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Common sense, common decency e socialismo democrático

Isabella C. Reiche

Em um dos momentos cruciais de 1984, explicando a manipulação que o Partido opera na realidade e no pensamento, Winston Smith afirma para si mesmo: “A heresia das heresias era o common sense”.1 É uma das duas vezes que a expressão common sense aparece no livro. Na outra, o ódio que o cidadão do continente fictício Oceania é instigado a destilar contra as filosofias dos outros blocos de poder é retratado como uma ofensa à moralidade e ao common sense. Levando-se em conta ambas as passagens, fica implícito que o common sense é uma qualidade humana inata que permite uma correta apreensão epistêmica do mundo. Além disso, ela estabelece uma relação com certa consciência moral. A narrativa assevera com contundência a incompatibilidade entre esse common sense, que emana dos indivíduos, e o poder político que pretende dominá-los interiormente. Pois o Partido não está empenhado em destruir apenas as condições sociais que possibilitam a verdade objetiva, mas em aniquilar até mesmo a subjetividade que é capaz de alcançá-la. Também não restaria espaço para nenhuma consideração de ordem moral. Não é esse o caminho desse texto, mas seria possível provar que, apesar de aparecer apenas duas vezes de forma explícita, o tema da aniquilação do common sense atravessa o romance de ponta a ponta. Porém, o que nos interessa, de imediato, é notar que esse conceito permanece em alta conta num escrito tardio e fundamental de Orwell. Aí está uma boa pista para esboçar uma reconstrução de parte de seu pensamento político.

Manter a expressão no original é uma forma de afastar a tradução errônea: common sense não é o que, em português, convencionou-se denominar senso comum. Essa última expressão vem carregada de um ar pejorativo, como se fosse uma deformidade intelectual causada pela assimilação acrítica de pensamentos desgastados. A melhor tradução seria algo como bom senso, expressão que está presente nas línguas latinas em geral. O problema é que o bom senso não tem o caráter universal que sugere a expressão common sense. Em certo sentido, ela se sente em casa na língua inglesa, pois filosoficamente é de extração anglo-saxã. Se nos permitimos usar a expressão no original, porque acreditamos que mesmo a boa tradução a distorce sobremaneira, precisamos delimitar o tal common sense.2

Na filosofia de língua inglesa, as raízes mais profundas da valorização do common sense estão em Shaftesbury. Retomando a noção de sensus communis da tradição romana, ele apresenta o conceito como uma espécie de virtude social, ligada a um refinamento dos hábitos e maneiras através de um ideal humanista. Na esteira de Shaftesbury, o common sense vai reaparecer na pena de uma das figuras de proa do Iluminismo escocês: Francis Hutcheson. Nele, novamente o conceito aparece como um sentido moral a ser aprimorado pela vida em comunidade. Mas é com a denominada Escola Escocesa do Common Sense, cujo nome mais proeminente foi o de Thomas Reid, que o conceito começa a ganhar conceitos mais claros. Eles seguiram na trilha aberta por Shaftesbury e Hutcheson, mas indo além. Em oposição tanto ao cartesianismo puro quanto à radicalização humeana do empirismo, esses autores entendiam o common sense como uma faculdade epistêmica inerente à natureza humana e que nos conduz a conhecer o conjunto de princípios básicos sem os quais nossa vida redundaria em um absurdo completo. Esses princípios não poderiam ser racionalmente explicados e eram aceitos como pressupostos epistêmicos necessários sem os quais qualquer tipo de conhecimento seria impossível. O common sense seria, de um lado, uma recusa do racionalismo metafísico como um tipo de pensamento adoecido pelo excesso de abstrações e questionamentos; de outro lado, uma crítica aos excessos nominalistas de certo empirismo, que conduz necessariamente a um relativismo generalizado. Em lugar disso, um elogio da vida em comum e do saber ordinário, tido como evidente.

Já anteriormente aventado por Shaftesbury, o corolário dessa filosofia é que os valores morais que orientam nossa vida não são provenientes de um juízo universal e necessário da razão. Na verdade, a moral humana emanava da vida em comunidade. São as virtudes comunitárias que formam nosso senso moral e essas virtudes, por sua vez, são um aprimoramento social do common sense que os seres humanos compartilham. Essa linha-mestra segue de Shaftesbury a Reid. E influenciou mesmo aqueles que não seguiam essa tradição. Apesar das discordâncias de Reid com o ceticismo de David Hume, a teoria moral do último não está tão distante das concepções do primeiro. Mesmo não incorporando as concepções epistêmicas, Hume deu prosseguimento à teoria moral dos precursores do common sense. Por caminhos diferentes, ele também parecia reativar a ideia de que a moral humana não era proveniente de juízos racionais, mas, antes, dos sentimentos que nutrimos em nossa vida social. A virtude não é entendida como aquilo que a razão dita, mas uma prática moralmente reconhecida nos costumes de uma comunidade. Sabe-se o quanto esse tipo de raciocínio foi ferozmente combatido por Kant. Na Crítica do Juízo, o autor alemão procurou limitar o sensus communis à esfera do julgamento estético, afastando-o de qualquer consideração de ordem epistêmica, política ou moral.

Mas a disputa não ocorreu apenas entre aqueles que gostariam de limitar o alcance do conceito. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, houve embates no próprio interior dessa tradição. Às vezes conservador, às vezes emancipatório, o common sense foi alvo de uma querela. No final do século XX e nas primeiras décadas do XXI, o common sense, parece, foi apropriado de forma definitiva pela direita, tornando-se um topos conservador repetido a esmo contra qualquer tentativa de afrontar o sistema. O common sense do homem médio sugeriria manter o status quo. Essa monopolização do conceito eclipsou a existência de posições políticas radicais ancoradas no common sense. De Thomas Paine a George Orwell, o que pareceu razoável e sensato não foi a persistência da dominação e da desigualdade, pelo contrário.

Então há uma aproximação possível entre Orwell e os autores clássicos do common sense.3 Pois Orwell adota um tipo de realismo em matéria de conhecimento e se afasta de qualquer moral racionalista. Tal como para a tradição do common sense, Orwell acredita na existência de verdades autoevidentes que estão na base de nossa compreensão da realidade, verdades contra as quais não podemos atentar, sob pena de abrir as portas para uma mistificação sem fim.4 Ele também pensa que, desde que refinada pela prática social, essa faculdade epistêmica do common sense pode gerar uma vida moral virtuosa. Ou seja, a moralidade não é fruto de um imperativo ditado pela razão pura; na verdade, ela se origina da dimensão coletiva da vida social. Contudo, Orwell não recai em uma forma de conservadorismo. Mesmo que se possa considerar Orwell como herdeiro da tradição do common sense, ele pretendeu extrair conclusões socialistas desses pressupostos, o que o coloca em uma posição heterodoxa.

A negação da postura dominante no interior da linhagem começa pela forma pela qual Orwell conceitua a dimensão moral oriunda do common sense. A essa faceta do common sense Orwell atribui o nome de common decency. É um conjunto de valores corriqueiros, práticas sociais, condutas costumeiras e qualidades que se precipitam em um mundo compartilhado. A common decency se cristaliza em uma moral antirracional e comunitária. Valores que surgem da própria convivência e formam um mundo comum, sem uma expressão jurídica, mas que se autorregula com uma normatividade imanente e pré-institucional. Solidariedade, fraternidade, simplicidade, humildade, reciprocidade, dignidade, generosidade: todos esses ideais estão contidos nela. Ancorada na própria sociabilidade que impele o homem ordinário agir moralmente, a common decency não está no registro nem da razão individual, nem do princípio religioso e nem da educação escolar. Longe da pura tradição e também estranha ao indivíduo que se erige como juiz racional, é uma moral coletiva que emerge de certas condições específicas de interação.

Sendo assim, para Orwell, o common sense só pode se desenvolver em common decency se houver uma vivência adequada. Vivência que, por sua vez, só é possível por meio da experiência social entre a gente comum, os trabalhadores, os pobres, o povo. Common decency: algo simples de entender, mas difícil de explicar. Ela pode ser imediatamente apreendida por quem tem ou já teve esse tipo de vivência, mas pode parecer estranha, e até fantasiosa, para quem nunca a sentiu. A ideia foi formulada por Orwell depois de uma passagem em que viveu por algum tempo entre trabalhadores urbanos. Não encontramos ali descrições utópicas, seres humanos idealizados, semideuses com ares de quase perfeição moral. Pelo contrário, há inúmeros vícios e cada um os pratica à sua maneira. No entanto, há também aquilo que Orwell captou bem com uma expressão tão incerta e vacilante quanto common decency. Quase de imediato alguém poderia levantar a presumida objeção: a decência é um marcador moral que varia de acordo com os valores que cada um carrega. E Orwell não negaria isso. Ele chama a atenção, contudo, para o que essa classe trabalhadora entende como decência. Esse sentimento humanista também está marcado por um recorte de classe. Pois as condições que permitiram a emergência da common decency se fizeram através das lutas auto-organizadas do operariado inglês, profícuas em uma mobilização quase permanente dos trabalhadores. Criou-se, assim, uma forte consciência de classe e, mais que isso, até mesmo um modo de vida compartilhado, em que germinavam valores morais sólidos, contrários à volubilidade e hipocrisia burguesas. Em outras palavras, trata-se de uma decência popular.

Para Orwell, o homem ordinário, esse que está inserido na sociabilidade da common decency, tem um instinto moral que o faz distinguir quase naturalmente o justo do injusto. Quase porque, apesar de inscrito na natureza humana, ele só floresce através desse arranjo social particular. Ou seja, mesmo que pareça espontânea, ela é fruto de uma relação complexa e sutil entre um instinto moral e uma sociabilidade específica. É como se esses valores brotassem da convergência entre práticas que são reforçadas pela própria comunidade e às quais o indivíduo tem uma tendência a se integrar. Orwell explica que, por conta da forma pela qual a sociabilidade trabalhadora se engendra, surge então essa propensão entre os mais pobres de aguçar sua faculdade moral e desenvolver um tipo de decência comum. Isso significa que o próprio modo de vida das classes abastadas impede que essa virtude moral venha à tona. É como se as suas práticas atrofiassem essa decência que todos portam em germe. É uma potência que depende das condições sociais adequadas para se atualizar, sem as quais o common sense, destituído de seu aspecto moral, fica deformado, tornando-se um senso comum torto e conservador. Não sendo nem apenas inata, nem apenas empírica, a common decency surge do encontro entre essas duas dimensões, através da prática das virtudes morais comunitárias. O que importa para Orwell é menos ressaltar o momento inato ou empírico e, sim, chamar atenção para esse mundo compartilhado, essa sociabilidade cotidiana, desconhecida mesmo por aqueles que pretendem falar e lutar em nomes da classe trabalhadora. Um mundo de valores morais próprios. E é com base nesses valores que uma luta política pode prosperar, porque eles permitem se comunicar diretamente com os trabalhadores, aqueles que desejam decência: para si, para os outros e para o coletivo.

Idealização da classe trabalhadora? Não exatamente. Orwell não pinta os operários como anjos. Aliás, por vezes, ele faz um retrato até mesmo sórdido dos mais pobres e de seus hábitos. Orwell não quer encontrar na classe trabalhadora os impulsos morais que podem redimir a sociedade e expiar a culpa cristã que acomete a classe média esclarecida, tampouco uma dialética qualquer que erija o proletariado no portador de uma missão redentora. Os sem privilégios não são, em si, portadores de uma bondade atávica, em razão única e exclusiva de sua classe social. Para falar em outros termos, não há nesse procedimento, como se poderia pensar, nenhum tipo de romantização ontológica.

É por conta dessa visão realista que a imersão de Orwell no dia a dia dos que trabalham, dos que sofrem, dos que estão por baixo não se faz sem questionamentos. Quem é esse homem simples? Essas pessoas não poderiam ser manipuladas? Não poderiam trair seus próprios valores? O tipo antropológico capaz de vivenciar essas condições sociais necessárias ao estabelecimento da common decency é o homem ordinário, que está distante tanto do burocrata, um engenheiro social de traços intelectualóides, quanto do homem novo, um além-do-homem totalitariamente forjado. Ora, é difícil dizer quando se está diante de alguém que preencha essa modelo. O próprio Orwell reconheceu que o uso que fez da expressão era um tanto elástico: “Estive usando a expressão ‘homem ordinário’ de forma vaga, e tomei por certo que esse ‘homem comum’ existe, coisa que hoje é negada por alguns”.5 Assumindo que se possa pensar pragmaticamente na existência desse homem comum, Orwell não sugere que ele tenha uma inclinação natural ao socialismo. Orwell não supõe nem sequer uma essência operária ligada à esquerda. A common decency que esse homem simples incorpora não é uma política de esquerda, mas um código moral. Na verdade, Orwell percebe como esse homem tem uma relação oblíqua com a política: “o homem médio não está diretamente interessado em política e, quando ele lê, ele quer que os conflitos atuais do mundo sejam traduzidos em uma história simples sobre indivíduos”.6 O desinteresse pela política o leva a um estado de contínua desconfiança. Se essa desconfiança pode ter um lado positivo, uma suspeita contínua contra o poder, por outro, ela corre o risco de levar à despolitização, que é o solo no qual vicejam os discursos fascistas, os slogans de que tudo está errado e que só um líder pode nos salvar. A maioria dos homens ordinários, por pensarem a política em termos morais, é movida em larga medida por sentimentos antipolíticos, já que em sua vida cotidiana tudo que se relaciona à esfera da política institucional aparece como degradante, corrupto, ou seja, fora da órbita da decência. A política, para o homem comum, é a indecência. Na relação com a política, a common decency exige que ela não seja um instrumento para a injustiça e a humilhação social, e tampouco que despreze os valores morais.

Então ela se opõe à realpolitik, entendida como a busca do poder pelo poder. Em uma definição complementar, Orwell considerava que o realismo “significa a doutrina do direito do mais forte”.7 Era essa, ele pensava, a marca de seu momento histórico: “o crescimento do ‘realismo’ tem sido a grande característica da história intelectual da nossa época”.8 Mesmo que a realpolitik seja a prática dominante, a common decency não a aceita, pois a enxerga como um exercício cínico do poder. Presença constante nos textos de Orwell, está não a oposição à política tout court, mas à atitude política maquiavélica.9 É porque os realistas se acham despidos de ilusões e valores, taxando os que não pensam assim como idealistas ingênuos. Mas, na verdade, esse realismo supostamente maduro é simplório e hipócrita, e, como tal, abominado por Orwell; ele é claro ao dizer que as pessoas comuns não querem pensar o poder dessa forma. Não se contentam com o fato de que a política moderna esteja cada vez mais isolada de qualquer crivo moral e não preste contas para nada além de si mesma. Para Orwell, é o que ele denomina maquiavelismo que está na origem dos vícios modernos da política, e o que a torna uma atividade cada vez mais imoral:

De Carlyle pra frente, mas especialmente nessa última geração, a intelligentsia britânica tendeu a emprestar suas ideias da Europa e foi contaminada por hábitos intelectuais que derivam, em última instância, de Maquiavel. Todos os cultos que estiveram na moda nos últimos 12 anos, comunismo, fascismo e pacifismo, são, em última análise, formas de adoração do poder. É significativo que neste país, ao contrário da maioria dos outros, a versão marxista do socialismo tenha encontrado seus adeptos mais calorosos na classe média. Seus métodos, se não suas teorias, obviamente entram em conflito com o que é chamado de “moralidade burguesa” (ou seja, a decência comum), e em questões morais são os proletários que são burgueses.10

Se o julgamento que faz de Maquiavel é sumário — e provavelmente equivocado —, importa perceber que na visão de Orwell, os valores da common decency parecem, para os intelectuais, como pura ingenuidade. Seria esse tipo de “moral burguesa” que contamina e cega a esquerda, impedindo de compreender como a política funciona de fato. Mas essa mentalidade denota que o intelectual de esquerda, mesmo se quer falar em nome dos trabalhadores, defender seus interesses, está a uma distância enorme de como eles pensam a política. Há um abismo entre a intelectualidade e o homem comum. Este último ainda pensava o mundo em termos que seriam considerados do século XIX:

O homem comum ainda vive no mundo mental de Dickens, mas quase todo intelectual moderno adotou uma ou outra forma de totalitarismo. Do ponto de vista marxista ou fascista, quase tudo o que Dickens representa pode ser descartado como “moralidade burguesa”. Mas, do ponto de vista moral, ninguém poderia ser mais “burguês” do que as classes trabalhadoras inglesas. As pessoas comuns nos países ocidentais nunca entraram, mentalmente, no mundo do "realismo" e da política do poder.11

Mais uma vez o tema da “moralidade burguesa”. Orwell não diz que o trabalhador possui uma mentalidade burguesa. Escreve, sim, que, aos olhos dos intelectuais, ele parece estar preso a uma moralidade burguesa. Mas essa moralidade não é burguesa, é tão somente a moralidade que os trabalhadores desenvolveram como uma forma de entender o mundo — a common decency. As pessoas ordinárias lutam muito mais por certa forma moral de viver do que por um programa político. É esse o ponto de Orwell. Mais alto do que uma ideologia política, para os trabalhadores, estaria a common decency.

Mas se as pessoas comuns têm um código moral adequado para lutar por si, qual é a valor dos intelectuais? Orwell não é um anti-intelectualista.12 Sempre que ataca os intelectuais, ele não os ataca por serem pessoas estudadas, mas sim por serem pessoas que foram deseducadas por seus próprios estudos. Que passaram a enxergar o common sense como uma forma de realismo epistêmico tradicional e ultrapassado, incapaz de entender e mudar o mundo. Para além do common sense, a intelectualidade moderna apelaria sobretudo a formas contraintuitivas de raciocínio, a relativismos, a vanguardismos modistas que, em seu afã de esvaziar os conceitos da Verdade e do Bem, tentam desmascará-los como engodos burgueses, liberais e capitalistas. O problema, então, não é a atividade intelectual, mas a intelligentsia. Os bem-pensantes vivem em uma redoma intelectual refratária a qualquer experiência do mundo, onde a maior parte das pessoas continua acreditando na existência da Verdade e do Bem. Suas experiências não estão calcadas em realidades concretas, mas em palavras; são alimentados por abstrações sem se preocuparem se elas de fato correspondem ao mundo lá fora. É essa incapacidade epistêmica que incomoda Orwell, e não o fato de serem intelectuais. Esse incômodo se resume bem no fato de que o conjunto de valores que formam a moral popular — que preserva um lastro de common sense — é alvo de desprezo: “O que me assusta na intelectualidade moderna é sua incapacidade de ver que a sociedade humana deve estar baseada na decência comum, quaisquer que sejam as formas políticas e econômicas.”13 É essa incapacidade de muitos intelectuais modernos de aceitar a existência e a necessidade de valores morais que orientem a vida em sociedade que os torna muito mais susceptíveis a crenças totalitárias: “[…] em geral, os intelectuais são mais totalitários do que que as pessoas comuns”.14

A imaginação enferma, que se descola feericamente da realidade, impede e exime o intelectual de estar em contato direto com mundo social efetivo, o que é tanto mais grave quando se trata de um pensador pretensamente socialista. Incapazes de regrar sua imaginação, de regulá-la pela vivência, raciocinam por meio de palavras que não são formas condensadas de alguma experiência, mas simples abstrações que se desligaram de qualquer experiência concreta. Essa é uma palavra central para Orwell: experiência. Não empirismo pueril, mera observação passiva da realidade, mas uma experiência participante, que só pode ser realizada pela conjunção entre palavra e imaginação. É o que diz Simon Leys: “O que a arte invisível e tão eficaz de Orwell ilustra é que a “verdade dos fatos” não pode existir em sua forma mais pura. Os fatos por si só formam apenas um caos sem sentido: somente a criação artística pode investi-los de significado, conferindo-lhes forma e ritmo. A imaginação não tem apenas uma função estética, mas também ética. Literalmente, é preciso inventar a verdade”.15 Inventar a verdade? Ora, isso parece um ultraje para quem, como Orwell, sempre prezou pela verdade objetiva. A verdade não pode ser criada, ou pode? Toda verdade é, em certa medida, imaginada. Inventar a verdade não significa atribuir a essa palavra qualquer significado, e menos ainda passar o falso por verdadeiro. O sentido da frase de Leys é outro. A verdade não se apresenta pronta. Nossa imaginação precisa dar um sentido verdadeiro para a verdade. Não há verdade fora de uma imaginação ativa que diz que ela existe e pode ser transmitida.

Para que isso seja possível, a imaginação não pode se nutrir da pura razão, sob pena de não compreender a realidade; ela deve estar ligada à experiência. Foi essa conexão entre experiência e imaginação que fez com que a própria vida de Orwell fosse seu laboratório político. Como escreveu Lionel Trilling: “[…] Orwell estava usando sua imaginação como um homem cujas mãos e olhos e o corpo inteiro eram partes de um aparato pensante”.16 Sua imaginação não fazia ligações desconexas porque estava sempre amparada por sua experiência. Daí a revolta de Orwell contra a abstração inerente à linguagem, e a apatia que ela pode gerar: “As palavras são coisas tão frágeis. De que adianta dizer “goteiras no teto” ou “quatro camas para oito pessoas”? É o tipo de expressão por onde o olhar desliza sem registrar nada. E, contudo, quanta riqueza de miséria e sofrimento essas palavras abrangem!”17

A vivência retratada em Wigan Pier não é etnografia ou observação participante, mas uma tentativa frustrada de conversão, de transformação radical de uma classe para outra. Orwell tenta se tornar algo que ele não era, incorporar uma cultura que não é a sua. Mas a experiência é tão mais rica porque ela se mostra impossível. Em muitos momentos do livro, Orwell escreve também para si mesmo, como uma forma de lembrar que, ao fim e ao cabo, não é possível se despir por completo daquilo que se é para se tornar o outro. Então temos alguém que se converte temporariamente em um trabalhador não trabalhador, que deseja explicitar as crenças dos trabalhadores sabendo que não pode ser um deles, mesmo que assuma de ponta a ponta o estilo de vida dos mineiros ingleses. Mas é dessa conversão não consumada que surge uma conceituação da moral da vida operária. Atravessada pela autoconsciência de suas próprias contradições, a imaginação de Orwell é socialista porque está ancorada na experiência da vida decente que emana da sociabilidade trabalhadora.

Essa experiência social anômala, o estar e não estar em uma classe, é também seu movimento com relação ao chamado plain style. Orwell quer uma linguagem clara e cristalina, com máxima expressividade e conexão com o leitor. Linguagem que permita apreender o real. Ele gostaria que o estilo estivesse colado de tal forma ao assunto que parecesse quase um não estilo, uma linguagem natural. Mas em muitos momentos ele não escapa de refletir se isso é mesmo possível, se esse estilo pode ser tão transparente quanto sua escrita faz parecer.18 O próprio questionamento já implica a conclusão que todo uso da linguagem remete a escolhas, epistêmicas, éticas e políticas. Ainda mais, que toda escrita enseja uma elaboração imaginativa do real. Mas o que ele deseja é que essa imaginação, alavancada por analogias, metáforas, comparações e paralelos, seja enquadrada pelo common sense, com uma dialética — mediada pela linguagem — entre experiência e imaginação. Se a palavra é o que liga a experiência à imaginação, moderando-a, é a boa escrita que permite expandir a capacidade de se conectar com um mundo compartilhado.

Entretanto, para que esse mundo compartilhado não se esgote em mera sociabilidade moral, gerando um vácuo que pode facilmente ser preenchido pelo fascismo, é preciso realizar uma tradução política da decência ordinária. Então começa uma formulação política ativa por parte de Orwell, que tem que ir além da captação imaginativa da common decency. A passagem dessa prática moral para a política é complexa. Surge o problema de saber como derivar uma ação ou, mais ainda, um projeto político a partir desses valores. Uma prática comunitária que não assume uma forma institucional coloca problemas sérios caso seja usada como base para erigir uma posição política específica. E mais: um conjunto de práticas e valores que, politicamente, tem um viés mais reativo, resistente e crítico do que positivo. É uma tarefa ingrata: como apresentar um programa político baseado em uma sociabilidade moral imanente? Como seria constituída essa sociedade decente? Como partir da moral sem se tornar um moralista? Afinal, haveria como fazer uma tradução dessa sociabilidade moral dos trabalhadores que possa se apresentar como uma política de esquerda? O problema não é exatamente novo: é possível fundar o socialismo em uma postura moral? Esse conjunto de valores pertence univocamente a um universo ideológico de esquerda? Senão, como torná-los de esquerda?

O problema talvez esteja até antes dessas perguntas: mesmo a noção de decência é cambiável o suficiente para nos fazer duvidar de sua consistência — e duvidar mais ainda de que um projeto político possa ser construído a partir dela. É essa a ideia de Stephen Ingle, por exemplo, quando escreve: “O mito da decência da classe operária, então, descrevia uma espécie de socialismo essencialista que era desprovido de ideologia, de utopia e de intelectualismo. Ele não poderia ser elaborado de maneira a formular um programa de ação e tampouco um sistema ideológico, porque ele representava o modo de vida uma comunidade”.19 Nesse misto de ataque e constatação, a decência aparece como um mito tanto em sentido analítico quanto pejorativo. E o socialismo de Orwell não pode existir como política, aparecendo como uma força de vontade, um humanismo tolo e moralista.

Esse fantasma do moralismo ronda Orwell. São vários autores que recorrem a uma mesma estratégia argumentativa para pregar a pecha. Primeiro, acentuam os caracteres supostamente conservadores do pensamento de Orwell, como seu pendor ao patriotismo, à defesa dos costumes, ao common sense. Às vezes, para reforçar essa ideia, citam uma conhecida passagem em que Orwell se apresenta aos editores da revista socialista The Adelphi como um “Tory anarchist”,20 no início dos anos 1930. Em seguida, tentam demonstrar que Orwell resume todo o seu pensamento político a um mero punhado de distinções morais. Então, reduzindo a política à moral, Orwell a aniquila. Não haveria uma posição, um projeto ou uma ideologia política em Orwell. Trata-se, para a satisfação de uns e a aversão de outros, de um moralista, alguém que, no fundo, odeia a política. C.Q.D. Com poucas diferenças, é essa a linha de raciocínio de George Woodcock, Simon Leys, Stephen Ingle e Jean-Claude Michéa.21

Contudo, trata-se de um desfie de disparates. Orwell se apresentou como um “tory anarchist” no início da década de 1930, mas sabemos quanto sua visão sobre a política mudou, em especial depois de escrever The Road to Wigan Pier, em 1936. A partir disso, Orwell se declara um socialista. Toda essa tentativa de expor a figura de Orwell como uma espécie de moralista moderno parece apenas obscurecer esse dado fundamental: ele era um socialista. Socialismo sui generis, por certo, mas socialismo. Com pitadas de uma tradição libertária, semianárquica, e, de outro, de algumas características que enfatizam a vida moral, às vezes erroneamente compreendidas como uma inclinação conservadora ou até mesmo reacionária. Então Orwell tinha, sim, uma posição política, e uma que não estava reduzida à moral. Dizer que Orwell era um moralista é incorrer em um reducionismo que, em última análise, falseia a atitude orwelliana com relação à política. Em matéria de política, Orwell era, na verdade, bastante crítico às posturas sentimentalistas, idealistas, utópicas e antipolíticas. O que se confunde é que Orwell queria reabilitar a ligação da moral com a política. Isso não significa diluir a segunda na primeira. Pelo contrário, nos parece que ele estava ciente de toda a dificuldade de que a moral fosse um fundamento para a política. Logo, não pensava que a política estava fundamentada, pura e simplesmente, na moral; mas acreditava que a política não poderia ser infensa à moral, e que esta última não poderia ser descartada sem mais.

Então se Orwell critica os chamados realistas, que fazem política sem moral, também crítica os moralistas, que desejam moral sem política. Os que desejam reformar o Homem sem mudar a sociedade são, para Orwell, hipócritas. A necessidade de uma evolução moral está posta, mas o humanismo legítimo, que se realiza no socialismo, só pode assumir sua verdade ao criticar as estruturas que impedem a vida humana de se tornar efetivamente humana.22 Orwell conclui que mesmo se o socialismo não pode erradicar o mal da terra, se não pode acabar com toda a nossa infelicidade, ele pode e deve combater as principais raízes do sofrimento humano: as condições sociais e econômicas.23 O socialista gostaria de criar condições dignas para que nossa humanidade pudesse se realizar. Isso inscreve o socialismo orwelliano em uma tradição humanista; um humanismo, porém, que não seja um esquálido pendor humanitário. Só com essas ressalvas é possível entender quando Orwell escreve “a base do Socialismo é o humanismo”.24 Então a posição que Orwell assume quanto à complexidade da relação entre moral e política é nítida:

Revoluções têm que acontecer, não pode haver progresso moral sem mudanças econômicas drásticas, e ainda assim o revolucionário joga fora seu trabalho se ele perde o contato com a decência humana comum. De alguma forma, o dilema entre meios e fins precisa ser resolvido. Devemos ser capazes de agir, e até de usar a violência, e ainda assim não sermos corrompidos pela ação. Em termos políticos específicos, isso significa a rejeição do comunismo russo de um lado e do gradualismo fabiano de outro.25

Que tipo de moralista diria que a revolução é uma necessidade para que haja o progresso moral? Que tipo de moralista aceitaria até mesmo o uso da violência? Está tudo nesse texto. Mas, ao mesmo tempo, essas fórmulas vêm balanceadas com a ideia de que a moral não pode ser descartada: seria preciso equacionar o problema entre meios e fins. É a partir daí que se rejeita tanto o bolchevismo quanto a via social-democrata. Contadas todas as suas diferenças, ambos descartam a questão moral. O bolchevismo não vê senão ideologia no problema da moralidade — os fins são tudo; para os fabianos, todo problema político se esgota na moral — os meios são tudo. Daí que os comunistas adotem um progressismo em que tudo se justifica, enquanto os social-democratas caem na pasmaceira da conciliação infinita.

As críticas de Orwell ao comunismo são conhecidas e podem ser encontradas em diversos textos. Os problemas da URSS: coletivismo burocrático, sociedade hierarquizada e desigual, concentração autoritária do poder, ausência de liberdades civis e políticas básicas, repressão estatal desenfreada. É importante salientar que, para Orwell, esses problemas iam muito além da figura de Stálin “[…] deve-se, acredito, admitir que todas as sementes do mal estavam lá desde o início e que as coisas não teriam sido substancialmente diferentes se Lênin ou Trótsky tivessem ficado no controle”.26 Entre as inúmeras cartas, resenhas e ensaios em que a crítica à União Soviética aparece como um imperativo para a renovação do socialismo, talvez o prefácio da edição ucraniana de Animal Farm seja um dos momentos mais explícitos:

[…] na minha opinião, nada contribuiu tanto para a corrupção da ideia original do socialismo quanto a crença de que a Rússia é um país socialista e que cada ato de seus governantes deve ser desculpado, se não imitado.

E assim, nos últimos dez anos, estive convencido de que a destruição do mito soviético era essencial se quiséssemos um renascimento do movimento socialista.27

Já a distância que Orwell tomou da social-democracia inglesa, representada em especial pelo Labour Party, é menos conhecida. Orwell criticava certo adesismo do Labour ao sistema, que se refletia na maneira tímida pela qual ele colocava em xeque o capitalismo. Mesmo quando, após a guerra, houve a possibilidade de um governo trabalhista forte, o Labour teria feito, segundo Orwell, muito menos do que poderia. Quanto à implementação de seu programa, Orwell foi igualmente crítico do que lhe pareceu uma timidez excessiva com relação ao enfrentamento da classe dominante, não apenas no terreno econômico, mas também político e social. Por conta dessa avaliação, o apoio de Orwell ao governo Attlee foi altamente crítico, avaliando, após oito meses de um governo que contava com o apoio imenso, que era “impressionante o quão pouca mudança parece ter ocorrido quanto à estrutura da sociedade”.28

Então, aos olhos de Orwell, os comunistas estavam pouco ou nada comprometidos com a democracia e os social-democratas não tinham senso de urgência e vontade de combater o sistema. A ambos sobrava esnobismo, teoricismo e paternalismo, enquanto faltava uma aproximação efetiva com a classe trabalhadora real. Bom, mas afinal, qual é a posição de Orwell? O que significa o socialismo para ele?

Não apenas um conjunto de valores humanistas extraídos de sua convivência com os trabalhadores; o socialismo de Orwell não era intuitivo. Suas concepções políticas estavam inseridas em uma complexa rede de filiações ideológicas e debates teóricos, além de resultar em certas proposições sobre a forma e o conteúdo dessa sociedade socialista. Hoje sabe-se que Orwell estava muito inteirado das diversas correntes do pensamento de esquerda; de diversos congressos socialistas e comunistas ao redor do mundo; de organizações e partidos socialistas; de panfletos obscuros de grupos pequenos. Sem dúvida, Orwell tinha conhecimento da literatura marxista ao menos desde o início da década de 1930, e forjou uma parte de seu pensamento político em franco diálogo com essa tradição, seja na vertente bolchevique ou social-democrata.29 Então a transição de Orwell ao socialismo não é meramente moral, pois já há um forte componente de conscientização política, basta ver toda a discussão que se desenrola na segunda parte de Wigan Pier sobre os sentidos do socialismo. Acontece que a posição política de Orwell rechaçava as correntes dominantes na esquerda, fugindo de esquemas tradicionais e gerando algum estranhamento com seu tipo peculiar de socialismo.

Entretanto, não se trata de uma posição política tão excêntrica. Seus traços podem ser delimitados: inspirada pelo radicalismo operário inglês, apresenta um desgosto pela hierarquia e os privilégios; influenciada pela tradição romântica, como William Morris, desconfia do progresso científico, mesmo sem ser hostil aos avanços técnicos, mas com caráter marcadamente antiprometeico; orientada pela prática, não acredita na ideia teórica, e mística, de uma sociedade absolutamente reconciliada, desprovida de Estado e mercado; baseada na cultura inglesa, adere a um patriotismo comunitário; guiada por uma atitude austera, com um sentido quase espartano de dedicação ao bem comum; motivada por uma prática libertária, que valoriza a dissidência, as liberdades individuais e desconfia do poder estatal.30

Essa combinação algo inesperada resulta em um socialismo democrático singular. Em dois artigos, “Fascism and Democracy” e “Will Freedom Die with Capitalism?”, e um ensaio, “Lion and the Unicorn”, todos de 1941, ficam muito evidentes as principais características da posição política de Orwell. Neste último, há uma definição suscinta do que Orwell entende por socialismo:

[…] tornou-se claro nos últimos anos que a “propriedade comum dos meios de produção” não é em si uma definição suficiente de Socialismo. Deve-se também acrescentar o seguinte: igualdade aproximada de rendas (não precisa ser mais do que aproximada), democracia política e abolição de todos os privilégios hereditários, especialmente na educação. São estas, simplificadamente, as salvaguardas necessárias contra o reaparecimento de um sistema de classes.31

Além de discussões ideológicas e enunciados teóricas, nesses textos, Orwell também divisa diretrizes programáticas elementares. Quanto às medidas práticas que caracterizam seu socialismo, estão listadas: nacionalizações amplas, planificação socioeconômico, limitação da desigualdade salarial, abolição das escolas privadas, auxílios estatais aos estudantes pobres, fim do imperialismo inglês.32 O projeto se coloca tanto contra o liberalismo e contra o fascismo, evidenciando que o primeiro tende a levar ao segundo, em função de manter um regime econômico que penaliza os mais pobres. Para Orwell, eram evidentes as insuficiências do liberalismo para oferecer uma solução viável à deriva fascista. O socialismo, por sua vez, seria o único projeto capaz de barrar o fascismo e impedir a volta das condições que o geraram.

Parece que desviamos de nosso assunto, mas não é o caso. É que Orwell não entende seu projeto socialista, como muito se disse, como uma mera institucionalização da common decency. Agora então podemos retomar a pergunta sobre a congruência entre socialismo e common decency. Mais uma vez, na segunda parte de The Road to Wigan Pier, Orwell escreve que “[…] socialismo de fato significa justiça e liberdade, quando se retira o nonsense”.33 Em outro trecho, ele diz que o socialismo, para os trabalhadores, é entendido como um ideal de justiça e common decency. Entretanto, Orwell expõe lacunas de ambos os lados: se o intelectual, em sua busca teórica pelo socialismo, esquece dos valores básicos que impulsionam as pessoas a desejá-lo, o trabalhador não percebe como essa simples busca por justiça, liberdade e decência exigiria, no fim, uma mudança estrutural, o próprio solapamento da sociedade tal como ela existe atualmente. Para o intelectual, faltaria viver o socialismo como prática de vida, como conjunto de valores éticos sem os quais qualquer discurso sobre o socialismo soa hipócrita. Se os seres humanos são movidos pela admiração, pelo respeito e, sobretudo, pelo exemplo, não se pode esperar que uma pessoa contradiga abertamente todos os valores que sua opção política exige e, ainda assim, continue sendo respeitada. Para o trabalhador, o socialismo não emerge naturalmente à sua consciência, o que evidencia a necessidade de algum tipo de formação política, sem a qual ele tende a pensar apenas em termos morais, acreditando que tudo se resolveria sem uma transformação profunda da sociedade.

Então quando Orwell pensa no socialismo, ele imagina algo como uma confluência entre uma teoria política que apresenta um projeto de sociedade e um modo de vida moral que faça a sociedade interiorizar os valores e práticas decorrentes da common decency enraizada na sociabilidade dos trabalhadores. É uma fundamentação moral e política a um só tempo, um humanismo anticapitalista. O socialismo, tal como Orwell o concebe, não pode ser um universalismo more geométrico, deduzida de um punhado de axiomas. Mas ele não surge como tal das entranhas da vida coletiva, de um encontro que nos afeta de forma pré-racional. Isso significa que o socialismo e a common decency não convergem de forma necessária um para o outro; é preciso que essa relação seja construída. O socialismo não está posto em definitivo na common decency e nem vice-versa. Que o socialismo possa ser o projeto político que melhor representa a decência comum é tudo menos óbvio; que o conflito entre a moral popular e o governo se desfaça é mera ilusão.

Em suma, por caminhos inesperados, o pensamento e a prática de Orwell representam uma possibilidade inscrita na tradição do socialismo democrático. Tradição que, como se sabe, não transige nem com o capitalismo, nem com o fascismo e nem com os desmandos no interior de seu próprio campo.34 Se o socialismo democrático não carrega o fardo do autoritarismo ou a inocência de supor uma domesticação do sistema, ele tem seus próprios problemas, paradoxos e contradições. Porém, esse já seria assunto para um outro texto.


Este texto foi publicado no 2º número do volume 3 da Revista Rosa em 26/4/2021.