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Como conversar com um petista1

Há tempos não conversava com um petista “puro e duro”, daqueles que votaram em Jilmar Tatto em vez de Guilherme Boulos nas últimas eleições municipais de São Paulo. Conhecemos o tipo. Para qualquer crítica que você faça aos governos de Lula ou Dilma, ele tem respostas factuais acachapantes. Como discordar que a miséria caiu, que os investimentos em educação foram recordes, que o problema da dívida externa foi resolvido, que o desmatamento diminuiu sensivelmente, e daí por diante?

Os números e as realizações dos governos petistas foram muito bons, sem dúvida — e se tornam ainda melhores quando comparados com o descalabro destes anos Bolsonaro.

Mas, enquanto ouço, engulo e reconheço as estatísticas, fico pensando em que ponto meu diálogo com o petista entrou em parafuso.

É assim. Primeiro, o petista reconhece que “houve equívocos, claro, sabemos disso” durante os anos no poder. “Sim”, digo eu, pondo um pouco de lenha na fogueira: “os casos de corrupção…” O petista reage: “Nenhum partido combateu tanto a corrupção quanto o PT, fizemos a lei da lavagem de dinheiro, demos independência ao Ministério Público etc.”.

Concordo com a cabeça, e tento outro caminho. “As alianças com o Centrão, os evangélicos…”, o petista diz que não havia outro caminho, tinha de ser por aí mesmo.

Lembro que o PT desprezou as críticas dos ambientalistas no caso da construção de Belo Monte e que apostou na JBS como um grande conglomerado internacional pecuarista.

Não, isso não foi equívoco. Favoreceu-se o mercado financeiro? Não, tinha de ser assim mesmo.

Sinto que estou diante de uma bexiga cheia de água: onde quer que eu ponha o dedo, o látex se expande na direção oposta. É assim que todos os “equívocos” que o petista se dispõe a reconhecer terminam se convertendo em equívoco nenhum.

O petista puro e duro continua achando que tudo deu certo, que seu partido é o futuro do país e que Lula ou seu candidato tem de tudo para vencer as próximas eleições presidenciais.

Para quem está de fora, é visível que o PT está em declínio, que se agarra no que sobra do lulismo, e que sua desmoralização se mostra tão grande que nem mesmo os horrores de Bolsonaro induzem à sua volta triunfal.

Vejo que é inútil esse tipo de diálogo, o do petista com quem se situa numa linha de esquerda crítica.

Talvez o caminho precise ser outro.

Admitamos, disfarçando o sorriso, que os governos petistas foram ótimos. Que digo? Perfeitos (afinal, seus “equívocos” existem, mas não podemos encontrá-los). Admitamos que seria bom repetir a experiência, fazer tudo como vinha sendo feito.

Admitindo isso, quem sabe surja a pergunta que realmente importa. A saber, como evitar, em meio a tantos acertos e proezas, que a direita termine ganhando o jogo, como ganhou?

Aceitemos o PT nos seus momentos mais paranoicos: o escândalo da Lava-Jato foi produzido pelos Estados Unidos, pelo estamento judiciário e pela burguesia. Os protestos de Junho de 2013 foram uma armação da direita, se é que existiram de fato.

Ótimo — compro esse delírio, não faz mal. A questão se impõe com mais força: como fazer para que essas mesmas ameaças não voltem a se manifestar?

Imagino que um enorme trabalho dentro das organizações de esquerda, junto à opinião pública, e sobretudo nas instituições (sistema eleitoral, meios de comunicação, igrejas, polícias, forças armadas) tenha de ser feito. Fake news, robôs, pastores televisivos, programas de polícia, currículo da formação militar, monopólios de comunicação, máquinas eleitorais fisiológicas, sistema partidário — tudo isso, e muito mais, funcionou contra o PT e funcionará contra qualquer governo de esquerda. A escolha entre opções mais autoritárias ou mais democráticas dividirá, por certo, os representantes de PC do B, PSTU, PT, PDT, Psol e tantos mais. Mas, nesse ponto, um diálogo mais objetivo talvez se construa. O meu amigo petista puro e duro não vai se emendar nunca. O que importa é romper o cerco da direita, tanto agora (mas isso nem preciso dizer) quanto no futuro, se a esquerda conseguir se recuperar.