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Franz Fanon em revista

Apresentação

Documentação do processo de construção das ilustrações da série In The Moonlight Black Boys Look Blue, Rafael RG, 2021.

A terceira edição brasileira de Pele negra, máscaras brancas, lançada ano passado pela Ubu, com tradução de Sebastião Nascimento e Raquel Camargo, serviu de pretexto para a Revista Rosa revisitar esse clássico do psiquiatra e filósofo martinicano Frantz Fanon. A atualidade de seu pensamento, evidenciada pelos (e nos) artigos que compõem este dossiê, se comprova cotidianamente no racismo das práticas sociais e culturais brasileiras.

Nathalia Silva Carneiro e Nicolau Gayão nos mostram aquilo que, de Fanon, ainda queima. “Fogaréus se espalham pelo mundo”, constata a dupla, nos lembrando que a destruição do meio-ambiente e os protestos pelo assassinato de George Floyd, João Pedro e tantos/as outros/as repousam sobre um mesmo fundamento: são todas emanações de um mesmo “universo mórbido”, colonial e racista.

Daí em diante, o dossiê se propõe a colocar Fanon em diálogo e em perspectiva. Victor Galdino traz a herança fanoniana legada a Achille Mbembe, num artigo-ensaio em que vozes de homens negros se confundem. Nesta polifonia, a ferida do racismo se expõe, em fragmentos: “Eis aqui os estilhaços recolhidos por um outro eu”, escreveu Fanon, releu Mbembe, citou Galdino.

De Pedro Ambra vem o encontro de Lélia Gonzalez com o Fanon cujos estudos psiquiátricos se põem a serviço do diagnóstico do racismo. Jacques Lacan e Exu são convocados para uma conversa, cujo resultado é Gonzalez propondo, com Fanon (mas não apenas), que a psicanálise leve em conta o racismo na formação das subjetividades de pessoas negras e brancas.

Por fim, dois psicanalistas da Bahia se encontram em torno de Fanon. Sueli Ayres recolhe o testemunho de Jairo Gerbase, revisor técnico da primeira edição brasileira de Pele negra, lançada pela Fator em 1983. Enquanto psicanalista de matriz lacaniana, interessava a Gerbase encontrar o “Lacan de Fanon”, percurso de leitura que ele reconstitui em seu depoimento: “Ao descobrir Fanon eu descubro o racismo e assim como Neuza Santos Souza começo a me interessar pelo assunto. Aí eu me descubro negro.”

Descobrir e redescobrir Fanon, como forma de denunciar e pôr fim ao racismo à brasileira, marcado, como tão bem diagnosticou Lélia Gonzalez, pela sua denegação. Descobrir e redescobrir Fanon, como forma de destruir e construir outros mundos. Que a leitura dos textos que compõem este dossiê possa contribuir para isso.