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O desafio no horizonte

Maura Grimaldi

Não é o primeiro editorial em que a revista Rosa apoia abertamente o impeachment de Bolsonaro. Desde nosso primeiro número alertamos para o perigo de sua permanência no poder. Ainda antes da pandemia, os pedidos de impeachment se avolumavam na mesa do então presidente da Câmara Rodrigo Maia. Já se vão mais de 800 dias desde o primeiro. Eles versavam sobre crimes relacionados a quebra de decoro, improbidade administrativa, abuso de poder, manifestações antidemocráticas, interferências na Polícia Federal, entre outros. Com a chegada da pandemia, Bolsonaro se provou, de fato, um facínora: torturou o Brasil, assim como seus ídolos fizeram contra os que lutavam por democracia.

Se já era evidente que a morte era o fundamento e a verdade da política bolsonarista, desde a homenagem a Ustra até a morte de Marielle, a pandemia foi a crise que escancarou essa obviedade. A morte, quando planejada e organizada pelo Estado, pode adquirir o caráter de crime contra a humanidade. Para fundamentar a ideia de que a violência estatal de nosso contexto recente justifica tal expressão, basta consultar o trabalho recente da professora Deisy Ventura, que explica detalhadamente como a concepção esdrúxula de uma imunidade de rebanho por contágio custou a vida de milhares de pessoas. Em pesquisa coordenada por Guilherme Werneck, Ligia Bahia, Jéssica Moreira e Mário Scheffer, calcula-se que, até março de 2021, 120 mil mortes poderiam ter sido evitadas caso a conduta do governo fosse diferente. Ou seja, houve uma estratégia deliberada do governo federal em disseminar o vírus. A tese se mostra ainda mais acertada quando se descobriu, via CPI, a existência de um Ministério da Saúde paralelo, uma organização clandestina que, em plena pandemia, dava conselhos negacionistas ao presidente em plena pandemia, reforçando a crença em remédios comprovadamente ineficazes e pondo em dúvida a eficácia das vacinas.

Ironicamente, o Elba de Bolsonaro pode ser uma vacina. Um servidor federal, irmão de um deputado da base do governo, recebe uma pressão atípica de seus superiores para validar o contrato referente a uma vacina específica. O contrato estabelecia o pagamento adiantado das doses de uma vacina que ainda não tinha aprovação da Anvisa. Enquanto isso, as dezenas de e-mails de uma outra empresa, esta idônea, com vacinas com excelentes descontos, nem sequer eram respondidos. Descobre-se, pelo depoimento do tal servidor à CPI, que mesmo ele tendo resistido, o processo foi levado adiante por uma funcionária indicada pelo líder do governo na Câmara, um deputado que bradava alto e bom som a necessidade de acelerar a compra dessa vacina e que propôs uma alteração legislativa para que seu uso não dependesse do aval da Anvisa. O dinheiro para a compra, uma cifra bilionária, já estava inclusive empenhado. O esquema consistia em superfaturar o valor da remessa e desviar algo em torno de 200 milhões de reais para paraísos fiscais. Avisado pelo deputado da base aliada, o presidente garantiu que levaria o caso à Polícia Federal, mas não o fez. Na sequência, aparecem indícios de que seu filho, Flávio, teria aberto as portas do BNDES para a Precisa, empresa muito suspeita e que negociaria as doses da vacina Covaxin. Em suma, é corrupção com requintes de crueldade: enquanto faltava vacina no braço dos brasileiros, sobraria dinheiro nas mãos dos deputados do centrão, tudo com a anuência tácita do presidente. O crime de prevaricação é evidente.

É salutar que essa história venha à tona, mas, por paradoxal que soe, ela pode complicar a vida da oposição. A queda de Bolsonaro ainda não aconteceu porque o centrão e as forças armadas tentam extorqui-lo até o fim enquanto procuram uma saída ideal. Se o impeachment fosse capitaneado pela oposição, ele abriria espaço para questionar não apenas o presidente, mas todos os que compactuaram com seu projeto. Agora, no entanto, parece que começa a se desenhar o álibi perfeito. Acusar Bolsonaro de corrupção seria tanto individualizar o problema quanto evocar a única justificativa que se provou capaz de atiçar o imaginário de parte da classe média e da elite brasileira. Ao que tudo indica, o caso Covaxin envolve Bolsonaro diretamente — e a denúncia vem do coração de sua base aliada. É verdade que não há bala de prata. Bolsonaro já mostrou como é capaz de se esquivar das situações mais embaraçosas, mas esse é, até agora, o momento mais propício para o impeachment. Ele só pode se materializar, contudo, se houver pressão suficiente da opinião pública e das ruas, deixando o hoje poderoso Arthur Lira sem opção.

Porém, essa queda, por necessária que seja, não é uma vitória final. A direita já tenta manobrar para que o impeachment apresente Bolsonaro como um “louco” que agiu na companhia de seus filhos aloprados e do arquicorrupto deputado Ricardo Barros. Assim, não seriam responsabilizados os neoliberais, os fisiológicos e as forças armadas. Imolar Bolsonaro seria necessário para a continuidade dos grupos que o apoiaram. Tal como o presidente fez com Bebianno, Weintraub, Felipe Martins, Ernesto Araújo e Ricardo Salles, chegou a hora de ele mesmo ser sacrificado em nome da perpetuação de um projeto do qual Bolsonaro representou apenas a encarnação mais perversa e radical. Para isso, o centrão tentará a todo custo esconder o protagonismo das ruas, onde a esquerda é hegemônica, propondo uma saída pactuada por cima. Hoje, a agenda número 1 da esquerda não poderia ser outra senão lutar pelo impeachment, o que significa um bom trabalho parlamentar, mas sobretudo a ocupação das ruas. Não fazer esse movimento, sob o pretexto de que as aglomerações são perigosas em um contexto de pandemia, é um engano grave. É possível, sim, como já se viu, ir às ruas protegidos, usando máscaras adequadas e mantendo distanciamento. Há um abismo entre os que aglomeram para disseminar a morte e aqueles que se unem para exigir a vida. Apenas assim se pode evitar que o impeachment seja encampado pela direita arrependida, que pretende esbanjar uma suposta atitude heroica a fim de ter um salvo-conduto para seguir em frente, impune, mesmo depois de ter apoiado e sido conivente com o bolsonarismo.

Mas a esquerda realmente quer o impeachment? No mesmo dia em que o deputado e seu irmão foram depor, foi divulgada uma pesquisa na qual a aprovação de Bolsonaro cai e o ex-presidente Lula aparece muito à frente na intenção de voto para 2022. Pelo levantamento, Lula talvez ganhasse até mesmo no primeiro turno. Muitos têm na cabeça que a melhor estratégia seria sangrar Bolsonaro até as eleições. Podemos depositar fé em um evento incerto? Nada nos garante que Bolsonaro não seja capaz de retomar parte de sua popularidade no ano que vem. Mais: a própria eleição pode ser uma armadilha, já que Bolsonaro deixa claro que fará de tudo para tumultuá-la, usando algum expediente mentiroso para contestar tanto a forma quanto o resultado do processo. Blefe? Seria melhor não pagar pra ver…

Em todo caso, se chegarmos às eleições com Bolsonaro no páreo, contando que elas ocorressem em normalidade, votaríamos em um nome contra outro nome. Seríamos obrigados, sem discussão, a escolher uma liderança carismática capaz de galvanizar a maior quantidade de votos contra a continuidade de uma política de extermínio. Ora, não há dúvida alguma que Lula é preferível a Bolsonaro — e é preciso dizê-lo com todas as letras, sem titubear. Acontece que a eleição de Lula seria um alívio irrequieto. Pois o bolsonarismo — a dilapidação das instituições, a consciência anti-democrática, o ódio político, as milícias, o armamentismo, a destruição do meio-ambiente, o extermínio dos povos originários, a sanha golpista, o descontrole das forças armadas, a exaltação a torturadores, a perseguição a artistas e intelectuais — pode prosseguir sem Bolsonaro. Por certo, o primeiro passo para esmagar a insidiosa serpente do neofascismo à brasileira é derrubar seu representante-mor. Só que a tarefa que se afigura em nosso horizonte é maior do que essa: precisaríamos pensar além de Lula, muito além — sua eleição não seria suficiente para reverter a barbárie em que nos encontramos. Caso o impeachment não se torne realidade, a agenda da esquerda é não apenas escolher o candidato do campo progressista com as maiores chances de derrotar Bolsonaro, mas acumular forças para ir além, e não aquém, do lulismo, colocando-nos à altura do desafio que nos espera.

Se for esse o caso, estaria colocado o problema de saber o que seria um cenário pós-bolsonarista. Um momento delicado, ao menos tão complexo quanto o início da redemocratização. Seria preciso pensar em nada menos do que a reinvenção da democracia brasileira, do qual o ponto de partida necessário é passar a limpo os descalabros que permitiram a Bolsonaro chegar ao poder e os crimes que ele praticou durante seu mandato, julgando todos que tiveram alguma participação neles. Não há mais espaço para reconciliação com nosso passado sombrio: coragem é romper com o que nos assombra. Capitular diante dessa tarefa histórica seria reeditar todas as contradições que estavam na base da Nova República, e correr o risco de ver o país se esfacelar mais uma vez. É para essa reconstrução da vida democrática brasileira que devemos estar preparados e é pra ela que a Rosa gostaria de contribuir.

Este texto foi publicado no 3º número do volume 3 da Revista Rosa em 30/6/2021.