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A carne e o fogo: despedaçamento e criação na obra de Frantz Fanon

Ofereço-te este dossiê para que ninguém morra, nem os mortos de ontem, nem os ressuscitados de hoje.

— Frantz Fanon

Eu tenho que me refazer todos os dias.

— Rosana Paulino

Documentação do processo de construção das ilustrações da série In The Moonlight Black Boys Look Blue, Rafael RG, 2021.

Nós nos revoltamos simplesmente porque não podemos respirar. Em 2020, entramos em uma pandemia, produzida pelo capitalismo global,1 cujos efeitos desigualmente distribuídos perpetuam projetos genocidas. Incêndios no pantanal e na Amazônia aceleram o roubo de terras nativas. George Floyd, João Pedro e tantas/os outras/os, incontáveis. Fogaréus se espalham pelo mundo. Em 2020, também, são publicadas as novas traduções brasileiras de Pele negra, máscaras brancas (1952), das peças teatrais e dos escritos psiquiátricos2 de Frantz Fanon (1925–1961).

Por que não antes? Não é que a obra de Fanon nos fosse desconhecida.3 Podemos lembrar da circulação de Os condenados da Terra (1961) durante a ditadura militar; de sua apropriação por Paulo Freire; de sua difusão nos movimentos negros ainda no início da década de 1980; de sua influência nas obras de Neuza Santos Souza (1948–2008)4 e de Lélia Gonzalez (1935–1994) — essas últimas esgotadas há anos ou contando apenas com edições tardias. Gonzalez nos ensina, no entanto, que sociedades que operam segundo o “racismo por denegação”, caso do Brasil e da Martinica, dificilmente reconhecem a produção científica de autores não brancos.5 Assim, a despeito da pungência e diversidade de suas obras, autores como Abdias Nascimento e Frantz Fanon “só foram recebidos e valorizados internacionalmente e não em seus países de origem (Fanon só mereceu as homenagens de seu país após sua morte prematura; daí ter expressado, em seu leito de morte, o desejo de ser sepultado na Argélia)” (Gonzales, 2018, p. 327).6

A recente difusão da obra fanoniana (e outras) em círculos mais amplos da intelectualidade brasileira pode ser associada a um novo momento de nossa gramática social, política e econômica. Neste momento é preciso assumir posições, visto que essa difusão negrita também um problema: mesmo que sujeitas racialmente subalternas entrem no campo da representação simbólica e jurídico-política da sociedade, nela os piores efeitos da racialidade e colonização ainda persistem. Segundo Fanon, embora inúmeros fatores levem a uma matização do racismo, “uma sociedade é racista ou não é” (2020, p. 101). E um Estado e um sistema econômico global baseados no roubo de terras nativas e na extração do valor de corpos cativos — problemas nunca propriamente enfrentados e superados — são, necessariamente, colonialista e racista. É preciso, no entanto, que não nos contentemos com a mera constatação, ainda segundo Fanon: “é preciso procurar incansavelmente as repercussões do racismo em todos os níveis de socialidade” (2018, p. 49).

Tratamos, portanto, do pensamento de Fanon porque, apesar das particularidades e dos diferentes contextos, sentimos ser a nossa luta e a dele a mesma. Para nós, Fanon nunca esteve tão presente. Desde Pele negra, sentindo seu cheiro pútrido, ela possui como horizonte o fim desse “universo mórbido” (2020, p. 24), colonial, capitalista e racista. Com este artigo, queremos também contribuir para uma leitura de Fanon atenta à complexidade de seus textos. Como destaca Deivison Faustino, no posfácio da nova tradução brasileira de Pele negra, um estudo sistemático e exegético da obra de Fanon é muitas vezes deixado de lado por alguns de seus leitores, que acabam por privilegiar um de seus escritos ou ideias em detrimento de outros. Se Fanon acreditava que “não se deve, absolutamente, amputar a realidade” (2015, p. 704), nós acreditamos que é necessário não amputar Fanon. Pretendemos compartilhar a obra fanoniana dando destaque a uma de suas muitas encruzilhadas. Por um lado, enxergamos em seus escritos uma unidade, que nos permite falar de um pensamento propriamente fanoniano. Por outro, nos é evidente que essa “unidade” está permeada por ambivalências e trilhas abertas, que nem sempre foram completamente seguidas pelo autor — e, talvez, por isso mesmo, sua obra venha gerando tantos frutos.7

Em seus textos, Fanon se refere a um corpo em articulação perpétua com o mundo, e a um mundo mórbido na direção do qual esse corpo se dirige, padecendo diante dele ou transformando-o. Trata-se aqui, entretanto, de um corpo-mundo, nunca natural e sempre localizado. Atingido e formado pela violência (também específica), ele é igualmente a zona fundamental de onde emerge a luta, o local a partir do qual toda transformação e criação se tornam possíveis. É a partir dessa noção de “lugar”, onde tudo acontece e onde toda possibilidade reside — o corpo e o território —, que Fanon reinterpreta e desloca tudo aquilo que seu pensamento toca: a psiquiatria, a psicanálise, o marxismo, a fenomenologia ou o pensamento da negritude.

Dessa maneira, Pele negra é um livro já radicalmente político e politicamente radical, fazendo parte de um todo que se move a partir do impulso por abolição. Não se trata, portanto, de uma primeira fase de sua obra, de um “jovem Fanon” — como se houvesse um velho Fanon, morto de leucemia aos 36 anos.8 Assim como seus livros posteriores afirmam que o colonialismo deve desaparecer levando consigo colonizado e colonizador, a intenção em Pele negra é abolir o ser “negro” e o ser “branco”, as metafísicas centrais do racismo moderno — sem ignorar o peso diferente que os materiais corpóreos do/a branco/a e do/a negro/a possuem na configuração atual do mundo. Pois o “problema do negro”, nos lembra Fanon, é sempre uma questão relacional, o “bode expiatório” de um mundo branco que se funda em mitos como os do liberalismo, progresso e civilização (2020, p. 204) — mundo esse que o próprio corpo branco não consegue verdadeiramente encarnar. Enquanto o negro (cuja desalienação é visada por Fanon) é apenas mistificado, o branco (também alienado) é ao mesmo tempo mistificado e mistificador (2020, p. 43). Para o psiquiatra martinicano, há uma noção de “universal”, que organiza o mundo e o ser brancos, que é ao mesmo tempo ilusória e perigosa: um “maniqueísmo delirante”, uma abstração na qual o branco sempre figura como a encarnação da razão, do belo, do bom e do justo. Desalienar-se, para Fanon, significa aprender a habitar seu corpo preto de outra maneira, compreendendo suas determinações sociais, a fim de se ver para além delas, mas significa também construir um outro mundo para que seu corpo o habite. Fanon, no entanto, nunca deixa de visar o geral, sem se esquecer de onde está fincado, de intuir um universal ainda não existente, mas que é possível sentir desde já, em seu próprio corpo. Dessa forma, o autor não fala simplesmente do “problema negro”, mas “das atitudes do homem diante do Ser” (2020, p. 31), impossíveis de serem tratadas sem que se leve em consideração a constituição colonial e racial da modernidade.

A partir desse ponto, como dissemos, Fanon abre diversas trilhas. Pele negra é o testemunho de como o autor disseca esse mundo mórbido e seus sujeitos, mediante a criação de uma metodologia — ou antimetodologia — não linear, concomitante à sua luta. Aquilo que confere unidade ao seu pensamento, o impulso por localização, desnaturalização e abolição, é justamente o que o faz recusar qualquer explicação que se pretenda exaustiva e definitiva — Pele negra se inicia anunciando que abre mão de “verdades categóricas” e que deixa “os métodos aos botânicos e aos matemáticos” (2020, p. 26). Esta é uma obra que, insistimos, se desobriga de qualquer fidelidade teórica com o cânone filosófico, pois se desenrola a partir de rupturas, transforma o que absorve e se concretiza em aberturas, almejando a criação de “um mundo humano” (2020, p. 242), habitado por “uma nova humanidade” (2015, p. 452). Mas Fanon só poderá realizá-la ao cabo de um processo árduo e doloroso, e não poderia ser de outro modo. Afinal, o axioma fanoniano não diz respeito a um programa a ser seguido, mas a um corpo que deseja e deve se libertar, do mundo e de si mesmo — deste mundo, deste eu. Em Pele negra, árduo é também o caminho que leva Fanon à retomada do próprio corpo, e à descoberta de que a “lise completa desse universo mórbido” (2020, p. 24), para a qual ele trabalha, possui um custo inescapável: é preciso se despedaçar, realizar uma descida ao verdadeiro inferno.

Fanon escreve Pele negra, máscaras brancas depois de ter morrido pela primeira vez. Ou, mais literalmente, depois de ter quase morrido, e de ter morrido em parte. Lutando contra os nazistas, em 1944, sobrevive depois de ser atingido no peito por um estilhaço de morteiro e ganha do exército da França uma condecoração que lhe permite estudar medicina no país. Anos depois, enfrentando o racismo francês em terreno metropolitano, ele não resiste. Confrontado pelo medo de uma criança que lhe aponta o dedo e diz olha, mamãe, um preto!, Fanon se despedaça: “Explodi. Eis aqui os estilhaços recolhidos por um outro eu” (2020, p. 126). Não se sabe com certeza quando começa a escrita de Pele negra, mas sabemos o que a antecede. Em 1949, Fanon terminava de escrever suas peças teatrais num cemitério em Dunquerque, cidade portuária do norte da França — só ali ele conseguia escrever, como confidenciou ao seu irmão Joby (Fanon, Joby, 2004). Numa espécie de autofuneral, Fanon, ao mesmo tempo em que escrevia, enterrava o Fanon vítima de uma explosão em dois momentos.9 Na introdução de Pele negra, o autor relembra esse período: “Este livro deveria ter sido escrito há três anos… Mas àquela altura as verdades nos incendiavam” (2020, p. 23). Que fogo é este que o queima? Quem é este Fanon que arde?

Sabemos que, apesar de tudo, ele não deixa o fogo morrer. Fanon toma cuidado para que essas verdades que está prestes a enunciar sejam “ditas sem ardor”, mas logo em seguida revela que gostaria “de esquentar o lombo do homem e partir. Talvez pudéssemos obter o seguinte resultado: o Homem mantendo vivo esse fogo por autocombustão” (2020, p. 23). Sabemos, também, que Fanon não se resigna diante do incêndio em que é lançado, mas, para contê-lo, vai em busca de um fogo dentro de si, em suas regiões infernais: na zona de não ser, “de onde pode brotar uma aparição autêntica” (2020, p. 22). Essa descida aos próprios infernos, como diz Faustino (2020), é motivada por um desejo de, estando no fundo do poço, cavar ainda mais fundo. Pois aquilo que Fanon enterra, os estilhaços recolhidos por seu outro eu, são os restos de um Fanon que um dia quis ser branco, um homem livre, inquestionavelmente francês; os restos de um Fanon que se acreditou sujeito universal (crença que lhe fora inculcada desde criança, na Martinica,10 e então irremediavelmente confiscada: para os franceses brancos, ele era simplesmente um preto). Aquilo que Fanon almeja agora não é somente uma reconstituição do ocorrido, e muito menos uma reconstrução daquilo que ele um dia foi (ou acreditou ser). Encarando o seu fracasso absoluto, Fanon sente que é preciso ir além dele, radicalizando-o.

É preciso descobrir de que modo tudo aquilo que orientava sua participação no mundo, tudo aquilo que constituía o seu eu e sustentava sua existência, pôde traí-lo tão cruelmente — a busca pelo amor e pelo reconhecimento do outro, a comunhão com a cultura, ciência e filosofia europeias etc. O que Fanon descobre, no entanto, é que o seu eu estilhaçado era insustentável em virtude de sua própria feitura: “Para o negro, existe apenas um destino. E ele é branco” (2020, p. 24). Mas este destino se mostra então impossível — “o negro não é um homem” (2020, p. 22) — e só o que lhe resta é um não destino: desaparecer. A questão crucial, portanto, para evitar o desaparecimento, não é reviver, voltar àquela vida impossível, mas assumir uma outra vida. Daí a importância, para Fanon, da zona de não ser: para tornar-se outro ser é preciso antes deixar de ser (aquilo que se era). Fanon reconstrói, portanto, o seu colapso para garantir que nenhuma ilusão ou falha estrutural anteriores se repitam. Nada pode passar incólume: Fanon se recusa a desaparecer e afirma radicalmente a sua presença no mundo, pondo em xeque não apenas o seu ser, mas tudo aquilo que o explicava enquanto homem negro.

Assim, Pele negra se desenrola analisando o ser do negro e sua alienação no mesmo movimento em que critica as ferramentas teóricas e analíticas que emprega nessa tarefa; é um estudo que sistematicamente desfaz suas próprias bases epistêmicas e constrói outras em seu lugar. O que lhe permite fazer isso, acreditamos, é o fato de seu pensamento ser situado, no sentido mais materialista possível: Fanon só pode quebrar as próprias bases de seu pensamento porque esse se assenta, antes, no concreto, na experiência vivida, no corpo, e não apenas em qualquer teoria ou escola filosófica.

Toda a obra de Fanon, na verdade, é ao mesmo tempo radicalmente situada e contrária a toda fixação. Os seus usos mais potentes, na política, na teoria ou na arte, se dão não pela via da abstração, mas pela via da reterritorialização e da recontextualização. Como nos lembra Faustino, durante muito tempo o prefácio de Jean-Paul Sartre para Os condenados da Terra foi mais conhecido e lido do que o próprio livro, fazendo com que o tema da violência (destacado, mas abstraído por Sartre) fosse tratado mais a partir dos argumentos do filósofo francês do que do próprio Fanon, reduzido simplesmente a um apóstolo da violência (Faustino, 2020, p. 254). Mas quando negamos a desterritorialização do pensamento fanoniano, pensamos ser possível ler a violência, que de fato existe nele, noutras chaves que não as da mera condenação ou condescendência. Para Fanon, é impossível permanecer neutro diante da violência. As referências a Aimé Césaire e a Karl Jaspers, em Pele negra, reforçam uma postura ética que o autor carregará por toda sua a vida e que marcará sua obra: “Não posso não me solidarizar com a sorte reservada ao meu irmão. Cada um dos meus atos implica o homem” (Fanon, 2020, p. 103). A primeira dimensão de suas análises sobre a violência consiste, portanto, num olhar ao redor; numa consideração de suas circunstâncias concretas; numa descrição daquilo que acontece e da forma com que aparece, em um lugar e tempo específicos. Desse modo, ao insistir em sempre localizar a violência, Fanon logra desnaturalizar a própria formação brutal do mundo colonial.

É a consideração do específico, do contingente, que sustenta, portanto, qualquer avaliação verdadeira com respeito ao geral, ao todo, nunca completamente abarcável. É assim, por exemplo, que se faz a resistência dos povos do Terceiro Mundo em Condenados — uma unidade em luta a partir das lutas múltiplas. Neste livro, partindo de sua análise e engajamento na Guerra de Independência Argelina, Fanon delineia uma geografia colonial-racial da violência existente desde a invasão da África pela Europa. Em tal cartografia, o corpo é território estratégico, apresentado não somente como alvo da violência bruta da colonização, mas também conformado por ela. Já no seu processo de descolonização, o colonizado descobre que é tão humano quanto o colonizador, mesmo em nível corpóreo, e isso transforma toda a sua concepção de mundo, o põe em movimento. Vivendo em constante tensão, seus músculos se descontraem no exato momento em que decide lutar por libertação.

Músculos que importam para Fanon, pois a alienação — que a luta permite, finalmente, enfrentar —, essa perda dos próprios sistemas de referência e adesão aos do colonizador, é também alienação do próprio corpo. Não por acaso, Pele negra visa a desalienação do negro11 a partir de sua existência mais fundamental: “no mundo branco, o homem de cor encontra dificuldades na elaboração do seu esquema corporal” (2020, p. 126). Fanon lança mão de um referencial teórico que centraliza o corpo, de tal maneira a entender que não há somente ser no mundo, mas também a experiência vivida,12 que é fundamentalmente corporal. Por outro lado, nas dimensões subjetivas e objetivas do existir, há também um esquema social e histórico que se inscreve na pele. É dessa forma, munido dessas ferramentas, que Fanon visa desnaturalizar a violência presente na própria constituição do negro (e do branco), responsável por sua alienação.

Ainda no começo do livro, o autor explica: “Se há um complexo de inferioridade, ele resulta de um duplo processo: econômico, em primeiro lugar; e, em seguida, por interiorização, ou melhor, por epidermização dessa inferioridade” (2020, p. 25). O tráfico de pessoas requereu a sua desumanização, a construção de um repertório de noções a respeito desta carne secularmente mutilada e apagada; e as agressões que se fazem presentes em diferentes instâncias da vida do/a negro/a não podem ser entendidas sem serem remetidas à violência bruta da colonização, que lhe “aconselha, com golpes de cassetete e napalm, a não se mover”, que leva “a violência às casas e aos cérebros do colonizado” (Fanon, 2015, p. 454). O sistema racial mina, portanto, o aparecer da pessoa negra ainda no nível de suas intenções, que já são de certa forma (assim como ela) sobredeterminadas. Onde quer que vá, a pessoa negra encontra violência: na linguagem incorporada (capítulo 1); nas relações amorosas (capítulos 2 e 3); na forma como essa violência já está justificada e resolvida pela ciência (capítulos 4 e 6). No espaço público, mas também na relação consigo (capítulo 5), no modo pelo qual percebe a si mesma enquanto corpo e sujeito (ou objeto), e, através desse corpo, no modo com que se relaciona com as outras pessoas e o mundo. Dessa forma, a pele negra é um lugar heurístico privilegiado, enquanto ponto de encontro de realidades sociais e enquanto “metáfora da Propriedade”, que recoloca, assim, a questão da distinção entre a violência simbólica e concreta (Spillers, 1987).

Embora interligados, há uma diferença, sugerida por Fanon, entre epiderme e corpo que encontra eco na distinção, mais evidente, realizada por Hortense Spillers entre carne e corpo. Para Spillers, a carne, diferentemente do corpo, não tem o poder de unir, de curar e não pode impedir, também, sua veneração e invasão. Após séculos de mutilação e desmembramento, portanto, acaba-se por perder “qualquer indício ou sugestão de uma dimensão ética, de parentesco entre a personalidade humana e suas características anatômicas” ( p. 68). Spillers considera o roubo de corpos, praticado pelos europeus, um crime terrível contra a carne, na medida em que nela “o corpo cativo registrou a violência” (p. 68). Essas marcas foram escondidas e significadas na própria cor da pele. A autora se pergunta se as feridas abertas na carne não são transferidas de geração a geração, transferência que se seguiria ainda mais porque “a carne é a concentração de ‘etnicidade’ que os discursos críticos contemporâneos nem reconhecem nem debatem [discourse away]” (p. 67).

Apesar das transformações pelas quais o racismo passa ao logo do tempo, descritas por Fanon em Racismo e cultura (2018), um certo “esquema morfológico” (inicialmente fincado na biologia) se mantém. Por essa razão, o relativismo cultural seria incapaz, segundo Fanon, de superar o racismo, na medida em que, mesmo em seus quadros, há sempre uma cultura (branca), que se pretende dinâmica, subjugando e julgando outras culturas, consideradas, por sua vez, estáticas, como peças de museu.13 Em toda sua obra, Fanon trata o racismo como um regime de imobilidade, marcado ademais pela imagem da amputação. Corporalmente, biologicamente, aquilo que está parado necrosa. Médico em formação no momento em que escreve Pele negra, Fanon disseca o próprio corpo ou ser mutilado. Crê ser preciso, a fim de se desalienar, olhar para (e levar a sério) o desmembramento — nos inúmeros sentidos da palavra — em que consistiu o tráfico de pessoas e a captura de mundos. Esse olhar não significa, no entanto, um retorno ao passado, mas movimento, uma abertura ao mundo por meio de invenção. Sentindo sua alma vasta “como o mais profundo dos rios” (2020, p. 153), Fanon também recusa a própria amputação, reconhecendo que a ferida que lacera seu corpo está no próprio mundo e que a colonização é a chaga profunda, a “grande ferida” que atravessa sua existência (Fanon, 2015, p. 351).

Vê-se assim que Pele negra é um livro vivo, escrito, paradoxalmente, a partir da amputação, da ferida, da necrose. É somente depois de explodir, ser despedaçado e incendiado que Fanon consegue, na última linha do livro, retornar ao seu corpo: “Ó meu corpo, faz sempre de mim um homem que questiona!” (2020, p. 242). A esta altura, entretanto, o seu corpo é uma outra coisa, resultado de uma “mutação terrivelmente radical” — para usar uma expressão do próprio Fanon, referindo-se, em O Ano V da Revolução Argelina (1959), às transformações sofridas pela população ao longo do processo revolucionário. Não mais aquilo que reitera sua clausura, imobilização e recusa de si, em sua relação com o mundo, seu corpo agora é aquilo que se move para além do que está dado, que questiona e confronta: “esqueceram a constância do meu amor. Eu me defino como tensão inicial absoluta [tension absolue d’ouverture]” (2020, p. 151). A tensão inicial, se poderia dizer, é também uma tensão de abertura, visto que o amor14 é um “movimento em direção ao mundo e ao seu semelhante” (p. 58). Fanon, portanto, recusa a clausura, a amputação, e vai em direção a tudo aquilo que implica sua carne, onde quer que sua existência esteja em jogo.

Escrito em várias vozes, a partir de uma multiplicidade de diálogos e de experiências terríveis, por vezes contraditórias, é impossível ler Pele negra sem se sentir perturbada. Para todas as questões levantadas — e as questões de Fanon são desconcertantes — poucas soluções são propostas; talvez uma ou duas, no máximo. E é difícil não se sentir impactada por elas, pois assim como Fanon executa um movimento em direção ao mundo e a nós, que o lemos, sua leitura exige de nós que o acompanhemos. Há uma gravidade em Fanon da qual é impossível escapar, um incômodo cuja origem é por vezes insondável, e ele talvez preferisse assim: é muito mais fecundo que nos deixemos ser afetadas por tais problemas e (im)possibilidades, que nos reconheçamos nelas — ou que percebamos que aqui, também, não fomos consideradas — e nos coloquemos em movimento, inventemos outras perguntas, respostas e saídas, ao invés de simplesmente seguirmos um caminho já dado. Pois é a impossibilidade de ser exaustivo, de dar conta das contradições da realidade, que aponta para a necessidade da ação. A impossibilidade de desenhar um mapa completo ou um plano acabado nos obriga a continuarmos em movimento.

Afinal, Fanon tem seus limites, como Grada Kilomba e Faustino nos mostram no prefácio e posfácio da nova edição. Kilomba afirma que Fanon “cometeu um erro fatal” ao falar “do homem como a condição humana” e ao pôr em questão, portanto, “o status ontológico das mulheres negras”, reiterando sua ausência e inexistência (2020, p. 15).15 Mas “este é um erro que ele nos deixa para ser corrigido. Ou melhor, uma ausência que ele nos deixa para ser ocupada pela nossa existência” (2020, p. 16). No mesmo sentido, Faustino propõe que afirmar a atualidade de Fanon não significa isentá-lo com respeito às suas contradições e insuficiências, mas “assumir em relação a ele a postura que Fanon mesmo teve diante de seus interlocutores mais qualificados, como Hegel, Marx, Freud, Sartre e Césaire: caminhar com eles, ao redor deles e, sobretudo, para além deles, sempre que a realidade concreta assim demandar” (2020, pp. 250–1). Fanon, como dissemos, é um autor que abre muitos caminhos sem segui-los até o fim. Não surpreende, portanto, que haja tantos fanonismos, e tanto melhor que existam múltiplas leituras. Nada mais fanoniano, na verdade: toda apropriação teórica feita por Fanon é heterodoxa, e ler sua obra é caminhar com alguém que insiste em nunca ficar num mesmo lugar, que insiste em abrir portas, olhar por janelas, mudar de cômodo, de cenário, procurando por outro mundo. Ler Fanon de uma maneira fanoniana significa vasculhar os cantos que passaram despercebidos.

Quando Fanon critica tanto o destino-branco quanto a negritude e a crítica sartreana da negritude, ele aponta para a existência de um outro ser-negro, alguma outra coisa para além dele. Nós poderíamos chamar essa outra coisa de negridade,16 embora seja difícil traduzi-la em palavras, pois Fanon a procura por vias estranhas e nunca a nomeia. Sua busca parte de um olhar sobre a constituição do negro, se recusando a esquecer de onde ele veio: foi o branco que o nomeou, foi a escravidão que o encomendou — um nome que é ao mesmo tempo uma condenação. Um nome, também, que esconde e nivela uma multiplicidade de realidades que nem sempre se conciliam e assim proíbem um significado único ao “Negro”: “Como pretender a apreensão de uma essência quando tais fatos nos interpelam?” (2020, p. 185). Mas essa “ambiguidade na situação universal do preto” se resolve, para Fanon, na existência concreta: “apelaremos para uma evidência: onde quer que vá, o preto permanece um preto” (2020, p. 186). A potência dessa solução reside justamente no fato de que ela não se dá a despeito da multiplicidade e da impossibilidade de um nome definitivo, mas através delas: através do preto ao qual todo negro é reenviado pelo branco quando sai do “seu lugar”; através do preto que não se importa com as glórias das antigas civilizações negras cantadas pela negritude, pois elas não matam sua fome.

Quando Fanon desce aos próprios infernos, infernos muito mais amplos do que se poderia imaginar aparecem diante de seus olhos. A escavação de suas próprias ruínas, enquanto homem negro, esbarra em pilares que efetivamente sustentam o mundo: meninos martinicanos nos canaviais e pretos nos canteiros de obra que trabalham sob um sol impiedoso; um labor que destrói seus corpos para que no mundo haja comida e teto — para quem? Soldados africanos que são sempre lançados para a linha de frente das batalhas; a bucha de canhão das guerras coloniais empreendidas pela França — em benefício de quem? Argelinas que fogem do napalm lançado dos céus e sufocam com a fumaça de fogueiras acesas na entrada das cavernas onde se escondem; vítimas de uma caçada empreendida de forma alucinante — por qual razão? Se para a pessoa negra e outras sujeitas raciais é impossível se sustentar nesse mundo, nota-se, ao mesmo tempo, que são elas próprias que o sustentam, que informam e estruturam sua configuração social global — do econômico ao epidérmico, como diz Fanon, do objetivo ao subjetivo. Desde a ideia que o branco possui de si até as estruturas extrativistas e financeiras do capital, tudo se ergue sobre sangue negro, sobre uma negridade despedaçada.

Não é estranho, então, que a zona de não ser seja proibida às pessoas negras: sob hipótese nenhuma, se almeja manter viva sua realidade física, o mundo branco-moderno pode arcar com os custos do desaparecimento do preto. Fanon deseja que outros negros possam também descer aos seus verdadeiros infernos, pois não há saída para o racismo no mundo branco a não ser pela própria dissolução deste mundo, o que deve significar também a possibilidade de desfazer e refazer a si mesmo. “O negro não tem resistência ontológica aos olhos do branco” (Fanon, 2020, p. 126), mas o branco não possui independência metafísica diante do preto. E este continua a queimar, a ser despedaçado; a dar o testemunho, pela própria existência, de que esse mundo é insustentável, insuportável; enfim, a chamar por sua explosão.

Com Fanon, sentimos que o momento atual é de se despedaçar, de descer aos próprios infernos. Fica cada vez mais evidente que é impossível mantermos o sonho de voltarmos a ser o que éramos antes, de nos recompormos e nos estabilizarmos. “A explosão não ocorrerá hoje. É muito cedo… ou tarde demais” (2020, p. 22), anuncia Fanon na primeira linha de Pele negra. Nós temos tempo, no entanto, para aguardar essa explosão? Hoje, nós olhamos para o fogo e enxergamos Fanon. Nós não o procuramos, pois é ele quem nos encontra e exige que nos coloquemos em movimento. Não por meio de uma ordem, Fanon jamais quis ser um líder: o “prognóstico está nas mãos daqueles que anseiam abalar as carcomidas fundações do edifício” (2020, p. 25). Mas por meio de um questionamento: nós estamos contentes com onde estamos? Estamos contentes com quem somos? E falar em contentamento, como se sabe, é um eufemismo, pois cada vez mais fica evidente que o mundo racial e colonial é uma questão de vida e morte — sempre foi e sempre será, enquanto existir. Mais uma pessoa negra é assassinada pela polícia, e nós ouvimos Fanon: “Não foi por ter descoberto uma cultura própria que o indochinês se revoltou. Foi ‘simplesmente’ porque, sob vários aspectos, respirar se havia tornado impossível para ele” (2020, p. 238). Delegacias e mercados são consumidos por chamas, e nós ouvimos Fanon: “uma outra solução é possível. Ela implica uma reestruturação do mundo” (2020, p. 95).

Quando Fanon fala do seu desejo de que o “Homem” mantenha vivo o fogo por autocombustão, nós temos motivos para acreditar que o primeiro lombo ou carcaça [carcasse] que ele incendeia antes de partir é o seu próprio; e a sua chama nos ajuda a enxergar para além dessa figura do “Homem”, que o próprio Fanon nunca conseguiu encarnar verdadeiramente, por mais que tenha tentado. Pois aquilo que ele realmente almejava ser, com todas as suas limitações e falhas, já apontava para uma outra coisa, uma outra vida, um outro mundo — eis o radicalismo de Fanon, anunciado em Pele negra. Se na primeira frase do livro ele sentencia a impossibilidade de uma explosão no momento atual, na última ele afirmará a impossibilidade de uma dominação total — um tema que vai desenvolver ao longo de toda a sua obra. Pois antes e para além de qualquer formulação teórica ou organização política, e mesmo que não o saiba, toda pessoa já carrega em si o gérmen da revolta. Todo corpo é um agente de questionamento, transformação e explosão.

Não antes, nem depois: agora. Pois para Fanon, o “homem” está sempre fincado no presente — um presente intenso, repleto de possibilidades de futuro e passado. É por esse ângulo que olhamos para sua obra. Não pensamos ser possível acessar “ela mesma”, pois sua existência não consiste num “em si”, mas numa multiplicidade de caminhos abertos a partir de um núcleo comum: a luta pela humanidade, motivada pelo amor, que pode muito bem tomar a violência como um dos meios para mudar o mundo. Dessa forma, nos perguntamos de que modo Fanon pode contribuir para um pensamento renovado nos dias atuais.

Em 2021, no aniversário de 60 anos sem sua presença na Terra, na carne, nós reivindicamos a tarefa de nunca esquecer ou diminuir a potência de suas duas mortes: a sua morte nas armadilhas do destino-branco, a partir da qual ele se lança em sua luta pelo fim do racismo e de todos os seus sujeitos e objetos, com Pele negra; e a sua morte por glóbulos brancos, às vésperas da qual Condenados será escrito, sua última contribuição para aquilo a que dedicou sua vida e obra: a descolonização total, “um programa de desordem absoluta” (Fanon, 2013, p. 52). Quando nos recusamos a amputar Fanon, ao mesmo tempo em que levamos a sério seu aviso de que não traz verdades categóricas, nos propomos a questionar e tensionar seu pensamento, a botá-lo em movimento e em novas relações — a ser fiel a Fanon num sentido fanoniano. Fanon nos mostra que os estilhaços daquilo que explodiu, monumentalmente, podem ser justamente os elementos a partir dos quais algo novo será produzido. Nós reivindicamos Fanon, em sua totalidade, pois o que buscamos (a exemplo do que ele fez consigo mesmo) não é recuperar sua vida antiga, mas lhe dar outras novas. Hoje, portanto, neste planeta, com suas feridas terríveis e incontáveis, repetimos com Fanon (reiterando Césaire) aquilo que é preciso fazer: “A única coisa no mundo que vale a pena começar: O Fim do mundo ora essa” (2020, p. 111).