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Olavismo e bolsonarismo

Arthur Hussne Bernardo

Introdução

Paulo Guedes para Olavo de Carvalho:

“Você é o líder da Revolução.”

Steve Bannon sobre Olavo de Carvalho:

“A história vai mostrar que ele é um dos grandes conservadores e filósofos.”

Rafael Carneiro, Sem título, óleo sobre tela, 240×150 cm, 2019.

Uma explicação prévia. À época em que este texto foi escrito, Olavo não era ainda tão conhecido quanto se tornou. Eram poucas, muito raras as análises de fôlego sobre o fenômeno do olavismo, apesar de ele já circular no subterrâneo da cultura política brasileira há muito tempo. Por motivos diversos, o texto acabou não sendo publicado. Quando ele foi redigido, entre outubro e novembro de 2018, já tinha certeza que o olavismo ganharia espaço privilegiado no governo Bolsonaro. Mais do que isso, algo me dizia que uma parte essencial do bolsonarismo devia ser buscada no movimento desencadeado por Olavo, ainda que esse seja apenas um componente de uma rede bastante mais complexa.

Acredito que, apesar de alguns elementos datados, a publicação deste texto ainda se justifica. Em primeiro lugar porque ele procura contextualizar o fenômeno Olavo de Carvalho, e não apenas explicar seu pensamento, mas mostrar como a ascensão de sua popularidade nutriu uma relação simbiótica com o que veio a se tornar o bolsonarismo. Segundo, porque ele avança algumas hipóteses para a compreensão do olavismo que parecem não ter surgido no debate, mostrando que, se muito foi escrito, ainda reina a incompreensão acerca do tema em questão. Por fim, apesar de não ser um texto estritamente acadêmico, ele não abre mão do rigor e tampouco de ao menos tentar uma análise original, sendo mais do que um apanhado de informações.

Que muito tenha sido escrito sobre Olavo nos últimos meses, ainda parece difícil explicar a atração que o personagem desperta. Não só jovens desavisados, mas também muitas pessoas com mais bagagem intelectual passarem a cultivar uma admiração irrestrita, um fanatismo cego por essa figura. Mas, afinal, por que Olavo seduziu tantos?

Tendo uma capacidade hipnótica de formar acólitos devotos, Olavo não se pensa como um professor, mas como um mestre que mostra uma forma de vida, educando a mente e a alma. Em seus cursos, Olavo não apenas sugere leituras, explica teorias ou faz análises políticas, mas também responde a dúvidas concretas sobre os percalços da vida cotidiana, oferecendo caminhos e soluções, além de comentar sobre formas de evolução espiritual, psicológica e moral. Não por acaso, os alunos adotam práticas de vida que estão além da mera formação intelectual, passando a entender seu encontro com Olavo como um momento sagrado de renascimento. Fica claro que a conversão ao olavismo ou se faz por inteiro, ou não se faz. Trata-se realmente de aderir a uma espécie de culto, de compartilhar um modo de vida, e não apenas de mera filiação intelectual.

Nessa conversão, começam a se imprimir nos alunos as características que mais se sobressaem no pensamento do próprio Olavo: um pessimismo cultural decadentista; a idealização de um passado utópico; crença na renovação da sociedade através de uma elite cultural; a reafirmação do poder moral e espiritual do catolicismo; os temores de uma islamização do Ocidente; uma filosofia da história reacionária; um realismo político extremado; uma política de mobilização constante; o horror ao comunismo, ao multiculturalismo, ao politicamente correto e ao suposto marxismo cultural; a crítica ferrenha da filosofia universitária; as teorias de teor conspiratório.

Em resumo, uma síntese entre o paleo­conserva­dorismo norte-americano e o reacionarismo romântico europeu, com elementos filosóficos aristotélico-tomistas. Some-se a isso indicações bibliográficas abundantes, sensacionalismo ofensivo e eloquência verbal.

Em caso de crítica, Olavo pratica a arte da esquiva: prontamente desvia o foco da crítica, não raro fazendo uma devassa na vida pessoal daquele que o contesta. Habitualmente, classifica o crítico como um analfabeto funcional, passa por uma digressão sobre o problema da educação universitária no Brasil, e termina com um palavrão ou trocadilho envolvendo o nome da pessoa. O público vai ao delírio.

Com essa protosseita em operação em um modelo de rede descentralizada, o olavismo se espalhou e criou já ao menos duas gerações de seguidores fervorosos. Com a chegada de Bolsonaro à presidência, procura-se fazer do olavismo uma espécie de ideologia oficial do governo para as áreas da educação, cultura, relações exteriores e comunicação.

Amigos que leram esse texto na época em que ele foi escrito criticaram o que parece ser um peso excessivo atribuído à figura de Olavo na ascensão do bolsonarismo. Há, evidentemente, outras correntes que convergiram para o bolsonarismo. Entretanto, acredito que sem o olavismo não haveria uma movimento bolsonarista, mas tão somente um neopopulismo boquirroto, sem um núcleo ideológico forte e minimamente coeso, que se encontra não apenas no governo, mas em órgãos da mídia tradicional, centros universitários e, principalmente, em portais na internet.

Ainda hoje, é imprudente subestimar o poder de influência de Olavo, afinal ele replicou sua mentalidade por meio de uma legião de ex-alunos. Por mais que Olavo pareça agora estar mais afastado dos assuntos governamentais, é flagrante que há olavistas convictos em altos postos do governo. Imbuídos de um espírito de revolução conservadora, eles pretendem agudizar a guerra pela cultura daqui pra frente, fazendo um sufocamento orçamentário, impondo filtros ideológicos (antes conhecidos como censura) e abrindo caminho fácil para artistas conservadores. Avançando ao máximo no aparelhamento do Estado e escamoteando os opositores, os olavistas acreditam lançar as bases de uma nova alta cultura.

Para terminar essa introdução, uma última hipótese. Olavo tentou se aproximar das Forças Armadas, em especial do Exército, por meio de conferências e palestra ao longo dos anos 1990 e também do começo dos anos 2000. Nessa mesma época, alimentando-se das ideias de Olavo de Carvalho sobre Antonio Gramsci, em especial do livro A nova era e a revolução cultural (1994), o general Sérgio Augusto Avellar Coutinho publicou os livros A revolução gramscista no Ocidente (2002) e Cadernos da liberdade (2003), mais tarde reeditado pela Biblioteca do Exército em versão ampliada sob o nome de Cenas da Nova Ordem Mundial (2010).

Em especial ao longo dos anos 2010, a repolitização do Exército fez com que a instituição começasse a afirmar mais e mais suas posições na arena política. Com diversos militares da reserva entrando na política, episódios de apologia ao coronel Carlos Brilhante Ustra, saudações ao golpe militar de 1964, rejeição dos resultados obtidos pela Comissão da Verdade e negação da existência de tortura durante o período ditatorial começaram a se tornar cada vez mais frequentes. A figura de proa, a que mais explorava os limites da opinião pública, era, sem dúvida, Bolsonaro. Não por acaso, o militarismo convergiu para sua defesa, com atuação até mesmo explícita do general Villas-Boas em alguns episódios decisivos, constrangendo as instituições democráticas com comentários intimidadores. General Villas-Boas que, junto com general Heleno, eram grandes admiradores de outro general chamado… Sérgio Augusto Avellar Coutinho1.

Isso nos faz pensar que a suposta divisão do governo entre uma ala militar-pragmática e uma ala ideológica-lunática não se sustenta, ou ao menos é muito menos rígida do que se poderia imaginar. Sem dúvida nesse primeiro ano de governo houve diversos confrontos graves. Mas eles ocorrem muito menos por uma falta de homogeneidade ideológica, por discordâncias quanto aos fins, do que por divergências quanto aos meios a serem usados. A enorme distância entre o suposto positivismo prático de nossos militares e o reacionarismo delirante dos olavistas é muito mais ilusão de ótica do que outra coisa.

O bolsonarismo é um olavismo

“Não basta o impeachment, é preciso acabar com a Nova República.”

— Olavo de Carvalho, 2015

“A Nova República acabou.”

— Moreira Franco, 04/02/2019

Às 19h18 do domingo dia 28 de outubro de 2018, ficou confirmada a vitória do candidato Jair Messias Bolsonaro no pleito presidencial. Pouco após a confirmação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro fez seu primeiro pronunciamento com uma “live da vitória” — uma forma bastante insólita de se comunicar com o país, mas usual ao longo de toda a campanha do candidato. Com transmissão de baixa qualidade e sinal instável, o pronunciamento inicial se direcionou menos à nação do que a seus seguidores habituais. Ao lado da esposa, Michelle Bolsonaro, e da intérprete de libras, Angela Julião, ele explica ao longo dos sete minutos e meio do vídeo quais serão os valores a guiar o governo. À mesa, quatro livros. Durante a fala, calculadamente ensaiada, mas mal disfarçando a total falta de articulação discursiva do recém-eleito, três dos livros são citados.

Primeiro, uma versão da Bíblia chamada A mensagem, bastante difundida e conhecida entre evangélicos, grupo que apoiou maciçamente a candidatura de Bolsonaro. Tendo sido originalmente publicada nos EUA em 2002 pelo presbiteriano Eugene Peterson, a obra é redigida em linguagem simples e popular para recontar o livro sagrado. Em segundo, a Constituição de 1988, usada para se defender das frequentes acusações de que sua eleição seria uma ameaça à garantia da ordem democrática em razão dos discursos extremistas e contrários aos direitos humanos. Por fim, como referência de grande líder, o livro Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Churchill, estadista inglês sempre usado para trazer ar de grandeza e legitimidade a qualquer político.

O quarto livro não é diretamente mencionado, mas seu conteúdo perpassa o mecânico discurso do começo ao fim. Bradando contra o extremismo de esquerda, o socialismo e o comunismo, Bolsonaro faz referências veladas à obra. Trata-se do best-seller O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho, lançado pela editora Record em 2013. A essa altura, o livro já tinha alcançado a marca de mais de 320 mil cópias comercializadas, permanecendo durante muito tempo na lista dos mais vendidos.


Enquanto isso, Olavo era saudado nos fóruns de internet como o grande vencedor da contenda eleitoral. O resultado teria sido uma coroação merecida por uma tarefa árdua que tomou vários e vários anos de sua vida. A fim de fazer justiça, seus adeptos lembravam como o mestre, cujas lições haviam sido inestimáveis, foi uma das pedras angulares da vitória de Bolsonaro. Alguns dias depois, quando já havia começado a redigir essas linhas, me deparei com um artigo do site Infomoney. Publicado no dia 31 de outubro desse ano, o texto Não existiria Bolsonaro presidente sem Olavo de Carvalho é assinado pelo economista Alan Ghani. Nele, o autor reúne as principais explicações de como foi possível a eleição de Jair Bolsonaro — o tema da segurança pública, o antipetismo, uma candidatura antissistema —, mas faz questão de frisar que “existe uma variável pouco explorada pelos analistas que foi fundamental para explicar ‘Bolsonaro presidente’. Essa variável se chama ‘Olavo de Carvalho’.” À primeira vista, a tese parece apenas apologética, mas será falsa?

Minha percepção é que, apesar de muito influente, o impacto causado por Olavo ainda é amplamente subestimado. Na internet, Olavo tem um público massivo. Os números impressionam: no Facebook, 524 mil curtidas em sua página oficial; no Twitter, 404 mil seguidores; no Youtube, 479 mil inscritos em seu canal. Em todas essas plataformas, as interações com as postagens de Olavo são da ordem de milhares, às vezes chegando a milhões, de pessoas. Essas mídias geram um contato direto e, pela linguagem muitas vezes desbocada de Olavo, repleta de palavrões, apelidos depreciativos e impropérios de todas as ordens, uma conexão pretensamente autêntica com seu público. Tudo isso sem esquecer do já citado O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, que alcançou um número notável de vendas.

Mesmo se com esses números ainda possa parecer excessivo o peso dado a Olavo no renascimento da direita no Brasil, não se pode esquecer que sua influência funciona não apenas por meio de sua obra — incluindo, nessa categoria, livros, artigos, programas de rádio, vídeos no Youtube e seu site —, mas também por meio de todos os seus discípulos diretos, criados no curso de filosofia que ministra pela internet, ou indiretos, influenciados tardiamente pela leitura de seus livros. Nessa lista, estão, entre outros: Felipe Moura Brasil (jornalista na rádio Jovem Pan); Flávio Morgenstern (escritor no Senso Incomum); Lobão (músico); Danilo Gentili (“humorista” do SBT); Joice Halssemann (eleita deputada federal por São Paulo); Marcel Van Hattem (deputado federal mais votado do RS); Allan dos Santos (do canal do Youtube Terça Livre); Filipe Martins (analista político); Nando Moura (youtuber).

O surgimento dessa nova geração formada por Olavo fez com que ele saísse da solitária posição de exército de um homem só para, aos poucos, ter a seu lado, cerrando fileiras, mais e mais pessoas, a maioria de perfil jovem e com grande capacidade de influência.

Esse projeto de formar uma nova geração nunca foi um segredo: Olavo falava abertamente de seu propósito de criar uma leva de intelectuais preparados para combater a suposta dominação do ambiente cultural pela esquerda. Esse exército treinado por Olavo de Carvalho tem, hoje, participação ativa em diversas áreas da esfera pública. Seus ex-alunos, com maior ou menor grau de proficiência, replicam a mesma estrutura de pensamento desenvolvida por seu mestre. Essa pedagogia à margem das grandes universidades do país foi planejada por Olavo para servir de contraponto ao que ele pensa ser um ensino universitário decadente. Essa nova elite intelectual conservadora passou, assim como Olavo, a usar as mídias alternativas, criando seus próprios blogs, seus canais no Youtube, suas páginas públicas no Facebook, angariando um público numeroso, até que alguns foram alçados às mídias tradicionais, ampliando ainda mais o discurso antes restrito aos iniciados.

Esse encontro com Olavo é, segundo muitos de seus discípulos, libertador. O mestre prova a seus alunos que no mundo moderno impera a degradação moral, o caos político e a miséria intelectual. Muito próximo da retórica decadentista que vai de De Maistre a Heidegger, esse discurso do declínio da civilização estimula uma cruzada para a regeneração da sociedade. Os olavistas são convocados a serem agentes de regeneração, em um chamado que é misto de elitismo esotérico e disciplina revolucionária. Trata-se de instilar um sentimento de honra e grandeza em um empreendimento de guerra cultural, que é, no limite, uma guerra espiritual e santa.

Tudo se passa como se o aprendiz vivesse em uma redoma de falsidades até que encontrou o filósofo e este vai revelar um caminho — intrincado e laborioso, mas um caminho — para a compreensão da Verdade. Basta checar o prefácio escrito por Felipe Moura Brasil para o livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota; nele, o leitor é basicamente convencido que não sabe de quase nada, mas que com o livro pode finalmente entender como a realidade circundante, tão enganosa a seus olhos destreinados, funciona. Mas qual é a filosofia de Olavo?

Calcado na tradição aristotélico-tomista, Olavo defende o realismo ontológico. Isso significa que a Verdade não é histórica, mas, sim, objetiva, eterna e universal e a ela a consciência humana tem acesso. Como só existe uma Verdade objetiva, a razão encaminharia às mesmas conclusões, sendo que a diversidade de opiniões seria apenas uma multiplicidade do erro frente à unidade da Verdade. Porém, ela não é prontamente revelada, dependente apenas de fé; é, pelo contrário, um trabalho árduo e penoso da inteligência humana que, através de uma preparação intelectual rigorosa — calcada na artes clássicas da retórica, lógica, gramática e dialética — pode, superando toda sorte de falsidades, apreender a Verdade por meio de uma intuição filosófica. É uma filosofia que está na contramão da modernidade.

A filosofia moderna é, para Olavo, uma mera empulhação, pois todas as suas variantes seriam ou subjetivistas, ou nominalistas, ou relativistas, quando não uma combinação de mais de um desses elementos. O mundo moderno teria sido o palco do amargo eclipse das filosofias positivas, dando origem a uma plêiade de correntes — ilumi­nismo, kantismo, hegelia­nismo, positi­vismo, nietzschea­nismo, freudismo, heideggeria­nismo, des­constru­cionismo, etc. — que afundariam a contemporaneidade na decadência generalizada. Todas essas correntes comungariam, malgrado suas enormes diferenças, uma característica em comum: esvaziariam a civilização de seus valores fundamentais, tornando o mundo um lugar sem sentido e o ser humano um reles animal que vaga pela terra sem uma missão definida. Contra a mutilação do Homem pelas filosofias modernas — que carregariam um viés marcadamente anti-humanista —, Olavo pensa na restauração de uma concepção integral do Homem.

A pobreza do mundo seria, antes de tudo, então, uma pobreza de sentido, de espírito, de cultura. O sofrimento derivaria da deprimente corrupção da cultura ocidental — tornada destrutiva, negativa, individualista, hedonista, laica, ateia e relativista. Contra os tormentos da época, Olavo reabilita uma filosofia que oferece certezas — senso de moralidade, conforto espiritual e formação clássica — em um mundo incerto, o que permite uma associação quase imediata, e servil, com o personagem. É essa leitura bastante exagerada e totalizante da filosofia moderna, vendo-a como uma mera revolta simplista contra a tradição e a Verdade, que informa um retorno a formas antigas de filosofia.

Assim, tem-se uma volta dos valores fundamentais — amor, família, verdade, sentido, espiritualidade, disciplina, autoridade. Acontece que essa teorização não apela ao tradicionalismo ou à permanência das instituições existentes. Pelo contrário: o discurso é o do enfrentamento do mundo moderno, não o de resistir a seu avanço, de preservar os poucos resquícios do passado ou de se enclausurar numa nostalgia nebulosa. Trata-se de um visão de ruptura subversiva, a ser efetivada pela luta destemida e audaciosa contra o sistema — não o capitalista, mas o cultural. O modelo é o de uma revolução conservadora, não de um movimento puramente passivo; a tônica é de enfrentamento: para regenerar a civilização, há de se combater o moderno. Essa postura ofensiva não significa, entretanto, que sejam descartados elementos arcaizantes — um vago apreço pelo passado dourado e uma filosofia católica, por exemplo — do esquema, com o que se percebe que é uma máquina engenhosa e disparatada: arcaísmo e novidade, conservadorismo e revolução.

Olavo também defende o indivíduo contra todo coletivismo coercitivo. Contudo, vê-se mal como esse tipo de filosofia pode de fato se articular com a defesa da autonomia da consciência individual, tal como pretende Olavo. Se há uma Verdade absoluta sobre o que existe, os caminhos trilhados pelas diferentes consciências seriam falsos se não terminassem por apreender essa mesma Verdade. É como se a defesa da autonomia existisse apenas na medida em que ela chega no lugar esperado. Assim, caso se discorde do mestre, esteja preparado para receber uma saraivada de xingamentos de toda sorte. Essa pretensa libertação individual se transforma, então, em mutilação ou, no limite, aniquilação da consciência, que passa a operar com fórmulas prontas, através de raciocínios mecânicos e moldes pré-estabelecidos. A uniformização da consciência individual acontece como se fosse emancipação.


É partindo dessa base filosófica que se pode de fato entender o que Olavo pensa sobre a política.

De todos os avatares da modernidade, sem dúvida o marxismo representa, para Olavo, o maior dos perigos. É que a articulação entre teoria e prática, a unidade dialética entre as duas, expressa pela noção de práxis, faria com que o marxismo tenha uma influência muito mais concreta e efetiva na realidade política do que qualquer uma das outras visões de mundo. Para além disso, o marxismo teria uma feição camaleônica: ele poderia sofrer inúmeras mutações sem deixar de lado seus propósitos últimos de dominação totalitária e imperial.

Para Olavo, o perigo representado pelo movimento comunista não acabou com o fim da União Soviética e a Queda do Muro de Berlim. Esses acontecimentos não teriam sido determinantes para derrotar de forma definitiva a estratégia. Não se atendo à definição clássica de comunismo como sendo a estatização do meios de produção, Olavo explica que a liquidação integral da economia de mercado seria impossível. Dessa impossibilidade surge uma nova estratégia: os comunistas teriam se alojado no campo da cultura, o que faria a acepção tradicional do comunismo se tornar caduca. Agora se tratava bem de outra coisa: o marxismo cultural.

Olavo reconhece em Antônio Gramsci o grande estrategista desse marxismo repaginado. Na interpretação olavista, Gramsci postulava que a revolução, nas sociedades ocidentais, precisaria vir de transformações inicialmente culturais para, depois, tornarem-se políticas e econômicas. Anteriormente à tomada do Estado, seria preciso atingir a hegemonia cultural, através de uma revolução que precede a chegada ao poder. Essa revolução seria levada a cabo por intelectuais — num sentido bem amplo do termo — que estariam difusamente espalhados por vários campos da sociedade civil, mas sempre com um discurso afinado, já que todos teriam ligação direta ou indireta com um Partido capaz de coordenar uma estratégia abrangente. A família, a Igreja, a universidade, a escola, a mídia, os sindicatos, as associações de bairro, os movimentos sociais deveriam ser totalmente transformados a fim de atenderem a esse projeto revolucionário.

A Revolução Cultural — novamente: na forma pela qual Olavo interpreta Gramsci — seria uma engenharia social de alta complexidade, que prescindiria inclusive da consciência dos agentes envolvidos, sendo uma manipulação capilarizada. Para obter um funcionamento pleno, essa Revolução no campo da cultura seria passiva, ou seja, uma revolução longa e duradoura, que procurasse não se construir por meio da força, mas do convencimento progressivo, podendo durar décadas até a construção da hegemonia necessária para chegar ao poder com o consentimento da população. Sutil e quase imperceptível, operando pela doutrinação das massas, o convencimento cultural criaria uma sociedade civil suscetível à aceitação bovina dos valores revolucionários, fazendo a tomada do poder ser uma decorrência necessária e natural do processo. Acontece que, para Olavo, esses novos valores revolucionários seriam uma violação de tudo o que há de mais sagrado dentro da civilização ocidental.

Esse suposto marxismo cultural — financiado internacionalmente por grandes bilionários, dos quais o mais famoso seria George Soros — seria o responsável por fragilizar a cultura nacional, tornando os países mais facilmente suscetíveis de serem dominados pelo establishment globalista. Não por acaso, essa elite global apoia e promove uma agenda internacional levada adiante por órgãos globais, como a ONU, com o fito de minar a soberania nacional e perpetuar seu poder. O globalismo exercido através do marxismo cultural seria o responsável por pautas como o “climatismo”, a “ideologia de gênero”, o “abortismo”, a “doutrinação nas escolas”. Ou, como define o novo Ministro das Relações Exteriores: “globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural” sendo um “sistema anti-humano e anti-cristão”. O futuro chanceler foi diretamente indicado por Olavo de Carvalho.

Para Olavo, a modernidade estaria carregada de ideologias com inclinações puramente destrutivas, que tornariam a sociedade mais frágil, fazendo-a padecer diante de uma elite global cada vez mais ávida por poder, abrindo caminho para a tirania. Contra isso, o Estado deve se impor como aquele que vai recolocar a cultura tradicional na ordem do dia e, assim, reabilitar o povo. O combate ao relativismo moral degenerado — reabilitando os valores tradicionais — e à ofensiva globalista — colocando uma elite patriótica no poder — andam lado a lado.


No Brasil, segundo a visão de Olavo, esse processo de ocupação dos espaços institucionais foi iniciado pelo Partido Comunista já nos anos 1940 e 1950. No entanto, o golpe de 64 impediu que os comunistas passassem do poder na esfera pública para um domínio efetivo do aparelho de Estado. Mas o regime militar, que pretendia combater o comunismo, acabou por fortalecê-lo ao deixar um espaço aberto para que os militantes continuassem a ter influência decisiva no âmbito da cultura. A ausência de repressão na esfera cultural permitiu que, com o fim da ditadura, a esquerda pudesse alcançar o completo domínio do poder político.

Praticamente todo o poder político no Brasil durante a Nova República seria de extração comunista em sua estratégia de dominação. Seja em uma vertente social-democrata, como o PSDB, seja em uma vertente trabalhista, como o PT, o sistema político pós-ditadura foi formado por uma mistura de estrategistas gramscianos, políticos tradicionais e elite econômica, salvo a exceção honrosa — mas, na prática, inútil — do PFL, partido com algum tom conservador e liberal, mas que fez concessões excessivas às pautas da esquerda, em especial às questões de gênero. Todo esse esquema foi apoiado pela grande mídia e pela intelectualidade, blindando o establishment de toda e qualquer crítica, que era prontamente taxada como loucura.

O perigo representado pela classe política seria enormemente reforçado com a chegada do PT ao governo federal. Para ele, o partido é uma organização criminosa mancomunada com o que existe de mais perigoso na política latino-americana: o Foro de São Paulo. Órgão criado pelo esquerda latino-americana a partir de reuniões ocorridas em 1990, o Foro consolidou toda a estratégia que varreu o continente e que teria sido acobertada pelos principais órgãos da imprensa brasileira. Além de partidos de esquerda e da mídia tradicional, o Foro estaria diretamente envolvido com organizações criminosas, como as Farc, tendo ligações com o narcotráfico internacional. Olavo não considera o PT um partido normal com aspirações legítimas ao poder, mas um dos atores principais de uma organização envolvida diretamente com tráfico de drogas, o terrorismo e assassinatos em escala continental.

Para afrontar essa hegemonia cultural totalitária arquitetada pelo PT mediante ações criminosas, não haveria outro caminho a não ser a construção paciente, vagarosa e determinada de uma nova hegemonia. Uma hegemonia não surge, entretanto, da noite para o dia. Cansado de tentar convencer a burguesia e os liberais de que a guerra cultural era necessária, e não apenas o combate contra o estatismo, Olavo começa, em meados dos anos 2000, a dedicar parte de sua vida à formação do capital humano necessário para travar essa guerra.

Enquanto no início dos anos 2000 muitos ainda acreditavam na ingênua utopia de que a internet poderia ser uma plataforma para uma revolução democrática, outros já haviam percebido seu potencial para veicular teorias, sem passar pelo crivo da opinião pública. Olavo foi o pioneiro no mundo virtual, vislumbrando — muito antes das redes sociais se tornarem virais — toda força do espaço que se tornaria decisivo para a política global uma década mais tarde.

À época, Olavo já possuía o repertório intelectual necessário para o empreendimento. O estofo teórico estava montado ao menos desde meados dos anos 1990, quando Olavo publica sua trilogia: A nova era e a Revolução Cultural: Frijof Capra e Antônio Gramsci; O jardim das aflições: de Epicuro à Ressureição de César e O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras. Assim, com uma compreensão estratégica e uma base intelectual, Olavo se lança em um novo mundo. Através do site de notícias Mídia Sem Máscara, fundado em 2002 junto com um grupo de colaboradores nacionais e estrangeiros, Olavo pretendia oferecer uma análise de como a mídia manipulava as notícias em prol do esquerda. Mas percebendo aos poucos que essa direita não precisava apenas de informação não enviesada, mas sobretudo de formação, Olavo inaugura em dezembro de 2006 o podcast True Outspeak e, em março de 2009, o Curso online de filosofia, formando subterraneamente os próximos intelectuais de direita. Segundo seus dados, mais de 12 mil alunos passaram por seu curso.

Estudando esses passos de Olavo, fica perceptível que sua crítica à concepção ultra-historicista presente em Gramsci não impede que ele se sirva do pensamento estratégico do teórico italiano, ainda que de uma interpretação bastante questionável. O ódio revela sempre mais do que se deseja: autor constantemente vilanizado por Olavo, Antônio Gramsci é, não obstante, um de seus cavalos de batalha, largamente utilizado para servir de base a uma estratégia política de longo prazo. O anticomunista Olavo tem realmente horror a todo gramscismo — menos, porém, ao gramscismo de direita.

Olavo aposta na estratégia gramsciana — reforce-se: tal como ele a interpreta — com sinais trocados: ocupação progressiva de postos na sociedade civil através de intelectuais orgânicos; constituição de uma virada significativa na opinião pública; conquista do poder dirigente através do domínio cultural; estabelecimento de hegemonia e, por fim, tomada do poder político com apoio massivo dos cidadãos. Em suma, uma revolução passiva promovida por uma Guerra de Posições — processo lento, demorado, mas de potencial muito mais profundo do que a mera tomada do poder. Para isso a organização da direita deve se fazer em diversas frentes: educativa; religiosa; moralista; midiática; humorística; arísticas; e relativas a movimentos e redes sociais. Em todas as instituições, a tentativa de afirmar o conservadorismo recôndito da sociedade brasileira, uma inclinação natural do país ao tradicionalismo religioso.


Já havia na cultura política brasileira uma vertente que combinava autoritarismo, ordem e patriotismo, tradição da qual fazem parte, de maneiras muito diferentes, o Integralismo dos anos 1930, o Partido da Representação Popular (herdeiro do integralista), a linha dura dos militares e as concepções de Eneias Carneiro. Ainda que com ideias distintas, essas correntes tinham uma base ideológica minimamente comum. E estiveram longe de ser minoritárias, inclusive do ponto de vista eleitoral: o Partido Integralista com centenas de milhares de adeptos e simpatizantes; o candidato presidencial do PRP, Plínio Salgado, ex-líder integralista, com 8% de votos no pleito presidencial de 1955 e a eleição de Eneias como deputado federal por São Paulo em 2002 com mais de um milhão e meio de votos.

Ou seja, seria equivocado pensar que o olavismo surgiu como uma anormalidade na história brasileira. Guardadas suas diferenças em relação às ideologias descritas no parágrafo anterior, já existia uma tradição para o florescimento das ideias de Olavo, mesmo que ela tenha sofrido um refluxo no período pós-ditadura.

Mas além de uma receptividade histórica aos valores defendidos por Olavo, havia, é verdade, uma conjuntura específica: as revoltas de 2013 expressaram um amplo sentimento antissistema. As tentativas de direcionar essa fúria a algum ator político específico perderam — mesmo que Dilma e o PT tenham sofrido as consequências, é bom lembrar que a população favorável ao impeachment tampouco aprovava o governo Temer. Assim, apenas um discurso totalizante poderia casar com o espírito do momento. E era essa a perspectiva de Olavo: contra o sistema em geral, e contra o petismo em particular, ele sustentou a tese da Revolução Brasileira.

Se o golpe de 64 foi orquestrado pela elite militar-empresarial, que levou a classe média brasileiro a reboque, mais recentemente, a população — historicamente passiva — teria criado consciência de sua situação de opressão extrema. Conceito extraído de nossa sociologia política, encontrado em autores como Guerreiro Ramos, Pessoa de Moraes e Raymundo Faoro, a Revolução Brasileira seria a derrubada do estamento burocrático pela ação do povo, que passaria a ter, pela primeira vez, voz ativa na decisão do destino do país. Haveria uma luta histórica, multissecular, do povo contra o estamento burocrático que se incrustou no sistema político brasileiro. Olavo identifica as passeatas de 2015, para ele espontâneas, como sendo o ponto culminante da dita Revolução Brasileira.

Nesse momento, fica evidente que as teorias de Olavo haviam ganhado não apenas repercussão midiática, mas base popular: todo esse discurso, que parecia obscuro para muitos, circulou incessantemente por intelectuais secundários, sobretudo após 2013. Foi a partir desse momento que começaram a pipocar pelas redes a hashtag #olavo­tem­razão, ao mesmo tempo em que não era raro encontrar nas ruas, a partir das manifestações de 2015, pessoas usando camisetas com a mesma frase.

É verdade que ainda em 2015 existiam diversas propostas nas ruas, sendo que a do impeachment era a menos radical delas. Acontece que o impeachment pelo impeachment nunca foi a pauta de Olavo, pois seria preciso a reconstrução do sistema, que estaria integralmente corrompido não só pelo comunismo petista, mas pela classe política, pelo estamento burocrático que governa o Brasil há séculos. O impeachment deveria ser o começo da derrubada do sistema, e não apenas a queda de uma presidente. Isso levou Olavo a criticar, em 2015, o MBL como um movimento de conciliação. Enquanto os jovens do MBL queriam se aproximar dos partidos tradicionais de centro-direita, PSDB e Democratas, Olavo mostrou que uma mobilização popular de grandes proporções poderia fundar as bases de um novo sistema, sem ter que transigir em nada para os partidos tradicionais.

Primeiro passo de um processo, o impeachment deveria ir até o fim, sem recorrer a uma precoce intervenção militar, que seria apenas uma forma de liquidar o sistema sem ter um movimento de massas real, abrindo mão da necessidade de que o povo lutasse ativamente pela transformação. Fiel a seu esquema de conquista estratégica do poder, Olavo rechaçou a ideia de uma intervenção militar, pois ela seria apenas uma tomada de poder sem apoio social efetivo, sem que as pessoas arriscassem seus votos em um projeto, o que levaria a mais uma situação como a de 1964: apoio à intervenção, mas falta de apoio ao regime que a sucedeu. Chegar ao poder pelo voto popular seria, em última instância, jogar o povo contra o sistema político apodrecido, o estamento burocrático que estrebucha; se a população chancelou o projeto do presidente, deve apoiá-lo em sua execução, o que seria visto como ilegítimo e autoritário no caso de um regime militar.

Nesse caso, Olavo radicalizava em relação aos liberais conciliadores, que queriam apenas a saída de Dilma, como Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e o MBL. Suas brigas homéricas com os liberais selaram o destino de alguns deles, que foram mais ao centro, rompendo com Olavo, e de outros, que se moveram e mais e mais à direita. Essa “correção de rota” foi claramente um dos dispositivos responsáveis por acionar um discurso não apenas liberal na economia, mas sobretudo conservador em termos sociais, angariando muitos e muitos votos para a extrema-direita. Que se pense no que era o discurso inicial do MBL — contra a corrupção, o intervencionismo econômico de Dilma e a cultura estatista no Brasil — e o que ele se tornou: uma guerra aberta contra toda a pretensa deformação da cultura e da moral pela esquerda (QueerMuseum, Escola sem Partido, cura gay…) Isso foi o que possibilitou a continuidade do movimento, em detrimento de dezenas de outros, como o Vem pra Rua, que empunharam apenas a bandeira do impeachment como solução final.

Depois de firmemente consolidada a nova cultura conservadora, Olavo passou a clamar, pelos idos de 2016, uma espécie de democracia plebiscitária, em que o povo deveria criar as novas instituições responsáveis por efetivar sua liberdade, indo mesmo contra o impeachment em favor dessa solução verdadeiramente… revolucionária. Acontece que o sistema político resistiu.

Não era claramente perceptível no biênio 2015–2016 que as alas mais radicais das manifestações se sairiam vencedoras de um processo que, iniciado em 2013, terminaria apenas em 2018. Contudo, o que se passou de 2015 até 2017 deu um impulso extraordinário aos que abraçavam a tese da radicalização: o derretimento da oposição tradicional com o envolvimento de Aécio Neves em escândalos de corrupção, a dinamitação progressiva do governo Temer pela Lava-Jato, a pseudorrecuperação da crise econômica, a desmoralização midiático-judiciária e moral do Partido dos Trabalhadores. É assim, dos escombros do Brasil de então, das ruínas da Nova República, que surge o novo.

Durante o governo pós-impeachment, estava sendo gestada uma candidatura ultrarradical que poderia ser o veículo de uma transformação verdadeira, dando continuidade à Revolução Brasileira iniciada em 2015 e conseguindo afrontar, agora de forma real e definitiva, o estamento burocrático que domina o país. Com o esfacelamento do sistema pelas denúncias de corrupção generalizadas e o descrédito total da classe política, é alimentada uma busca por uma opção ordeira, pelo combate ao problema da segurança pública, pelo espírito marcadamente anti-petista, pelo apoio integral e sem ressalvas à Lava-Jato. Todos esses elementos combinados foram devidamente ajustados num maquinário em que as engrenagens já estavam em pleno funcionamento via redes sociais.

É da convergência entre o discurso de um estrategista hábil, da fúria implacável das massas contra a classe política e de um ex-militar autoritário que nasce a candidatura que possuía apenas 4% das intenções de voto em dezembro de 2015 e passou a 17% das intenções em dezembro de 2017.

É assim, sob o signo do olavismo, que Jair Bolsonaro se consagra para muitos como a única opção viável para a continuidade ao processo: não representa apenas um outsider, mas um político contra todos os políticos, um mito contra o sistema. Assim, a suposta Revolução Brasileira termina com a eleição de um pretenso patriota que pouco tempo antes havia batido continência para a bandeira… americana.


Entre outros disparates, Olavo já sugeriu que as eleições teriam sido fraudadas caso o resultado não fosse a vitória de Bolsonaro; afirmou categoricamente que o livro Em defesa do socialismo do presidenciável adversário, Fernando Haddad, apresentaria uma defesa velada do incesto; escreveu que Jean Wyllys “deveria se submeter a um exame para saber se a sua saliva não transmite o vírus da Aids”; exortou seus leitores a não acreditarem na “história das torturas”, que teriam como única prova a palavra da “putada esquerdista”; classificou os movimentos sociais como “um bando de filhos da puta” que trabalham para Maduro, para Cuba e para a China e, por fim, questionou se o movimento de mulheres contra Bolsonaro não seria apenas de estudantes que estão na universidade pra “fazer suruba e fumar maconha”. O gosto pelo vocabulário chulo, pela humilhação pública dos adversários, pela desumanização dos oponentes, só mostra técnicas de efeito retórico para destilar inverdades que, mesmo que posteriormente desmentidas, tem potencial para enganar um número expressivo de pessoas.

Percebe-se que a estratégia de Olavo é mostrar como toda a esquerda é, de alguma forma, ou doentia ou criminosa, quando não ambas as coisas. Aqueles usados sem saber que fazem parte de um estratégia maior são idiotas; aqueles que acreditam de fato nas ideias da esquerda são doentes; aqueles que arquitetam os planos são criminosos. Há, assim, uma articulação entre a patologização e a criminalização — o que não pode levar senão a soluções policialescas, punitivistas e psiquiátricas contra esses inimigos. Assim, toda a esquerda é vista como subversiva, sendo que o mero enquadramento nessa categoria já sinalizaria a necessidade de repressão. Acontece que a palavra “esquerda”, ou “comunista” — termos que Olavo usa de forma intercambiável — é compreendida tão amplamente que pode abarcar qualquer adversário, crítico ou opositor.

O que Olavo faz é usar um raciocínio metonímico que falseia a situação: se há atos irracionais e desarrazoados vindos de gente de esquerda, logo toda a esquerda se comporta dessa forma. Ora, para a direita é o oposto que vale: ou é um erro isolado, ou a atitude foi mal interpretada, ou não se trata da direita. Um exemplo claro disso foi quando Bolsonaro declarou, ipsis litteris, portando um tripé de câmera na mão e com ele simulando uma arma: “Vamos fuzilar a petralhada”. Num passe de mágica, Olavo explica que o significado real da frase é que o novo presidente irá “reagir com violência armada ao banditismo que atualmente mata 70 mil brasileiros por ano”.

Mas não se trata apenas de problemas de ordem política. A teoria de Olavo pressupõe uma racionalidade e uma integração quase absoluta dos agentes que elaboram o pensamento de esquerda e ao mesmo tempo uma falta de racionalidade das massas. O comunismo está por toda a parte e a multiplicidade que aparece é só uma tática diversionista pra tirar o foco da verdade: todos à esquerda estão participando dessa enorme revolução passiva para inculcar o comunismo via cultura. Será realmente razoável supor que existe uma espécie de dominação esquerdista generalizada? Assim, essa teoria totalizante e global sobre o funcionamento da política tende a ignorar a série de nuances do real e a pressupor um aviltamento quase geral das consciências — que seriam libertas apenas quando se deparassem com o discurso olavista, o que explica bem o tom de séquito semimessiânico que se construiu em torno do personagem. Seus acólitos são impermeáveis a quaisquer críticas feitas a Olavo, ao que prontamente respondem com interrogações: “Mas você já leu toda a obra de Olavo? Você poderia refutar sua filosofia? Você conhece seus conceitos?” Como se para expressar uma discordância fosse necessário refutar um sistema por completo; são técnicas de intimidação tão falaciosas quanto as que muitas vezes o próprio Olavo usa com frequência em seus vídeos.


Com essas credenciais teóricas, é ilusório acreditar que o governo Bolsonaro possa criar estabilidade e unificar o país, dado que o estofo intelectual de sua candidatura é inteiramente calcado em formulações militares e estratégias de enfrentamento e, no limite, de aniquilação dos opositores. Até agora, e essa característica vai se manter pelo menos no início do governo, percebe-se que o discurso não sofreu nenhuma modulação e continua tão belicoso quanto durante a campanha presidencial. O tom é de guerra: com a esquerda em particular, mas, de outro lado, com o sistema político também.

A grande vitória dos bolsonaristas foi se alçar ao poder pelo voto: é que, para eles, o voto legitima qualquer ação, inclusive aquelas de ordem autoritária. Nesse caso, tem-se um democratismo — um princípio da maioria — contra o Estado de Direito: se a maioria quer, assim tem que ser, mesmo que seja necessário passar por cima das instituições democráticas e dos direitos fundamentais. Ora, a integração de Sérgio Moro ao governo não tem outro sentido: institucionalizar o ativismo jurídico impulsionado pela força da fúria popular contra a corrupção, atropelando as garantias constitucionais.

É claro que será preciso negociar com a realidade, o que vai ser um teste de fogo para saber se o bolsonarismo — e o olavismo — de fato estão plenamente enraizados, ou se sua eleição foi apenas uma plataforma de descontentamento contra o sistema como um todo, e contra o PT em particular. Escolhido com grandes expectativas, Bolsonaro entrará em rota de colisão com o sistema se apoiando na força das ruas. Será que isso será o suficiente para sustentar sua investida contra o sistema?

Caso Bolsonaro perca a queda de braço com o sistema político, sendo neutralizado e obrigado a fazer um governo distante de suas propostas originais, frustrará seus eleitores. De forma hábil, pode-se culpar a casta política, da qual ele fazia parte até pouco tempo, pelo insucesso. A frustração popular seria então direcionada a não esperar o fim do mandato e exigir uma radicalização do processo, aceitando — ou clamando ela mesma — por medidas autoritárias, o que daria a legitimidade necessária para que Bolsonaro virasse o jogo com a pressão das ruas, ameaçando, intimidando e, no limite, reprimindo autoritariamente, a fim de levar a cabo seu projeto.

Por fim, nada disso poderá provar que Olavo esteja equivocado, uma vez que o olavismo é imune à refutação: caso o governo Bolsonaro não dê certo, sempre há o subterfúgio de jogar a culpa na esquerda, no estamento burocrático ou no próprio governo, que traiu as ideias mais robustas do intelectual. O campo de manobra para proteger a própria reputação intelectual pode ser quase infinitamente plástico, fazendo com que as suas ideias continuem circulando tão críveis quanto antes, mesmo que seus efeitos políticos sejam desastrosos.


A postura da esquerda em relação a Olavo de Carvalho pareceu-me equívoca: tentam silenciá-lo sob o epíteto de louco, farsante, astrólogo, pseudointelectual, filósofo sem diploma. Ora, essas etiquetas pejorativas podem ser boas para os convertidos, mas soam como música para o ouvido de Olavo e seus seguidores; quanto mais ele é etiquetado, mais confirma sua visão de que a universidade é um antro esquerdista; quanto mais o sistema o repele, mais confirma sua tese de que todos são iguais, e de que apenas ele poderia revelar um caminho seguro para libertar o país de suas mazelas. Com raras exceções, poucos deram a importância à imensa repercussão do trabalho de Olavo. É que no início se pensava que Olavo existia apenas no mundo virtual, mas, hoje, a internet é o mundo real; na verdade, a política mostrou que a realidade é um subproduto da rede, o que significa que Olavo é tão mais real porque porque soube usar a internet antes de ela se transformar em palco político generalizado.

Enquanto combatia ardentemente o neoliberalismo, a esquerda não viu que o triunfo inócuo dos liberais — que logo se encerraria com a próxima crise do capitalismo — seria atropelado pelo conservadorismo nacionalista, uma regressão substantiva em relação ao liberalismo político. Essa estratégia já estava sendo anunciada há mais de uma década por Olavo de Carvalho.

Conhecer o pensamento de Olavo de Carvalho não significa, evidentemente, concordar com suas ideias, mas entender o papel que ele ocupa. A rigor, compreender por que Olavo ganhava tanta notoriedade é entender uma mudança muito mais profunda na esfera pública, na construção de hegemonia e no papel das redes sociais. Ele é o grande mentor intelectual da direita contemporânea, sendo responsável pela formação de milhares de pessoas. Acusá-lo de não ter um diploma; de falar tal ou qual besteira; de ter sido astrólogo… Nada disso vai à raiz do problema: Olavo já seduziu e encantou milhares, senão milhões, de pessoas, e muitas delas com poder suficiente para reproduzir a palavra do mestre em escala ampliada. Escanteado pela intelectualidade de esquerda, ganha aura de pensador maldito e, também por isso, atrativo para a rebelião de direita, a revolução conservadora contra o establishment supostamente esquerdista. Olavo não é apenas um teórico dessa direita, mas é, sobretudo, seu mentor e estrategista.


Recentemente, Eduardo Bolsonaro, deputado federal mais votado do Brasil, declarou que Olavo de Carvalho “é a nossa base filosófica”. O quarto livro presente na mesa de Jair Bolsonaro quando ele fez seu pronunciamento inicial como presidente não era apenas uma simples homenagem. O que nos leva a crer que as contradições do governo Bolsonaro serão uma manifestação prática da contradições de Olavo: pregar a Verdade propagando inverdades; afirmar a paz incitando à guerra; defender a democracia com atos ditatoriais; insuflar a dignidade humana e desprezar as aspirações das minorias; querer erudição e se aliar com a ignorância; advogar um intelectualismo que rechaça intelectuais; justificar uma moralidade que se coaduna com acusados por corrupção; sustentar um patriotismo anti-nacionalista.

Do ponto de vista estratégico, há aí também uma grande contradição: a construção de uma frente heterogênea e a prática da hegemonia no interior do bloco. A candidatura de Bolsonaro combinou evangélicos e católicos, pobres e ricos, liberais e conservadores, nacionalistas e entreguistas, intelectuais e anti-intelectuais, políticos fisiológicos e políticos ideológicos. Há uma unidade mínima dada pela alta voltagem do sentimento antiesquerda. Mas a regra parece ser: quando uma bloco incoerente atinge seu objetivo maior, ele passa a desmoronar por lutas internas entre os interesses divergentes.

Seja como for, o percurso do governo Bolsonaro, a mudança que se verificou para que ele pudesse ser eleito foi construída ao longo de décadas: o espectro político se deslocou radicalmente para a direita — é ela que vai pautar os assuntos e a linguagem na qual eles podem e devem ser tratados.

“O nazismo é de esquerda”, “Paulo Freire acabou com a educação brasileira”, “o objetivo do PT é implantar uma ditadura comunista”, “a imprensa é esquerdista”, “a esquerda defende a pedofilia e o incesto” — se esses e outros disparates delirantes tornaram-se senso comum para muitos, tratou-se de uma estratégia massiva e de longo prazo, tendo como fiadores e principais correias de transmissão Olavo e seus alunos. Dessa forma, eles colaboraram profundamente para arrastar para a direita o espectro político tradicional e redimensionar o que é tido como razoável no debate público.

É esse o verdadeiro alcance da estratégia: não apenas tomar o poder político, mas reconfigurar o campo discursivo, as possibilidades culturais e o horizonte do que é ou não aceitável no esfera pública. A perceber que isso independe de uma derrota eleitoral desse grupo em 2022, dado que a alteração de uma cultura política é algo muito mais profundo do que um mero processo eleitoral.

Sob o pretexto de criar uma direita que não existia no país, Olavo deu legitimidade a um movimento que expressa o que existe de pior na sociedade brasileira: preconceito, violência, repressão, afronta às instituições, ódio político — tudo devidamente autorizado por uma suposta autoridade filosófica de primeira ordem. É o empoderamento da barbárie.