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Escravizado que fala e diz

Corpo celeste IV, Aline Motta.

Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia que comemoramos a liberdade dos escravos […]

— Carolina Maria de Jesus, Quartode despejo: diário de uma favelada1

Esse foi o primeiro registro que Carolina Maria de Jesus fez em seu diário, no dia 13 de maio de 1958. Ocasião em que se comemorava os exatos 70 anos da abolição da escravidão no Brasil — o último país a acabar com a instituição escravista nas Américas. A simpatia que Carolina de Jesus sentia em relação a esse dia é interessante e complexa. Por um lado, aquela mulher negra, descendente direta de escravizados, comemorava a liberdade e todas as possibilidades que ela parecia trazer para uma parcela significativa da população brasileira, da qual fazia parte. Por outro lado, essa mulher registrou, nesse mesmo dia, o dó que sentia dos seus filhos que, graças à fome constante, urravam de felicidade quando a mãe conseguia comprar um pequeno pedaço de carne para eles. O 13 de maio de 1958 era ao mesmo tempo de comemoração da liberdade de seus antepassados e de lembrança da fome que frequentemente assolava sua prole. Um dia, que ainda hoje, fala muito sobre a condição da população negra no Brasil.

Mas esse foi apenas um dos tantos dias em que Carolina Maria de Jesus narrou as contradições, as violências e os pequenos deleites que marcavam o seu cotidiano. Um cotidiano compartilhado por milhares de mulheres e de homens — na sua imensa maioria negros — que compunham o contingente de brasileiros que viviam na fronteira da miséria. Um cotidiano que fez com que Quarto de despejo: diário de uma favelada se transformasse numa obra aclamada — mais do que lida — e recebesse reconhecimento internacional, tendo sido traduzida para mais de oito idiomas nos anos subsequentes à sua publicação em 1960.

Menos do que a pobreza em si — tema de inúmeros tratados e estudos de cunho acadêmico e científico —, o que tornou o livro de Carolina tão arrebatador foi o fato dessa narrativa ter sido feita na primeira pessoa, conferindo autoria a uma mulher que, em tese, estava fadada ao silenciamento imposto pela realidade, que ela descreveu de forma tão singular. Fui justamente a singularidade descrita pelas mãos de Carolina que fez da sua obra um marco. Algo que pode parecer simples, mas que é igualmente poderoso: uma mulher, negra e pobre descrevendo a sua vida de mulher, negra e pobre. Não por acaso, num momento em que a dimensão estrutural do racismo se torna cada vez mais nítida e mais debatida no Brasil — em um diálogo evidente com a intensificação do movimento Black Lives Matter após a morte de George Floyd nos Estados Unido —, Quarto de despejo é uma das obras mais compradas pelo público leitor brasileiro. Se tornou imperioso compreender as questões estruturais da sociedade brasileira, por meio dos escritos dos homens e das mulheres negros.

No entanto, como o ineditismo da obra de Carolina de Jesus deixa transparecer, a narrativa histórica a partir da autoria negra é algo raro. E, infelizmente, essa não é uma realidade apenas do Brasil. Por isso, a publicação de Nascidos na escravidão: depoimentos norte-americanos, publicado pela editora Hedra (2020), deve ser comemorada. O livro faz parte da coleção Narrativas da escravidão organizada por Tâmis Parron (professor do Instituto de História da UFF) e conta ainda com a publicação de dois outros volumes: Incidentes da vida de uma escrava e Narrativa de William Wells Brown, escravo fugitivo. Todos eles trazem, na primeira pessoa, a percepção de homens e de mulheres que viveram a realidade da escravidão nos Estados Unidos oitocentista.

Diferentemente dos outros dois exemplares da coleção — que são narrativas densas e individuais —, o livro Nascidos na escravidão é um compilado de testemunhos de mais de 2.400 egressos do cativeiro. Esse volume impressionante de relatos é resultado de Federal Writer’s Project (FWP), projeto realizado durante o governo de Franklin Roosevelt (1933–45) e que mobilizou dezenas de escritores. Entre 1936 e 1938, a última geração de nascidos na escravidão foi entrevistada por esses profissionais. Depois de coletados, tais depoimentos foram datilografados e enviados para Washington DC, tendo sido reunidos em 19 volumes e, anos depois, publicados pela Greenwood Publishing. Atualmente, esse rico material se encontra integralmente disponível na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e pode ser consultado on-line.

Dessa forma, Nascidos na escravidão é uma espécie de janela entreaberta, um convite — difícil e necessário — para compreender a escravidão nos Estados Unidos a partir do olhar, da experiência e da memória das pessoas que experimentaram na pele (literalmente) o peso da escravidão e do seu legado.

A violência é a tônica constante nos 204 relatos que compõem o livro. Senhores e senhoras negros e negras que, com 80 anos ou mais, revisitaram um passado marcado por uma série de interdições, todas elas abarcadas pela instituição escravista. A riqueza documental dos testemunhos é imensurável. Impressões, sentimentos, sensações e até mesmo cheiros são reativados para falar de um período no qual infância e adolescência tinham contornos muito distintos daqueles que atribuímos atualmente. Vidas inteiras tecidas pela escravidão.

Como bem pontuado por William McWhorter, escravizado na Georgia, “quando o assunto era trabalho, nunca se tinha folga nenhuma” (p. 37). O caráter extenuante do cotidiano escravista também foi uma lembrança marcante para Sarah Gudger, que viveu como escravizada na Carolina do Norte “(…) eu nunca soube o que era descansar. Eu só trabalhava o tempo todo, da manhã até o fim da noite. Eu tinha que fazer de tudo fora da casa.” (p. 39). A essa exploração máxima do trabalho — justificativa econômica do escravismo — só era possível, porque, nas palavras de Ben Simpson “O Senhor tinha um chicote de couro trançado, bem grande e comprido, e quando um dos negros ficava para trás ou caía, ele atacava com aquele chicote.” (p. 114).

As lembranças são inúmeras e os relatos, contundentes. O que torna difícil de sublinhar e até mesmo de escolher um testemunho que seja “mais significativo” ou “mais representativo” da vida na escravidão. A variedade de percepções — sempre alicerçadas no reconhecimento da violência do escravismo — é igualmente proporcional à complexidade da história da escravidão nos Estados Unidos. O que só evidencia a importância desses relatos e deste livro.

Em meio a esse verdadeiro turbilhão de memórias, os depoimentos foram organizados por eixos temáticos. De tal modo, quem se aventurar na leitura do livro irá se deparar com questões que versam sobre: o universo do trabalho, as condições de vida dos escravizados, as crueldades e os castigos físicos aos quais estavam sujeitos, a constituição de famílias, as atitudes raciais que criaram e, ao mesmo tempo, foram criadas pela estrutura do escravismo, a constituição da cultura negra, as múltiplas formas de resistência à escravidão e, finalmente, os novos rumos e sentidos trazidos pela emancipação.

Todos esses aspectos do mundo escravista, descritos pelos escravizados, reforçam uma constatação cada vez mais uníssona dentre a historiografia: o peso da escravidão na história estadunidense. Vale pontuar que a primeira república das Américas (1776) se constitui como uma sociedade moderna que não só herdou a escravidão do seu passado colonial, como reinventou e redimensionou o escravismo na sua construção nacional. Basta lembrar que foi necessária uma Guerra Civil (1861–1865) para que a nefanda instituição fosse finalmente abolida. Uma guerra muito mais complexa do que a oposição entre a União e os Confederados, e que, parafraseando o importante trabalho de Edward Baptist, revelava aspectos cruciais de uma história cuja “metade que nunca foi contada”.2

E o silenciamento não recaiu apenas sobre a intricada relação entre a escravidão e a construção do capitalismo de que nos fala Baptist. Importante pontuar que, durante muito tempo, a historiografia estadunidense fez ouvidos moucos aos relatos e testemunhos dos escravizados. Parecia que essas memórias tinham um menor valor documental em relação aos censos, inventários post mortem, registros de compra e venda de escravizados. Como se as palavras desses homens e mulheres negros não fossem confiáveis. Esse pouco caso, entretanto, fala muito mais da historiografia em si do que da pretensa parcialidade dos entrevistados. Justamente por isso, Nascidos na escravidão é um livro que narra as memórias sobre a escravidão, mas não só. Nas suas entrelinhas, na maneira como os idosos negros lembravam — ou diziam lembrar — de sua juventude sem liberdade, até mesmo na escolha das palavras utilizadas para se dirigirem aos entrevistadores (brancos, em sua maioria).

Contudo, em alguns momentos, aquilo que deveria estar subtendido era berrado a plenos pulmões. Como no caso em que Clay Bobbitt constatou que quando era castigado, “a surra não [era] por nada, só por eu ser negro” (p. 105). Ou na indignação de Thomas Hall que, quando pensava na escravidão, ficava furioso: “Não acredito em lhe contar a minha história, porque apesar de todas as promessas que fizeram, os negros ainda estão em más condições nos Estados Unidos” (p. 171). Sendo assim, este também é um livro que conta a história do negro no período pós-abolição, quando as políticas segregacionistas implementadas a partir das Leis de Jim Crow balizaram a história estadunidense. Um período marcado pelo alargamento da liberdade, mas também pela formação de uma nação segregada por meio de leis, de práticas e de políticas públicas de cunho abertamente racista. Não por acaso, a primeira publicação desses relatos ocorreu apenas em 1972, quando a luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos estava em pleno vapor.

São muitas as camadas de história alcançadas por esses relatos. É justamente isso que faz do livro Nascidos na escravidão algo simples e poderoso. Simples, porque são testemunhos do cotidiano dos escravizados. Poderoso, porque nessa simplicidade mora a autoria de homens e de mulheres historicamente silenciados, que possuíam plena consciência da violência que marcara suas vidas sob o julgo da escravidão e que continuou marcando suas existências mesmo sob o signo da liberdade.

Se fosse necessário sublinhar a maior contribuição do livro, seria, a meu ver, o fato de ele evidenciar que os escravizados foram sujeitos sociais, atores históricos. Pela própria estrutura do sistema escravista, a imensa maioria dos escravizados não pôde escrever sua “versão sobre os fatos”. Mas esses homens e mulheres puderam ter suas memórias registradas. E ao fazerem isso, eles se tornam fundamentais naquilo que Toni Morrison chamou de processo de “Outremização”: “(…) é um universo em que estar literalmente escravizado, em que ser o Outro desprezado e maltratado, lança sua luz mais reveladora sobre os escravizadores, aqueles que gozavam, sustentavam e se beneficiavam dessa chamada instituição peculiar”.3

Num momento em que vivemos uma percepção mais aguçada da estrutura do racismo nas sociedades ocidentais, sobretudo naquelas que investiram e que apostaram na escravidão no século XIX, é fundamental compreender nossa constituição histórica de forma polissêmica. Nascidos na escravidão nos permite ouvir gritos e sussurros dos escravizados. E, ao fazer isso, entreabre as janelas da história para que possamos analisar criticamente nosso passado, (re)pensar nosso presente e projetar nosso futuro, estando sempre atentos ao processo de naturalização do racismo, que faz com que violências e privilégios tenham cores bem distintas, que vozes brancas sempre sejam ouvidas e autorias negras, sistematicamente esquecidas.