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Memórias

Uma cartografia faustiana

Neste texto, pretendo fazer uma homenagem aos lugares em que convivi com Ruy. Partilhamos aqui um pouco do território urbano de Ruy num ensaio cartográfico faustiano, pelo menos alguns que convivi. É só ir clicando nos links.

Ruas perto da Sorbonne Pierre e Marie Curie. Patricia Zandonade, 2010.

Era 6 de junho de 2010 e estava combinado às 12h30. Sob a estátua de Danton no metrô Odeon, com blusão azul e chapéu escocês. Lá estava um senhor pequeno, de mãos para trás do corpo, ombros tensos e próximos das orelhas. Me apresentei e em seguida fomos caminhar pelo Quartier Latin. Fomos andando pela Rue des Écoles, passando pela Sorbonne e indo a algum restaurante nas redondezas.

E assim começou uma amizade ambulante, sempre nos encontrando pelas ruas, metrôs, parques e rios em Paris. E também falávamos muito sobre cidades e lugares, sobre as histórias e territórios das pessoas e das nossas. Quando estamos no exílio, as questões da territorialidade ganham outra dimensão. E por isso o que falo de Ruy Fausto como uma cartografia de amizade.

Entrada leste da BNF. Patricia Zandonade, 2010.

Nosso ponto base, eram os arredores da BNF, Biblioteca Nacional da França. Nos conhecemos na primavera francesa. Ele sempre mandava mensagem: “Estou na mesa K32, ou M54” (sempre do lado direito da BNF, nas mesas próximas aos temas da filosofia, história, ciências sociais). O Café da parte inferior da biblioteca, Rez du Jardin, era uma linda fauna, com espécimes intelectuais diversos. Ruy Fausto era um habitué da BNF, o seu escritório, trabalhava regularmente todos os dias. Está certo que o Café tomava certo tempo de sua jornada. Mas era mesmo muito interessante encontrar aquele povo do mundo todo pesquisando num só lugar. Me parece que a BNF é um lugar onde os exilados encontram um território em Paris que imediatamente (psicologicamente e nos signos sociais) nos tira da condição de estrangeiro e nos coloca na posição de pesquisadores internacionais. Esta é a mágica daquele lugar, para além da arquitetura.

Ponte sobre o Rio Sena. Patricia Zandonade, 2010.

No verão e naquele ano a gente ainda era otimista, e no improviso típico de minha origem, chamava o Ruy para um piquenique repentino no fim de tarde depois da BNF. Ele, todo organizado, hesitava mas sempre ia. Passávamos a Ponte Simone de Beauvoir, aquela praça em forma de passarela, em forma de onda, que transforma o Sena em lugar público, para estar e atravessar. A passarela nos levava ao Parc de Bercy, e, seguindo em frente nos deparávamos com a escultura de Niemeyer, e sentávamos diretamente no gramado, perto de nossa conterrânea obra, olhando os nativos serelepes com o calor. Dizíamos que, da obra, o mais bonito era seu nome, “Uma mulher, uma flor, solidariedade”. Sem equipamentos, a garrafa era aberta sem saca-rolha, e vinho no bico. Micróbios, eu falando mal da arquitetura da Cinématéque em frente, e do arquiteto, ele falando mal de Žižek, e suas teorias bestas, ele dizia. A arte de falar mal nos unia.

Nas caminhadas dialogadas ao longo do Sena, a discussão era sobre lugares, política, família. Assuntos recorrentes de Ruy eram os acontecimentos no mundo, seus cursos, a pneumonia na chegada a Paris, seu eterno amor briguento, outros amores revelados e platônicos, a filha querida (ele sempre se orgulhava da filha bilingue perfeita), o irmão mais velho. “Trocávamos impressões”. Como bons exilados, sempre discutíamos ainda nossa terra, as diferenças, os acertos e erros das políticas, etc. Naquele momento estava envolvido com a retomada de Castoriadis, para seu curso na USP. E também se achava na responsabilidade de desmontar intelectuais perigosos, como ele dizia, que tanto conquistava os mais jovens com suas teorias malucas sem fundamento, naquele momento, Žižek. Mas eu lhe dizia que preferia o Ruy poeta, que não me interessava pessoalmente suas teorias (mentira, era provocação).

Ruy queria saber, ele dizia que eu teria vindo do “Brasil Profundo”, e eu, de origem rural, onde eu não tinha luz elétrica na primeira infância, intrigava o urbano metropolitano. E que agora estudava energia e mobilidades cotidianas metropolitanas. “Que ousadia!”, ele dizia. Pra quem veio do Brasil Profundo, o profundo é sempre mais longe, eu discordava, e achava que a metrópole era caipira. Discutíamos sobre o caipira, terras interioranas e suas formações. Ele queria conhecer Cruzália. Eu dizia pra desistir, que o caipira de Bofete já tinha sido engolido pelas commodities e pelo Wild West Show paulista, e a cultura do oeste paulista era um deserto de soja e cana. Talvez a última da espécime estava em Paris (calma, eram provocações! ainda temos muita cultura popular no interiorzão além do sertanejo universitário). Essa curiosidade antropológica fez com que ele um dia me presenteasse:

Cruzália
Campos de milho
e soja

A três léguas,
o Paranapanema
corre
barrento

O cavalo Guarani
se aposentou
com ração dupla

Escola
Brinquedos
Namoros

Menina e moça
saí da casa
de meus pais
para longes terras.

Hoje
examino
cidades
autos
trens de ferro

engarrafamentos gigantes
em São Paulo
e Paris

Se comprei
cenouras
e pepinos
para levar à festa
não me perco
na grande cidade

atravesso a ponte
com meu vestido africano
vou seguindo
o córrego Sena
todavida

lá onde tem
uma capela
dou meia-volta
sigo outra vez
o córrego,

chegando na matriz
atravesso de novo
a ponte

Paris não vale Cruzália
aqui não há cavalos
nem campos de milho

o igarapé Sena
não é maior do que
o Paranapanema

os gorgeios de cá
não são
como os gorgeios
de lá

Eu vou falando francês,
eles não falam
a língua de Cruzália,
não conhecem, sequer,
imaginem,
o dialeto de São Paulo.

— Ruy,
junho 2010

Um dia ele me disse que ia até onde eu estava para trocarmos impressões, na margem do Canal Saint Martin, região onde eu morava, citando que Montanha finalmente iria a Maomé, por eu ter passado um tempo sem ir até a BNF. Desde então eu o chamaria de Montanha, e assinaria Maomé em nossas correspondências. E ele assinava suas mensagens como Montanha, Berg, Gora, Mountain, etc. E cada e-mail era um poema repentino, uma montanha diferente que ia ensinando, e as assinaturas em Hai-kai’zinhos geográficos, como este:

Linha do horizonte em Paris, vista da borda do Rio Sena. Patricia Zandonade, 2010.

Do Everest (paranoico)
(o Stálin (!) dizia dele
mesmo que ele era um Himalaia!;
dele e do Bukharin, que ele liquidaria
logo depois…)

Até que veio o ocorrido em Charles Hebdo, e vendo que humor e religião pode ser perigoso, parei de assinar Maomé, paranoicos ambos, restou apenas Cher M.

Eu sabia que se marcasse o lugar e a hora, ele estaria vários minutos antes. Eu pedia para que chagasse depois de mim, que eu também tivesse o direito de esperá-lo. Nunca, nunca consegui. E também como forma de resolver conflitos em poesia, ele me alerta em mensagem:

Tentarei não chegar antes, mas trago
comigo dois mil anos de nervosismo
judeu, e tenho que chegar antes da hora
(“quitte” a perder o trem na… sexta-feira
santa).”

Para as conversas peripatéticas, além de nos acolher várias vezes às margens do Rio Sena, sempre à esquerda, tivemos também as baladas para o Parc Montsouris, para a Cité Universitaire. Para ir mais ao sul, o Parc de Sceaux. Porque com o frio chegando às margens do Sena, seu vento encanado gelando nossos ossos, a cartografia no frio toma derivações. Abandonamos ainda os piqueniques e adotamos o boteco tipo pub The Frog, para os finais de tarde pós BNF.

E ele estava naquele período animado com seu livro de poesias em finalização para ser publicado, e assim conheci, talvez, mais o Ruy poeta, que bebia vinho em nossos piqueniques, e tocava piano nos aperôs em sua casa. E nas suas escritas, recurso estético para a vida, resolvia na poesia o que não se resolveu no mundo.

Nos despedimos de meu séjour em Paris em uma festa no Alimentacion General, em meio a tanta juventude, Ruy talvez tinha 30 anos, dançando ao som de batuques e tomando conosco cerveja ruim.

Voltei para o Brasil, para São Paulo, continuamos a nos escrever, falar e encontrar nas suas idas ao Brasil. Agora, o principal lugar de encontro era na saída do Departamento de Filosofia da FFLCH, na USP. Ele topava meus convites de Rei das Batidas (talvez porque estivesse perto da casa em que ele sempre ficava hospedado), e feijoada no Bar da Ieda no Morro do Querosene. Mas também eu topava os dele para bares em Pinheiros. Infelizmente não existe piquenique em SP.

Fui ser docente em outro lugar do Brasil. Mas as provocações continuaram, sempre com as respostas-poesias-repentinas-faustianas de costume:

Eu:
Cher M.
Estou em Pelotas, e na Universidade vejo um cartazinho assim: Conferências Programadas de Filosofia estuda no dia x “Ruy Fausto e Karl Marx (…)”

Como é chic este amigo montanhoso, que vai até as fronteiras.
Beijos.

Ruy:
quem é esse ruy fausto?
é preciso ver. Pode ser provocação.
 . . . . .  Karl Marx

quem é esse Karl Marx?
é preciso ver. Pode ser provocação.
 . . . . .  Ruy Fausto

Em todo caso, você pode ir à conferência
e dizer que conhece um deles (não diga qual).
Beijo do Homem-Montanha
(antigo lutador de catch em São Paulo).

E na assinatura mais um ensinamento sobre montanhas.

O último encontro foi marcado em frente à Fondacion Cartier, em 2019, para vermos a exposição Geometries du Sud. Eu e Rudá, com 4 anos na ocasião, chegamos em frente à Fundação, ele já estava lá, 2 mil anos antes. Finalizando a exposição, Ruy ficou sentado muito tempo tentando entender a arquitetura do peruano Mamani. Ou entendendo e querendo saber mais.

Saímos e fomos na Rue Daguerre tomar um café com um amigo que eu não via há 6 anos. Enquanto Rudá se sujava com uma crepe de chocolate, me vi diante do absurdo que eu também não sabia: meu amigo tinha se tornado um ultraconservador, que atacava por exemplo a Fundação Cartier como destruidora da cultura francesa (!). E Ruy debatia com o jovem neorreaça, naquela cena surreal. Nem eu conseguia me conformar com tamanha guinada à direita, para uma pessoa tão jovem. Depois da saída de meu amigo (?), fomos caminhar sentido Sorbonne — ainda indignados com a experiência de um exemplar dos novos tempos — e nos acomodamos no Les Patios para comer e prolongar a noite antes de pegarmos cada um seu trem. Rudá lembra-se até hoje do tamanho da taça de sorvete que o tio Ruy lhe ofereceu.

Nos despedimos neste 2 de fevereiro de 2019, na entrada do metrô, eu e Rudá correndo para um lado, ele para outro. Entrou na estação Odeon, deixando pra trás Danton, e desceu as escadas correndo para conseguir pegar o último metrô da noite sentido Boulogne , “quitte” a perder o trem.

No final de março de 2020, depois dele me partilhar as impressões que ele e Arthur (sobre quem Ruy me falava tão naturalmente como se eu o conhecesse) tinham sobre o cenário atual da política no Brasil (“um pesadelo!”, dizia), ele mostrou sua apreensão decidindo se ficava no Brasil ou iria para a França, diante da pandemia que chegava no Brasil. Fiz opinião que ele fosse para a França, e esperasse quieto por lá.

Finalmente, soube de sua partida, em 1º de maio. Apesar da sua idade, achei que era imortal. Eu tenho a certeza que ele viu que estava indo e sentou no piano para tocar. Foi sua poesia repentina como assinatura. Paris não terá mais o mesmo mapa.