirão da sede executiva do POUM. A confusão era generalizada. Dentro do POUM, não se sabia se os milicianos deveriam lutar contra o PSUC,6 UGT7 e as Guardas de Assalto (como defendiam os anarquistas radicalizados), ou se deveriam seguir o conselho dos líderes da CNT,8 notadamente Federica Montseny9 e García Oliver, que espalharam informes impressos e locuções de rádio, pedindo aos trabalhadores que voltassem à labuta e, aos milicianos, que não pegassem armas. Essa tentativa de fazer cumprir o pacto de não agressão mostrou-se, em suma, inútil. Eventualmente, os dirigentes do POUM tomaram a decisão de se entrincheirar como pudessem.

A posição do POUM estava então definida. Eles colocaram sentinelas nas janelas e topos de edifícios, patrulhas no perímetro e barricadas feitas com pedras de calçamento e brita. O que ocorreu é que vários desses prédios improvisadamente fortificados estavam próximos uns dos outros, e facções opostas ocupavam posições face a face. No dia anterior, uma tropa de Guardas de Assalto ocupou o Café Moka e, depois que o conflito estourou, montou posição lá. Os membros do POUM compreenderam o evento como uma tentativa de invadir a sede do partido, e houve troca de tiros entre ambos. A essa altura, a executiva do partido havia dado ordem para que seus militantes não provocassem conflitos, e que retaliassem apenas em caso de ataque direto. Kopp, o superior de Orwell, habilmente percebeu que a troca de tiros porta-a-porta era fruto de uma confusão de ambos os lados, e interveio de maneira corajosa. Ele conseguiu estabelecer uma trégua com os Guardas. Em sinal de empatia, trocaram grades de cerveja do Café por um rifle. Durante as Jornadas não haveriam mais agressões entre os Guardas do Café Moka e os milicianos do POUM. Ainda assim, seria necessário estabelecer um posto de vigilância para defender a sede do partido. Do outro lado da rua, no Teatro Poliorama, Orwell montaria guarda e passaria três dias e três noites em vigília, no observatório do edifício, ocupando o seu tempo lendo livros da coleção Penguin que, por acaso, havia comprado há pouco, sentindo mais cansaço e tédio do que ansiedade ou medo. Orwell comentou sobre esses dias:

Eu não estava em perigo, sofria nada pior do que fome e tédio, e ainda assim foi um dos períodos mais difíceis da minha vida. Penso que poucas experiências poderiam ser mais doentias, desilusórias ou, finalmente, mais estressantes que aqueles dias malignos de combate urbano. Eu costumava sentar no topo do prédio, pensando na estupidez de tudo aquilo […] O que acontecia, quem lutava e quem ganhava, era inicialmente muito difícil de descobrir. […] Era um pouco como estar nas trincheiras de novo; várias vezes eu me pegava chamando os Guardas de Assalto de “fascistas”, pela força do hábito.

(ORWELL, Homage to Catalonia, posição 2389 [tradução livre])

“Esse é o tipo de coisa que acontece todo ano em Barcelona”, diziam as pessoas da cidade. A atitude, nas ruas, era a de que o conflito era apenas uma desavença entre anarquistas e a polícia da Generalitat. Enquanto isso, a guerra de propaganda corria na imprensa. O jornal anarquista Solidaridad Obrera um dia condenava o cerco à Telefónica e, no outro, convocava os trabalhadores a saírem das barricadas e voltarem a trabalhar. O periódico do POUM, La Batalla, circulava a partir de uma gráfica secundária, visto que sua redação, indefesa, fora tomada pelos Guardas de Assalto. Os Amigos de Durruti10 fizeram circular um panfleto anunciando a formação de uma junta, que condenaria à morte todos aqueles envolvidos no ataque à Telefónica. Por outro lado, o jornal Treball, do PSUC, acusava o POUM de “trotskismo”, bem como de ter provocado a insurreição armada. De maneira semelhante, a UGT denunciou o partido de Orwell como responsável por promover a “subversão”, comandada por elementos “contrarrevolucionários”.11

Alguns diziam que a República mandaria tropas para ocupar Barcelona, e que a meio caminho forças do POUM e das CNT-FAI as interceptariam; outros, que o POUM estaria prestes a ser classificado como inimigo do Estado e perseguido. Destróieres da Marinha Britânica foram avistados adentrando o porto de Barcelona. Estariam eles prontos para atacar a cidade? A história iria confirmar alguns desses boatos, e negar outros. Os navios de guerra foram deslocados para resgatar os súditos da Coroa Britânica; o POUM, após os eventos das Jornadas de Maio, realmente viria a ser cassado; em Valência, cerca de cinco mil soldados12 da Guarda Republicana marcharam até Barcelona para terminar o conflito ― um acordo costurado às pressas entre o relutante primeiro-ministro Largo Caballero13 e o presidente da Generalitat, Lluys Companys.

Chegando ao sexto dia de maio, a cidade sofria com a greve geral: faltavam alimentos em todos os lugares. Mesmo nos hotéis mais chiques, as refeições bastavam-se a uma lata de sardinhas. Sentia-se principalmente a falta de pão, vinho e tabaco, esse último já escasso desde o início da Guerra, com a tomada das regiões espanholas produtoras de fumo pela Quinta Coluna Franquista. Orwell comenta o que seria, para ele, o final simbólico do conflito, representando a derrota dos trabalhadores e militantes: no prédio da Telefônica, as cores rubro-negras da flâmula das CNT-FAI haviam sido substituídas pela Estellada, a bandeira nacional da Catalunha, representando o governo da Generalitat. O fim das Jornadas de Maio resultaria em uma caça às bruxas que derrubaria de vez a incipiente Revolução Catalã.

O cansaço vencia os revolucionários, bem como o povo, faminto. Eventualmente, na madrugada do dia 7 de maio de 1937, chegavam de Valência os cinco mil homens do Exército Republicano, e as Jornadas terminavam. No dia 8, os trabalhadores já voltavam aos seus postos, e o comunicado de “retorno à normalidade” propagado pela CNT foi finalmente atendido. Por outro lado, começavam agora os expurgos e perseguições aos anarquistas e ao POUM. Os dividendos políticos das Jornadas de Maio foram: a cassação do POUM, partido mais frágil dentro do espectro republicano, e a prisão de seus líderes; a queda do enfraquecido governo de Largo Caballero, e a ascensão de Juan Negrín, mais conservador; o fortalecimento do poder dos comunistas soviéticos do PCE14 e do PSUC; a virtual nulificação da influência anarquista nas decisões da República. O saldo de vítimas fatais é, até hoje, discrepante. Na época, contabilizou-se entre quinhentas e mil pessoas mortas no conflito, enquanto que segundo fontes mais recentes, o número decresce para 21815 entre os dias três e oito de maio de 1937. Sobre o final das Jornadas de Maio, o historiador Hugh Thomas é categórico: “Maio, em Barcelona, marcou o fim da Revolução. A partir daí, era o Estado Republicano contra o Estado Nacionalista, em vez da Revolução contra a Rebelião”.16

Para Eric Arthur Blair, os eventos desses dias significaram a cristalização de um sentimento antissoviético e, ao mesmo tempo, o fortalecimento da ideia de que somente um governo da classe trabalhadora e para a classe trabalhadora poderia ser revolucionário. A partir do fim desta guerra civil dentro da Guerra Civil, Blair se tornaria Orwell ― e deixaria para trás o escritor de Down and Out in Paris and London e The Road to Wigan Pier, que acreditava em um socialismo de cores utópicas. Depois daqueles dias de maio, George Orwell tomaria para si mesmo uma vendetta pessoal contra aqueles que arruinaram o sonho revolucionário da Catalunha de 1936–1937; combateria o comunismo de Stalin tão ou mais fortemente que os monarquistas, Tories, e conservadores do Daily Mail de sua Inglaterra natal. Seria o Orwell que escreveria 1984 e Animal Farm, como romancista, e Notes on Nationalism (1945) e Why I Write (1946), como ensaísta. Como disse o biógrafo John Newsinger, sobre as Jornadas de Maio:

Este é um ponto fundamental para a compreensão do desenvolvimento das suas ideias políticas. Em grande medida, Orwell aceitou a tese a favor do adiamento da conclusão do processo revolucionário, mas o que, na prática, veio a suceder foi o empenhamento dos comunistas na sua reversão […] Orwell opôs-se totalmente a isto. Não foi a recusa dos comunistas em completar a revolução durante a guerra que o alienou, mas sim a autêntica contra-revolução que levaram a cabo por trás das linhas republicanas.

(NEWSINGER, 2010, p. 105)

Os últimos três capítulos de Homage to Catalonia funcionam como o desenredo da narrativa. Após o clímax dos eventos das Jornadas de Maio, Orwell recebeu o chamado de volta ao front. Na região de Huesca, a milícia do POUM foi incorporada ao Exército Popular (hierárquico e centralizado, em contraponto aos milicianos esfarrapados dos primeiros dias da Revolução), formando a 29ª Divisão. Georges Kopp foi promovido à patente de major e Orwell tornou-se um segundo tenente.

Após apenas cinco dias no front, no dia 20 de maio de 1937, Orwell sofreu um ferimento grave. Seus companheiros viviam chamando a atenção do seu hábito de não agachar-se no parapeito da trincheira. Ora, Orwell era um homem de quase 1m90 de altura ― um gigante para o padrão de estatura ibérico. Por sua vez, ele repetia que nunca seria atingido: “Só Deus sabe quantas vezes o padrão de pontaria espanhol salvou minha vida”.17 Naquela manhã, Orwell contava um “causo” ocorrido em um bordel parisiense quando, de repente, caiu estatelado no chão. Havia levado um tiro de rifle Mauser, e a bala de 7 milímetros atravessara seu pescoço, entre a traqueia e a artéria carótida, de uma distância18 de cerca de 160 metros. O ferimento por pouco não lhe tirou a vida. Ele ficou impossibilitado de falar, e danos neurais impediram os movimentos de seu braço direito. Kopp escreveu uma carta detalhada sobre a situação de Orwell, endereçada ao irmão médico de Eileen, Lawrence O’Shaughnessy. Nela, lemos a seguinte passagem: “Los dos médicos interesados por el caso son personas honradas, eficientes y totalmente civilizadas, y han conocido muchos casos parecidos desde que comenzó la guerra […] casi todas las enfermeras son morenas”,19 observou o galanteador Kopp.

Apesar dos médicos terem dito a Orwell que nunca iria voltar a falar novamente, ele foi aos poucos se recuperando. Com o passar do tempo, a sua voz retornaria quase que completamente, ainda que com um timbre agudo e afetado, bastante rouco.20 Orwell viria a trabalhar como produtor da rádio BBC de Londres durante a Segunda Guerra Mundial, mas infelizmente não existem registros gravados da sua fala. Após algumas semanas, recebeu alta do Sanatório Maurín e, junto com a sua mulher, foi atrás da papelada necessária para desligar-se do serviço militar. Ferido, e frustrado com o fim da Revolução, ele havia decidido voltar à Inglaterra. Até que, no dia 16 de junho de 1937, o POUM foi declarado extinto pela Generalitat e pelo Governo Republicano, e todos os seus membros entraram na ilegalidade, passando a ser perseguidos sob a suspeita de “trotskismo” e “conluio com o inimigo”. O contexto político do Governo Republicano, após os eventos de maio, era desfavorável para o primeiro-ministro Francisco Largo Caballero. Criticado pela sua relutância em pôr fim ao conflito interno, ele via-se pressionado pelos comunistas e pela Rússia. Acabou renunciando. Em seu lugar, entrou Juan Negrín, médico e filho de uma família burguesa das Ilhas Canárias. Largo, que por profissão era um estucador, possuía raízes proletárias, e foi ligado ao sindicalismo, tendo sido um dos líderes da UGT. Negrín, ainda que socialista, era um moderado, mais afinado com os interesses das classes médias do que com os da classe trabalhadora. O historiador Hugh Thomas21 o descreve como um oportunista realista: um homem que faria qualquer sacrifício político para ganhar a guerra. Naquela conjuntura, isso significava uma aproximação com a União Soviética e com os partidos comunistas da Espanha. Como diria Thomas: “Sua subsequente relação com a Rússia assemelhou-se com a entre Fausto e Mefistófeles”.22 Da mesma maneira, o biógrafo de Orwell Jean-Pierre Devroey23 afirma que Negrín, um homem vaidoso e ambicioso, não pensou duas vezes em atender às exigências dos soviéticos e pedir o fechamento da redação de La Batalla,24 bem como a cassação do POUM. Na Barcelona de junho de 1937, a ressaca das Jornadas de Maio ainda produzia choques violentos, em uma onda de represálias que fez ao menos 58 vítimas conhecidas. O historiador Joan Manuel Rúa classificaria o resultado das Jornadas como a reorientação real do processo revolucionário na Catalunha, dissolvendo os seus instrumentos e moderando as suas aspirações.25 O Partido Comunista de España se aproveitou de uma CNT debilitada e alijada dos centros de poder na Catalunha, para tomar o controle da ordem pública e criar instituições de repressão, como o Servicio de Información Militar (SIM), polícia secreta aos moldes da NKVD26 russa. Dessa maneira, ao final do dia 16 de junho de 1937, ao menos quarenta quadros do POUM foram detidos. Notadamente, a principal figura do partido, Andreu Nin, foi preso e assassinado. A morte de Nin pode ser considerada como um dos resultados mais emblemáticos das manipulações soviéticas na Espanha da Guerra Civil: a Operação Nikolai.

Orwell acabara de chegar a Barcelona pela primeira vez, quando uma nota foi publicada no jornal estatal russo Pravda: começaram os preparativos para eliminar os elementos trotskistas e anarco-sindicalistas da Catalunha, e “essa tarefa deveria ser cumprida com a mesma energia com que foi feita na União Soviética”.27 Os Julgamentos de Moscou, que serviram como instrumento para a eliminação da velha guarda dos bolcheviques, estavam em pleno curso na Rússia de Stalin. A Operação foi encabeçada pelo húngaro Ernö Gerö, (pseudônimo de Ernst Moritsvotich Gere), bem como Alexander Orlov (Leva Lazarevitch Feldvin), alto dirigente da NKVD, e também por um russo-brasileiro, de codinome Juzik, identificado depois como José Escoy ― que supervisionou diretamente o sequestro e posterior assassinato de Andreu Nin em uma caserna nos subúrbios de Madrid. George Orwell também foi alvo da Operação Nikolai. Harry Pollitt, o secretário do Partido Comunista britânico ― a quem Orwell pediu assistência para entrar com segurança na Espanha ― tinha como agente na Catalunha um londrino de nome Hugh O’Donnell,28 que se misturou ao contingente do ILP em Barcelona.

Alguns dias depois da chegada de Orwell, em dezembro de 1936, o militante comunista inglês David Crook voluntariou-se para as Brigadas Internacionais, com o salvo-conduto de Harry Pollitt. Logo foi cooptado por agentes do Comintern29 para ser treinado como espião na rede da Operação Nikolai. Curiosamente, Crook foi pupilo de ninguém menos que Ramón Mercader, que seria conhecido depois pelo assassinato de Léon Trotski no México, em 1940.30 A Crook, foi dada a missão de infiltrar-se no ILP e fazer a vigilância de John Mcnair, Georges Kopp, e do casal Eric e Eileen Blair. Crook,31 em suas memórias, descreveu Orwell como sendo “o membro mais popular do contingente inglês”.32 Eventualmente, ele se aproximou de Orwell e sua mulher, tornando-se amigo de ambos.

Caminhando por Barcelona, Orwell descreveu o “clima de pesadelo” em que vivia a cidade:

Não é fácil transmitir a atmosfera de pesadelo daquela época ― a apreensão peculiar produzida por boatos que estavam sempre mudando, pelos jornais censurados e pela presença constante de homens armados. Não é fácil transmiti-la, porque, no momento, a coisa essencial para uma atmosfera assim não existe na Inglaterra. Na Inglaterra, a intolerância política ainda não é um dado corriqueiro. […] Parecia natural até demais em Barcelona. […] Era como se alguma enorme inteligência do mal estivesse pairando sobre a cidade. Todo mundo notava isso e comentava. E era esquisita a forma como todos se expressavam, quase com as mesmas palavras. A atmosfera desse lugar é horrível. É como estar em um asilo de loucos.

(ORWELL, Homage to Catalonia, pos. 2925, tradução livre).

Mais uma vez, vemos aqui um contraponto à atmosfera de camaradagem e igualdade que Orwell encontrou em sua primeira visita a Barcelona. Agora, com a Revolução derrotada, o que sobrava eram os que Orwell chamava de gangster-gramophones ― agentes soviéticos infiltrados nos bares, cafés e sedes de partidos, verdadeira vanguarda do plano de Stalin para a Catalunha.

Uma campanha de difamação ocorria na cidade: os jornais publicavam artigos conclamando a população a entregar os “quinta-colunistas” do POUM; caricaturas comparavam os “trotskistas” a agentes de Hitler; listas com os nomes de membros do partido eram divulgadas. Muitos milicianos tiveram de mudar seus nomes, sair da cidade, ou até mesmo voltar ao front, sempre escondendo o passado político. A campanha difamatória também chegaria aos centros de instrução militar comandados por membros do PCE, de maneira que, pouco a pouco, a mensagem de “o POUM é contra-revolucionário” estaria na boca do povo. Os membros do partido viveram uma verdadeira situação de psicose, suspeitando de tudo e todos, sempre com o medo de serem descobertos e detidos. Orwell foi encontrar sua mulher Eileen Blair no Hotel Continental, onde ela estava hospedada. Ela lhe contou que, alguns dias antes, agentes da polícia secreta invadiram o seu quarto e levaram todo tipo de papelada, incluindo os diários de Orwell,33 cartas e até mesmo uma cópia da autobiografia de Adolf Hitler, Mein Kampf (1925). Eileen conseguiu evitar que lhes fossem tirados os passaportes, além de outros documentos importantes, escondendo-os nos lençóis da cama.

Dessa maneira, Orwell, Eileen, e outros dois voluntários ingleses se encontraram no Consulado Britânico em Barcelona, onde descobriram que seriam necessários três dias para que a documentação exigida para sair da Espanha estivesse pronta. Sem lugar para ir, cada um se separou e tomou rumo próprio. Orwell utilizou-se da expertise ganha nas expedições mendicantes, narradas em Down and Out in Paris and London (1933), e vagou pela cidade até encontrar um abrigo noturno nas ruínas de uma igreja, queimada pelos anarquistas nos primeiros dias da Revolução. Orwell estava cansado, com fome, amedrontado e se recuperando de um ferimento grave. No dia seguinte, foi informado da morte de seu companheiro de front, Bob Smillie. O jovem militante escocês havia sido preso alguns dias antes, e não era conhecida exatamente a causa do seu falecimento: alguns diziam que tinha sido por conta de uma apendicite não tratada; outros, que havia sido espancado até a morte, ou fuzilado. De qualquer maneira, Orwell, que foi muito próximo de Smillie, ficou traumatizado. É possível que a morte de Smillie tenha sido um catalisador emocional para o seu anti-stalinismo: segundo o biógrafo Gordon Bowker, “Se alguma coisa fez a visão de Orwell do comunismo stalinista passar de uma simples hostilidade, para um profundo ódio da mesma, foi a morte de Smillie”.34

A morte de Smillie não é algo que eu possa facilmente perdoar. Aqui estava este rapaz de talento e coragem, que renunciou à carreira na universidade de Glasgow, para vir lutar contra o fascismo e que, como vi por mim mesmo, fizera o seu trabalho na frente de batalha com vontade e coragem irreprocháveis. E tudo o que conseguiram fazer com ele foi jogá-lo na cadeia e deixá-lo morrer como um animal abandonado. Sei que no meio de uma guerra enorme e sangrenta não adianta fazer muita confusão por causa de uma única morte. […] Mas o que me enraivece acerca de uma morte é a sua completa falta de sentido. […] Não consigo enxergar como esse tipo de coisa — e não se trata, no caso de Smillie, de um caso excepcional — contribuía para a vitória.

(Homage to Catalonia, pos 3184, tradução livre).

Incógnito, Orwell foi visitar o amigo e superior, Georges Kopp, na Prisão Modelo de Barcelona, local que viria a receber a maioria dos estrangeiros feitos prisioneiros políticos pelos comunistas. Segundo o relato de um dos membros do ILP que visitou a Prisão: “a Modelo era uma autêntica Internacional dos prisioneiros […] [eles] entoaram duas canções da CNT, seguidas pela ‘Internacional’, terminando com vivas entusiastas à CNT, à FAI e ao POUM”.35 Além disso, as condições de vida na prisão eram bastante ruins, com celas abarrotadas, sujas e malcheirosas. Orwell comparou-a a uma prisão inglesa do século XVIII. Kopp pediu a Orwell que entregasse a um oficial da Generalitat uma carta de recomendação, que potencialmente o livraria da cadeira. Orwell narra, então, os périplos para tentar encontrar o tal oficial. Após muito caminhar pela cidade de Barcelona e enfrentar entraves burocráticos, ele conseguiu uma audiência com um outro superior, que lhe atendeu de maneira cordial, ainda que Orwell lhe houvesse dito que fazia parte do POUM. Nada se sucedeu, e Kopp passaria dezoito meses sendo interrogado e torturado por agentes da polícia secreta espanhola. Em 1939, ele conseguiu fugir para a Inglaterra, ficando hospedado com o cunhado de Orwell, Lawrence.36 Curiosamente, David Crook, o espião comunista que se passou por amigo dos Blair, esteve preso na mesma cela de Kopp, como uma maneira de interceptar as cartas que o superior de Orwell mandava para o POUM.

Perseguido pelas forças republicanas com a ilegalidade do POUM, e após passar dias se escondendo e dormindo ao relento, Orwell embarcou em um trem no dia 23 de junho de 1937, ao lado de sua esposa Eileen e dos compatriotas Stafford Cottman e John McNair, cruzando a fronteira dos Pirineus. Após um tempo se recuperando na cidade francesa de Banyuls-sur-Mer37 (onde descreveu um clima “pouco amigável” com os viajantes provenientes de Barcelona), ele retornou à Inglaterra. Orwell foi julgado in absentia em 13 de julho de 1937. Boa parte das “provas” contra ele foram conseguidas por David Crook, e pela rede de espionagem da qual fez parte, a Operação Nikolai. O julgamento não resultou em nada, pois o escritor já estava na segurança do lar.

Apesar de toda a desgraça que presenciou, da perseguição política e do assassinato dos companheiros, Orwell conseguiu reter uma imagem da Espanha, em última instância, positiva. As muitas leituras liberais e conservadoras da obra de Orwell ressaltam o seu anticomunismo, mas parecem “esquecer” que ele nunca deixou de ser um socialista. Anos mais tarde, ele escreveu no famoso ensaio Why I Write, de 1946: “A guerra na Espanha e outros eventos em 1936–7 pesaram na balança e, depois disso, já sabia minha posição. Todas as linhas das obras sérias que escrevi a partir de 1936 foram escritas, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, tal como eu o entendo.”38 Ficou, para ele, a imagem do miliciano italiano, que encontrou em seus primeiros dias em Barcelona: “[ele] simboliza para mim a flor da classe trabalhadora europeia, perseguida pela polícia de todos os países, pessoas que vão lotar as valas comuns dos campos de batalhas espanhóis e estão agora, atingindo a soma de vários milhões, apodrecendo nos campos de trabalhos forçados”.39 Orwell dedicou ao miliciano inominado um poema. Leiamos o seu último verso.

Mas o que vi em seu rosto
Nenhum poder consegue deserdar
Nenhuma bomba irá jamais
Quebrar o espírito de cristal.40