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Há mais do que os olhos percebem por trás do filme Cidade Pássaro

Afine seu olhar

Fotograma do filme Shine Your Eyes.

Shine Your Eyes, o título em inglês, é uma expressão nigeriana que adverte: esteja vigilante, preste atenção ao seu redor, não se deixe enganar pelas aparências.

Um olhar estrangeiro se lança sobre um cenário desconhecido e labiríntico de concreto e asfalto. Cidade Pássaro captura as experiências da exploração, das dificuldades, do desterramento, das barreiras linguísticas e culturais que se impõem a um forasteiro na gigantesca metrópole.

O diretor Matias Mariani e a equipe de roteiristas se propuseram a filmar uma história de um estrangeiro em São Paulo, decidindo escrever sobre os nigerianos da etnia Igbo que constituem parte da imigração recente para a cidade.

No enredo, Amadi (O.C. Ukeje), um músico nigeriano, vai a São Paulo a pedido de sua mãe e em busca de seu irmão mais velho, Ikenna (Chukwudi Iwuji). O protagonista percorre a cidade, seguindo os rastros de Ikenna e logo descobre que o irmão não é professor universitário como dizia ser em e-mails que enviava à família. A paisagem urbana da região central, logo de início, ocupa todo o quadro. Já é o começo de uma construção visual da importância que a própria cidade tem no filme, como uma força desconhecida que atraiu Ikenna e que consequentemente atua sobre Amadi.

O centro

Na Galeria Presidente, centro da cidade, Amadi ajuda seu tio (Barry Igujie) num pequeno negócio de extensões capilares. Este é o cenário de uma cidade desconhecida a muitos paulistanos, formada por imigrantes e refugiados, e por idiomas diversos e comunicações truncadas. Um certo clichê de cosmopolitismo elitista se desfaz na revelação de uma outra forma de convivência internacional produzida no centro da cidade. Uma convivência das diásporas e de povos distantes, saudosos, arrancados de suas terras natais. Igbo, vietnamitas, sírios, coreanos ou húngaros.

Fotograma do filme Shine Your Eyes.

“Tão perto e tão longe. Aqui bem que poderia ser Londres”, comenta o tio. E Amadi apenas constata: “cidade de brancos”. Em outro momento, o filme se refere a São Paulo como uma “cidade fantasma para além do oceano”. São Paulo não é Londres. Amadi se perde na fantasmagoria. Entre espaços, construções, interiores e avenidas, em busca por seu irmão e por si mesmo.

Um homem reza para Alá do alto de um prédio da Ocupação 9 de Julho. Inserido entre as paisagens características da região central e sua particular arquitetura incongruente. A sensação da densidade visual é reforçada pela fotografia de Léo Bittencourt e pela direção de arte de Fernando Timba. O enquadramento quatro por três e os ângulos oblíquos enfatizam o aspecto de um olhar estrangeiro.

A São Paulo de Cidade Pássaro é sempre estranha, fugidia, espectral, fragmentada, formando um mosaico de arquiteturas de diferentes décadas, bairros e classes: a galeria presidente, o edifício Martinelli, o Jockey Club, a Ocupação 9 de Julho, a Sala São Paulo. A matéria da cidade pode ser nostálgica e decadente. Os edifícios se justapõem no plano, comprimidos num aspecto de colagem, resquícios de pensamentos heterogêneos, os diferentes projetos de modernidades sonhados pelo século XX. A linha do horizonte é fraturada.

Amadi percorre a realidade que o desenho urbano da cidade não pode evitar: os viadutos, os edifícios e os elevados que evidenciam o panorama tão particular e trágico dos conflitos encalcados desta cidade: seu abandono e seus abandonados; a gentrificação, a opressão e a brutalidade da desigualdade estrutural.

MSTC

As pistas de Ikenna levam Amadi à Ocupação 9 de Julho. As pedras desgastadas dos degraus ressaltam essa espécie de arqueologia da desigualdade. Contudo, esse lugar que dá abrigo a muitos refugiados mostra a face vital de uma luta política. O projeto de abandono é ressignificado pela ação dos movimentos de moradia. Amadi não encontra aí seu irmão, mas o homem que rezava no alto da ocupação lhe abre o sorriso fraterno de um desconhecido.

A ativista Preta Ferreira foi assistente de produção de elenco em Cidade Pássaro e coordenou o contato da equipe com a Ocupação 9 de Julho. Preta atua no Movimento dos Sem-Teto do Centro e esteve na estreia do filme no festival de Berlim, em fevereiro. No palco, relatou suas experiências: “Estou muito feliz de estar aqui. Na verdade estar aqui hoje é estar em liberdade”. Aplausos. Depois de passar 109 dias detida, em 2019, ela escreveu sobre suas memórias no livro Minha carne: diário de uma prisão, que será lançado pela editora Boitempo ainda este ano.

O voo

Fotograma do filme Shine Your Eyes.

“Eneke, o pássaro, diz que, desde que o homem aprendeu a atirar sem errar a mira, ele aprendeu a voar sem pousar.” A frase de Chinua Achebe do romance O mundo se despedaça serve de letra à melodia criada por Gerald Eze, que acompanha a primeira cena do filme.

Na infância, Ikenna pede que Amadi use sua imaginação para ver o rosto de seu espírito pessoal, de seu destino. Em São Paulo, já adulto, Amadi narra ao tio a cerimônia da religião Odinani, na qual um sacerdote, a partir da leitura de búzios, descobre seu espírito ancestral, normalmente um parente já falecido. Os búzios, porém, revelaram que, estranhamente, o ancestral de Amadi era o próprio Ikenna — um irmão encarnado em outro. Os dois estão atrelados inextricavelmente como arquétipos da psicanálise ou, conforme a espiritualidade Igbo, nessas almas entrelaçadas um é literalmente a sombra do outro. Ikenna não suportou a pressão dessa descoberta e deixou a família para trás fugindo de suas responsabilidades como filho, marido e pai. Amadi é então encarregado de encontrá-lo e levá-lo de volta à terra natal.

Na trama, Amadi é levado a dois personagens vinculados a Ikenna: Miro e Emília. Ao descobrir que o irmão frequentava corridas de cavalo, Amadi encontra, por acaso, nas arquibancadas do Joquey Club, o professor universitário Miro (Paulo André). Emília (Indira Nascimento) trabalha na Galeria Presidente. Nenhum dos dois sabe do paradeiro de Ikenna que desapareceu sem deixar vestígios.

Miro está aprisionado em seu próprio dilema de incomunicabilidade. Vive com seu pai senil que esqueceu o português e resmunga em sua língua nativa, o húngaro. O filho cuida do progenitor, a quem não compreende. As próprias relações neuróticas do afeto e do esgotamento apresentam os vínculos entre aquilo que é, ao mesmo tempo, familiar e permanentemente inacessível.

O velho insiste em um diálogo impossível com um interlocutor imaginário: a ladainha de um mundo perdido, de um idioma isolado, anterior à Segunda Guerra. O símbolo das relações invertidas, entre pai e filho, irmão mais velho e irmão mais novo, estão aí de certa forma invertidas. A pessoa responsável e a pessoa livre. O que cuida e o que é cuidado. O amor familiar em Cidade Pássaro pode ser também uma forma de aprisionamento que leva à necessidade de uma libertação individual, a uma busca pela autonomia. Estão em jogo as necessidades individuais, assim como as questões coletivas. O imigrante busca a construção de uma nova identidade, com a possibilidade de trazer sua história e, ao mesmo tempo, pertencer a um novo presente. Para isso, enfrenta as barreiras da incomunicabilidade e as contradições do pertencimento.

Amadi se vê forçado a arcar com o peso da responsabilidade de resgatar seu irmão. Trata-se de um protagonista que busca no outro sua própria identidade. Quando Amadi conhece Miro este lhe relata: Ikenna dizia ser filho único. Numa versão fictícia de sua vida não havia espaço para Amadi. O irmão mais novo ouve o relato da rejeição daquele que seria o seu ancestral. Ele é o estrangeiro numa cidade fantasma, exilado de si mesmo por seu irmão.

Emília é uma ex-amante de Ikenna com a qual Amadi se relaciona. Ela é o que torna a cidade palpável. Representa algo de real, que supera as barreiras da linguagem. No silêncio, os dois se entendem e Amadi pode vislumbrar um pertencimento possível nessa cidade do outro lado do oceano.

ụ̀wà, o universo

Depois de encontrar o computador de Ikenna, Amadi começa a vislumbrar um universo particular de seu irmão. Ele pesquisava equações complexas de teorias matemáticas, notas musicais, hologramas, e simulações de videogames. Ikenna persegue uma teoria que seja capaz de revelar os mistérios da própria existência, e vive mergulhado num sistema complexo de símbolos e busca de padrões em meio ao caos, na tentativa de decifrar o tecido da realidade.

Ikenna pretende encontrar a “perfeita aleatoriedade”, prever um padrão numérico e melódico nas corridas de cavalos, nas oscilações da bolsa de valores, e vive perdido em abstrações, em constante fuga movida por delírios de números mágicos em uma alusão aos neopitagóricos do século I, que pensavam uma matemática sagrada nas proporções de números que constroem o mundo, as formas e a música.

A música em várias cenas do filme cria relação entre os personagens: a repetição do canto que os irmãos entoam juntos na infância na Nigéria é o leitmotiv hipnótico de Cidade Pássaro. Amadi ouve o canto de Emília numa noite em que vão a um karaokê. A busca por Ikenna o leva à Casa do Migrante, abrigo que acolhe refugiados na região central de São Paulo. Lá, Amadi se conecta a outros estrangeiros ao tocar numa roda de música e ensina um garoto a fazer acordes numa guitarra.

Tudo o que é negado pela linguagem verbal pode ser contornado pela força do ritmo e das melodias. Talvez a música, neste caso, indique um caminho de redenção da maldição da torre de babel. Basta um olhar atento. Shine your eyes.