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Três poemas de Lawrence Ferlinghetti1

Os três poemas foram traduzidos a quatro mãos, que é o nosso método de tradução para a antologia de Ferlinghetti que preparamos para breve.

Viva Ferlinghetti!

Saúde!

— Natália Agra e Fabiano Calixto


Utilidades da poesia


Então, para que serve a poesia nesses nossos dias?
Qual seu uso? Qual sua utilidade?
Nesses dias e noites da Era do Capocalipse
em que a poesia é o asfalto
das estradas dos exércitos noturnos
como naquele paraíso de palmeiras no norte da Nicarágua
onde promessas são feitas nas plazas
e desfeitas nas quebradas
ou nos campos verdíssimos
da Estação de Armas Navais de Concord
onde trens blindados esmagam manifestantes verdes
onde a poesia se faz importante pela ausência
ausência de pássaros na paisagem de verão
ausência de amor nas coxas da meia-noite
ausência de luz ao meio-dia
na Casa (não tão) Branca
Pois mesmo a poesia ruim é importante
por aquilo que não diz
por aquilo que abandona
Que dizer do sol escorrendo
pela pele da manhã
das noites brancas e das bocas sedentas
lábios ululando Lulu sem parar
e dos seres alados que cantam
e dos gritos distantes numa praia ao anoitecer
e da luz jamais vista em terra ou mar
e das cavernas descobertas pelo homem
onde corriam rios sagrados
junto às cidades costeiras
onde caminhamos distraídos
intensamente comovidos
com o louco espetáculo da existência
todos esses animais tagarelas sobre rodas
heróis e heroínas com mil olhos
com corações corajosos e superalmas ocultas
nem aí para mitos
(Por uma vida sem mitos!
gritou Joseph Campbell
e se mandou de barco para o Havaí)
sempre impressionados por eu insistir
com esses aprumados bípedes de cara lisa
esses atores frementes
pálidos ídolos nas ruas noturnas
dançarinos extáticos no pó da Last Waltz
nesse tempo de engarrafamentos da Era do Capocalipse
onde a voz do poeta soa distante
a voz da Quarta Pessoa do Singular
a voz dentro da voz da tartaruga
a face atrás da face da raça
letras de luz na página da noite
a ávida voz da vida como a escutara Whitman
um leve riso selvagem
(quiçá a libertemos
do editor de texto da mente!)
E eu sou o repórter diário
de outro planeta
redigindo a história decadente
do Que Quando Onde Como e Por quê
dessa espantosa vida aqui
e dos estranhos palhaços que governam
com os cotovelos no parapeito
das demoníacas aterrorizantes fábricas
lançando suas sombras entrevadas
na grande sombra da Terra
no fim do tempo não visto
no supremo haxixe do nosso sonho



Uses of poetry


So what is the use of poetry these days
What use is it What good is it
these days and nights in the Age of Autogeddon
in which poetry is what has been paved over
to make a freeway for armies of the night
as in that palm paradiso just north of Nicaragua
where promises made in the plazas
will be betrayed in the back country
or in the so-green fields
of the Concord Naval Weapons Station
Where armed trains run over green protesters
where poetry is made important by its absence
the absence of birds in a summer landscape
the lack of love in a bed at midnight
the lack of light at High Noon
in the no-so-White House
For even bad poetry has relevance
for what it does not say
for what it leaves out
Yes what of the sun streaming down
in the meshes of morning
what of white nights and mouths of desire
lips saying Lulu over and over
and all things born with wings that sing
and far far cries upon a beach at nightfall
and light that never was on land and sea
and caverns measured-out by man
where once the sacred rivers ran
near cities by the sea
through which we walk and wander absently
astounded constantly
and by the mad spectacle of existence
all these talking animals on wheels
heroes and heroines with a thousand eyes
with bents hearts and hidden oversouls
with no more myths to call their own
(No more myths to live by!
cried Joseph Campbell
and went hull-down in Hawaii)
constantly astounded as I am still
by these bare-face bipeds in clothes
these stand-up tragedians
pale idols in the night streets
trance-dancers in the dust of Last Waltz
in this time of gridlock Autogeddon
where the voice of the poet still sounds distantly
the voice of the Fourth Person Singular
the voice within the voice of the turtle
the face behind the face of the race
a book of light at night
the very voice of life as Whitman heard it
a wild soft laughter
(ah but to free it still
from the word-processor of the mind!)
And I am a reporter for a newspaper
on another planet
come to file a down-to-earth story
of the What When Where How and Why
of this astounding life down here
and of the strange clowns in control of it
with hands upon the windowssills
of dread demonic mills
casting their own dark shadows
into the earth’s great shadow
in the end of time unseen
in the supreme hashish of our dream

Um sol para Ferlinghetti, Adelita Ahmad.
Vozes: Adelita Ahmad, Gustavo Galo e Júlia Rocha.


Dicionários de luz


O sol o sol
           vem dobrando a esquina
                      como um velho cavaleiro brilhante
                                            galopando pela paisagem
                                               nos cavalos da manhã

                      E sacudindo sua lança sobre nós
                                 em transe noturno
                                            nos acorda para falar ou cantar
                                                       para banir a morte e a escuridão


E cada corcel uma palavra
                      cada verbo um garanhão
                                 erguido contra toda ignorância

Radicais indomáveis desenfreados
           em dicionários de luz



Dictionaries of Light


The sun the sun
           comes round the corner
                      like a shining knight of old
                                            galloping over the landscape
                                               on the horses of morning

                      And shaking his lance over us
                                 in trance of night
                                            awakens us to speak or sing
                                                       to banish death and darkness


And each steed a word
                      each verb a stallion
                                 reared up against all ignorance

Untamed rampant radicals
           in dictionaries of light


Sinais 2020, Júlia Rocha

Instruções para pintores & poetas


Perguntei a cem pintores e a cem poetas
como pintar a luz do sol
no rosto da vida
As respostas foram ambíguas e ingênuas
como se estivessem guardando segredos comerciais
Entretanto, me parece que
tudo que você tem que fazer
é criar o mundo inteiro
e toda a humanidade
como uma espécie de obra de arte
uma obra de arte site-specific
um projeto de arte do deus da luz
toda a Terra e tudo o que há nela
pintado com luz

E a primeira coisa a se fazer
é pintar algo pós-moderno
E, depois, pintar a si mesmo
em cores verdadeiras
em cores primárias
como vocês as vê
(sem cal)
pinte-se como você se vê
sem maquiagem
sem máscaras
Depois, pinte suas pessoas e animais favoritos
com seu pincel cheio de luz
E certifique-se de que a perspectiva está correta
E não finja
pois uma linha falsa leva a outra

E então pinte altas colinas
quando tocadas pela primeira vez pelo sol
em uma manhã de outono
Com a espátula
coloque
as folhas amarelas de cádmio
as folhas ocres
as folhas de vermelhão
de um outono da Nova Inglaterra
E pinte a luz fantasma das noites de verão
e a luz do sol da meia-noite
que é a luz da lua
E não pinte as sombras feitas pela luz

pois sem chiaroscuro terá imagens superficiais
Então pinte também todos os cantos escuros
de todo o mundo
todos os lugares escondidos e corações e mentes
que a luz jamais alcança
todas as cavernas de ignorância e medo
a fossa do desespero
as lamas do desânimo
e escreva bem claramente
“Deixai todo desespero, vós que entrais”

E não se esqueça de pintar
todos aqueles que viveram suas vidas
como portadores de luz
Pinte seus olhos
e os olhos de cada animal
e os olhos de belas mulheres
mais conhecidas pela perfeição de seus seios
e os olhos de homens e mulheres
conhecidos apenas pela luz de suas mentes
Pinte a luz de seus olhos
a luz do riso iluminado pelo sol
a canção dos olhos
a canção dos pássaros em voo

E lembre-se de que a luz é interior
em qualquer lugar
e você deve pintar de dentro
Comece com pureza
com branco puro
o branco puro do gesso
o branco puro do cádmio branco
o branco puro do flake white
a tela pura e virgem
a vida pura, início de todos nós

Turner pintou a luz do sol
com têmpera a ovo
(que se mostrou instável)
e Van Gogh fez o mesmo com loucura
e sangue de sua orelha
(também instável)
e os impressionistas também
por jamais usar preto
e os expressionistas abstratos também
com pintura de casa branca
Mas você pode fazer isso com o pigmento puro
(se conseguir descobrir a fórmula)
de sua própria e verdadeira luz
mas antes de dar a primeira pincelada
na tela virgem
lembre de sua fragilidade
a extrema fragilidade da vida
e lembre sua inocência
sua inocência original
antes da primeira pincelada

Ou talvez nem comece
E deixe a luz atravessar
a luz interna da tela
a luz interna dos modelos
nos estudos da vida
a luz interior de todos
Deixe tudo fluir
como um pentimento
a luz pintada
a vida pintada
inúmeras vezes
Deixe tudo emergir
a imagem pintada
da vida primitiva na terra

E quando terminar sua pintura
afaste-se atônito
afaste-se e observe
a vida que criou na terra
a vida iluminada na terra
você criou
um admirável mundo novo



Instructions to Painters & Poets


I asked a hundred painters and a hundred poets
how to paint sunlight
on the face of life
Their answers were ambiguous and ingenuous
as if they were all guarding trade secrets
Whereas it seems to me
all you have to do
is conceive of the whole world
and all humanity
as a kind of art work
a site-specific art work
an art project of the god of light
the whole earth and all that’s in it
to be painted with light

And the first thing you have to do
is paint out postmodern painting
And the next thing is to paint yourself
in your true colors
in primary colors
as you see them
(without whitewash)
paint yourself as you see yourself
without make-up
without masks
Then paint your favorite people and animals
with your brush loaded with light
And be sure you get the perspective right
and don’t fake it
because one false line leads to another

And then paint the high hills
when the sun first strikes them
on an autumn morning
With your palette knife
lay it on
the cadmium yellow leaves
the ochre leaves
the vermillion leaves
of a New England autumn
And paint the ghost light of summer nights
and the light of the midnight sun
which is moon light
And don’t paint out the shadows made by light

for without chiaroscuro you’ll have shallow pictures
So paint all the dark corners too
everywhere in the world
all the hidden places and minds and hearts
which light never reaches
all the caves of ignorance and fear
the pits of despair
the sloughs of despond
and write plain upon them
“Abandon all despair, ye who enter here”

And don’t forget to paint
all those who lived their lives
as bearers of light
Paint their eyes
and the eyes of every animal
and the eyes of beautiful women
known best for the perfection of their breasts
and the eyes of men and women
known only for the light of their minds
Paint the light of their eyes
the light of sunlit laughter
the song of eyes
the song of birds in flight

And remember that the light is within
if it is anywhere
and you must paint from the inside
Start with purity
with pure white
the pure white of gesso
the pure white of cadmium white
the pure white of flake white
the pure virgin canvas
the pure life we all begin with

Turner painted sunlight
with egg tempera
(which proved unstable)
and Van Gogh did it with madness
and the blood of his ear
(also unstable)
and the Impressionists did it
by never using black
and the Abstract Expressionists did it
with white house paint
But you can do it with the pure pigment
(if you can figure out the formula)
of your own true light
But before you striek the first blow
on the virgin canvas
remember its fragility
life’s extreme fragility
and remember its innocence
its original innocence
before you strike the first blow

Or perhaps never strike it
And let the light come through
the inner light of the canvas
the inner light of the models posed
in the life study
the inner light of everyone
Let it all come through
like a pentimento
the light that’s been painted over
the life that’s been painted over
so many times
Let it all surge to the surface
the painted-over image
of primal life on earth

And when you’ve finished your painting
stand back astonished
stand back and observe
the life on earth that you’ve created
the lighted life on earth
that you’ve created
a new brave world