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George Orwell — O futuro foi ontem

Apresentação

Completados setenta anos da morte de Eric Arthur Blair, mais conhecido como George Orwell, sua obra entrou em domínio público a partir de 2021. Em razão desse acontecimento, diversas novas traduções de suas obras começam a aparecer em português, tanto de seus textos mais conhecidos de ficção quanto de obras não ficcionais que, apesar de menos conhecidas, são igualmente relevantes. Esse dossiê que ora vem à tona procura jogar luz em algumas das facetas menos conhecidas do autor, mas sem deixar de lado as reflexões sobre sua obra mais cultuada, 1984.

Apresentamos dois textos de Orwell inéditos no Brasil: “Fascismo e democracia” e “A liberdade morrerá com o capitalismo?”. Escritos que fazem parte de um momento importante, no qual Orwell toma uma posição mais combativa quanto ao tema da guerra, afasta qualquer hipótese de pacifismo e faz uma advertência dramática sobre o real significado da extrema direita, mostrando que, com todas as suas imperfeições, ainda valia a pena lutar pela democracia. Em ambos os textos também fica clara a postura resolutamente socialista do autor, e ele chega a explicar em detalhes qual é sua visão sobre uma democracia socialista.

Com relação à atuação de Orwell no interior dos intricados debates da esquerda britânica dos anos 1930, os textos de Leonardo Trevas, “Orwell na Guerra Civil Espanhola: as Jornadas de Maio de 1937 e a traição de Stalin”, de Theo Williams, “George Orwell e o anti-imperialismo” e de Matheus da Silva, “George Orwell e o Left Book Club”, são elucidativos. Os três mostram o profundo envolvimento político de Orwell não só com diversas organizações da esquerda, mas com os temas candentes do momento, afastando a ideia de que se tratava de um escritor fora de seu tempo ou pouco afeito aos debates político, preferindo sempre um julgamento moral.

Também afastando a ideia de um Orwell moralista, procuro destrinchar a sofisticada e sutil concepção de socialismo presente em sua obra. Em meu texto, “Common sense, Common Decency e socialismo democrático”, exponho as raízes filosóficas, morais e políticos do socialismo orwelliano, pensando que essa opção política vai muito além de uma série de opções morais.

Por fim, os textos de Débora Tavares, “O mundo em colapso: reverberações contemporâneas da obra de George Orwell” e de Gregory Claeys, “Orwell, distopia e o século XXI”, procuram reatualizar a questão da atualidade de Orwell. Em quais sentidos podemos pensar que seus romances, especialmente, mas não só, 1984, podem nos ajudar a entender melhor o mundo em que vivemos ou em que viveremos? Essa é a pergunta que percorre ambas as contribuições.

Apesar de ser mitificado por muitos, à esquerda e à direita, Orwell era um ser humano. E, como tal, carregava contradições. Não vamos encontrar, nos textos deste dossiê, qualquer tentativa de entronizar o autor, de falar, pela enésima vez, que ele estava certo a todo momento. Ou de rejeitá-lo em bloco, mesmo sabendo de textos, posições e atitudes que hoje nos parecem decepcionantes.1 Não é disso que se trata, mas de tentar mostrar, lucidamente, em que sentido sua obra ainda pode ser um repositório de questões e respostas que nos incentiva a empreender, de novo e de novo, uma reflexão sobre a política, a sociedade e o ser humano.

Agradecemos a todos que colaboraram para esse dossiê. Aos autores dos textos, já mencionados, a Nicollás Llano, que fez a tradução do texto de Theo Williams e à artista Isabella Reiche, que produziu as imagens que se entrelaçam com os artigos e os temas levantados.