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A esquerda e o túnel do tempo

Tom Vieira.

I.

O Brasil era, até bem recentemente, tido como o país do futuro. Sua história estaria em aberto, a criatividade poderia se exercer de maneira mais livre. Infelizmente, o contrário ocorre hoje. Na televisão, há algumas décadas, havia uma série chamada O túnel do tempo. Os episódios mostravam dois protagonistas que eram, devido a defeitos na máquina que deveria transportá-los para o passado e o futuro, aleatoriamente jogados em momentos da história bastante perigosos. Ao que parece, essa é hoje a nossa situação. Mas a máquina daqui parece funcionar somente para trás, se bem que este não seja exatamente o caso.

Obviamente, Jair Bolsonaro e seu governo dão testemunho radical do viés retrógrado de nosso país hoje. Saudoso da ditadura militar e do modelo de desenvolvimento vigente nesse período, Bolsonaro parece uma assombração que oprime não apenas o cérebro dos vivos, mas também o nosso cotidiano. Apesar de seu saudosismo, Bolsonaro é expressão do Brasil contemporâneo, não uma volta ao passado. Pior ainda, sua aproximação com as oligarquias políticas dominantes, em que se destaca o “centrão”, sem se restringir a ele, dá um nó ainda mais difícil de desatar no presente, embora menos perigosa, sem que seja simplesmente o passado que retorna. Trata-se de uma maneira medonha de moldar o futuro.

O problema é que esse gosto pelo passado está presente também na esquerda brasileira. Isso se constata em três dimensões.

Na primeira, vemos a esquerda — sobretudo o PT e o Psol — repetir o comportamento político do PT dos anos 1980–1990, reiterando sua estratégia, inclusive eleitoral (que parecia ser afinal a única que o partido cultivou, após as grandes mobilizações que lhe deram origem). Ou seja, vamos no bloco do “eu sozinho”, votem em mim porque sou de esquerda — e melhor que todos os outros, simplesmente por isso. Coalizões para quê? Na hora de governar, porém, a conversa foi outra, em especial no plano nacional, e não se sabe bem qual poderá ser no futuro, pois a esquerda é hoje obviamente muito minoritária (buscar de novo o atual MDB e assemelhados seria patético, mas provavelmente impossível). Isso é, caso o futuro sorria a esses partidos, hipótese improvável no momento. Na segunda, (re)encontramos a eterna candidatura de Lula, embora seja duvidoso se ele conseguirá absolvição em todos os processos que lhe afetam e se há, realmente, viabilidade político-eleitoral em sua candidatura. Enfim, na terceira dimensão, vemos ressurgir um discurso que olha para trás na maneira de pensar a política e a “revolução”. Pode assumir formas distintas. Pode ser o “radicalismo” do elogio a Marighella, independentemente do significado dos gestos do dirigente comunista e sobretudo da correção ou não de sua política. Mas pode assumir a feição de um elogio — pasme-se — ao stalinismo, em pleno século XXI.

Discutirei essas três questões, em ordem inversa, a seguir. Observe-se antes que na verdade não estamos voltando ao passado. Este, realmente oprime hoje o cérebro dos vivos, dos militantes e mesmo dos intelectuais de esquerda. Mas seus fantasmas nos conduzem é em direção à construção de um futuro que não nos favorece.

II.

Comecemos com o stalinismo. A história da esquerda comunista no século XX é extremamente pesada nos países em que chegou ao poder. Ela foi sem dúvida a força que, como maior peso — em geral de modo antagônico, mas muitas vezes juntamente com os trotskistas —, com mais dedicação, se jogou na defesa dos trabalhadores, dos pobres e dos oprimidos de modo geral, mundo afora.

Até 1921, quando são banidas as frações no partido, em meio à guerra civil e a cisões internas explosivas, o bolchevismo era muito mais democrático, ao menos no que diz respeito a seus debates e decisões internas. A partir daí, o “centralismo democrático” — centralismo, antes de tudo — aparece e acaba exportado por todo o mundo, imposto aos partidos “bolchevizados” da Terceira Internacional, e adotado, inclusive, para além deles. Com a consolidação do stalinismo, uma versão específica do leninismo prevaleceu, radicalizando os traços autoritários do pensamento de Lenin e do bolchevismo em geral, impondo uma verticalização aos partidos e enorme autoritarismo em sua vida interna e na sociedade onde estavam e estão no poder (o modelo do centralismo democrático tendo sido generalizado ao Estado e aos cidadãos). De resto, os trotskistas adotaram exatamente o mecanismo centralizador do poder no partido, que foi em parte responsável pela destruição do próprio Trotsky (que, no início do século, percucientemente o denunciara). Com o domínio de Stalin na União Soviética e sobre a Terceira Internacional, o autoritarismo e a intolerância prevaleceram, a partir de certo momento temperados pela necessidade de fazer alianças até bastante amplas. Alguns partidos, no entanto, aprenderam com a luta pela democracia e conseguiram mesmo afastar-se daquele molde mais duro.

Mas a construção da União Soviética incluiu não só um autoritarismo que foi muito além do que Lenin, já para não falar de Marx, poderia supor: teve em seu centro uma violência sem precedentes — o terror stalinista. Justificar essa tragédia em nome das limitações e mesmo dos crimes do liberalismo é um argumento bizarro (do “tipo posso espancar meu vizinho porque o morador do prédio ao lado espancou o seu…”). Justificar o terror stalinista em função da suposta guerra civil no país é falso e cínico, pois ela já havia sido largamente contornada quando os vergonhosos julgamentos de Moscou começaram, com expurgos, prisões e assassinatos se repetindo depois. Nem mesmo a necessidade de defesa militar da revolução é boa desculpa, uma vez que aleijou as forças armadas e sendo que outras estratégias eram possíveis (a começar pelos soviéticos não manipularem o Partido Comunista Alemão em função de seus próprios interesses nacionais). Mas se pode-se colocar a evolução da União Soviética em perspectiva — ainda que chamar o que lá se construiu de “socialismo” seja incorreto1 —, recuperar o stalinismo mediante uma suposta relativização de sua terrível trajetória, é trágico e tem consequências nefastas, sobretudo porque ele não se esgota em termos de pensamento e de práticas no que ocorreu naquele período.2

Infelizmente, porém, essa tentativa de recuperação é o que se vê hoje em parte da juventude brasileira de esquerda, que olha para o passado, talvez devido a duras derrotas recentes, querendo idealizá-lo. Isso se combina com a necessidade de abraçar um tipo de radicalismo que, contudo, se mostra superficial. Essa tendência se expressa com força, por exemplo, em certo elogio acrítico a Marighella, o antigo dirigente do PCB que se decidiu pela guerrilha nos anos 1960. De que se tratava de um quadro político altamente capaz e dedicado não há dúvida, tampouco de sua coragem. Mas vanguardismo e leitura errada da realidade brasileira, sobretudo da correlação de forças naquela conjuntura, o levaram a adotar uma política desastrosa, acarretando sua morte prematura, junto a muitos jovens, de sua organização ou de outras, que cometeram erros semelhantes. Ele mesmo seria, certamente, muito crítico a suas opções estratégicas se pudesse revê-las, e demandaria uma discussão de cunho político, de forma alguma, pessoal.

Ser radical, na verdade, é ter uma visão de futuro, um programa e uma política de alianças, uma estratégia e uma tática, que sejam adequadas à situação concreta em que se opera politicamente e que nos leve a mudá-la de forma profunda. Isso já não pode ser combinado com o stalinismo e suas justificativas para a manipulação da política como meio sujos e brutais para fins nobres, como foi o caso supostamente da União Soviética. Para começar, porque não se tem com isso a capacidade de convencer as grandes massas de que um mundo diferente e melhor é possível. O autoritarismo, a violência e a mentira foram meios excessivos no stalinismo e em seus derivados, que seguem vigentes hoje em boa medida na América Latina, ainda que sem a aplicação do terror. Levaram a uma sociedade e a uma perspectiva política que contradiziam o que fora o generoso projeto inicial do marxismo e dos bolcheviques. Os fins acabam atropelados pelos meios — e pelo cinismo que se acoplou a essa perspectiva.

Importa aqui sublinhar que somente afastando-se desse passado mal compreendido é que a esquerda poderá abrir um novo horizonte. No mundo inteiro é uma mescla complexa de demandas democráticas radicalizadas, questões sociais concretas e ambientais o que mobiliza as pessoas. O socialismo, em uma agenda de longo prazo, não precisa nem deve ser descartado, mas não se avança sem uma crítica severa ao suposto “socialismo real” que o mundo conheceu no século XX — e ao qual países como China e Cuba fingem se filiar; na verdade, a esta altura abraçando somente o autoritarismo político (o “centralismo democrático” que garante o controle dos comitês centrais e grandes líderes) combinado a um retorno ao capitalismo. O mesmo se verifica com a justificativa de métodos políticos de conquista e manutenção do poder que acabam por destruir os fins. Entrar no túnel do tempo para voltar atrás, mesmo que só na imaginação, apenas adia o enfrentamento de tarefas intelectuais e políticas fundamentais. Não se trata de jogar a história da esquerda no lixo, mas sim de aprender com o que deu certo e, criticamente, com o que saiu mal ou que foi até desastroso. Enfim, observe-se que uma simples volta à social-democracia e ao desenvolvimentismo tampouco serão possíveis. O mundo mudou em muitos de seus elementos fundamentais e somente uma reinvenção dessa agenda pode ter futuro.

III.

O segundo tema é, de certo modo, mais simples, mas nem por isso menos renitente e delicado. A fixação na candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda orienta o PT. Uma personificação da política espantosa se produziu em um partido que outrora tinha uma grande quantidade de lideranças. É verdade que no Brasil a política acaba por ser altamente personalizada, mais que em outros lugares do mundo. Porém, não se pode viver do passado, e a candidatura de Lula representa isso — por ele mesmo e pela insistência em que o PT seja sempre, supostamente por ser o maior partido no campo da esquerda, cabeça de chapa. Não importa aqui a situação legal do ex-presidente no que se refere à possibilidade, remota, de que possa concorrer. Parece bastante óbvio que a unificação do campo de centro-esquerda e esquerda passa por outros caminhos, e que o desgaste pessoal e político de Lula é excessivamente grande. Não é possível repetir o erro de 2018. Mais ainda, desde a escolha de Dilma Rousseff, a opção pétrea por um candidato do PT e os conflitos que se seguiram com Marina Silva, Eduardo Campos e Ciro Gomes têm se feito em detrimento do campo progressista, democrático e popular.

Aqui se trata também de construir o futuro. Não voltaremos a 2002. Ninguém acredita nisso, principalmente os eleitores. A essa altura, nem é claro como a população encara esse período. Nem mesmo talvez seja o PT ainda eleitoralmente o maior partido no campo da esquerda/centro-esquerda. O que importa, de todo modo, é projetar um novo caminho, novas ideias, novas alianças e distribuir forças entre elas.

O período pós-eleições municipais pode servir como momento de reflexão, sobre o que faltou aos partidos e a seus chefes nesse momento (infelizmente os partidos no Brasil conseguem, em todo o espectro político, ser extremamente oligarquizados). Há pequenos avanços do Psol — sobre o PT —, assim como, salvo maiores supresas, alguns êxitos ou recuperações parciais, cujos resultados finais não estão ainda definidos quando este artigo vai sendo finalizado. Não devem servir, porém, para esconder os problemas reais. O que se mostra claramente é que seu desempenho poderia ter sido melhor caso alianças tivessem sido forjadas no início do processo eleitoral. Avaliar bem isso definirá em larga medida o que ocorrerá em 2022

Na verdade, a candidatura de Lula ou de qualquer outro de dentro do PT que se queira impor à força ao conjunto do espectro democrático, progressista, popular, é uma maneira de reiterar aspectos extremamente problemáticos da política do partido. Um autocentramento e um hegemonismo duro caracterizam a identidade e a história do PT, caminho que o Psol tenta repetir, curiosamente. A figura de Lula é central nisso. Em certo momento, em que o partido era jovem e crescia sistematicamente, quando a democracia e a questão social estavam no centro da agenda política do país, isso funcionou. Nenhuma dessas condições se verifica mais. O desgaste do PT é gigantesco e inclusive difícil de reverter, Lula já passou por altos e baixos que já não permitem que se apresente ao eleitorado (de classe média, mas a esta altura também o popular) como uma possibilidade de renovação, a despeito da força relativa que ainda demonstra. PSBPDT se autonomizaram e somente uma complexa negociação política pode nos levar a unificação do campo da centro-esquerda e da esquerda. Nem está o Brasil no ciclo político que foi vigente de meados dos anos 1970 a meados dos 2000, quando a questão da democracia e a questão social nos empurravam para frente. Ao contrário, o atual ciclo político favorece a direita no país e não será fácil mudar essa direção (o que não se pode generalizar nem para a América Latina, nem para o mundo em geral).3

Em grande parte, isso ocorre porque a esquerda se enfraqueceu enormemente, muito por conta de seus próprios erros. Temos, assim, uma dupla tarefa. É crucial impedir uma maior desdemocratização do sistema político, para o que derrotar a tentativa de reeleição de Bolsonaro é imprescindível, ao mesmo tempo em que seguimos com a reconstrução da esquerda.

Essa reconstrução terá de incluir uma revisão da política da esquerda nas últimas décadas para que se possa ter um efeito sustentável e abrangente. A esquerda terá que abandonar o hegemonismo e o sectarismo, o pragmatismo, o instrumentalismo moral, mas também o principismo, sem recusar a política real e a adequados sistemas de alianças. Precisará reconhecer que é plural, ao passo que algumas de suas correntes têm vocação e agenda radical, no sentido do socialismo e do comunismo (ou podem e devem ter). Isso diz respeito ao PT, mas também ao Psol, enquanto o PSB, o PDT e a Rede, terão de abandonar sua recusa ao PT — mesmo que tenham, no momento, razões para sua ojeriza. Justiça seja feita, nisso o PCdoB vai melhor, por outro lado, por vezes, abusando do pragmatismo e com uma visão envelhecida do socialismo. Aliás, o mantra do é preciso “voltar às bases” é verdadeiro. A esquerda precisa voltar a mobilizar a população, mas simplesmente voltar ao PT dos anos 1980 não resolverá essa questão. Hoje é totalmente insuficiente e, mais que isso, impossível. Uma nova política é necessária.

Sem isso, será impossível a articulação de uma frente ampla democrática e progressista, com ampla participação e mobilização popular, a qual, somente ela, pode nos abrir um outro ciclo democrático e de avanços, esperemos que mais profundo e duradouro. Agora mesmo, quem fez Bolsonaro mudar de comportamento e talvez de perspectiva, foram as oligarquias, não a esquerda, enfraquecida e quase inerte. Não se trata de supor que teremos uma articulação organizativa estável, o que é improvável, senão a um bloco social e político que funcione em aliança na maior parte do tempo e, com certeza, naqueles momentos e em face daquelas questões que são decisivas. A política não é nem precisa ser um jogo de soma zero. Ao contrário, é a construção de um amplo bloco democrático e popular que pode impulsionar uma retomada da força da esquerda e levá-la para além de seus círculos hoje restritos. Trata-se uma soma positiva.

IV.

Mas somos de esquerda, onde irá parar nossa identidade?! Partidos de esquerda com identidade clara, que se dá por seu programa e sua militância, por seus vínculos com as lutas sociais e os setores populares, sua capacidade de se projetar junto à intelectualidade e oferecer soluções amplas para o país, não precisam temer por sua identidade. Nem precisam tentar controlar os movimentos sociais e as mobilizações de massa, fazendo-os de “correia de transmissão” de suas políticas, para além de uma influência legítima, ou estigmatizando-os quando não os controla, o que não implica que não os possam criticar. Não cabe diluir essa identidade de esquerda, mas é isso que, paradoxalmente, acaba por ocorrer quando os partidos querem ser centro, centro-esquerda e esquerda ao mesmo tempo, de modo a impedir que forças concorrentes cresçam e tomem seu lugar sobretudo em eleições e em postos de governo. Foi o que ocorreu com o PT, é o que tende a ocorrer com o Psol.

A essa herança precisamos renunciar. Nesse sentido, de modo a impedir retrocessos futuros; sistemas mais consistentes de alianças e de maior influência social devem ser construídos, ao mesmo tempo com a esquerda se preservando como tal, em seu esforço de chegar e de se manter no poder. Isso deveria balizar o pensamento de socialistas e comunistas, em particular, em suas alianças com a centro-esquerda e os socialdemocratas. Isso quer dizer, além do mais, que não devemos nos confundir com os liberais conservadores ou com os social-liberais que têm sua própria agenda, ainda que contra Bolsonaro e suas inclinações autoritárias uma frente democrática seja necessária. Mas não só é preciso manter distância deles em termos organizacionais e, com certeza, financeiros, como é fundamental que a esquerda tenha sua própria agenda e programa.

Enfim, uma esquerda renovada e vocacionada a ser maioria social, e ao menos em parte eleitoral, de modo a abrir um novo ciclo político, tem que sustentar uma ampla agenda. Esta não pode deixar de incluir o aprofundamento da democracia e sua desoligarquização (inclusive no seio dos partidos de esquerda), que trate do trabalho (que desaparece), das desigualdades (não apenas da pobreza), de direitos sociais robustos (não somente das elegibilidades do social liberalismo com relação aos mais pobres), do meio-ambiente (e da mudança climática) e de um novo modelo de desenvolvimento (que não nos remeta, de novo, ao desenvolvimentismo tradicional nem muito menos ao extrativismo). Imaginação e inteligência política, em uma situação muito mais difícil que aquela que se estabeleceu nos anos 1980–1990, será necessária.

Pode levar algum tempo até que a esquerda seja de novo testada. Pode ser porém que, com a crise que viveremos nos próximos dois anos, possivelmente a maior de toda a história da república, conjugada ao cinismo dessa república cada vez mais oligárquica, a demanda por novas respostas se ponha de maneira muito mais imediata. É imprescindível distinguirmo-nos dela radicalmente, inclusive no que tange às maquinações junto ao judiciário. É preciso decididamente abraçar o futuro para poder emprestar à saída de uma tal crise a feição democrática e progressista.