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Memórias

A filosofia, o piano e as ruas de Paris

Carlos Fausto e Ruy Fausto, em 1986.

A última vez que encontrei Ruy foi em Paris, em dezembro de 2019, durante a longa greve dos transportes públicos. A greve não impediu o nosso encontro, embora eu estivesse hospedado em Vincennes e ele vivesse em Boulogne-Billancourt. Ruy, para ser justo, sugeriu um ponto mediano: o restaurante Marianne no Marais. Apesar de ser quase trinta anos mais jovem, não questionei a sugestão; afinal, caminhar não era um problema para Ruy. Alguns dias antes de nosso encontro, ele me descrevera sua pequena aventura em se deslocar pela cidade com transporte precário:

Hoje consegui ir ao Quartier Latin, para pegar um livro americano que tinha encomendado ao Abbey Bookshop (rue de la Parcheminerie, 5eme). Consegui pegar o metro 9 no horário de funcionamento previsto para o período da manhã, mas o metrô só vai até F. Roosevelt. Lá desisti de pegar o metro 1, porque tinha gente demais. Fui a pé de Roosevelt ao Quartier Latin (1:10 hora, mais ou menos). Peguei o livro, almocei no QL. Esperei o horário de funcionamento do metro 9, previsto para a tarde. Andei 1:10 de volta até Roosevelt, e lá peguei o 9 até aqui. Isso só para contar a minha aventura parisiense. Provavelmente terei de repetir a operação, se almoçarmos no QL. A menos que no final da semana tenha menos gente no metro 1. Mas tudo bem. O exercício não foi excessivo e posso repeti-lo, se for preciso.

Ruy era um andarilho urbano. Andava muito, sempre agasalhado em excesso — para não correr o risco de um temível courant d’air —, carregando uma pasta de couro surrada, cheia de livros. Deslocava-se com incrível agilidade, mesmo após passar dos 80 anos. Por isso, era-me inimaginável que tão logo nos faltaria. Ruy continuava a funcionar a todo vapor, vivaz e loquaz, cheio de projetos e inquietações.

Eu chamava Ruy pelo nome — talvez porque tivéssemos uma relação pessoal para além do parentesco. Além de tio, ele era meu padrinho por opção. Explico: quando tinha 4 ou 5 anos, aprendi na escola que todos meus coleguinhas tinham padrinho e madrinha, categorias que eu desconhecia por completo. Ao chegar em casa, perguntei a minha mãe quem eram os meus padrinhos e ela me explicou que, por não ser batizado, eu não os tinha. A boa notícia, disse ela, era que eu podia escolhê-los. Escolhi Ruy, mas não sei dizer por quê. Logo depois, em 1969, ele partiu para o exílio no Chile. Reencontrei-o em Paris, na virada do ano de 1975, e só tornei a vê-lo no início dos anos 1980, quando ele retornou ao Brasil, após a anistia.

Ruy estava então finalizando o primeiro volume de Marx: Lógica e Política, que eu logo leria com grande esforço, tropeçando na escrita e nos conceitos. Já o volume 2, dedicado a mim, li ainda como manuscrito. Eu fazia o copidesque do texto e anotava pontos que me pareciam obscuros para discutirmos. E assim fui aprendendo Marx e Hegel de orelhada, ao mesmo tempo que introjetava um modo de pensar, uma certa forma lógica que me serviria mais à frente, quando estava escrevendo o meu doutorado. Ruy me ensinou a raciocinar por meio da dialética, cujo sentido ele tanto queria reconstituir. Creio que suas obras mais filosóficas têm esse efeito sobre os leitores: mesmo que você não o decida conscientemente, você começa a pensar com e como o autor, com os instrumentos que ele oferece em suas análises. Foi assim que meu pensar passou a ser habitado pela interversão, pelo duo posição e pressuposição, pelas zonas de sombra e significações obscuras, pelas diferentes modalidades, os possíveis-impossíveis e os possíveis-possíveis, a dialética da constituição, bem como seus limites e ultrapassagens.

Foi em minha tese de doutorado sobre os Parakanã, um pequeno povo de língua tupi-guarani do interflúvio Xingu-Tocantins, que mais utilizei esse instrumental. A apresentação da história parakanã que aparece na primeira parte da tese é claramente informada pela discussão crítica de Ruy sobre a apresentação marxista da história e a sucessão dos modos de produção. Na tese, procuro reconstruir a história parakanã desde o final do século XIX (quando ocorre uma cisão e se formam dois blocos distintos) até o final do século XX (quando esses blocos são reduzidos à administração estatal). Ao serem “contatados”, os blocos apresentavam formas sociopolíticas muito diferentes: os orientais possuíam metades, chefia e um espaço público masculino destacado do universo doméstico, enquanto os ocidentais não apresentavam nenhum desses elementos. Eu procurei mostrar, então, como entre os primeiros certas possibilidades estruturais haviam se tornado um possível-necessário, enquanto, entre os segundos, elas tinham se tornado um possível-impossível, conjurando o surgimento de uma separação entre espaços público e doméstico, bem como entre chefes e não-chefes.

Já na segunda parte da tese, que passava da apresentação da história às estruturas simbólicas, tomei como instrumento-chave o movimento de conversão (a dinâmica da interversão) e o Aufhebung para falar de relações cuja dinâmica implicava, ao mesmo tempo, negação e preservação do termo negado. Meu objeto primeiro era a guerra ameríndia, e, por isso, focalizei a relação entre matador e vítima, mostrando que havia um movimento negativo-positivo, no qual o matador ao aniquilar sua vítima era simultaneamente afetado por ela, tornando-se mais do que Si mesmo. Muitos povos ameríndios descrevem como, após o homicídio, trava-se uma luta de perspectiva entre o matador e sua vítima, que, quando bem-sucedida, leva a uma conversão: de uma relação de inimizade (afinidade simétrica) passa-se a uma relação de filiação adotiva (consanguinidade assimétrica). Foi esse movimento que denominei “predação familiarizante” e, de maneira geral, dialética mestre-xerimbabo, inserindo minha análise no campo da “luta pelo reconhecimento”, cuja versão ameríndia eu pretendia comparar com a dialética senhor-escravo de Hegel. 1

Essa minha opção, digamos, avuncular pela dialética afastou-me, por muitos anos, do pós-estruturalismo francês, em particular de Deleuze, que tanto sucesso fez (e faz) entre os antropólogos contemporâneos (e cujo principal e mais brilhante arauto talvez seja o meu ex-orientador). Daí a maneira tímida e parcimoniosa com que, ainda hoje, utilizo termos como devir, virtual, desterritorialização, rizoma, linha de fuga, entre muitos outros. Continuo a ler e reler Deleuze a fim de entendê-lo o suficiente para, quem sabe um dia, deixar-me influenciar mais decisivamente por ele (ou não).

É provável que Ruy tenha sido em parte responsável por eu não embarcar de cabeça no pós-estruturalismo francês. Até o final da vida, Ruy manteve sua desconfiança com relação aos filhos parisienses de Nietzsche. Sempre que eu fazia uma observação positiva sobre Foucault ou Deleuze, ele tinha algo negativo a dizer. Afinal, ele sempre preferira os autores da Escola de Frankfurt, em especial Adorno, sobre quem, aliás, pretendia escrever um livro antes de morrer. No meu entender, Ruy considerava a crítica de inspiração nietzschiana ao Aufklärung parcial e regressiva. Parcial, por ser inteiramente negativa, enquanto a leitura de Adorno e Horkheimer seria, ao mesmo tempo, negativa e positiva, apontando para uma superação do Aufklärung que preservasse suas conquistas, em particular, a da boa causa da liberdade. Regressiva, pois teria levado a tomadas de posição políticas equívocas, que lhe pareciam flertar com à violência e certo messianismo. Nietzsche nunca lhe apareceu como um radical libertário. Suas marteladas filosóficas teriam, ao contrário, aberto o espaço onde o ovo da serpente se aninhara. O perspectivismo de Nietzsche não apenas incomodava Ruy por solapar qualquer verdade possível, mesmo que provisória, como também por aniquilar a possibilidade de uma ética capaz de identificar o mal absoluto, que lhe parecia realizar-se historicamente nos regimes totalitários.

Creio ser possível dizer que o imaginário de Ruy formou-se em torno de dois eventos históricos decisivos na história do século XX: a Revolução Russa e a Segunda Guerra Mundial. Essas eram as duas grandes balizas históricas que informavam o seu pensamento. E em ambos os casos, o inimigo a ser combatido era o totalitarismo — de direita e de esquerda. A causa da liberdade era sua paixão — não a da liberdade formal que, como ele argumentava, intervertia-se em seu contrário, mas a liberdade substantiva a ser construída na prática cotidiana.

Sempre achei notável como Ruy procurava adotar um estilo de vida compatível com suas opções teóricas, traduzindo em atos sua preocupação em ser justo, em não aceitar a desigualdade, em defender a liberdade. Com o surgimento de novas pautas, sobretudo de gênero e ambiental, Ruy buscou incorporá-las às suas reflexões. Não lhe era fácil, nem automático; ele sempre me dizia que pretendia dar mais ênfase a esses aspectos em algum escrito posterior. Mas não eram temas que mobilizavam a sua paixão — paixão necessária para que, de maneira frenética, ele se pusesse a ler tudo sobre um determinado assunto antes de escrever sobre ele. Lembro-me, certa feita, de chegar ao seu pequeno apartamento em Boulogne e encontrar montes de livros sobre o islamismo espalhados pelo chão. Ele preparava, então, uma matéria para a Piauí sobre o atentado ao Charlie Hebdo e resolvera conhecer bem as suas várias implicações.

Outro motor que o movia eram as polêmicas. Ruy era um sujeito extremamente afável, sempre de bom humor, contador incessante de histórias (muitas delas recontadas à exaustão), mas gostava também de se meter em polêmica. Nesse caso, quase mudava de personalidade e podia ser extremamente duro em seus escritos. O contraste era curioso e levei anos para entender que aquilo lhe servia como estímulo para escrever. Um dia, ele me disse que escreveria uma resposta definitiva a um texto de um amigo, e eu lhe disse: “pronto, lá vai você brigar de novo com um amigo por escrito. À quoi bon?” E ele me disse como um sorriso maroto entre os lábios: “eu preciso que me pisem no pé para escrever”.

Nos últimos anos, o pisão no pé veio da política brasileira. Ruy compreendeu imediatamente que o impeachment de Dilma levaria a uma ascensão da ultradireita. Lá por 2017, ele já me dizia que era preciso ter muito cuidado com certo personagem e com a crescente fascistização da vida nacional. Eu rebatia dizendo-lhe que exagerava, que o personagem jamais ultrapassaria 15% dos votos, pois era radical demais até para o Brasil. Sua angústia parecia-me, então, uma distorção de quem via o Brasil a partir da França. Mas quem estava míope — e muito míope — era eu. Ruy anteviu a catástrofe. Mesmo sendo antropólogo, eu não percebi que son regard eloigné permitia-lhe ver a floresta melhor do que eu. Ademais, se seu olhar era distanciado, era também extremamente informado. Depois de sua morte, vim a saber que ele assinava quatro jornais e uma revista brasileiros. Como ele costumava dizer a meu pai: “não é possível que ler tantos jornais por mais de 70 anos não nos tenha ensinado algo”.

Os seus últimos escritos, bem como a fundação de Rosa, foram suas respostas ao pisão no pé que recebemos da ultradireita. A revista era tão importante para ele que ele veio a São Paulo para seu lançamento. A pandemia o alcançou em um pequeno quarto de um apart-hotel na capital paulista. Ele ali permaneceu confinado por alguns dias. Eu acabara de voltar dos Estados Unidos e nos falávamos diariamente. Como sempre ele fazia piada de sua situação, contava sua incursão até uma farmácia onde, na fila, tinha um jovem que tossia. Decidido a não se expor, passava os dias escrevendo. Lamentava estar sem seus livros, o que eu resolvi enviando-lhe cópias digitais. Para se ter uma ideia do que ele lia, eis alguns títulos que lhe mandei: Y. Mounk, The People vs Democracy; W. Brown, Authoritarianism; S. Levitsky e D. Ziblatt, Como as democracias morrem. Como se nota, ele se via mais uma vez na posição de defender a democracia, não mais de setores da esquerda que não a têm como ingrediente necessário para cozinhar-se uma sociedade igualitária e livre, mas sim do autoritarismo de direita.

Luísa, sua filha, conseguiu enfim uma passagem para trazer Ruy de volta a Paris. O único vôo disponível era da KLM, via Amsterdam. Mas valia a pena. Viajou pela primeira vez em business class, para diminuir os riscos de contágio. Eu aguardava ansiosamente a sua chegada em casa, escrevendo mensagens para Luísa. Só me tranquilizei quando soube que ele tinha chegado bem. Um pouco depois, recebi mais uma de suas divertidas mensagens:

As coisas estão mesmo sinistras, mas eu viajei e cheguei bem. Começo pelo final, o pior. Pouquíssima coisa para comer, e o delivery da Lu só chega amanhã. Fui catando o que achava. 1 lata de atum. Arroz de 1980. Depois achei um de 2019. Macarrão, fui verificar a data, caiu um quarto do conteúdo, que estava numa prateleira alta… A data era boa, mas com a verificação disso, perdi quase tudo… Exagero, salvei 3/4. Finalmente, aceitei a oferta da Camila. Da França, ela conseguiu me mandar uma pizza com muzzarela, ovo, presunto e cogumelo (fraquinha, apesar de tudo), mais uma terracota e uma cerveja italiana. Chegou tudo em meia-hora. Completei com o arroz de 2019. Estava preocupado, porque não tinha comido quase nada hoje. (Não vá dizer como a Beth que dou detalhes que não interessam. Como dizia o Hyppolite, “la philosophie s’intéresse à tout”).

E agora a viagem. Me senti como o bourgeois gentilhomme, o novo rico. No começo, realmente tinha a impressão de que o meu lugar não era lá. Outra classe. A viagem estava adaptada às circunstâncias. Só uma refeição. E bem média. Mas deixaram salgados e biscoitos doces à nossa disposição. De manhã, teve café com leite e um pão com manteiga ou queijo. Bom, mas com tudo isso, a business class é simplesmente formidável. Dá para dormir. E perco completamente o medo. Acho que tenho comigo a ideia de que o acidente não mata os ricos. Viajar de classe executiva é meio fazer miniférias em hotel de luxo.

Os holandeses, muito estritos, desinfetando tudo. Examinaram a bagagem, e estávamos só de passagem. Isto por razões gerais, não sanitárias. Mas aproveitaram para incorporar também esse lado. A correspondência holandesa era em geral complicada, mas tudo deu certo. O segundo avião não tinha business class. Mas me deram a primeira fileira, quase ninguém em volta. E só eu ganhei um farnel, com sanduichinho e água mineral…

Bom, como você vê, e como mostra o Jean Améry (pseudônimo de um alemão em um livro formidável sobre sua experiência em Auschwitz e com a Gestapo) quando aparecem as dificuldades, pensamos só na sobrevivência. Por isso essa mensagem é puramente gastronômica. Mas a palavra é pesada demais. O problema é o do risco de morrer de fome. No meu caso, muito aproximadamente. Mas é um pouco assim: quer comer? Saia, e aceite o risco de morrer de gripe… Bom, problema por hora resolvido, graças à Lu e às amigas.

Fora isso, ainda não fiz nada… Vou ler os jornais agora.

Abraço do starvation uncle

Alguns dias depois, trocamos novas mensagens. Ruy continuava entusiasmado, nada abatido pelo confinamento (que levava muito a sério):

Acabei de ter uma reunião da revista. Pouco a pouco vou entrando nos eixos. Chegou um grande delivery na sexta-feira, e a Lu já está encomendando um outro. A Camila me pediu refeição duas vezes. Comi bem.

Estou relendo o Munk, tocando piano, e vendo TV. Mas quero ver se deslancho mais. Vamos ver se dá para trabalhar bastante. A verdade é que, sem obsessão, o tempo necessário para assegurar a sobrevivência não é pequeno. Eu digo tb (só que sou muito mais jovem do que você) é preciso escrever livros. Avant de crever, gostaria de escrever dois bons.

Mas, meno male, estamos protegidos. Pelo menos relativamente à massa da população. As perspectivas no Brasil, sem catastrofismo, me parecem assustadoras. Não bobeie, tome todo o cuidado.

Abração do iunkle

Não houve tempo para terminar tudo o que ele queria fazer “avant de crever”. Mas como me escreveu Ann Fausto-Sterling, minha tia da América, morrer cheio de projetos para o futuro, “talvez seja a melhor marca de uma boa vida, na qual nunca se terminarão todos os projetos possíveis, em que novos projetos estarão por aí e cada um de nós passará com as coisas ainda inacabadas”.

Gosto de imaginar Ruy sentando ao piano, retesando os músculos das mãos, levantando o queixo para cima e, com os olhos semicerrados, começar a tocar “When the saints go marching in” para si mesmo.