Revista Rosa

Volume 2

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Uma nota sobre o capitalismo racial1

Desenho sobre manual de geografia econômica I, Helô Sanvoy.

Andei intrigado, nos últimos meses, com o termo “capitalismo racial”, frequente nas publicações de esquerda (veja-se, por exemplo, o artigo de K. Sabeel Rahman na Dissent do verão de 2020). O que significa esse termo?

Talvez o adjetivo “racial” seja simplesmente uma forma de qualificar o substantivo. O capitalismo racial seria um tipo de capitalismo, havendo, portanto, outros tipos, que exigiriam outros adjetivos. Nos Estados Unidos temos um tipo de capitalismo em que a maioria dos trabalhadores explorados se compõe de pessoas de cor. A classe mais baixa e o exército industrial de reserva se definem em termos raciais, tanto quanto econômicos. Por certo, nenhum autor de esquerda haverá de ser indiferente com respeito à exploração dos trabalhadores brancos, que podem ainda constituir a maioria da força de trabalho americana — e que, na Europa, certamente constituem a maioria dos trabalhadores explorados. A função do adjetivo, assim, seria simplesmente chamar nossa atenção, com bons motivos, para os trabalhadores não brancos. Mas seria a exploração destes trabalhadores um traço inelutável do capitalismo americano?

O termo “capitalismo racial” não nos esclarece se a posição hierárquica dos trabalhadores não brancos é determinada pela raça, pelo capitalismo ou por alguma combinação de ambos. Para começar a responder essa questão, necessitamos examinar alguns exemplos de capitalismo não racial.

A forma de capitalismo patrocinada pelos comunistas chineses é obviamente não racial. Ainda que os trabalhadores explorados sejam, na terminologia ocidental, pessoas “de cor”, a terminologia não se aplica nesse caso. Se os chineses importassem mão de obra branca para ocupar os postos de trabalho de menor remuneração, isto poderia tornar “racial” o capitalismo chinês, mas não há registro desse tipo de importação. A versão predatória de capitalismo que prevalece na Rússia de Putin tampouco é racial. É possível que os muçulmanos estejam entre os trabalhadores mais explorados na Rússia, mas são caucasianos em sua maioria (alguns deles são os caucasianos autênticos), de modo que teríamos então de falar de um capitalismo religioso — no qual os cristãos ortodoxos, e não os brancos, seriam o grupo privilegiado. Mas ninguém faz isso. Não tenho dados estatísticos, mas do que leio sobre a China e a Rússia, duvido que a taxa de exploração nos Estados Unidos, com seu capitalismo racial, seja maior do que nesses países, com seu capitalismo não racial. O capitalismo “funciona” com uma classe dominada e um exército industrial de reserva racializados — e também “funciona” quando essa racialização inexiste.

Mas será correto colocar a questão nesses termos? O adjetivo “racial” faz, por vezes, uma afirmação bem mais forte: não se trata de uma qualificação, mas de uma definição. O capitalismo seria necessária e intrinsecamente racista. Esqueçam a Rússia e a China, que chegaram tarde ao capitalismo. O protótipo do capitalismo é o capitalismo ocidental, que tem sido racista desde o primeiro momento (se é que podemos localizá-lo com exatidão): foi desde sempre racista, e para sempre o será. Estaríamos dizendo que a Manchester de 1844, tal como descrita por Engels, e onde todos os trabalhadores explorados eram brancos, não era capitalista? Não, porque aqueles trabalhadores produziam tecidos com o algodão plantado e colhido pelos escravizados negros do sul dos Estados Unidos.

Isto é bem verdade, mas não estou seguro de que tenhamos aqui um argumento relativo a alguma necessidade intrínseca. Consideremos uma possibilidade contrafactual: se não existissem escravizados negros disponíveis, o recrutamento de trabalhadores irlandeses teria começado muito antes do que começou. O surgimento do capitalismo não teria sido impedido se o tráfico de escravos inexistisse.

Mas o exemplo das relações entre Manchester e as plantations do sul dos Estados Unidos sugere algo que sempre soubemos: o capitalismo é um sistema econômico global e depende da exploração das populações de cor de todas as partes do mundo. Torna-se claro, entretanto, que a questão-chave aqui é a exploração, não o racismo. Dada a demografia global, a maioria dos trabalhadores em qualquer economia globalizada será composta de pessoas de cor. Mesmo num sistema regulado pela democracia ou pela social-democracia, a maioria dos trabalhadores e a maioria dos administradores — a classe inferior e a classe superior — seria não branca. Com efeito, se alguma empresa transacional se recusasse a contratar pessoas de cor, aí sim poderíamos chamá-la de racista. (Na cidadezinha da Pensilvânia em que cresci, a siderúrgica local não contratava, e, portanto, não explorava, nem judeus nem negros. Suponho que isso também seja um exemplo de capitalismo racial.)

Tudo isso indica que capitalismo e racismo têm de ser analisados separadamente. Superpõem-se às vezes, como ocorre nos Estados Unidos. Mas essa superposição é circunstancial e não necessária. Os dois fenômenos são distintos. Cada um, por diferentes motivos, exige severa crítica e oposição incessante. Muitos anos atrás, autores socialistas sustentavam que o triunfo da classe trabalhadora haveria de trazer a libertação das mulheres, dos judeus, dos negros e de quem quer que fosse. Lutas políticas independentes contra o sexismo, o antissemitismo ou o racismo eram desnecessárias — e, na verdade, desviavam o foco da luta fundamental, que era a luta de classes. Hoje, há pessoas de esquerda parecendo acreditar que o fim do racismo trará consigo a derrocada do capitalismo. As duas teorias estão erradas.

Derrotar o racismo nos deixará ainda com o capitalismo. Derrotar o capitalismo nos deixará ainda com o racismo. Juntar o adjetivo e o substantivo produz a falsa ideia de um relacionamento direto entre os dois fenômenos.

Faria sentido, assim, vetar a frase nos jornais e revistas de esquerda. Mas como me oponho a vetos desse tipo, gostaria apenas de sugerir que a frase fosse sempre posta em questão pelos editores. Quem a usa tem alguma noção do que significa? Ou está apenas contra o capitalismo racial, seja lá o que isso signifique?