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Nota Editorial

Rosa virá a público, em princípio, com uma frequência de dois números anuais. O conteúdo de cada número não será publicado de uma só vez, mas em sucessivas séries de textos contendo partes do índice total. Este primeiro número sairá na forma de três ou quatro séries parciais, separadas por intervalos de aproximadamente um mês.


Os artigos assinados são de responsabilidade do(a) autor(a), os não assinados e os editoriais são de responsabilidade do conjunto da equipe editorial. Quer eles sejam ou não escritos por membros da equipe editorial, os textos poderão ser objeto de réplicas (e as réplicas, de tréplicas), que serão publicadas no número e série em que saiu o artigo, ou nos números ou séries subsequentes.


A revista poderá publicar, a título de “tribuna”, textos que provavelmente não correspondem às posições da maioria da equipe editorial. Como para as demais matérias, eles poderão ser objeto de réplicas, e estas, de tréplicas.


A correspondência deverá ser remetida ao endereço:
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Apresentação de Rosa

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto

— Carlos Drummond de Andrade,
A Flor e a Náusea

A revista Rosa se apresenta ao público brasileiro num momento muito difícil do país.

Cinquenta e sete milhões de brasileiros votaram em um candidato que, em sua campanha, marcada por atos ilegais no plano do marketing eleitoral e do financiamento, defendeu abertamente a tortura, pregou a liquidação das esquerdas e fez praça de declarações homofóbicas, misóginas e racistas. Vitorioso, o personagem ocupa a presidência do país desde o início de 2019. Seu governo tem sido uma antologia do horror: tentativas de desmoralização dos outros poderes da República; atentados contra as populações indígenas; destruição desenfreada do meio-ambiente; desmonte dos bens do Estado brasileiro; ruína da soberania nacional; tentativas descaradas de nepotismo; cumplicidade com a corrupção e com o banditismo oficial das milícias; subserviência mortal a um guru cultor de um esoterismo fanático e antidemocrático; política de costumes arquirreacionária levada adiante por representantes de uma religiosidade farisaica; contatos estreitos com forças internacionais de extrema-direita.

Em 2018, quando programavam a revista, seus organizadores já não tinham a perspectiva de lançá-la sob um clima favorável; era de prever uma atmosfera tensa e adversa, em que a direita, e não a esquerda, comandava o jogo político. Porém, a eleição de Bolsonaro veio agravar muito as circunstâncias. Na nova conjuntura, o combate se tornou urgente.


Alardeada como alternativa ao Estado de bem-estar social, a política econômica neoliberal resultou na explosão da desigualdade nos países desenvolvidos desde meados da década de 1970. Nesse contexto, a retração dos serviços públicos ao lado de uma contínua precarização das relações de trabalho gerou uma legião de descontentes, prontos a abraçar a retórica antiestablishment. As soluções colocadas em prática contra o cataclisma financeiro de 2008 — em cuja eclosão o neoliberalismo tem pesada responsabilidade — foram profundamente insatisfatórias: a transformação de ativos podres em dívida pública, poupando os ricos de arcarem com os custos da crise, ampliaram ainda mais o sofrimento social e a indignação coletiva com o sistema.

Nesse pano de fundo, o quadro brasileiro é mais complexo: poucos anos depois de ter passado quase incólume pela fase aguda da crise, a economia brasileira demonstrou sua fragilidade estrutural — muito reforçada por escolhas governamentais equivocadas — e sucumbiu. As forças liberadas pelas manifestações de junho de 2013 foram sequestradas pela direita, que sacramentou como bandeira política a luta contra o governo petista por meio do combate à corrupção. Na onda da Lava-Jato, dos protestos e das intrigas palacianas, derrubou-se uma presidente e prendeu-se o principal líder de seu partido. Apoiada pela classe média e pela mídia, uma força-tarefa articulada por procuradores e juízes se incumbiu de realizar — por meio de meios escusos e inúmeras ilegalidades — uma devassa no estamento político tradicional, o que, quaisquer que fossem seus pecados, abriu caminho para uma regressão sem precedentes. Em suma, um processo golpista-eleitoral pavimentou o caminho para o pior.

Diante da ofensiva da extrema-direita, a esquerda se revelou mal preparada. Não que a resistência ao bolsonarismo tenha sido nula. Ela foi considerável tanto no plano das mobilizações populares, quanto no da prática jornalística e na atividade parlamentar. Mas sua atuação foi dispersa e seria difícil dizer que ela tivesse muita clareza sobre os seus objetivos a curto e a médio prazo.

Paga-se o preço das vicissitudes por que passaram a prática e o pensamento da esquerda nos últimos cem anos. Em primeiro lugar, a deriva totalitária que a atingiu, no plano mundial, abriu uma ferida que demora a fechar, se é que se fecha. Apesar da queda do Muro de Berlim, a sombra de um poder totalitário — senão stalinista, pelo menos leninista — erigido em nome da esquerda continua presente. Em termos concretos, regimes totalitários como os da Coreia do Norte e até o da China, ou pós-totalitários, como o de Cuba, ainda gozam da simpatia de alguns grupos de esquerda. Infelizmente, a sedução do autoritarismo não é uma tendência exclusiva da direita.

Fonte de confusão para muitos progressistas, em particular nos países periféricos, esta sombra é ao mesmo tempo um trunfo formidável nas mãos da direita, e, mais ainda, da extrema-direita. A liquidação definitiva desse fantasma continua sendo uma tarefa urgente. Com o mesmo vigor com que se criticam as contradições das democracias capitalistas, impõe-se repudiar com veemência os regimes burocráticos e totalitários que reivindicam a tradição da esquerda.

As ilusões que ainda persistem em relação ao totalitarismo andam de mãos dadas com a cumplicidade com regimes populistas e autoritários ditos progressistas, como o da Venezuela. Em geral, essas experiências combinam traços do autoritarismo burocrático com o velho vício patrimonialista, entendido como o laxismo no trato da coisa pública. Sabe-se bem a que isso tudo conduz.

O pseudorrepúdio à corrupção por parte da extrema-direita levou a um voto suicida, cujas consequências estamos amargando. Contudo, se o grito da direita e da extrema-direita era evidentemente demagógico e apoiado num conchavo montado por setores do judiciário, o fenômeno da promiscuidade entre parte do poder econômico e os governos de esquerda que presidiram os destinos do país durante mais de uma década era real.

O partido hegemônico da esquerda, lamentavelmente, cedeu à tese de que a corrupção seria necessária para garantir base parlamentar e avançar com as reformas. Deixando-se levar pouco a pouco pela inércia, ele selou a opção por certo tipo de patrimonialismo populista e enveredou pelo caminho tradicional do poder público no Brasil. Em nome do avanço imediato, perpetuou-se o atraso.

A famosa autocrítica do partido hegemônico não veio, e provavelmente não virá. Obter a libertação de um ex-presidente condenado em processo inteiramente irregular, como o revelam os materiais publicados pelo Intercept, foi a reivindicação de nós todos, mas não pode representar por si só uma política. Nem mesmo o centro de uma política. E quanto ao futuro, não nos prometem nada melhor do que prolongar os mandatos dos atuais dirigentes do partido, e acenar com a volta ao poder de antigos líderes. É preciso mobilizar novas forças.

Não se trata de bloquear o diálogo com quem quer seja — um partido não é um bloco monolítico, e tampouco as bases e os simpatizantes compartilham da posição dos dirigentes. Não se pode, entretanto, sob qualquer pretexto, afastar a crítica livre, contundente e construtiva.

Embora ao desandar, o PT não tenha deixado de levar adiante um programa a sua maneira reformista, aquela deriva constituiu um erro maior, agravado pelo fato de que nunca foi reconhecido. O método de varrer a poeira para baixo do tapete não enganou ninguém. E não só a reação se aproveitou disso, mas o partido perdeu muito da sua base, o que o enfraqueceu na hora decisiva em que teve de enfrentar a ofensiva da direita e da extrema-direita. Apesar de cientes de todo o jogo sujo de uma e de outra, rechaçamos a interpretação de que o PT seja apenas uma vítima passiva em todo o processo que se desenrolou nos últimos anos. Não se pode fechar os olhos para as carências desse partido e para a forma como elas potencializaram a situação a que chegamos.

Aproveitando-se desse equívoco, a direita conseguiu levar adiante sua ofensiva golpista-eleitoral. Discute-se: o atual governo é fascista? A ele faltam importantes elementos do fascismo clássico, como a mobilização extensiva e intensiva de todo o povo, os grupos paramilitares, as organizações uniformizadas das massas, os rituais de fidelização ao líder e de sacralização de estandartes. Mas ele é da mesma galáxia dos fascismos, a galáxia das revoluções conservadoras, reacionárias e obscurantistas. E o que é essencial: essa dose de autoritarismo já é suficiente para destruir a democracia no Brasil.

Não se pode deixar passar sem crítica a posição dos liberais brasileiros, mesmo os mais sérios. Com poucas exceções, eles não parecem muito preocupados com o teor nitidamente autoritário do novo poder. Cegueira teórica ou simpatia oculta? Estranhos liberais, mas os seus ícones já o eram. Sem fazer juízos sumários sobre suas convicções profundas, é bom não esquecer que alguém como Hayek deixou claro em seus escritos e em suas atitudes que não tinha maiores problemas com poderes antidemocráticos. Do mesmo modo, se Paulo Guedes realiza nosso programa, ou parte dele, por que afinal se preocupar tanto com o resto?


Rosa pretende contribuir para que a opinião de esquerda avance na compreensão desses problemas. Nossa revista não é certamente uma voz isolada, nem se pretende dona da verdade. No panorama atual, há, de um lado, publicações de qualidade que não assumem, entretanto, uma posição política bem definida; e, de outro, revistas e blogs de esquerda que não são críticos. Rosa se apresenta como uma publicação de esquerda independente e crítica, com convicções democráticas. O ideal dela é a unidade entre a tomada de posição política e o rigor teórico.

Que a revista seja de esquerda não implica que venha a ser menos objetiva. Bem entendida e bem praticada, a crítica é superior em termos de objetividade ao discurso que se diz neutro. A razão disso é simples: só a crítica pode revelar aquilo que o discurso acrítico considera escandaloso demais para ser revelado. Não se pretendendo neutra, nossa revista será mais objetiva do que se o pretendesse.

Se Rosa assume as posições que defende, nada é mais estranho ao grupo que decidiu editá-la do que a ortodoxia e o sectarismo. Além de não nos ocuparmos apenas de política — desde o seu primeiro número irão a público matérias literárias e de arte que travam um diálogo aberto com diferentes práticas artísticas, correntes de experimentação e epistemologias —, não nos furtaremos nem à discussão, nem à publicação de textos que não correspondam à opinião da maioria da comissão editorial. Embora o problema venha em grande parte da violência extrema do discurso e das ações da extrema-direita, é salutar qualquer esforço para frear o clima de ódio e de intolerância que domina as discussões públicas no Brasil.

Um ponto a não ser esquecido é a questão da teoria. A ofensiva neoautoritária a que assistimos se empenha, entre outras coisas, numa batalha contra a razão. No estilo da tradição extremista de direita, ela revela um formidável ranço anti-intelectual. Mais do que isso. Os atos praticados ou tentados por esse governo visam a atacar o pensamento crítico em geral e, mais precisamente, as instituições nas quais se produz conhecimento. O ideal desses eleitos seria esvaziar as nossas universidades dos seus professores, e colocar no lugar deles uma chusma de charlatães, fanáticos, e, no melhor dos casos, pedantes mal instruídos. Sob pretextos variados, trata-se de privar as universidades das dotações necessárias ao seu funcionamento. Infelizmente, essa política de desmonte tem tido certo êxito.

Traço característico dos novos governantes, essa tendência anti-intelectualista sempre foi determinante nos movimentos de extrema-direita, e no presente caso ela vem agravada pelo ressentimento. Rosa assume o papel de defensora da cultura, da teoria, e da razão. É preciso lutar contra a onda neo-obscurantista que se alastrou pelo país, com consequências políticas deletérias. Contra a barbárie, a teoria. A teoria se justifica por si mesma, sem dúvida, mas nas atuais condições brasileiras, ela é imprescindível.


A postura assumida por Rosa não é fruto de nenhum capricho intelectual. É o futuro da esquerda, da democracia e do país que está em questão. Vai ficando cada vez mais claro, e não só no Brasil, que o rolo compressor da extrema-direita mundial só poderá ser bloqueado se a esquerda for capaz de operar uma verdadeira guinada na sua política, virada que, até aqui, não se anunciou.

Entretanto, se o campo progressista reluta em enfrentar suas contradições, há que registrar a presença, no mundo, de elementos que permitem descartar o derrotismo. A direita mundial continua na ofensiva, mas não são poucos os lugares em que há manifesta a resistência. No período recente, registraram-se importantes mobilizações democráticas na Argélia, no Oriente Médio, na Rússia, em Hong-Kong, no Chile, no Equador e na Colômbia. Nos EUA, a radicalização da opinião pública no sentido de um projeto social-democrata é uma realidade nova. Na Europa, a esquerda mostra sua força atual ou potencial em países como França, Portugal, Espanha, e na Escandinávia. Para além da esquerda partidária, deve-se lembrar da força dos movimentos sociais, seja no registro dos trabalhadores e sindicatos, seja em registros da luta feminista, da bandeira LGBT ou das mobilizações antirracistas. Em suma, se a direita ataca, a esquerda não está de forma alguma esmagada.


Estas são as nossas convicções, este é o nosso projeto; esperamos contar com o apoio do público de esquerda, com leitores de diversas correntes políticas e com a simpatia e adesão de todas as forças democráticas do país. A revista Rosa não tem ilusões quanto aos limites de suas forças, como as de qualquer publicação. Mas há que utilizá-las e não se refugiar numa cômoda posição niilista. A equipe que lança esta revista escolheu como título um nome que evoca o que houve de melhor na história da esquerda em termos da reunião difícil entre uma crítica intransigente do capitalismo e uma exigência democrática sem concessões. O nome Rosa exprime também um voto em favor das “primaveras dos povos“, primaveras que não foram raras na história dos séculos passados e mesmo do atual, mas que, infelizmente, tiveram um curso efêmero. Não existe, porém, pesadelo que não chegue ao fim. Há que apressar esse desfecho, encurtar a noite deste muito sombrio inverno.