Revista Rosa

Volume 2

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Introdução ao dossiê “Eleições e plebiscito: Estados Unidos, Brasil e Chile”

Entre os vários pleitos eleitorais e consultas em disputa neste segundo semestre, a Revista Rosa optou por buscar colaborações que contemplassem leituras e interpretações que trouxessem alguns bemóis a mais às análises bastante convergentes que dominaram o noticiário acerca das eleições presidenciais nos Estados Unidos, culminando com a derrota de Donald Trump. No Brasil, onde o fracasso de Bolsonaro como cabo eleitoral nos escrutínios municipais foi celebrado conjuntamente a mais um renascimento da velha centro-direita; e do referendo chileno, que vai finalmente enterrar a Constituição ainda vigente da ditadura Pinochet, reescrevendo seu futuro como sociedade igualitária e democrática pelas mãos de seus cidadãos e em respeito absoluto à paridade de gênero.

Assim, o dossiê dessa série se consagra como uma espécie de safra vintage, carimbando o DNA editorial da Rosa.

Com a parceria de Jack Gross, editor-chefe do website Phenomenal World, publicamos uma entrevista exclusiva de Mike Davis, escritor, professor da UCLA, intelectual marxista vindo do campo da geografia crítica, cuja vasta obra atiça e aviva o pensamento da esquerda independente. Ele nos fala dos significados, desafios e armadilhas que a vitória da dupla Biden-Harris coloca para a esquerda socialista americana. Jack Gross conseguiu o scoop, conduziu a entrevista, transcreveu-a e editou-a para a Rosa. Duas editoras, Lena Lavinas e Marina Bedran, traduziram-na. Em paralelo, graças à intervenção de Maria Luisa Mendonça, diretora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, foi-nos possível solicitar um artigo também exclusivo a Norman Solomon, diretor do RootsAction, autor de várias obras e, sobretudo, delegado de Bernie Sanders na Convenção Nacional do Partido Democrata de 2016, e novamente em 2020. Solomon alerta para os riscos de a esquerda ser tragada pelo canto da sereia do centrismo. Marcelo Coelho, também da editoria da Rosa, cuidou da tradução.

Para apreender criticamente o retorno do centrão país afora, e em especial no Nordeste, contamos com um ensaio de Jaldes Meneses, historiador e professor titular da Universidade Federal da Paraíba. Ele desvenda a novidade do velho e alguns mitos de que haveria um progressismo de raiz no Nordeste, além de interrogar os caminhos que toma a esquerda permanentemente dividida. Dentre as surpresas alvissareiras das eleições municipais no Brasil, registramos a eleição de um número considerável de ativistas negras e feministas da periferia e pessoas trans (25 vereadoras e algumas prefeitas, inclusive em capitais), sem falar no aumento dos mandatos coletivos. Convidamos, então, Anielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e Keyla Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a responderem a algumas perguntas formuladas por integrantes da nossa editoria, Carla Rodrigues e Lena Lavinas, e Sonia Correia (Abia), outra leitora engajada da Rosa. As entrevistas dissecam estratégias que grupos ativistas minoritários empregam para escapar à violência política de gênero, tema que outra convidada, Antonia Pellegrino, roteirista e escritora, resgata como substantivo para o entendimento pleno e sem vieses do sentido e urgência das lutas identitárias. Finalmente, Tainá de Paula, vereadora negra bissexual eleita pelo PT-RJ nas municipais de 2020, arremata a seção Brasil, explicando por que descolonizar nossas cidades e nossa sociedade passa pela renovação e garantia da diversidade dos quadros políticos.

O desconhecido ainda por descortinar fica por conta da radicalização da questão democrática no Chile. A socióloga e diretora do Centro Núcleo Milenio Autoridad y Asimetrías de Poder da Universidad de Santiago de Chile, Kathya Araujo, descreve como o plebiscito de 25 de novembro, um ano após as movimentações de massa que mudaram radicalmente o cenário político chileno, abre as portas para a construção de um novo pacto social. Pacto esse a ser desenhado pelos cidadãos sem participação da classe política tradicional, que tem hoje o apoio de 2% da população. Como conclui Araujo, não há garantias de quais serão as consequências de um experimento incomum em tempos em que vicejam dinâmicas autoritárias.

Vale a leitura.