Revista Rosa

Volume 2

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Comentário ao artigo de Vítor Queiroz de Medeiros sobre a questão evangélica brasileira

Li com grande interesse o artigo de Vítor Queiroz de Medeiros sobre a “questão evangélica brasileira”. O texto abre muitos caminhos para entender o que acontece nestes “rincões onde o Estado e os movimentos sociais tradicionais possuem pouco ou nenhum acesso” e onde “a vida está entre o crido e o feito”, como diz o autor, e para evitar julgamentos “unidimensionais” sobre indivíduos e processos sociais. Seus exemplos concretos, desde a “mãe evangélica que tem um filho gay” até o “vendedor ambulante” que não pode esperar “que o governo mude e o capitalismo acabe” são ao mesmo tempo esclarecedores e humanizadores. Assim como sua compreensão do empoderamento dos indivíduos pobres nas igrejas, incluindo as mulheres, e da ambiguidade entre o autoritarismo fundamentalista e uma lógica de inclusão e igualdade entre os “irmãos” que é um vetor de possível ressocialização.

Por essa razão, fiquei um pouco surpreso com a seguinte observação sobre a teologia da prosperidade: “Mais sofisticado seria observar sua funcionalidade como ética econômica no capitalismo periférico, de mercados informais e precários de trabalho, mas ainda não há um acúmulo científico nesse ponto, com empiria etc.” Parece-me um pouco estranho dizer isso em um país onde existem trabalhos profundos e complexos sobre evangélicos, como os da brilhante antropóloga da religião Clara Jost Mafra, falecida prematuramente, do sociólogo argentino Pablo Semán, e de vários pesquisadores nacionais ou norte-americanos e europeus, incluindo bons jornalistas como Lamia Oualalou.

Talvez seja necessário evitar um certo “brasilocentrismo” para entender melhor uma questão complexa que tem uma extraordinária projeção global. Há uma importante massa de trabalho não apenas sobre a constelação evangélica nos países emergentes do Sul global (sendo o Brasil e a Nigéria os mais importantes do ponto de vista demográfico), mas também na China, na Rússia e em algumas populações da Europa Ocidental. Sem mencionar, é claro, a literatura sobre o bastião religioso americano, onde a dinâmica evangélica e seu contexto sociopolítico funcionam com certas nuances específicas. Há também uma certa capacidade comparativa incipiente de fazer trabalhar juntos estudos sobre evangelismo e sobre um islamismo popular e de classe média contemporâneo, que também tem muito de “born again” e onde há tanto equivalentes de teologia da prosperidade quanto formas de “religião do coração” emocionalista que evocam o Pentecostalismo. (Um neoislamismo muito dinâmico e proselitista que até compete com o evangelismo em certos segmentos de imigrantes latinos nos EUA.)

É verdade que esses numerosos e densos trabalhos são muitas vezes dispersos, balcanizados ou invisibilizados pela hiperespecialização universitária. Como também não correspondem a certos esquemas à moda do radicalismo acadêmico acessíveis aos círculos militantes; são quase desconhecidos pela esquerda. Um exemplo típico é a total incapacidade dos adeptos da problemática “pós-colonial” ou “descolonial” de entender qualquer coisa — ou até mesmo apenas estar informado — do que a antropologia social e política, mas também a antropologia e a sociologia econômica, nos dizem sobre os novos modos de subjetivação ética e religiosa das grandes massas do Sul global.

Há quase trinta anos venho dizendo aos ativistas europeus de esquerda que projetam suas fantasias “revolucionárias” na América Latina que precisam prestar atenção ao fenômeno evangélico. Em geral, eles só o descobrem agora por causa de Bolsonaro, sem realmente entender sua dinâmica e reduzindo-o a uma vulgar manipulação ideológica. Sobre o assunto da religião, a esquerda muitas vezes oscila entre o fundamentalismo secularista e a busca de atalhos messiânicos abstratos, com muitas citações de Ernst Bloch ou de Walter Benjamin e nenhuma pesquisa empírica. Um conhecido sociólogo franco-brasileiro “marxista-revolucionário” tornou-se um especialista nesta última visão, com uma nostalgia da teologia da libertação que nunca fez um balanço de seu real impacto sociológico e de seus níveis de recepção muito diferenciados — e provavelmente superestimados — na América Latina.

Portanto, há muito trabalho a ser feito…