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Apresentação de Rosa

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto

— Carlos Drummond de Andrade,
A Flor e a Náusea

A revista Rosa se apresenta ao público brasileiro num momento muito difícil do país.

Cinquenta e sete milhões de brasileiros votaram em um candidato que, em sua campanha, marcada por atos ilegais no plano do marketing eleitoral e do financiamento, defendeu abertamente a tortura, pregou a liquidação das esquerdas e fez praça de declarações homofóbicas, misóginas e racistas. Vitorioso, o personagem ocupa a presidência do país desde o início de 2019. Seu governo tem sido uma antologia do horror: tentativas de desmoralização dos outros poderes da República; atentados contra as populações indígenas; destruição desenfreada do meio-ambiente; desmonte dos bens do Estado brasileiro; ruína da soberania nacional; tentativas descaradas de nepotismo; cumplicidade com a corrupção e com o banditismo oficial das milícias; subserviência mortal a um guru cultor de um esoterismo fanático e antidemocrático; política de costumes arquirreacionária levada adiante por representantes de uma religiosidade farisaica; contatos estreitos com forças internacionais de extrema-direita.

Em 2018, quando programavam a revista, seus organizadores já não tinham a perspectiva de lançá-la sob um clima favorável; era de prever uma atmosfera tensa e adversa, em que a direita, e não a esquerda, comandava o jogo político. Porém, a eleição de Bolsonaro veio agravar muito as circunstâncias. Na nova conjuntura, o combate se tornou urgente.


Alardeada como alternativa ao Estado de bem-estar social, a política econômica neoliberal resultou na explosão da desigualdade nos países desenvolvidos desde meados da década de 1970. Nesse contexto, a retração dos serviços públicos ao lado de uma contínua precarização das relações de trabalho gerou uma legião de descontentes, prontos a abraçar a retórica antiestablishment. As soluções colocadas em prática contra o cataclisma financeiro de 2008 — em cuja eclosão o neoliberalismo tem pesada responsabilidade — foram profundamente insatisfatórias: a transformação de ativos podres em dívida pública, poupando os ricos de arcarem com os custos da crise, ampliaram ainda mais o sofrimento social e a indignação coletiva com o sistema.

Nesse pano de fundo, o quadro brasileiro é mais complexo: poucos anos depois de ter passado quase incólume pela fase aguda da crise, a economia brasileira demonstrou sua fragilidade estrutural — muito reforçada por escolhas governamentais equivocadas — e sucumbiu. As forças liberadas pelas manifestações de junho de 2013 foram sequestradas pela direita, que sacramentou como bandeira política a luta contra o governo petista por meio do combate à corrupção. Na onda da Lava-Jato, dos protestos e das intrigas palacianas, derrubou-se uma presidente e prendeu-se o principal líder de seu partido. Apoiada pela classe média e pela mídia, uma força-tarefa articulada por procuradores e juízes se incumbiu de realizar — por meio de meios escusos e inúmeras ilegalidades — uma devassa no estamento político tradicional, o que, quaisquer que fossem seus pecados, abriu caminho para uma regressão sem precedentes. Em suma, um processo golpista-eleitoral pavimentou o caminho para o pior.

Diante da ofensiva da extrema-direita, a esquerda se revelou mal preparada. Não que a resistência ao bolsonarismo tenha sido nula. Ela foi considerável tanto no plano das mobilizações populares, quanto no da prática jornalística e na atividade parlamentar. Mas sua atuação foi dispersa e seria difícil dizer que ela tivesse muita clareza sobre os seus objetivos a curto e a médio prazo.

Paga-se o preço das vicissitudes por que passaram a prática e o pensamento da esquerda nos últimos cem anos. Em primeiro lugar, a deriva totalitária que a atingiu, no plano mundial, abriu uma ferida que demora a fechar, se é que se fecha. Apesar da queda do Muro de Berlim, a sombra de um poder totalitário — senão stalinista, pelo menos leninista — erigido em nome da esquerda continua presente. Em termos concretos, regimes totalitários como os da Coreia do Norte e até o da China, ou pós-totalitários, como o de Cuba, ainda gozam da simpatia de alguns grupos de esquerda. Infelizmente, a sedução do autoritarismo não é uma tendência exclusiva da direita.

Fonte de confusão para muitos progressistas, em particular nos países periféricos, esta sombra é ao mesmo tempo um trunfo formidável nas mãos da direita, e, mais ainda, da extrema-direita. A liquidação definitiva desse fantasma continua sendo uma tarefa urgente. Com o mesmo vigor com que se criticam as contradições das democracias capitalistas, impõe-se repudiar com veemência os regimes burocráticos e totalitários que reivindicam a tradição da esquerda.

As ilusões que ainda persistem em relação ao totalitarismo andam de mãos dadas com a cumplicidade com regimes populistas e autoritários ditos progressistas, como o da Venezuela. Em geral, essas experiências combinam traços do autoritarismo burocrático com o velho vício patrimonialista, entendido como o laxismo no trato da coisa pública. Sabe-se bem a que isso tudo conduz.

O pseudorrepúdio à corrupção por parte da extrema-direita levou a um voto suicida, cujas consequências estamos amargando. Contudo, se o grito da direita e da extrema-direita era evidentemente demagógico e apoiado num conchavo montado por setores do judiciário, o fenômeno da promiscuidade entre parte do poder econômico e os governos de esquerda que presidiram os destinos do país durante mais de uma década era real.

O partido hegemônico da esquerda, lamentavelmente, cedeu à tese de que a corrupção seria necessária para garantir base parlamentar e avançar com as reformas. Deixando-se levar pouco a pouco pela inércia, ele selou a opção por certo tipo de patrimonialismo populista e enveredou pelo caminho tradicional do poder público no Brasil. Em nome do avanço imediato, perpetuou-se o atraso.

A famosa autocrítica do partido hegemônico não veio, e provavelmente não virá. Obter a libertação de um ex-presidente condenado em processo inteiramente irregular, como o revelam os materiais publicados pelo Intercept, foi a reivindicação de nós todos, mas não pode representar por si só uma política. Nem mesmo o centro de uma política. E quanto ao futuro, não nos prometem nada melhor do que prolongar os mandatos dos atuais dirigentes do partido, e acenar com a volta ao poder de antigos líderes. É preciso mobilizar novas forças.

Não se trata de bloquear o diálogo com quem quer seja — um partido não é um bloco monolítico, e tampouco as bases e os simpatizantes compartilham da posição dos dirigentes. Não se pode, entretanto, sob qualquer pretexto, afastar a crítica livre, contundente e construtiva.

Embora ao desandar, o PT não tenha deixado de levar adiante um programa a sua maneira reformista, aquela deriva constituiu um erro maior, agravado pelo fato de que nunca foi reconhecido. O método de varrer a poeira para baixo do tapete não enganou ninguém. E não só a reação se aproveitou disso, mas o partido perdeu muito da sua base, o que o enfraqueceu na hora decisiva em que teve de enfrentar a ofensiva da direita e da extrema-direita. Apesar de cientes de todo o jogo sujo de uma e de outra, rechaçamos a interpretação de que o PT seja apenas uma vítima passiva em todo o processo que se desenrolou nos últimos anos. Não se pode fechar os olhos para as carências desse partido e para a forma como elas potencializaram a situação a que chegamos.

Aproveitando-se desse equívoco, a direita conseguiu levar adiante sua ofensiva golpista-eleitoral. Discute-se: o atual governo é fascista? A ele faltam importantes elementos do fascismo clássico, como a mobilização extensiva e intensiva de todo o povo, os grupos paramilitares, as organizações uniformizadas das massas, os rituais de fidelização ao líder e de sacralização de estandartes. Mas ele é da mesma galáxia dos fascismos, a galáxia das revoluções conservadoras, reacionárias e obscurantistas. E o que é essencial: essa dose de autoritarismo já é suficiente para destruir a democracia no Brasil.

Não se pode deixar passar sem crítica a posição dos liberais brasileiros, mesmo os mais sérios. Com poucas exceções, eles não parecem muito preocupados com o teor nitidamente autoritário do novo poder. Cegueira teórica ou simpatia oculta? Estranhos liberais, mas os seus ícones já o eram. Sem fazer juízos sumários sobre suas convicções profundas, é bom não esquecer que alguém como Hayek deixou claro em seus escritos e em suas atitudes que não tinha maiores problemas com poderes antidemocráticos. Do mesmo modo, se Paulo Guedes realiza nosso programa, ou parte dele, por que afinal se preocupar tanto com o resto?


Rosa pretende contribuir para que a opinião de esquerda avance na compreensão desses problemas. Nossa revista não é certamente uma voz isolada, nem se pretende dona da verdade. No panorama atual, há, de um lado, publicações de qualidade que não assumem, entretanto, uma posição política bem definida; e, de outro, revistas e blogs de esquerda que não são críticos. Rosa se apresenta como uma publicação de esquerda independente e crítica, com convicções democráticas. O ideal dela é a unidade entre a tomada de posição política e o rigor teórico.

Que a revista seja de esquerda não implica que venha a ser menos objetiva. Bem entendida e bem praticada, a crítica é superior em termos de objetividade ao discurso que se diz neutro. A razão disso é simples: só a crítica pode revelar aquilo que o discurso acrítico considera escandaloso demais para ser revelado. Não se pretendendo neutra, nossa revista será mais objetiva do que se o pretendesse.

Se Rosa assume as posições que defende, nada é mais estranho ao grupo que decidiu editá-la do que a ortodoxia e o sectarismo. Além de não nos ocuparmos apenas de política — desde o seu primeiro número irão a público matérias literárias e de arte que travam um diálogo aberto com diferentes práticas artísticas, correntes de experimentação e epistemologias —, não nos furtaremos nem à discussão, nem à publicação de textos que não correspondam à opinião da maioria da comissão editorial. Embora o problema venha em grande parte da violência extrema do discurso e das ações da extrema-direita, é salutar qualquer esforço para frear o clima de ódio e de intolerância que domina as discussões públicas no Brasil.

Um ponto a não ser esquecido é a questão da teoria. A ofensiva neoautoritária a que assistimos se empenha, entre outras coisas, numa batalha contra a razão. No estilo da tradição extremista de direita, ela revela um formidável ranço anti-intelectual.  Mais do que isso. Os atos praticados ou tentados por esse governo visam a atacar o pensamento crítico em geral e, mais precisamente, as instituições nas quais se produz conhecimento. O ideal desses eleitos seria esvaziar as nossas universidades dos seus professores, e colocar no lugar deles uma chusma de charlatães, fanáticos, e, no melhor dos casos, pedantes mal instruídos. Sob pretextos variados, trata-se de privar as universidades das dotações necessárias ao seu funcionamento. Infelizmente, essa política de desmonte tem tido certo êxito.

Traço característico dos novos governantes, essa tendência anti-intelectualista sempre foi determinante nos movimentos de extrema-direita, e no presente caso ela vem agravada pelo ressentimento. Rosa assume o papel de defensora da cultura, da teoria, e da razão. É preciso lutar contra a onda neo-obscurantista que se alastrou pelo país, com consequências políticas deletérias. Contra a barbárie, a teoria. A teoria se justifica por si mesma, sem dúvida, mas nas atuais condições brasileiras, ela é imprescindível.


A postura assumida por Rosa não é fruto de nenhum capricho intelectual. É o futuro da esquerda, da democracia e do país que está em questão. Vai ficando cada vez mais claro, e não só no Brasil, que o rolo compressor da extrema-direita mundial só poderá ser bloqueado se a esquerda for capaz de operar uma verdadeira guinada na sua política, virada que, até aqui, não se anunciou.

Entretanto, se o campo progressista reluta em enfrentar suas contradições, há que registrar a presença, no mundo, de elementos que permitem descartar o derrotismo. A direita mundial continua na ofensiva, mas não são poucos os lugares em que há manifesta a resistência. No período recente, registraram-se importantes mobilizações democráticas na Argélia, no Oriente Médio, na Rússia, em Hong-Kong, no Chile, no Equador e na Colômbia. Nos EUA, a radicalização da opinião pública no sentido de um projeto social-democrata é uma realidade nova. Na Europa, a esquerda mostra sua força atual ou potencial em países como França, Portugal, Espanha, e na Escandinávia. Para além da esquerda partidária, deve-se lembrar da força dos movimentos sociais, seja no registro dos trabalhadores e sindicatos, seja em registros da luta feminista, da bandeira LGBT ou das mobilizações antirracistas. Em suma, se a direita ataca, a esquerda não está de forma alguma esmagada.


Estas são as nossas convicções, este é o nosso projeto; esperamos contar com o apoio do público de esquerda, com leitores de diversas correntes políticas e com a simpatia e adesão de todas as forças democráticas do país. A revista Rosa não tem ilusões quanto aos limites de suas forças, como as de qualquer publicação. Mas há que utilizá-las e não se refugiar numa cômoda posição niilista. A equipe que lança esta revista escolheu como título um nome que evoca o que houve de melhor na história da esquerda em termos da reunião difícil entre uma crítica intransigente do capitalismo e uma exigência democrática sem concessões. O nome Rosa exprime também um voto em favor das “primaveras dos povos“, primaveras que não foram raras na história dos séculos passados e mesmo do atual, mas que, infelizmente, tiveram um curso efêmero. Não existe, porém, pesadelo que não chegue ao fim. Há que apressar esse desfecho, encurtar a noite deste muito sombrio inverno.