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Revolução conservadora e neoliberalismo

parte 2

Nota editorial:

Era conhecida a meticulosidade com que Ruy trabalhava seus textos. À exaustão, procurava aparar cada detalhe, de forma e conteúdo. Ainda que não estivesse pronto, o texto que ora apresentamos já estava em estágio muito avançado e havia sido planejado pelo próprio Ruy para publicação na 2ª ou 3ª série do primeiro número da Rosa. Por conta disso, decidimos — com a autorização e concordância de sua família — editá-lo para publicação.

O texto começou a ser pensado em meados de 2019. Depois de uma longa pesquisa, Ruy redigiu a primeira versão em dezembro do ano passado (há uma indicação precisa a respeito do dia 22 de dezembro). No entanto, pelas notas ao final e por nossas conversas, sabemos que ele trabalhou nesse texto até o final de abril de 2020.

Partindo dessa última versão, revisamos o texto, checamos as referências, conferimos citações e explicitamos as fontes quando estavam esboçadas ou não tinham sido apontadas. Também verificamos as traduções, fazendo as que se encontravam apenas indicadas. É importante frisar: o texto encontra-se quase idêntico ao que encontramos. Não há, com nossa edição, nenhum tipo de mudança substancial, que altere suas teses, seu formato ou mesmo seu estilo.

— Arthur Hussne Bernardo

Isabella C. Reiche.

A presença de todos esses elementos lança certamente muitas dúvidas a respeito da validade da tese de que estamos diante de uma variedade, mesmo se uma variedade bastante “especial” de neoliberalismo. A relação da atual extrema direita com o neoliberalismo é, entretanto, inegável. O problema é saber que relação é esta. Uma pista nos é lançada já pelo título do livro de Wendy Brown Nas ruínas do neoliberalismo, a ascensão da política antidemocrática no ocidente (grifo meu). Longe de serem elas mesmas um neoliberalismo, as atuais extremas direitas nascem da ruína deste… Yascha Mounk, em O povo contra a democracia vai no mesmo sentido. Entre as condições do aparecimento das formas políticas atuais da extrema direita estão o desemprego e a desigualdade, mas estas são, em parte pelo menos, consequências nefastas das práticas de governo neoliberais.1 Valeria a pena se deter no livro de Mounk. Ele pode servir de base (mas o utilizarei criticamente) para retomar o conjunto dos problemas anteriores, e depois avançar introduzindo também o outro polo da controvérsia, o confronto com os fascismos.

Para Mounk, as “origens” das formações políticas e governamentais de extrema direita que encontramos hoje residem em três elementos: as condições econômicas, a que me referi, a questão da identidade e uma revolução tecnológica.2 A revolução tecnológica — a Internet e as redes — dá as bases técnicas dos fenômenos de tipo populista. Ou talvez até mais do que isto. A revolução tecnológica nos meios de comunicação, que se supunha democrática ou favorável à democracia, deu a palavra menos ao “povo” do que à “multidão”. A possibilidade da intervenção de “todos” liberou menos a palavra do povo em termos de reforma, ou de revolução social, do que os impulsos mais primitivos de violência e de intolerância (mais precisamente, liberou-se também a palavra democrática, mas, nos últimos tempos esta última vem ofuscada pelos reflexos de agressividade e intolerância). A ruptura da liturgia e o niilismo tem certamente a ver com esse elemento. Ambos teriam sua origem na revolução tecnológica, ou ela simplesmente sobredetermina práticas sociais em desenvolvimento? E essas práticas vêm dos porões da sociedade civil, ou se originam nos projetos e na palavra dos líderes? O potencial próprio das novas tecnologias aparece no fato de que seus efeitos negativos (embora haja também os positivos) são mais ou menos universais. A vulgaridade de certas redes francesas não é muito menor do que se pode encontrar no Brasil. Mas, evidentemente, outros fatores pesam, pelo menos em termos de sobredeterminação. Tenho a impressão de que é em relação à liquidação da liturgia que a nova tecnologia tem um papel mais determinante. O niilismo é um fenômeno mais complexo, e também, em geral, mais antigo. É preciso se debruçar sobre o seu significado. Em termos históricos, ele tem qualquer coisa a ver com a sofística grega, pelo menos com o discurso de certos sofistas tal como eles aparecem na versão de Platão. Sem entrar aqui em considerações mais precisas sobre o significado da sofística (fenômeno de significação, sem dúvida, complexa, e para a análise do qual me falta maior competência), parece-me que foi o primeiro momento em que apareceu uma espécie de discurso da violência e do cinismo, e de ruptura com a exigência de verdade. No fundo, seria um discurso à margem das querelas entre as posições políticas, digamos, “normais” da cidade (a menos que eu esteja idealizando essas últimas). Esse momento está no lado populista dos Trump ou dos Bolsonaro. Não se trata de mentir, de falsificar dados, ou de apresentar argumentos mais ou menos sofísticos, a empreitada é mais radical. Trata-se de pôr em dúvida a própria ideia de verdade.

O outro aspecto (além das condições econômicas) é a questão da identidade. Ela se liga, entre os elementos que arrolei mais acima, com o nacionalismo e com o conservadorismo religioso. A tese de Yascha Mounk, em O povo contra a democracia, é de que há uma espécie de alternativa entre a democracia e a tolerância étnica ou religiosa. Ele dá o exemplo da democracia grega que era extremamente exclusivista. Não só as mulheres e os escravos não tinham direitos cívicos, mas também os metecos. E a lei era bastante estrita. Ele utiliza esse exemplo para iluminar o racismo dos brancos americanos e a rejeição dos imigrantes pelos europeus (na Europa, não existia diversidade étnica importante; na América, havia, mas uma etnia ou religião era a dominante, e as demais “reprimidas ou escravizadas”).3 A tese parece ter certa verdade, mas nos perguntamos sobre seu alcance, pois parece haver alguma imprecisão no argumento. Ao ilustrá-la ele dá o exemplo dos nacionalismos do século XIX, que buscavam o autogoverno, mas eram, ao mesmo tempo, exclusivistas.4 Só que aí “governar a si mesmos” e “nação autogovernada” não significam, em princípio, democracia, mas independência nacional. Porém, mais do que isto. O que quer dizer Mounk: que quanto mais democrático um país, mais exclusivista? Não. Mas, em todo caso, o exclusivismo deveria fortalecer a democracia e vice-versa. Ora, o fenômeno a que assistimos frequentemente é o da decomposição tanto da democracia quanto da tolerância. Diria que a tolerância aparece como um grau superior de democracia, em direção ao qual ela caminha, sob um aspecto, e contra o qual se insurge, por outro. Quero dizer que historicamente, em grandes linhas, há um movimento que vai da democracia, como garantia dos direitos dos nacionais, para um impulso de respeito pelos direitos dos outros povos (e, em geral, a tolerância). Mas sem dúvida, há forças que agem no outro sentido, o de impedir a passagem de uma democracia exclusivista a uma democracia mais aberta. Creio que esse problema, como um outro mais geral que se encontra no livro do Mounk, exigiria uma narrativa mais ampla tentando analisar as grandes linhas de força que ligam a Revolução Francesa aos nossos dias. Para concluir minha crítica a Mounk: talvez se possa resumi-la dizendo que ele extrapola para a modernidade a alternativa Grécia-Roma (mais democracia, menos abertura; menos democracia, mais abertura). A partir da Revolução Francesa, as coisas parecem se colocar de uma forma uma pouco diferente. Pode haver democracia e bastante abertura (Europa ocidental, até certa época) e fechamento sem democracia.

Um ponto a levantar nesse contexto é o de que a recusa exclusivista por parte não apenas de governos, mas também de certas populações, vem ligada a preconceitos em termos de costumes. Esse aspecto parece ausente das considerações de Mounk. Entre as origens do extremismo de direita contemporâneo, creio que deveria ser incluído também esse fator. De fato, ele é muito visível, e tem um peso específico no desenvolvimento daqueles movimentos. Na realidade, houve uma liberação de costumes (cujas origens, por sua vez, teriam de ser estudadas), liberação que, como se diz às vezes, foi muito rápida e, em certo sentido, desvinculada de um progresso em outros planos. As atuais extremas direitas representam uma espécie de backlash, de reação contra aqueles progressos. Boltanski falou (em intervenção oral) de “contrarrevolução sexual”, e tem-se a impressão de que se trata de um fenômeno desse tipo.

Voltando ao livro de Mounk, nele não se encontra apenas uma tentativa de analisar as origens do fenômeno que analisamos, mas de precisar a sua natureza. Essa é a questão principal do livro. E isto corresponde à menção do “autoritarismo” que fiz mais acima. Utilizando uma distinção que vem de Hayek (e que foi retomada pelo politólogo Fareed Zakaria), Mounk diferencia democracia e liberalismo, para caracterizar as novas autocracias como “democracias iliberais”:

Mas hoje que as convicções dos cidadãos privilegiam o antiliberalimo e as preferências das elites a antidemocracia, o liberalismo e a democracia entram em choque. A democracia liberal, essa mistura única de liberdade individual e de soberania popular, que durante muito tempo caracterizou a maioria dos governos da América do Norte e da Europa ocidental, se rasga por dentro. No lugar dela, aquilo a que assistimos é ao nascimento de democracias iliberais, ou democracias sem liberdade, e de um liberalismo antidemocrático, ou liberdades sem democracia.5

O esquema parece muito claro e convincente. Tem certa verdade, mas, a meu ver, é só aparentemente rigoroso. Toda a questão é discutir o que ele entende por “democracia” e o que ele entende por “liberalismo”. A democracia aparece para ele como o poder que obedece à soberania do povo: “[…] os populistas são democratas profundos: eles defendem com muito mais fervor do que os políticos tradicionais a necessidade de que o demos esteja no poder”.6 O liberalismo, por sua vez, defende as “instituições independentes” e as “liberdades individuais”.7 Mas há ambiguidade no desenvolvimento das duas noções. Para se dar conta disso, é preciso examinar precisamente os exemplos que ele dá. Orbán seria iliberal, mas democrata. Democrata? Sem dúvida, ele obteve maioria absoluta em certo processo eleitoral. E ele (também outros, como Bolsonaro) faz constantemente apelo à vontade do povo e à legitimidade que lhe dá o fato de ter sido amplamente eleito. Mas isto bastaria para que pudéssemos qualificá-lo de democrata?

A vitória eleitoral de Orbán, como em outros casos, de novo, foi feita na base de uma série de manobras, por exemplo, de conceder direito de voto a cidadãos de outros países com ancestrais húngaros (Bolsonaro, por sua vez, usou de todos os métodos, legais e ilegais para se fazer eleger. Curioso democrata). Orbán se aproveita agora da pandemia do coronavírus para se atribuir plenos poderes por tempo ilimitado, um verdadeiro golpe de Estado, cujo caráter “democrático” poderia pelo menos ser discutido. Mas não temos aí as consultas eleitorais pura e simplesmente fictícias. As eleições na Hungria atual, por exemplo, têm, digamos, certo tipo de “verdade”. Mas elas são deformadas pelo processo eleitoral e seus antecedentes (o que não impede vitórias da oposição, como aconteceu em quatro capitais de países com governos mais ou menos extremistas). Porém, é preciso bem definir em que consiste essa “deformação”, e que papel ela tem no “funcionamento” do sistema. Em linhas gerais, como muitos já assinalaram, tem-se governos que praticam (ou movimentos que propõem) uma espécie de respeito pelo poder das maiorias eleitorais, mas ligado a um desrespeito brutal, uma vez ganho o poder, pelas garantias que se devem às minorias (reais, ou supostas como tais). De fato, a nova extrema direita começa por obter uma vitória eleitoral (se podemos dizer assim). A partir daí, faz praça do poder do povo, isto é, aproveita ao máximo a legitimidade obtida com essa vitória, para intervir de forma brutal no conjunto da máquina estatal, de forma a tornar impossível a alternância.

A forma pela qual o autor utiliza a noção de “liberalismo” também é questionável. Em oposição à democracia tal como ele a concebe, os liberais são aqueles que defendem não especificamente a vontade do povo, mas sim o respeito às instituições. No caso considerado, o respeito por parte das maiorias eleitas em relação aos direitos das minorias. Em última análise, a garantia da alternância. A questão é muito antiga. Ela está no cerne das discussões propostas por alguns dos pais fundadores da chamada revolução americana. É o velho problema dos “pais fundadores” e também da tradição liberal: o do perigo da “tirania da maioria”.8 O tema está também em Tocqueville, como se sabe. Mais curiosamente, ele se encontra também em… Hayek. Basta consultar as suas obras mais importantes, como a Constituição da liberdade. Só que o que ele teme são as políticas sociais… O medo da tirania, no seu caso, é essencialmente medo do welfare state! Em todo caso, é curioso observar essa postura. E, como veremos, vale a pena explorar as suas implicações.9 Mas no caso presente, a “tirania das maiorias”, que é, na realidade, “tirania dos que obtiveram uma vitória eleitoral” (e por isso mesmo é real e não mítica, como é, por exemplo, o caso, na crítica hayekiana do new deal), serve à direta, não à esquerda. E em alguns dos casos pelo menos serve especificamente ao neoliberalismo… Veja-se o que aconteceu na Hungria, e de forma, até aqui, ainda bem diferente, no Brasil. Obtida uma vitória eleitoral (no caso brasileiro, em condições muito excepcionais, em vários sentidos), o poder instalado se empenha em minar as instituições, tentando desmoralizar o parlamento, obter maioria no Supremo Tribunal Federal (à maneira de como agiu Orbán na corte suprema da Hungria), com uma linguagem dúbia em relação à democracia: ele dá ênfase à sua legitimidade eleitoral (o povo nos escolheu e o povo é soberano), ao mesmo tempo em que se empenha no processo de dominação dos outros poderes pelo executivo, sem hesitar, inclusive, diante do elogio nostálgico da ditadura militar dos anos 1960–1970. Vê-se o quanto essa forma autoritária (em sentido genérico) se distingue dos governos que nascem de golpes militares. Aqui a arma não são os tanques, mas, até certo ponto, a caneta.

Assim, os “liberais” seriam os defensores das instituições, e mais precisamente, da alternância, diante da violência transgressiva de governos eleitos por maiorias. Acontece que a palavra não tem só esse sentido no livro de Mounk. É dito liberal também o tecnocrata que impõe a Tsipras, o dirigente da esquerda grega, os protocolos econômicos das instituições internacionais — e, evidentemente, seriam liberais também os tecnocratas dessas instituições. Isso significa que o autor define os “liberais”, à maneira de Hayek, como os defensores de uma liberdade que é também, ou principalmente, a liberdade do capital. Mesmo falando dos tecnocratas e das políticas econômicas de autoridade, não saímos da política. E, de modo correspondente no plano da forma, não vamos além das identidades. Vê-se que há alguma coisa que não funciona no esquema de Mounk.

Ao criticar esse esquema, já entramos na teorização geral dos fenômenos que estamos estudando. Voltamos à discussão, nada secundária, sobre a denominação, sobre o nome que se deve dar aos atuais movimentos, se for verdade que eles merecem uma denominação especial. Acredito que é enganoso conceder a esses regimes o epíteto de democracias iliberais. É supor que a noção de “democracia” se esgota com o respeito pelas maiorias eleitorais. O resto seria estranho a ela e deveria ser acrescentado. Nesse sentido, poderia haver democracias totalitárias, segundo a concepção bem conhecida de Jacob Talmon10 (não se trata de negar a ideia de que um igualitarismo absoluto gera um poder totalitário, mas não creio que se deve considerar o primeiro como “democrático”: a democracia implica no seu próprio conceito, equilíbrio e limitação). Assim, não creio que a expressão “democracia iliberal” sirva para designar os novos governos de extrema direita. A meu ver, a democracia é ao mesmo tempo exigência de remeter o poder à maioria e respeito pelas instituições e pelas minorias. Mas talvez se possa falar de “iliberalismo” a propósito dos novos autoritarismos, se denominarmos a exigência do respeito pelas “minorias”, exigência que é da democracia como exigência liberal (o liberalismo, entendido assim, é “momento” da democracia). Em todo caso, o termo “liberal” é ambíguo: o inglês “liberal” remete aproximadamente ao que chamaríamos de “democrata”. Por outro lado, “liberal” designa o liberalismo econômico. Minha impressão é que, retendo o sentido que tem a palavra na realidade norte-americana — e na falta de uma melhor denominação — poderíamos guardar o termo “iliberal” para designar as novas autocracias (com o que não dizemos, absolutamente, que elas seriam “democratas”, mas precisamente o contrário…). Então, na falta de um melhor termo, talvez se pudesse guardar a noção de “iliberalismo” como designação. Teríamos aí uma solução possível (ainda que muito imperfeita) do problema que mencionei no início, e que é levantado por Wendy Brown, o de dar um nome ao fenômeno… O que evidentemente não é uma questão secundária, ou puramente terminológica. A outra possibilidade, diga-se de passagem, não sendo má, tem a desvantagem de se tratar de um neologismo. De fato, se não utilizarmos os termos “iliberalismo”, “iliberal”, teríamos de recorrer ao neologismo “democratura” (e, para os seus representantes, mais pesado ainda: “democraturos”), isto é, mistura de democracia e de ditatura. Ou ditadura que conserva formas democráticas. Na falta de boas denominações, não creio que seja de jogar fora, mas prefiro “iliberal”, e farei uso do termo nesse texto a partir deste ponto.

Chegamos assim a traçar um quadro geral do iliberalismo, através do qual, creio eu, se torna muito difícil considerá-lo como simples avatar do neoliberalismo. Mas tentemos primeiro recapitular o que incluímos nesse quadro. O iliberalismo aparece como uma forma antidemocrática, cujas origens têm alguma coisa a ver com as mudanças que se operaram na economia, principalmente por causa do impacto do chamado neoliberalismo. Mas ele também está ligado a uma crise de identidade das populações da Europa e dos EUA, levando-as a abraçar o nacionalismo e o moralismo religioso, que se apresenta com traços populistas (niilismo, ruptura das liturgias) muito alimentados pelas novas tecnologias da informação e que em muitos casos faz o culto da violência e a pratica. Em termos de política econômica, esse iliberalismo porta traços do neoliberalismo que se somam a outros que são estranhos à tradição neoliberal, como o protecionismo econômico e o crony capitalism. Aqui há que considerar não só os traços diferenciais do iliberalismo em relação ao neoliberalismo, mas o conjunto das suas características. Na realidade, creio que não há muito a indicar para além daqueles traços, senão a sua ligação, que não deixo de reconhecer, mas que é complexa, com os neoliberais. Se, nesses termos, o iliberalismo se afasta em boa medida do neoliberalismo — digamos, o essencial é que se trata, a meu ver, de um outro fenômeno —, seria preciso, conforme o nosso projeto inicial, compará-lo com os fascismos do século XX.

Comparado aos fascismos, o iliberalismo (poderíamos e talvez devêssemos falar também em iliberalismos) se apresenta algo assim como uma nova constelação, que, entretanto, pertence à mesma galáxia dos fascismos dos anos 1920–1940: a galáxia das revoluções conservadoras. Desde já devo assinalar a complexidade dessa comparação, pois os fascismos, como também os iliberalismos, são muitos. O livro mais importante para descrever e teorizar essas várias expressões é o excelente Anatomia do Fascismo, de Robert O. Paxton.11 Na primeira constelação, a forma hegemônica acabou sendo o nazismo, mas ela ganhou o nome genérico de “fascismo”, que é o da sua primeira grande manifestação. Há o núcleo constituído pelo fascismo (em sentido específico: o fascismo italiano), e o nazismo, alemão. Mas há outros regimes cujas características se aproximam do nazifascismo, sem, contudo, se identificarem com eles. Levanta-se evidentemente o problema de saber se Franco, Salazar, Horthy, Antonescu e outros eram realmente fascistas (aliás, o problema já se coloca a propósito do fascismo italiano: Arendt o separa do nazismo, e não o considera um “totalitarismo”). A diferença entre eles, de um lado, e o nazismo e o fascismo italiano, de outro, está numa muito menor arregimentação das populações (não creio que se possa falar em não arregimentação, então se imporia batizá-los apenas “autoritarismos”). Na mesma linha vai uma intervenção menor na vida privada. Há além disso um traço muito importante, que, tenho a impressão, foi pouco observado: os fascismos ibéricos praticam religiões tradicionais e não as religiões seculares do nazifascismo propriamente dito.12

No livro de Paxton, há certa hesitação prudente na caracterização desses regimes. A resposta que ele dá é, entretanto, globalmente negativa (ele mostra, por exemplo, como Franco neutraliza a Falange, e transforma seu poder em ditadura não fascista baseada no exército, na Igreja, e nas forças econômicas). Mas a sua resposta não é tão nítida como se poderia pensar. Creio que se poderia chamar os regimes de Franco ou de Salazar de fascistas, embora neles não encontremos todas as características do nazifascismo. Digo isso em parte com base na ideia de que, embora admitindo que a análise particular desses regimes não nos leva a reconhecer rigorosamente formas fascistas, em razoável medida, eles faziam parte da “constelação fascista”, no sentido de que de uma forma ou de outra (e mesmo se às vezes se manifestavam independentes) giravam em torno dele. Sua dependência para com o campo total, que foi mais estreita do que se pensa, impõe a caracterização, apesar das diferenças. O termo “fascismo derivado” ou “fascismo secundário”,13 que se encontram no livro de Paxton, serviriam bem nesses casos. Fiz esse longo circunlóquio, porque parece importante na comparação iliberalismo-fascismo dar um lugar particular aos “fascismos derivados”.

Se a primeira constelação da galáxia — a galáxia se chama “revolução conservadora” — apresenta estrelas de natureza e força bem variáveis, o mesmo acontece com a segunda constelação. Aqui a força hegemônica não é mais o nazifascismo (hoje existem ou existiram partidos autenticamente nazifascistas, na Grécia, na Polônia e na Hungria, por exemplo), mas eles não são hegemônicos, nem são os mais perigosos, como assinala Paxton.14 A forma dominante é hoje precisamente a do iliberalismo, ou da democratura. Forma dominante que se encontra, por exemplo, na Hungria, mas que caracteriza também o conjunto das manifestações da nova leva da revolução conservadora. É nesse sentido que apesar das diferenças, as novas formas são funcionalmente equivalentes ao fascismo clássico. De fato, Paxton fala em “equivalente funcional”:

Armados de conhecimento histórico, estaremos capacitados para distinguir as imitações desprezíveis [do fascismo], mas isoladas de hoje em dia, com suas cabeças raspadas e tatuagens de suásticas, dos autênticos equivalentes funcionais do fascismo, na forma de alianças maduras entre fascistas e conservadores.

E ele acrescenta: “Se prevenidos, podemos nos tornar capazes de detectar a verdadeira ameaça quando ela surgir”.15

De forma mais precisa, como se distinguem os “iliberalismos” dos “fascismos”? Como se distinguem as duas constelações da galáxia neoconservadora? Esse é talvez o momento mais interessante da pesquisa, porque se se costuma indicar diferenças, em geral se fica num nível descritivo. Comecemos retomando aqueles elementos que considerei como distintivos do novo autoritarismo nas suas relações com o neoliberalismo: populismo (niilismo e ruptura da liturgia), nacionalismo, violência, formas originais de política econômica (protecionismo e crony capitalism), conservadorismo moral-religioso, autoritarismo fundamental. Em que medida isso “já” se encontra nos fascismos?

Referi-me aos traços propriamente populistas do iliberalismo: primeiro a ruptura com a liturgia, o lado boçal, mesmo gangsteresco (ver Trump, Bolsonaro, Olavo). O fascismo clássico teve muito disso. Hitler e Mussolini aparecem como personagens que rompem com o protocolo, já pelas suas biografias (pintor fracassado, boêmio; e professor primário, agitador). Pelo menos o establishment alemão levou bastante tempo para adotar o pequeno “cabo austríaco”. Quando ele finalmente chega ao poder, supunha-se que o chanceler “fascinaria as massas (…) enquanto o vice-chanceler Von Papen governaria o Estado”.16 Não foi isso o que aconteceu. Entre os iliberais é talvez Trump que tenha provocado mais escândalo, com as suas tiradas obscenas e machistas, bem absorvidas pelos seus partidários.

Quanto ao que chamei de “niilismo”, definindo-o como uma corrupção radical da ideia de verdade, isso é típico dos fascistas clássicos, uma verdadeira invenção deles. Como já observei, não se trata da prática da mentira, o que é usual em vários campos, nem de aproximações e falsificações astutas, é muito mais do que isso. Uma espécie de mentira hiperbólica, porque se choca escandalosamente com a verdade. Assim, ao mesmo tempo em que começam a perseguir sistematicamente os judeus, Goebbels denuncia nos seus discursos a conspiração judaica. Hitler faz o mesmo. O discurso iliberal segue as mesmas regras, ainda que num plano mais modesto quanto ao conteúdo. Bolsonaro jura que o presidente da Organização Mundial de Saúde confirma as suas posições, quando, na verdade, ele diz o contrário. Olavo de Carvalho fala de cumplicidades de Barack Obama com o fundamentalismo islâmico etc. Num plano maior, o discurso dos fascistas e o dos iliberais têm em comum uma ruptura radical com a exigência de verdade. Diz-se o que convier, mesmo e principalmente o mais absurdo. Isso assinala, sem dúvida, um parentesco perturbador entre os dois. Diria que os iliberais “mentem à la Goebbels”, mesmo se os seus objetos são, em geral, “menores”.

O nacionalismo que caracteriza todos ou quase todos os movimentos e governos iliberais (Trump, Putin, Salvini, Le Pen, Bolsonaro etc.) era um elemento essencial no fascismo clássico, embora o seu peso variasse de caso a caso. Creio que o fascismo italiano foi mais nacionalista que o nazismo, pela ênfase que ele dá ao novo renascimento da Itália (Hitler diz que o nazismo não é exportável, que seria assunto entre ele e o povo alemão;17 porém o biologismo racista, como sublinha Arendt, e o movimento final, que assinala uma espécie de ruptura com o próprio povo alemão, mostram como a nação era menos fundamental para os nazis do que a raça). O nacionalismo está bastante presente nos “fascismos derivados”. Deve ter sido mesmo o seu elemento fundamental.

A violência é, bem entendido, um traço comum ao fascismo e a certas formas do iliberalismo, ainda que não a todas, pelo menos no seu estágio atual de desenvolvimento. Os dois governos em que o culto da violência e também a sua prática (mas em níveis, apesar de tudo, por ora pelo menos ainda diferentes) são os de Bolsonaro e de Duterte, nas Filipinas. Nesse último caso temos um verdadeiro regime “de massacre”, de uma brutalidade inaudita. A violência se manifesta muito marcadamente no regime fascista italiano, e evidentemente, em forma paroxística, no regime genocidário nazista. Paxton observa que o fascismo italiano foi mais violento que o nazismo no período anterior à tomada do poder; depois da tomada, deu-se o contrário.18 Mas o último episódio do fascismo italiano, o da República de Salò, é particularmente sangrento (Mussolini liquida até o Conde Ciano, seu genro), mas “mesmo assim, todo o sangue derramado pela República de Salò não passou de umas poucas gotas, se comparado ao que foi derramado nos dias finais do nazismo”.19

No plano econômico, aparece, apesar de tudo, uma diferença importante entre os iliberalismos e o fascismo. Insisti nos traços não neoliberais que estão presentes nas políticas econômicas dos governos iliberais. Mas as marcas do neoliberalismo são, de qualquer modo, sensíveis (isso não permite definir o iliberalismo pelo neoliberalismo: é preciso saber que peso, em seu projeto político, tem a relação com o capital). Os fascismos eram bastantes estatizantes (porém, segundo Paxton, Mussolini queria um Estado mínimo até 1925).20 O estatismo dos fascismos clássicos estava na regulação da economia e nos obstáculos impostos ao comércio exterior. Porém, menos no final, os capitalistas se acomodam bem ao novo sistema.21crony capitalism, o capitalismo oligárquico, a serviço dos “amigos”, tão visível na Hungria de hoje, como também na Polônia, estava presente nos fascismos: vejam-se as vantagens de que desfrutava Goering, chefe de partido e industrial. Os casos atuais parecem ser, entretanto, de um tipo diferente. Para me ater apenas à Hungria, sobre a qual se pode ter acesso a uma literatura importante, o crony capitalism parece quase definir o regime. Um opositor ao regime de Orbán inventou o termo “Estado Mafioso” (Mafia State)22 para exprimir a essência do regime (Estado a serviço de uma máfia que controla a economia e os centros de poder). A diferença é que precisamente o lado mafioso do Estado húngaro não é um traço, ele representa o conjunto: não há um Estado fascista clássico por trás disso. Em todo caso, a semelhança deve ser assinalada.

O conservadorismo religioso é um aspecto problemático, sobre o qual será necessário voltar. Ele mais separa do que aproxima iliberalismo e fascismo. O conservadorismo religioso aparece nos “fascismos derivados”, mas não, propriamente, no fascismo nuclear, que, pelo contrário, se lhe opõe. Os fascismos, conforme uma expressão que se tornou clássica, praticam uma religião laica, e não uma religião tradicional (isso, apesar das acomodações com a Igreja Católica a que Mussolini foi obrigado a fazer). Os fascismos “derivados” estão estruturalmente ligados às formas e instituições tradicionais da religião.

Há outros elementos de diferenciação, como um grau muito menor de arregimentação das populações e de invasão da vida privada. Isso é até certo ponto comum com os fascismos derivados, mas em nenhum dos dois casos essa arregimentação está ausente de forma absoluta, pelo menos se considerarmos regimes como os da Hungria e da Polônia e potencialmente também o do Brasil: pense-se nos projetos de Bolsonaro em matéria de educação.

Finalmente, o autoritarismo existe certamente no iliberalismo e no fascismo, mas sob formas diferentes. Diria (contra Mounk) que os dois são antidemocráticos, mas sob formas diferentes. O fascismo liquida de forma radical as formas democráticas, o Estado de Direito. O iliberalismo a liquida de forma sutil. Ele deixa subsistir a democracia — ou, antes, um dos componentes dela, as eleições e o princípio majoritário, os quais subsistem, mais ou menos livres, mas não em forma puramente fictícia. A diferença é importante. Há outras: o fascismo é expansionista, conquistador, em ato, os governos iliberais, talvez obrigados pelas circunstâncias, ou se abstém pura e simplesmente dos projetos expansionistas, ou os alimentam (Putin, Orbán), mas em formas, de qualquer modo, mais discretas do que Hitler e Mussolini. Putin é o que foi mais longe no que se refere a isso, o que se vê em sua ocupação da Crimeia e também em sua política no Cáucaso. Porém, até aqui trata-se mais de recuperar territórios perdidos, e garantir a permanência dos que detém, do que de guerras de conquista.

Poderíamos agora tentar uma síntese. Os iliberalismos não são estritamente fascistas, mas guardam alguns traços deles e podem ser ditos “equivalentes funcionais do fascismo”.23 Passamos então para um resumo das principais diferenças. Elas parecem estar em três pontos: religião (ou moral e religião), economia e forma de dominação política. Desenvolvendo esses pontos, precisamos o que separa o fascismo do iliberalismo, que lhe é entretanto o “equivalente funcional”. E mais adiante podemos reintroduzir o neoliberalismo, para fazer a comparação fundamental que tem de ser de ordem triangular. Tentemos agora fazer um balanço desse sistema de convergências e de divergências entre o iliberalismo e o fascismo, de maneira a tentar uma definição mais precisa do primeiro.

Os iliberalismos, como os fascismos, pertencem ao gênero “revolução conservadora” — a sua galáxia comum — porque pretendem lutar contra o movimento de emancipação que se inicia com a Revolução Francesa, mas não pretendem voltar ao passado. (Creio já ter dado as razões pelas quais, assim como os fascismos, eles não se definem como movimentos pró-capitalistas, mesmo se a sua política favorece o capitalismo). Conhece-se o significado do conceito de “revolução conservadora” e do objeto que lhe corresponde. A Revolução Francesa enfrenta inicialmente uma crítica que tem como ideal as antigas instituições. Esse o sentido das filosofias reacionárias de momento pós-revolução. Mas bastante cedo essa volta ao passado se tornou ilusória, e, digamos, as forças conservadoras pensam em um projeto de reação no registro do progresso, de certo modo. Não reação diante da revolução. Mas uma outra revolução diante da revolução, uma contrarrevolução que se pretende revolucionária. E essa tendência passou a ser a dominante. Os fascismos são as expressões paroxísticas e genocidas dessa tendência, no universo do século XX. E é esse mesmo projeto que reaparece com os iliberalismos. Como os fascismos, e em oposição aos movimentos conservadores, que sonham, sob uma forma ou outra, com uma volta ao passado, eles querem incorporar a democracia ao seu movimento. Mas os fascismos prestam homenagem à democracia, se se pode dizer assim, ao mobilizar as populações a praticar uma política de massas, de resto muito eficiente. A democracia que eles incorporam é a “democracia de massas”. Nesse sentido, eles são alérgicos às formas democráticas, mesmo se as utilizaram para chegar ao poder, e mesmo se, por outro lado, apelam frequentemente para as formas de democracia direta, como o plebiscito. Já o iliberalismo incorpora em alguma medida o individualismo democrático, na medida em que, como vimos, a política econômica que ele propugna, revela alguns traços do neoliberalismo (ainda que articulado com elementos que lhe são estranhos ou opostos). Por outro lado, eles reivindicam, de uma forma estranha ao fascismo, o princípio democrático do poder da maioria. Há nisso um elemento que é também individualista. E há, em geral, uma relação para com a democracia que é inteiramente diferente da que revelavam os fascismos. Vimos, como eles se apoiam em vitórias eleitorais, de onde tentam tirar a sua legitimidade, legitimidade que por sua vez é absolutizada de forma a bloquear toda alternância. Nisso tudo, o iliberalismo procura uma forma caricatural de aproveitar as novidades que a democracia introduziu. É essa exigência de legitimidade democrática (mesmo se ela é ilusória — embora não fictícia) que permite distinguir os regimes atuais dos fascismos “derivados”.

Assim, sob certo aspecto, essa nova vaga da revolução conservadora é mais pró-capitalista e individualista do que a anterior. É mais moderna, se se quiser. A aceitação oportunista do princípio do poder das maiorias eleitorais, e em geral, o respeito — ainda que a médio termo se revele fictício — se dá pela impossibilidade de retomar o modelo autocrático dos fascismos. Os fascismos ficaram profundamente desmoralizados, e é impossível voltar a eles, na sua forma original. Como esse aspecto está presente também em outra vertente do iliberalismo, deixo o desenvolvimento desse ponto para algumas linhas mais abaixo.

Mas se, sob certos aspectos o iliberalismo parece mais individualista, mais pró-capitalista e mais moderno do que os fascismos, sob outros, se aproximando dos “fascismos derivados”, ele é mais arcaico. Assim, como vimos também, a política de costumes do iliberalismo é fundamentalmente conservadora, como não era o fascismo, que até continha esse aspecto, mas combinando-o com outros, e tolerando certas facilidades. O iliberalismo aparece, para alguns, como uma “contrarrevolução sexual”. Os fascismos, apesar da perseguição aos homossexuais (que entretanto desempenhavam papéis importantes no início do movimento), não têm propriamente essa característica. E, principalmente, como os “fascismos derivados”, os iliberalismos se comprometem com as religiões tradicionais, não com as religiões laicas. A meu ver, temos aí um elemento decisivo. Em relação ao núcleo nazifascista, o desaparecimento do aspecto “religião secular” (e a correspondente adoção das religiões tradicionais, pelo menos uma atitude simpática em relação a elas) é um dos elementos que permitem efetuar a distinção. Essa recusa das religiões laicas, com o seu cerimonial (a sagração das bandeiras, por exemplo), junto com a alergia ao antidemocratismo brutal dos fascismos, se explica pela desmoralização que sofreu o fascismo, apesar dos esforços dos seus defensores diretos ou indiretos:

As cópias-carbono do fascismo clássico, a partir de 1945, sempre pareceram ou exóticas demais ou chocantes demais para conquistar aliados (…) O maior obstáculo ao renascimento do fascismo clássico, após 1945, foi a repugnância que ele veio a inspirar. Hitler provocou náuseas quando as fotografias repulsivas da libertação dos campos de concentração foram publicadas. Mussolini inspirava chacota. Paisagens devastadas davam testemunho do fracasso de ambos. O corpo carbonizado de Hitler nas ruínas de seu bunker berlinense, e o cadáver de Mussolini pendurado pelos tornozelos num deteriorado posto de gasolina em Milão marcaram o sórdido fim de seu carisma.24

Os novos revolucionários conservadores tiveram de tomar distância em relação ao fascismo, que se transformou num álibi para eles (ver, por exemplo, Olavo de Carvalho falando do fascismo. E, entretanto, há muitos elementos que provam que ele está falando mal de primos-irmãos).

Em relação aos seus primos fascistas, os iliberalismos são, ao mesmo tempo, mais modernos e mais arcaicos. É para essa combinação de traços opostos que costuma chamar a atenção Wendy Brown, ao mesmo tempo em que a vê como um desafio difícil para toda análise e explicação:

[…] curiosa combinação de libertarianismo, moralismo, autoritarismo, nacionalismo, ódio dos Estados, conservadorismo cristão e racismo. Essas novas forças reúnem elementos bem conhecidos do neoliberalismo (liberar o capital, abandonar o trabalho, demonizando o Estado social, e o “político”, atacando a igualdade, promulgando a liberdade) com [elementos] que lhe parecem ser opostos (nacionalismo, reforço da tradição, antielitismo populista, e exigências de soluções estatais para problemas econômicos e sociais). Eles articulam virtude (righteousness) moral com uma conduta quase celebratoriamente amoral e incivil. Eles sustentam a autoridade, ao mesmo tempo em que praticam desinibição social pública e agressão, sem precedentes. Eles se enfurecem contra o relativismo, mas também contra a ciência e a razão, e rejeitam afirmações baseadas na evidência, argumentação racional, credibilidade e responsabilidade (accountability). Desprezam os políticos e a política ao mesmo tempo em que manifestam feroz vontade de poder e ambição política. Onde estão eles?25

Os fascismos também eram combinações exóticas. A esse propósito, visando, é verdade, principalmente o fascismo no poder, escreve Paxton:

O fascismo no poder consiste num composto, um amálgama poderoso dos ingredientes distintos, mas combináveis, do conservadorismo, do nacional-socialismo e da direita radical, unidos por inimigos em comum e pela mesma paixão pela regeneração, energização e purificação da Nação, qualquer que seja o preço a ser pago em termos das instituições livres e do Estado de Direito.26

Entretanto, as duas sínteses não são idênticas, nem é idêntica a sua consistência. Os fascismos parecem, e devem ser, na realidade, muito mais consistentes do que os seus primos iliberais. Por que isso?

A tese que pretendo defender aqui é de que os fascismos dispunham de um nó que, até certo ponto, reunia todas as notas mais ou menos compósitas e lhes dava uma síntese suficiente: esse nó é a religião laica. Um conjunto de símbolos, de rituais, de cerimoniais, que “colavam” os diferentes aspectos do movimento e o consolidavam suficientemente. Mas foi preciso abandonar a religião laica. As suásticas, fascios, os grandes rituais e cerimoniais fascistas, a sagração das bandeiras, já não eram sustentáveis. Eles estavam ligados demais a um massacre universal que provocava repugnância em todos os campos políticos. Era preciso abandoná-los. E uma vez abandonados, restaram as religiões tradicionais. Elas reaparecem, e se tornam elementos importantes, senão decisivos, como nos “fascismos derivados”. Mas essa operação tem duas consequências. Os ililberalismos abandonam um dos elementos articuladores de um grande poder, apelando a forças que podem ter eficácia, mas que dificilmente têm a energia de uma religião nova, e escandalosa, uma religião do ateísmo. Por outro lado, eles introduzem no interior dos iliberalismos um elemento claramente arcaico, que contrasta muito vivamente com o seu modernismo sob certos aspectos individualistas (neoliberalismo, “democratismo” eleitoral). Eu diria que o iliberalismo nos põe em contato com alguma coisa como uma explosão da revolução conservadora. Os seus diferentes elementos ganham autonomia, e agindo de concerto, ao mesmo tempo se opõe entre si (isso já existia no fascismo, mas não na mesma escala: a religião laica era um adesivo vigoroso que aparava as suas arestas).

Não sei se com isso avanço muito na descrição, senão na explicação, dos iliberalismos, mas, comparados aos fascismos, esse aspecto me parece relevante. Isso implicaria afirmar que, comparado ao fascismo, ele é mais frágil e de sobrevivência mais problemática do que este último? Não necessariamente. O compacto fascista levou a uma expansão aventureira que assinalou o começo do seu fim. O iliberalismo só em alguns casos pode ser considerado expansionista. Sua menor consistência o impede de trilhar esse caminho, pelo menos na forma impetuosa dos seus predecessores? Difícil dizer. De qualquer forma, é preciso se habituar às contradições internas dos iliberais para bem entendê-los e bem combatê-los. Aqui, mais do que em qualquer outro caso, as descrições e explicações unilaterais são desastrosas, porque perdem o seu objeto.

Chegamos assim a alguns resultados. E também a alguns problemas. Claro que desde o início poder-se-ia perguntar se os nove ou dez regimes e movimentos arrolados têm algum tipo de unidade. Minha opinião é que eles têm, apesar de tudo. Apesar das grandes diferenças. De fato, cada um exagera um traço de um fenômeno global, e com alguma unidade, porque existem os traços comuns. As ideias a que chego até aqui (ou em conclusão) são: 1) de que o iliberalismo, relativamente aos fascismos, reúne elementos ao mesmo tempo mais arcaicos e mais modernos. É mais arcaico por causa das relações mais estreitas que tem com o conservadorismo moral e religioso (por isso, têm certa afinidade com os “fascismos derivados”). Mais modernos porque têm um compromisso maior com o individualismo. 2) Que a síntese iliberal é muito mais problemática e frouxa do que a síntese fascista, o que se pode explicar pela falta da religião laica. Esta falta se explica, por sua vez pela repugnância que, de qualquer forma, a violência genocidária dos fascismos, provocou.

Talvez possamos tentar um quadro geral das diferenças (menos do que uma teoria) entre neoliberalismo, fascismo e iliberalismo. Seria preciso, ainda uma vez, tentar desenvolver, mesmo se esquematicamente, o sentido do processo histórico que liga os nossos dias à Revolução Francesa. Digamos que o que iremos encontrar nesse processo são interversões, principalmente a interversão do conceito de liberdade (que é a palavra de ordem e a máquina de guerra dos nossos liberais). Creio que deveríamos partir da ideia de que a Revolução Francesa lega três bandeiras principais: liberdade, igualdade e propriedade. A liberdade teve um duplo destino: em parte foi se ampliando, implicando direitos não previstos no ideário revolucionário (de minorias sexuais, por exemplo). Por outro lado, a liberdade se interverteu em não liberdade quando se tornou liberdade para as forças econômicas dominantes. O destino da igualdade foi o da passagem da igualdade formal perante a lei à exigência de igualdade social. Exigência que, bem entendido, foi impedida o tanto quanto possível pelas forças conservadoras. Assim, o lance dos inimigos da emancipação foi o bloqueio da liberdade como liberdade formal. Finalmente, a propriedade, que, sob forma limitada, pode ser considerada um direito autêntico, passou por uma hybris, tornou-se a propriedade invasiva do capital, e em particular, do grande capital (mais do que interversão, há ai uma espécie de hybris, mas se poderia falar também em interversão. En passant, utilizo aqui categorias dialéticas para pensar esse trajeto. A falta desses elementos dialéticos é que condena mais ou menos as tentativas de pensar esse processo, ver, por exemplo, Mounk, mas um pouco, quase todos os autores). A minha suposição geral, tanto marxista quanto tocquevilliana, é a de um movimento emancipatório crescente, de certo modo, mas ao mesmo tempo, da realidade de poderosas forças de bloqueio da emancipação (sob a forma da regressão ou da revolução conservadora). Historicamente, as forças antiemancipatórias abandonam progressivamente sua perspectiva pura e simplesmente reacionária em proveito da conservação na revolução. Talvez se deva falar em três tendências, no lado antiemancipatório. O reacionário (Bonald, de Maistre), os revolucionários conservadores (provavelmente Nietzsche, mais tarde, sob formas muito diferentes, os fascismos), e um movimento antiemancipatório do centro, como o de Burke, e os Whigs.

Em relação aos conceitos arrolados, e às trajetórias deles, neoliberalismo, fascismo e iliberalismo, se ordenariam mais ou menos assim. O neoliberalismo, como teoria que se caracteriza fundamentalmente pela defesa do mercado e do capital (mesmo se, a rigor, não é partidária do laissez-faire, porém em nome dos interesses do capital), é um movimento que, de forma típica, quer evitar a passagem da igualdade formal à igualdade social ou real. É um bloqueio da igualdade. Não creio que haja lugar aqui para divergência, mas não vou desenvolver muito esse ponto. Ele caberia numa crítica geral do neoliberalismo, e de Hayek em particular. Basta dizer que a expressão “justiça social”, simplesmente não tem sentido para Hayek (a crítica atinge o nível da repressão linguística, à maneira dos positivas lógicos, embora Hayek não seja positivista lógico). Na medida em que os outros dois movimentos se opõem às lutas emancipatórias das classes trabalhadores, isso também pode ser dito para ambos, mas é mais claro e característico a propósito do neoliberalismo. Porém, igualmente importante, ou mais importante do que isso: o neoliberalismo encarna muito bem a hybris da propriedade (a propriedade que se tornou propriedade do capital), e a interversão da liberdade, que se torna liberdade para as forças sociais dominantes. Liberdade do capital, não dos cidadãos ou dos indivíduos. As duas palavras-chave do neoliberalismo (talvez com a concorrência, mas ela vai junto) são “liberdade” e “propriedade”. Os neoliberais se afirmam o tempo todo como os defensores da “sociedade livre” (que inclui e privilegia, talvez, o direito de concentrar uma ampla parcela da riqueza social), e a noção de propriedade, como a defesa dela, estão no centro do seu projeto (ver, entre outras coisas, suas relações para com Locke).

O fascismo não se apresenta como defensor da liberdade, nem da igualdade. Entretanto, ele incorpora alguns projetos de proteção social e, assim, ele não é inimigo estrito da igualdade social, como o neoliberalismo, mas o é da igualdade formal. Nesse sentido, o fascismo se define muito bem como inimigo da liberdade e da igualdade. Inimigo de 1789. Ver as referências de Goebbels, e certamente de outros líderes nazis, à Revolução Francesa, como uma espécie de debacle que precisa ser revertido. Quanto à propriedade, os nazis não se apresentam preferencialmente, digamos, como defensores da propriedade, embora o fossem. Sobre isso, ver no livro de Paxton o desaparecimento, ou quase desaparecimento, progressivo das reivindicações de tipo reformista ou anticapitalista que pontuavam os primeiros programas fascistas e nazistas. Eles se tornam simples verniz. O anticapitalismo fascista, escreve Paxton, é “seletivo”.27

Finalmente, o iliberalismo ataca a liberdade, mas incluindo, e talvez principalmente, as novas liberdades, os novos direitos, que surgiram depois da Revolução (direitos das minorias etc.). As liberdades clássicas são também negadas, mas de forma mais sutil do que faz o fascismo. A defesa da hybris da propriedade (a defesa do capital) está presente de forma variável na prática dos iliberais, mas não de forma tão pronunciada como no neoliberalilsmo. A recusa da igualdade social é também menos evidente (embora seja real), na medida em que pelo menos alguns iliberalismos propõem medidas que vão na direção da proteção social (muito misturada com os objetivos nacionalistas): vantagens para as famílias nacionais na Hungria, na Polônia ou na Itália, por exemplo.

Nesse quadro, teríamos, em resumo: neoliberalismo como defensor da liberdade (incluindo, principalmente, a sua interversão) e da propriedade (incluindo, principalmente a sua hybris). O fascismo não se apresenta como defensor nem da liberdade, nem da igualdade, nem da propriedade (embora tenha defendido, e muito, a propriedade). Mas ele é o movimento anti 1789, por excelência. Como o fascismo, o iliberalismo é autocrático (mas em forma atenuada), nesse sentido, dado essencial, ele é um inimigo da liberdade. Mas ele se caracteriza bastante por atacar as liberdades, os direitos, “advenientes”. Ele não é tanto o anti 1789, ele é o inimigo do movimento de emancipação que se lhe segue, e inimigos da modernidade em geral. Sua relação para com a propriedade não é tão entusiástica como a dos neoliberais, nem tão “pálida”, como, apesar de tudo, era a relação que os fascistas tinham para com a propriedade.

De certo modo, teríamos um movimento anti-1789, um outro mais precisamente contra a boa herança de 1789, e o terceiro a favor da hybris, do bloqueio e das interversões dos princípios de 1789. Respectivamente, fascismo, iliberalismo e neoliberalismo. O fascismo é autoritário-coletivista. O neoliberalismo não é autoritário e é individualista. A originalidade do iliberalismo é ser autoritário e individualista. Ele é, de resto, moderno-arcaico, em geral com prevalência do elemento moderno sobre o arcaico. Em suma, o iliberalismo quer incorporar o conservadorismo (que o neoliberalismo renegava) e o individualismo (traço geral da modernidade, que eles leem, claro, à sua maneira). Assim, o iliberalismo exprime a convergência do autoritarismo e do capitalismo selvagem. Isso é decisivo. Termina de vez a suposta cumplicidade entre democracia e capitalismo.

Mas isso não nos autoriza a entender os iliberalismos como meras variedades do neoliberalismo. Essa ideia é fruto de uma concepção estreita do sentido da história mundial desde a Revolução Francesa. Pensa-se esse processo apenas como história do capitalismo. Na realidade, ele é história do capitalismo e história da democracia (e, entenda-se, nos dois casos há um “anti” a acrescentar: história do anticapitalismo e história da antidemocracia). Já havia observado que a tese de que os iliberalismos são um avatar do capitalismo representa um erro semelhante ao de pensar que os fascismos são pensáveis simplesmente como momentos da história do capitalismo, ou avatares do capitalismo. Eles não são exatamente isto. Há que introduzir um recuo. Eles são essencialmente antidemocráticos (na sua definição, nem capitalistas, nem anticapitalistas). O mesmo ocorre com os iliberalismos. Precisamos de uma outra visão do processo histórico que preenche o espaço histórico que vai da Revolução Francesa aos nossos dias. Foi a concepção que defendi desde há bastante tempo quando insisti em que as formações capitalistas dominantes são na realidade, rigorosamente, “democracias capitalistas”. Num texto que está no meu O Ciclo do Totalitarismo,28 mas que já fora publicado nove anos antes na revista Lua Nova29 (peço desculpas ao leitor, mas tenho de fazer uma longa citação):

A experiência do totalitarismo, e também exigência de ordem teórica, aliás estimuladas por aquela experiência, obrigam a repensar a ideia de que o termo “capitalismo” — em geral, a simples subsunção sob a noção de “modo de produção” — possa caracterizar suficientemente as sociedades (industriais ou semi-industriais) contemporâneas. Porém (quando o regime é democrático), a noção de “democracia”, por si só, também não permite uma caracterização satisfatória. A meu ver, num duplo movimento de crítico do marxismo e do liberalismo, seria necessário caracterizá-las como democracias capitalistas, ainda que essa denominação não satisfaça a nenhuma das duas tendências. Uns contestarão a legitimidade da noção de capitalismo. Seria melhor dizer algo como “sociedade de mercado”, o que, de resto, para eles — embora a identifiquem com o capitalismo — estaria incluído na ideia de democracia. Os outros ou insistirão na tese de que democracia (como qualquer forma política) seria simples “momento” do modo de produção capitalista, ou dirão que, entendida como “verdadeira democracia” esta está ausente do capitalismo e, mais do que isto, o contradiz. Há bastante verdade na última afirmação, a de que, sob certo aspecto (a saber, tendencialmente), capitalismo e democracia se contradizem. Mas essa razão não invalida a denominação, se o objeto que ela designa é ele mesmo contraditório. Bem entendido, trata-se de uma tendência, porque, de fato, e dentro de certos limites, os dois coexistem. A restrição indica que essa coexistência tem um preço. Enquanto houver capitalismo, a democracia é, necessariamente, imperfeita, O que não impede que, a despeito de sua imperfeição — e em determinado sentido, por isso mesmo, já que a reivindicação da democracia é inseparável da exigência de aperfeiçoá-la — ela seja um bom ponto de partida, talvez mesmo o ponto de apoio fundamental para qualquer projeto socialista.30

É no interior dessa concepção que fenômenos como o fascismo e o iliberalismo são compreensíveis. Eles como que atravessam as duas histórias. Eles mesmos pertencem mais à história da democracia (mais precisamente, da antidemocracia), porém a história do capitalismo envolve a sua aparição, e sem ela (embora o capitalismo não os defina) eles também são incompreensíveis. (Tendo desenvolvido por meios próprios a noção de democracia capitalista, vim a encontrá-la depois nos excelentes escritos de Wolfgang Streeck. Ele fala, na realidade, em “capitalismo democrático”, mas emprega também a expressão “democracia capitalista”. Qual das duas fórmulas é a melhor? Por ora, deixo a resposta em suspenso. É possível que cada uma delas tenha os seus méritos).

Para terminar, só me restaria insistir em que, se critiquei tanto a redução dos iliberalismos a uma figura do neoliberalismo quanto a classificá-los, mesmo se com certas precauções, de “fascistas”, nem por isso subestimo as razões de uns e de outros, e, em geral, a importância de evocar, nas atuais circunstâncias, tanto o neoliberalismo quanto o fascismo. O neoliberalismo está um pouco por todo lado, e a sua presença aflora uma vez mais com a pandemia do coronavírus. O delírio em torno das exigências de economia por parte do Estado, a tendência a ver cada gasto estatal, principalmente em despesas “sociais”, como um gasto mais ou menos abusivo (“gasto um dinheirão louco com isto”, disse Macron), mostram bem que é inútil negar as responsabilidades do neoliberalismo na crise terrível que atravessamos (acabo de ler um texto falsamente “savant”, em que o autor polemiza com Barbara Stiegler que levantara o argumento e a acusação; para ele, o neoliberalismo não tem culpa — teriam sido as “negligências” — e, aliás, o neoliberalismo — como o caldeirão na fábula de Freud — nem mesmo existe. A propósito da existência do neoliberalismo, não sei se o autor leu Hayek; eu li).

Quanto ao fascismo, pensemos, para dar um exemplo ao alcance da mão, no caso Bolsonaro. O elogio das armas de fogo, que também existiu no fascismo, o desprezo pelas vidas humanas — a indiferença diante de massacres é uma forma atenuada de aceitar o genocídio —, o cinismo diante da verdade, o uso das cores nacionais como cores características de uma indumentária partidária… Nesse ponto, a hora da verdade do governo Bolsonaro foi o discurso, parafraseando Goebbels, pronunciado por um ministro — o qual foi obrigado a se demitir por pressão da embaixada de Israel. Goebbels com Wagner como música de fundo. Nenhum de nós esperava uma tão espetacular revelação. O que mostra que, se, apesar de tudo, o que temos lá não é pura e simplesmente fascismo, o fascismo ronda por toda parte e é o segredo (porque o modelo clássico) dos novos revolucionários conservadores. Assim, melhor falar em neoliberalismo e em fascismo do que omitir os dois conceitos. Contudo, não se deve identificar, sem mais, o iliberalismo com o neoliberalismo ou o fascismo. É preciso dar rigor às análises, porque as imprecisões teóricas, mesmo pequenas, podem ter um preço político muito alto.