1

A contradição de Trotsky1

“Vamos dar as mãos e proteger os comitês do partido. Nem por um instante devemos nos esquecer que somente os comitês do partido podem nos dirigir como convém, que somente eles podem iluminar o caminho da terra prometida.”

É nesses termos, que hoje são familiares a todos, que, em 1905, Stálin se dirigia aos operários russos, na ocasião de sua primeira revolução. No mesmo dia, sem dúvida, nota Trotsky, Lênin enviava de Genova seu apelo às massas: “Deem livre curso ao ódio e à cólera que os séculos de exploração, de sofrimentos e de desgraça acumularam em vossos corações!”.2

Nada poderia caracterizar melhor esses dois homens, e os opor um ao outro, do que essas duas frases, uma de um revolucionário para quem as massas oprimidas são a força essencial da história, a outra de um militante, já “burocrata”, para quem o aparelho conhece e faz sozinho o futuro. Para nós que sabemos o curso que desde então tomaram os acontecimentos, essa oposição psicológica toma um sentido absoluto, pois ela se inscreve em uma oposição mais ampla, de caráter histórico.

Na longa obra que consagrou a Stálin, a intenção de Trotsky foi desvendar o caráter de seu personagem e também seu comportamento antes da chegada ao poder, mostrando como eles foram de alguma forma legalizados pela história ao declínio da revolução, com a formação de uma nova camada social, a burocracia. Trotsky empregou para sua demonstração os métodos clássicos do historiador, ele confrontou os textos, explorou os anais do bolchevismo, relatou os testemunhos, interpretou as datas, colocando em paralelo os documentos anteriores a 1923 e os panegíricos de encomenda posteriores ao advento da burocracia.3 Stálin apareceu no primeiro período de sua atividade política como um militante “provinciano”, intelectualmente medíocre e politicamente pouca capaz. Na Geórgia, ele jamais conseguiu agrupar na social-democracia uma fração bolchevique diante dos menchequives; ele assiste ao primeiro congresso dos bolcheviques apenas como observador, não tendo jamais reunido o número de votos suficiente para se fazer representante. No Congresso de Londres, o mandato do qual ele se aproveita é fraudulento e ele se vê destituído do direito de voto. Ele só entra no comitê central bolchevique por cooptação, quer dizer, sem ter sido eleito pelos militantes do partido. Na ausência de Lênin, o levante de fevereiro de 1917 lhe dá bruscamente um poder excepcional, usado da pior maneira possível: ele apoia o governo provisório, a guerra revolucionária e, no fim das contas, a revolução em duas etapas. Ele é um desses conciliadores oportunistas que os operários do partido querem excluir4 e que Lênin colocará de volta em seus lugares quando ele lança as famosas teses de abril e rearma o partido, alinhando-o na perspectiva da tomada do poder. Esses poucos dados permitem esboçar o retrato de um personagem sem grande destaque, de um “funcionário”, como diz Trotsky, exprimindo assim o que há de tacanho em seu trabalho, sua pobreza como teórico, sua propensão à rotina. A intenção do autor é evidente: trata-se de mostrar que as “qualidades” que permitiram a Stálin se tornar um homem da burocracia são as mesmas que o impediram de ser uma figura revolucionária.

A demonstração é bastante clara e suficientemente fundamentada. Mas precisamente por conta disso é surpreendente que um escritor político do valor de Trotsky tenha acreditado ser preciso consagrar um grande volume, e se entregar a um trabalho que, com frequência enquadra-se numa história anedótica e quase policial, para provar que, durante todo o período pré-revolucionário e revolucionário, Stálin foi um homem obscuro, e que é justamente isso que o permitiu ser, em 1924, um “ditador pronto”. A vida de Stálin não era desconhecida do público. Boris Souvarine tinha publicado em 1935 um Stálin5 substancial, em relação ao qual Trotsky não traz nenhum elemento verdadeiramente novo e que ele curiosamente finge ignorar. Admitindo-se que era um dever esclarecer a vanguarda revolucionária sobre a formação e a evolução do atual ditador da Rússia, esse dever já havia sido cumprido. Souvarine não se contentou, como o faz Trotsky ao longo de mais de trezentas páginas, em descrever o comportamento de Stálin, ele habilmente integrou esse estudo àquele mais vasto e mais interessante a respeito do partido bolchevique. A obstinação com a qual Trotsky sublinhou a mediocridade de seu “herói”, e o caráter subalterno das funções que ele ocupa no aparelho revolucionário, foi, bem entendido, compreendida como o signo de um ressentimento pessoal e de uma vontade de autojustificação. Trotsky havia proposto uma comparação entre seu destino e aquele de Stálin antes da Revolução. Ele queria ressaltar toda distância que o separava desse obscuro funcionário do bolchevismo. Basta conhecer o temperamento de Trotsky para se persuadir que essas preocupações lhe eram estranhas e que uma tal interpretação é artificial. É mais sério falar de autojustificação dando a esse termo um sentido político. Trotsky, diríamos, por exemplo, quis mostrar que ele não foi desalojado do poder por falta de inteligência política, mas pela onipotência de fatores objetivos. E essa potência dos fatores objetivos seria provada precisamente pela mediocridade do novo chefe. O fim da Introdução torna tentadora essa interpretação. “Ele (Stálin) toma o poder, escreve Trotsky, não graças a qualidades pessoais, mas se servindo de uma máquina impessoal. E não foi ele quem criou a máquina, mas a máquina que o criou; com sua potência e sua autoridade, ela era o produto da longa e heroica luta do partido bolchevique, que era ele mesmo o produto de ideias; ela era a portadora de ideias antes de se tornar um fim em si. Stálin a liderou a partir do dia em que ele cortou o cordão umbilical que a ligava à ideia e ela se tornou uma coisa por si mesma. Lênin a criou em uma constante associação com as massas, senão pela palavra, ao menos pela escrita, senão diretamente, ao menos pela ajuda de seus discípulos. Stálin limitou-se a se apoderar dela”.6 É o que Trotsky já expressava, de uma forma diferente, em Minha vida, quando ele escrevia: “O fato de ele exercer o papel principal é característico, não tanto por ele quanto pelo período transitório de mudança política. Já Helvétius dizia: ‘Toda época tem seus grandes homens e quando ela não os têm, ela os inventa’. O stalinismo é antes de tudo o trabalho automático de um aparelho sem personalidade no declínio da revolução”.7

Contudo, também não pensamos que essa interpretação seja plenamente satisfatória; o estudo de Trotsky sobre Stálin não nos parece tanto uma tentativa consciente de autojustificação. Ela nos parece ter sobretudo o valor de um substituto. Abrindo Stálin, não duvidamos que Trotsky tenha escrito sob esse título um novo estudo da URSS, que ele tenha retomado todo o problema do stalinismo e que ele tenha procurado dar-lhe uma caracterização econômica e social; tal era sua preocupação, como nós sabemos pelos últimos artigos que conhecemos dele. É o que se esperava dele. Ora, esse Stálin, essa obra com dimensões imponentes, que laboriosamente segue passo a passo o mestre do Kremlin, então anônim, para nos mostrar que ele não soube dirigir tal greve, ou que na deportação ele convivia com os prisioneiros comuns e era desprezado pelos políticos — essa obra, que se quer capital, se limita a demolir uma lenda na qual as pessoas sérias já não creem mais. Ela tem, para nós, o aspecto de um ato perdido. Trotsky tagarela sem necessidade sobre Stálin porque ele queria e não pode definir o stalinismo. Nada pode nos confirmar mais essa ideia do que a segunda parte do livro, voluntariamente limitada,8 inconsistente, e que trata por alusão dos eventos de primeira importância: é que ela aborda precisamente o período de cristalização e de triunfo da burocracia, ou seja, não mais de Stálin, mas do stalinismo. Trotsky não podia, entretanto, fingir que ele havia esgotado o assunto nos dois ou três capítulos que ele lhe consagrou, respectivamente em A revolução traída e em Minha vida.

É sobre esse período de formação do stalinismo que nós gostaríamos de voltar, partindo de afirmações esparsas que encontramos na última obra de Trotsky. Por suas insuficiências, por suas contradições, por seus silêncios também, ela clama por uma crítica que coloque Trotsky em seu lugar de ator em uma situação a qual ele quer muito facilmente dominar quando escreve seu livro.


À leitura de Stálin, como já à de Revolução Traída ou de Minha Vida, acreditaríamos que a atitude de Trotsky e da Oposição de Esquerda, no período 23–27, foi de um perfeito rigor. Tudo se passa como se Trotsky, “portador” da consciência revolucionária, tivesse sido expulso pelo curso inexorável das coisas que então se desenvolveram no sentido da reação. Muitos são aqueles que, tomando partido contra Trotsky, e de certa maneira a favor de Stálin, apenas reprovam a Trotsky de não ter sido suficientemente realista, de não ter sabido “adaptar” a política da Rússia revolucionária às circunstâncias difíceis de um mundo capitalista em vias de reconsolidação. Eles não contestam que Trotsky tenha então adotado uma atitude claramente revolucionária, mas é justamente essa atitude que eles denunciam como abstrata. De toda forma, não se costuma negar que havia uma estratégia coerente da Oposição de Esquerda, quer ela fosse justificada no plano da moral revolucionária ou fosse considerada como inoportuna. O próprio Trotsky acreditou amplamente nessa opinião. Nessas obras, ele fala desse período com uma perfeita serenidade, repetindo que agiu como deveria na situação dada e objetiva. A História, é o que ele diz essencialmente, passava por um novo caminho. Ninguém poderia ficar no caminho do refluxo da revolução. Assim, recordando os eventos do ano decisivo, 1927, ele escreve em Minha vida: “Nós estávamos indo para uma derrota imediata, preparando com segurança nossa vitória ideológica em um futuro distante… Pode-se pelas armas deter por certo tempo o desenvolvimento das tendências históricas progressistas. É impossível cortar de uma vez por todas a rota para as ideias progressistas. Por isso que, quando se trata de grandes princípios, o revolucionário só pode ter uma regra: “Faça o que for preciso, venha o que vier”.9 Seria certamente admirável, quando se está na ação histórica, manter uma tal lucidez, e operar essa ultrapassagem da história cotidiana, que dá a percepção do permanente no coração do presente imediato. Mas a questão é saber se a atuação de Trotsky foi tão lúcida quanto sua escrita. Pois uma coisa é julgar seu próprio comportamento passado, voltar-se para um período relativamente fechado em que tudo convida a dar um sentido único e absoluto às ações diversas e outra é agir em uma situação equívoca que se abre em um futuro indeterminado.

Em seu Stálin, Trotsky define novamente os princípios da Oposição de Esquerda na luta antistalinista.

De tempos em tempos, numerosos críticos, publicitários, correspondentes, biógrafos e alguns historiadores, sociólogos amadores, deram sermão à Oposição de Esquerda a propósito de seus erros táticos, afirmando que sua estratégia não correspondia às exigências da luta pelo poder. Mas a própria maneira de colocar a questão é incorreta. A Oposição de Esquerda não podia tomar o poder e nem mesmo esperava por isso — em todo caso, não seus líderes mais ponderados. Uma luta pelo poder levada pela Oposição de Esquerda, por uma organização marxista revolucionária, só pode ser concebida em condições de um levante revolucionário. Em tais condições a estratégia é baseada na agressão, no apelo direto às massas, em um ataque de frente contra o governo. Numerosos foram os membros da Oposição de Esquerda que, tendo exercido um papel importante em uma batalha dessa natureza, sabiam de primeira mão como ela deveria ser levada. Mas no começo dos anos 1920, não havia levante revolucionário na Rússia, pelo contrário; em tais circunstâncias, o início de uma luta pelo poder estava fora de questão.

É preciso se recordar que nos anos da reação, em 1908-1911 e mais tarde, o partido bolchevique se recusou a desencadear um ataque direto contra a monarquia e se limitou ao trabalho preparatório para uma ofensiva eventual, lutando pela manutenção das tradições revolucionárias e pela preservação de certos quadros, submetendo os acontecimentos a uma infatigável análise e utilizando todas as possibilidades legais e semilegais para educar os trabalhadores mais conscientes. Colocada em condições idênticas, a Oposição de Esquerda não poderia agir de outra forma. Na verdade, as condições da reação soviética eram infinitamente mais difíceis para a oposição que as condições czaristas o eram para os bolcheviques…”10

Podemos primeiro notar que essa interpretação do ano 27 está em contradição com as teses gerais de Trotsky sobre a natureza do stalinismo. Ele escreveu em todas as suas obras que o stalinismo está fundado em uma infraestrutura proletária: ele é reacionário, mas é um momento da ditadura do proletariado. Por exemplo, em Estado operário, Termidor e Bonapartismo, Trotsky escreve:

essa usurpação (do poder pela burocracia) só foi possível e só pode se manter porque o conteúdo social da burocracia é determinado pelas relações de produção que a revolução estabeleceu. Nesse sentido, temos o pleno direito de dizer que a ditadura do proletariado encontrou sua expressão desfigurada mas incontestável na ditadura da burocracia”.11

Se mantivermos as teses gerais de Trotsky sobre a natureza do stalinismo, como então a luta contra Stálin, sempre considerada por ele como luta política, poderia, como ele diz em sua última obra, exigir um levante revolucionário? Quando Trotsky compara a situação da Oposição de Esquerda àquela na qual se encontrava o partido bolchevique na luta contra o czarismo, isso significa — a nosso ver com razão, mas ao encontro de todas as suas teses —, que a luta contra a burocracia só pode ser uma luta de classe. Só podemos estar de acordo com as conclusões que ele tira: manutenção das tradições revolucionárias, preservação dos quadros, análise infatigável dos acontecimentos para instruir os trabalhadores mais conscientes. Mas não é um acaso se essas conclusões, cujo verdadeiro alcance ele não compreende, não correspondem em nada à tática real que, na prática, foi a sua e a da Oposição de Esquerda.

Com efeito, é chocante ver, quando examinamos de perto os acontecimentos dessa época, que a luta da Oposição de Esquerda contra Stálin não tomou quase nunca uma forma revolucionária e sempre evoluiu em torno do compromisso. O problema não é aquele colocado por Trotsky, a saber, se seria possível e desejável começar uma luta pelo poder. A questão era de levar a luta — ou de preparar o futuro — no espírito revolucionário. Os bolcheviques fizeram uma recuo entre 1908-1911 e jogaram para mais tarde a luta pela tomada do poder: mas eles não fizeram no plano teórico a menor concessão a seus adversários. No entanto, é o próprio Trotsky que declarava em novembro de 1934, evocando sua atitude a respeito de Eastman quando este revelou por sua própria iniciativa a existência de um Testamento de Lênin: “Minha declaração de então sobre Eastman só pode ser compreendida como parte integrante de nossa linha, a essa época orientada para a conciliação e o apaziguamento”.12 Desde 1929, ele escrevia no mesmo sentido e de uma maneira muito mais brutal:

Até o extremo, eu evitei a luta, pois, no primeiro estágio, ela tinha a característica de uma conspiração sem princípio dirigida contra mim, pessoalmente. Era claro para mim que uma luta dessa natureza, uma vez começada, tomaria fatalmente um vigor excepcional, e, nas condições de uma ditadura revolucionária, poderia gerar consequências perigosas. Não é o lugar para perguntar se era correto às custas das maiores concessões pessoais se inclinar à preservação dos fundamentos de um trabalho comum, ou se era necessário que eu próprio me lançasse em uma ofensiva geral, a despeito da ausência, para ela, de bases políticas suficientes. O fato é que eu escolhi a primeira solução e que a despeito de tudo eu não me arrependo.13

Trotsky fala aqui voluntariamente de uma maneira vaga de “concessões pessoais”. Mas é claro que dada sua situação, as concessões só poderiam adquirir um caráter político.

Antes de precisar o que foram essas concessões, em outras palavras o que foi a política de “conciliação e apaziguamento” da Oposição de Esquerda, é importante evocar um período sobre o qual Trotsky passa em geral rapidamente, o ano de 1923, quando Lênin ainda vivo preparava para o XII Congresso uma “bomba contra Stálin”, quando Trotsky era ainda o segundo chefe bolchevique aos olhos da maioria do partido, quando sobretudo Stálin ainda não havia conseguido a dominação completa do aparato e que o poder burocrático demasiado recente ainda o deixava vulnerável. Acredita-se normalmente que o antagonismo entre Trotsky e Stálin foi muito mais agudo que o antagonismo entre Stálin e Lênin. Entretanto, parece incontestável, após as memórias de Trotsky, que não era ele, à época, que queria começar a luta contra Stálin, mas Lênin. Já à beira da morte, Lênin havia percebido lucidamente o perigo extremo que Stálin e seus métodos burocráticos representavam para o futuro do partido. Os documentos que ele deixou e que são conhecidos sob o nome de Testamento não deixam nenhuma dúvida a esse respeito. Eles mostram de maneira evidente que Lênin havia decidido começar uma luta decisiva contra os cabeças da burocracia: Stálin, Ordjonikidze, Dzerjinski. As Memórias de Trotsky mostram também claramente que, se ele partilhou o ponto de vista de Lênin, não queria desencadear hostilidades decisivas contra os stalinistas. Relatando uma conversa que ele teve à época com Kamenev, que já havia entrado no jogo de Stálin e era seu emissário para tratar de Trotsky, ele escreve:

Às vezes, diz ele, diante de um perigo imaginário, ficamos com medo e atraíamos uma ameaça real. Diga bem aos outros que eu não tenho a menor intenção de começar no Congresso a luta para alcançar modificações da organização. Eu sou da opinião de manter o status quo. Se antes do Congresso Lênin puder se levantar, o que infelizmente não é provável, nós procederemos em conjunto a um novo exame dessa questão. Eu não sou da opinião de acabar com Stálin, nem de excluir Ordjonikidze, nem de descartar Dzerjinski dos Meios de Comunicação. Mas no principal estou de acordo com Lênin.14

Além das Memórias de Trotsky, estão lá os documentos que mostram que, contra a vontade de Lênin, Trotsky fez do XII Congresso do partido bolchevique um congresso de unanimidade; colocou-se de lado a “bomba” que Lênin havia recomendado a Trotsky explodir nesse congresso a propósito da questão nacional. É ainda o mesmo Trotsky que se gaba de ter então evitado todo combate contra Stálin, contentando-se em alterar sua resolução no lugar de condená-la. É igualmente significativa sua recusa de, na ausência de Lênin, apresentar o relatório político diante do Congresso. E as justificativas que ele dá não são menos significativas. Toda sua conduta teria sido ditada pela preocupação de não se apresentar como pretendente à sucessão de Lênin. É difícil entender essas preocupações, esses escrúpulos sentimentais da parte de um bolchevique quando uma questão política vital está em jogo.

Na verdade, no início, quando tinha superioridade, Trotsky se recusou a começar uma luta pela regeneração do partido, não atacando sua burocracia. Quando ele defende que uma luta pelo poder era impossível, é difícil de acreditar, tratando-se desse ano de 23 em que nada ainda estava dado. Ele mesmo, aliás, escreverá mais tarde:

Lênin poderia ter conseguido o reagrupamento que ele tinha em mente na direção do partido? Nesse momento, sem dúvida… Nossa ação comum contra o Comitê Central, se ela tivesse se passado no começo de 1923, nos levaria certamente à vitória. Muito mais. Se eu tivesse agido, na véspera do XII Congresso, no espírito do “bloco” Lênin-Trotsky contra a burocracia stalinista, eu não duvido que teria conquistado a vitória, mesmo sem a assistência direta de Lênin na luta.15

É verdade que Trotsky acrescenta: “Em que medida essa vitória teria sido duradoura, é uma outra questão”. Mas mesmo se respondermos negativamente a essa questão, como se deve, mostrando que a história iria então no sentido do refluxo revolucionário, a tarefa do político não pode jamais ser de compor com o refluxo.

Ora, a partir daí, e “até o fim”, a Oposição de Esquerda levaria uma política de “conciliação” e de “apaziguamento”. Essa política não poderia continuar coerente, pois se essa Oposição de Esquerda não desejava a luta, a burocracia a queria. Evidentemente, seu triunfo passou pela aniquilação do antigo líder revolucionário, ainda que ele procurasse uma entente. Trotsky foi então levado a atacar repetidamente; mas esses ataques carregavam o signo da fraqueza. Como muito bem observado por Souvarine, Trotsky se desgasta em uma vã polêmica dentro do Bureau político. Em seus artigos (aqueles que ele publica a propósito do Curso Novo, em 1923, e as Lições de Outubro, em 1924), ele multiplica as alusões e escreve de maneira a ser compreendido apenas nos círculos dirigentes. Nenhum de seus escritos foi destinado a instruir os militantes de base. O que é infinitamente mais grave, quando a repressão burocrática persegue impiedosamente os membros ou os simpatizantes da Oposição de Esquerda, Trotsky não faz nada para defendê-los; por sua linha ziguezagueante, ele os desarma politicamente; ele não lhes oferece nenhuma plataforma de combate, nenhum elemento teórico com os quais pudessem se reconhecer e se agrupar.

Não é o lugar de seguir em detalhe a política de Trotsky durante todo esse período, mas importa jogar luz em alguns episódios particularmente destacados. No XIIIº Congresso, o primeiro que foi completamente “fabricado” pelos burocratas, Trotsky, após ter defendido suas concepções sobre o Plano de Estado, vê-se obrigado a sublinhar a unidade do partido em termos que deixam confusos todos os seus partidários.

Ninguém entre nós, declara ele, quer e nem pode ter razão contra seu partido. Em definitivo, o partido tem sempre razão… Só se pode ter razão com e pelo partido, pois a história não tem outras formas de realizar sua razão. Os ingleses têm um ditado histórico: ‘Right or Wrong, my country’ — que ele esteja certo ou errado, é o meu país. Historicamente, estamos bem mais fundamentados a dizer: que ele esteja certo ou errado em certas questões parciais concretas, em certos pontos, é meu partido… E se o partido toma uma decisão que algum de nós julgue injusta, este dirá: justa ou injusta, é meu partido e eu apoiarei as consequências de sua decisão até o fim.16

É Trotsky que se inflige em 1940, em seu Stálin, o desmentido mais categórico quando ele afirma que um partido político não é nem “uma entidade homogênea, nem um onipotente fator histórico”, mas um “instrumento histórico temporário, um de numerosos instrumentos da História e também uma de suas escolas”17. A declaração de Trotsky no XIIIº Congresso adquire seu verdadeiro sentido quando sabemos que nesse momento ele tinha percebido a burocratização completa da organização e a mistificação do congresso. Pouco antes aconteceu, com efeito, a entrada massiva de numerosos membros no partido, decorada com o nome de “levante de Lênin”, e que, como Trotsky escreveu mais tarde, era “uma manobra para reabsorver a vanguarda revolucionária em um material humano desprovido de experiência e de personalidade, mas acostumado, em contrapartida, a obedecer os chefes”18. Esse levante conseguiu fazer do partido um instrumento dócil nas mãos do secretário geral. Contudo, essa “promoção de Lênin” que, também dirá Trotsky, “desferiu um golpe mortal no partido de Lênin”, foi, ela também, celebrada por ele durante o XIIIº Congresso. Trotsky levou a concessão até o ponto de declarar que essa promoção “aproximava o partido de um partido eleito”.19

É verdade que até então a luta contra o trotskismo ainda não havia tomado caráter aberto e, sobretudo, que politicamente o stalinismo mal havia se revelado. As concessões de Trotsky têm um ar mais trágico quando a batalha é travada. Após a primeira fase dessa batalha, depois que Trotsky havia começado uma luta pelo novo Curso, depois que ele havia sido objeto de uma campanha de ataques sistemáticos da parte do Bureau político, depois que Stálin tinha apresentado sua concepção do socialismo em um só país20, Trotsky publicou um artigo no Pravda (em janeiro de 1925), na qual ele se defendia de haver tido a ideia de opor uma plataforma à maioria stalinista.21 Isso era dizer claramente que não havia divergências substanciais entre ele e essa maioria. A capitulação aparece ainda no ano de 1925, na ocasião do affaire Eastman. Em uma obra intitulada Since Lenin died, o jornalista americano, simpatizante bolchevique, tinha tomado para si, como nós já indicamos, revelar a existência e o conteúdo do Testamento de Lênin, que Trotsky, em acordo com o Comitê central, tinha achado melhor esconder tanto dos militantes e das massas russas quanto dos comunistas do mundo inteiro. A declaração de Trotsky à época mereceria ser citada integralmente, de tanto que nela estoura a má-fé e a prática do “sacrifício supremo”. Trotsky acusa Eastman de “mentira desprezível” e insinua que ele é um agente da reação internacional. “O camarada Lênin, escreve ele, não deixou nenhum testamento: a natureza de suas relações com o partido e a natureza do próprio partido excluem a possibilidade de um tal testamento”. Evocando a carta de Lênin sobre a reorganização da Inspeção operária e camponesa (sobre a qual Stálin tinha mão pesada) Trotsky não hesita em declarar: “A afirmação de Eastman segundo a qual o Comitê Central estava ansioso para esconder, quer dizer, para não publicar, os artigos do camarada Lênin sobre a Inspeção operária e camponesa é igualmente errada. Os diferentes pontos de vida expressos no Comitê Central, se é que é possível falar da diferença de pontos de vista nesse caso, foram de um alcance absolutamente secundário”.22 Como Trotsky pode sustentar essa linguagem se Lênin atacava totalmente esse ponto e Trotsky repetiu centenas de vezes que estava plenamente de acordo com ele?

Não poderíamos fazer o balanço dessa política de conciliação sem mostrar que, mesmo no plano teórico, Trotsky ficou obcecado. Nós já assinalamos que ele não deu à luta contra a teoria do socialismo em um único país, quando ela foi “descoberta” por Stálin, um caráter de princípio. É preciso igualmente reconhecer que Trotsky não se opôs à entrada de comunistas chineses no Kuomintang, tampouco à tática conduzida pelos comunistas ingleses no comitê anglo-russo de unidade dos Sindicatos. Tanto em um caso quanto no outro, ele só se engajou na luta contra a política stalinista quando ela se voltou abertamente ao desastre.23 Nós dizíamos acima que a tática da Oposição de Esquerda havia contribuído para desarmar a vanguarda revolucionária mundial. Trotsky diz que Stálin apareceu um dia ao mundo como um “ditador pronto”, ele esquece de mencionar sua responsabilidade a esse respeito.

É enfim no último período da luta entre a oposição e a direção stalinista, à medida que essa luta se faz mais violenta, que as capitulações se fazem mais radicais e mais trágicas. Duas vezes, em outubro de 1926 e em novembro de 1927, a Oposição de Esquerda, que reúne então, ao lado de Trotsky, Kamenev e Zinoviev, condena-se solenemente, repudia seus partidários no estrangeiro e começa a se dissolver. Enfim, quando já não há mais esperança para ela, quando Stálin tem a sua disposição um congresso (o XV), que o obedece cegamente, a oposição faz um apelo final pelo perdão, e redige uma nova condenação de sua atividade; é a Declaração dos 121. Trata-se de um documento de um grande valor histórico, pois ele representa a última ação publicada pela Oposição de Esquerda na Rússia. A declaração começa por proclamar que a unidade do partido comunista é o mais alto princípio à época da ditadura do proletariado. Nós reencontramos os mesmos termos que Trotsky já empregara em seu discurso do XIII Congresso citado acima. O partido é tido por um fator divino de desenvolvimento histórico, independentemente de seu conteúdo e de sua linha. A declaração sublinha a esse respeito o perigo de uma guerra contra a URSS e afirma que não há nada de mais urgente do que restabelecer “a unidade combatente do partido”. Podemos achar extraordinário que a oposição procure antes de tudo manter a unidade de fachada do Partido quando as mais graves dissensões a colocam contra a direção do partido. Mas os 121 decidiram tomar por nulas suas discordâncias com o partido. Eles repetem diversas vezes que estão convencidos da justiça de seus valores e que eles continuarão a defendê-los, conforme lhes é autorizado pelos estatutos da organização, após terem dissolvido sua fração; mas ao mesmo tempo eles proclamam: “não há diferença programática entre nós e o partido”.24 E eles se defendem amargamente de ter pensado que o partido ou seu comitê central tenham passado por um Termidor. Ora, não somente em 1927 o partido perdeu completamente sua face revolucionária e democrática, mas ele adotou a perspectiva do socialismo em um só país, ou seja, na verdade, renunciou à perspectiva da revolução mundial.


Na verdade, essa via majestosa que Trotsky, a ler seu Stálin, teria feito a Oposição de Esquerda seguir jamais existiu. Trotsky improvisou durante cinco anos uma política no dia a dia, política de duras concessões, de revolta — quando a dominação da burocracia se fazia insuportável — depois de capitulações que preparavam novas explosões. Não nós é possível seguir aqui o comportamento dos diferentes representantes da oposição. Mas os trânsfugas foram numerosos, sem nem mesmo falar de Zinoviev e Kamenev, que se tornaram profissionais da capitulação. Certamente a face de Trotsky se desprende do grupo, pois ele não era o homem de um abandono definitivo. Mas sua responsabilidade é ainda mais impressionante. Como pode ele subjugar os desertores quando toda sua política tendia a negar toda “diferença programática” com os stalinistas? Essa política pode se resumir na fórmula que ele empregava em 1927: “o que nos separa (da burocracia) é incomparavelmente menor do que o que nos une”.25 Era uma política suicida, pois apesar de todas essas declarações práticas, Trotsky, mil detalhes nos provam, não se enganava quanto à degenerescência burocrática. Suas intervenções nos organismos superiores do partido, as notas que ele próprio menciona, em suas Memórias não deixam dúvida a respeito. É de uma forma deliberada que ele engana a opinião, em nome de fins superiores, ou seja, para proteger o Estado soviético no mundo.

Como entender que Trotsky, percebendo a burocracia total do partido e o caráter reacionário da política dos dirigentes, continua a se sentir solidário desse partido e de seus dirigentes? Não se pode responder a essa questão sem recuar e sem situar Trotsky e o trotskismo em um desenvolvimento objetivo. Porque o interessante para nós não é ver se Trotsky agiu bem ou mal em tal situação dada, mas explicar sua atitude. Nesse sentido, toda uma parte da crítica de Souvarine nos parece artificial. Em muitas passagens, ele reprova Trotsky por ter conduzido mal a luta, por ter provocado o ódio dos dirigentes por polêmicas inoportunas, por ter aproximado Zinoviev e Kamenev de Stálin em vez de afastá-los, em geral por não ter sabido contemporizar e manobrar como fizeram seus adversários. Não podemos seguir Souvarine nessa via; a supor que Trotsky tenha sido frequentemente intransigente e desajeitado, apesar da linha geral de conciliação, esse é apenas um aspecto menor da questão, e de toda maneira, não há que reprová-lo de não ter manobrado na cúpula, mas, ao contrário, de ter com frequência limitado sua ação apenas à cúpula. Aliás, Souvarine entende isso quando ele dirige sua crítica não mais à personalidade de Trotsky, mas ao desenvolvimento de suas posições.

Fazer a crítica objetiva a Trotsky e à Oposição de Esquerda é abandonar os critérios valorativos por um ponto de vista histórico, concreto. Trotsky parece adotar esse ponto de vista quando ele se esforça para reduzir tudo a uma explicação do tipo “foi o refluxo da revolução”. Na verdade, essa explicação, sem ser falsa, não é satisfatória, pois ela é infinitamente ampla. A concepção do refluxo revolucionário pode permitir compreender o fracasso, mas não a derrota ideológica da oposição. Precisamente porque a explicação é excessivamente ampla, Trotsky invoca com frequência uma outra, dessa vez excessivamente estreita: as maquinações de Stálin e dos seus. Na verdade, nós só podemos compreender a política de Trotsky e dos líderes revolucionários de grande valor que o cercavam, após 1923, integrando-a no desenvolvimento anterior do partido bolchevique.

Pois é o bolchevismo que continuava a se expressar na Oposição de Esquerda, e é de sua impotência de sobreviver como ideologia e estratégia revolucionária que é preciso dar conta. Em uma passagem de seu Stálin, Trotsky tenta fugir do problema.

Estéreis e absurdos, escreve ele, são os trabalhos de Sísifo daqueles que tentavam reduzir todos os desenvolvimentos do período a alguns pretensos traços fundamentais do partido bolchevique… O partido bolchevique definiu para si mesmo o objetivo da conquista do poder pela classe operária. À medida que esse partido realizou essa tarefa pela primeira vez na história e enriqueceu a experiência humana com essa conquista, ele preencheu um prodigioso papel histórico. Apenas aqueles desorientados pelo gosto da discussão abstrata podem exigir de um partido político que ele submeta e elimine os fatores muito mais densos, de massas e classes que lhe são hostis.26

Não podemos senão estar de acordo sobre o prodigioso papel histórico dos bolcheviques. Para além disso, a questão está mal colocada. Não se tratava evidentemente de exigir de um partido um tipo de triunfo sobre o curso da história, mas de entender como o curso da história é expresso pela estrutura e a vida do próprio partido. Não é porque o partido bolchevique realizou a revolução de Outubro que devemos deificá-lo e ver seu fracasso posterior apenas como acidente. O fracasso do partido em 1923 deve ser entendido pela dinâmica interior do partido. Não tentamos de forma alguma minimizar o papel dos fatores objetivos, mas distinguir na base do partido bolchevique a potência permanente desses fatores.

Nós não queremos voltar — muitas obras e estudos de todo tipo evidenciaram esses aspectos — ao caráter bastante particular da Rússia no mundo capitalista antes de 1917, ao aspecto atrasado de sua economia e à falta de cultura das massas. Se essa própria situação, como igualmente sublinhamos, foi favorável à formação de um partido revolucionário vigoroso, com as contradições sociais sendo levadas a seu paroxismo, não é menos verdade, e geralmente se insistiu menos sobre esse aspecto das coisas, que houve consequências essenciais no que concerne à estrutura e ao funcionamento do partido. Sem dúvida, em nenhum país o tipo do revolucionário profissional foi realizado como na Rússia; as necessidades da ilegalidade, diante da autocracia czarista, o hábito de viver sob opressão e em uma grande miséria contribuíram para criar o tipo de praticante da revolução que foi por excelência o bolchevique. Mas é preciso ver também que o revolucionário profissional, pela própria lógica de sua situação, foi levado a se desprender das massas, a manter com a vanguarda real das fábricas apenas relações superficiais. A clandestinidade obrigou o revolucionário a viver em pequenos círculos relativamente fechados. Esse clima era favorável à centralização, não à democracia. Trotsky, em seu Stálin, escreve nesse sentido:

O vício do bolchevismo pela centralização revelou desde o II Congresso seus aspectos negativos. As rotinas do aparelho já estavam formadas na ilegalidade. Um tipo de jovem burocrata revolucionário tomava forma. A conspiração limitava estreitamente, é verdade, as formas de democracia (eleição, controle, mandatos). Mas não se pode negar que os membros dos comitês encolheram mais do que era preciso os limites da democracia interior e se mostraram mais rigorosos com os operários revolucionários que com eles mesmos, preferindo comandar, mesmo quando havia sido preferível dar ouvidos atentamente às massas.

E Trotsky continua:

Krupskaia nota que nos comitês bolcheviques, como também no congresso, quase não havia operários. Os intelectuais prevaleciam: “O membro do comitê, escreve Krupskaia, era normalmente um homem cheio de segurança; ele via a enorme influência que a atividade do comitê tinha sobre as massas; como regra geral, o participante do comitê não admitia nenhuma democracia no interior do partido”.27

Certamente esse divórcio entre certos revolucionários profissionais e as massas era menos marcado nos grandes momentos revolucionários, mas os efeitos eram, contudo, muito graves. Vemos esses efeitos se manifestarem por ocasião da revolução de 1905, quando os bolcheviques se recusam a reconhecer os sovietes que os operários criaram espontaneamente.

O comitê bolchevique de Petesburgo, relata Trotsky, a princípio se surpreendeu por uma inovação tal como a representação das massas em luta independentemente dos partidos, e não imaginou nada melhor do que enviar um ultimato ao soviete: imediatamente tomar como seu o programa social-democrata ou se dissolver.28

Pode-se afirmar que, se os bolcheviques não provocaram catástrofes, foi graças a Lênin, e a sua faculdade excepcional de discernir em toda situação o significado revolucionário. Mas a própria preeminência de Lênin merece reflexão; ficamos impressionados de ver como os melhores líderes bolcheviques são pouco sólidos sem ele. Há uma verdadeira brecha entre Lênin e os outros dirigentes bolcheviques, e uma brecha também entre esses dirigentes e os militantes médios da organização. Mil provas poderiam ser dadas, mas a mais conhecida, sem dúvida, é fornecida pelos acontecimentos de Fevereiro de 1917, quando, estando Lênin no exílio, Kamenev e Stálin tomam, em sua ausência, a direção do partido. Quando Lênin volta e apresenta as Teses de Abril, ele foi, quase sozinho, contra todo o partido, e só achou apoio nos operários bolcheviques de Viborg. Basta dizer que a força do partido estava por um fio. Certamente os operários bolcheviques eram os melhores fiadores de sua potência, mas eles não podiam por si mesmos dirigir a organização e, entre os quadros, ninguém além de Lênin podia liderá-los.

Vemos essa fisionomia bem particular do partido bolchevique se acentuar no dia seguinte à revolução e durante todo o período da guerra civil. Com efeito, a guerra civil, junto com o caos econômico e com o fraco nível de cultura das massas russas, fazia necessária uma concentração acentuada do poder, uma política cada vez mais voluntarista face a uma situação cada vez mais difícil. Souvarine descreve perfeitamente, nessas condições, a evolução do Conselho dos Comissários do Povo, que se torna rapidamente o dublê do Comitê Central bolchevique, e serve apenas para dar uma forma constitucional a suas decisões. Ele mostra igualmente que o comitê central por sua vez existia cada vez menos como “colegiado” e que o verdadeiro poder se encontrava concentrado nas mãos de uma oligarquia no seio do Politbureau. Em todas as instituições, nos sindicatos como nos sovietes, há apenas um poder e uma política, aquela dos bolcheviques, que se tornaria mais e mais a de simples funcionários estranhos às massas e aos operários em particular. A mesma lógica levou os bolcheviques a se desfazerem de todas as oposições. Sabemos muito bem a violência excepcional com que Lênin persistiu em exterminar seus adversários, fossem eles socialistas revolucionários de esquerda ou anarquistas. Sobre esse ponto, Voline dá informações impressionantes. Nisso vemos especialmente os bolcheviques fabricando documentos comprometedores contra os anarquistas para acusá-los de assuntos criminosos aos quais eles eram absolutamente alheios. O terror que começa por exterminar todos os partidos oposicionistas, todos os grupos concorrentes, e que acaba, no interior do próprio partido bolchevique, pela interdição das frações, atinge seu paroxismo com a repressão dos operários de Kronstadt, que, antes considerados como a elite revolucionária, e combatendo por reivindicações confusas, mas na maior parte democráticas, são tratados como agentes da contrarrevolução e implacavelmente esmagados.

Todos os fatos convergem: o partido que, desde sua origem e em razão da situação objetiva, tendia para uma estrutura militar e funcionava como um organismo pouco ligado às massas, mostrou consideravelmente esses traços no período pós-revolucionário. Só podemos concordar com Souvarine quando ele assume por sua conta a definição de Bukhárin: “O partido além e acima de tudo”.29 No entanto, parece-nos que Souvarine oscila entre uma crítica da atitude dos dirigentes (subjetiva) e uma interpretação objetiva que recoloca essa evolução do bolchevismo na situação dada, econômica e social, nacional e mundial. Nós repetimos, a primeira crítica não tem sentido para nós. Não há julgamento de valor que seja permitido. A política do partido bolchevique foi, de 1917 a 1923, aquela de uma organização revolucionária lutando desesperadamente para preservar até a explosão da revolução mundial uma vitória proletária sem precedentes na história. Essa política era essencialmente contraditória, pois ela era levada a tomar um conteúdo antiproletário em nome dos interesses maiores do proletariado. Mas suas próprias contradições eram objetivas, pois elas exprimiam as contradições do proletariado russo vitorioso, e sufocado na sua vitória por fatores negativos em escala nacional e internacional. O período pós-revolucionário na Rússia é o momento trágico do bolchevismo, dilacerado entre seus fins e a natureza das forças que ele tenta animar. Essa tragédia culmina na repressão dos operários de Kronstadt por Trotsky, que é levado a esmagá-los e a forjar falsidades para persuadir o mundo inteiro da culpa deles. Mas esse momento da contradição é, por essência, transitório; o bolchevismo não pode continuar dividido entre seu comportamento real e seus princípios; quais que sejam os fins supremos que ele vise, ele não pode sobreviver se ele se desfaz de seu conteúdo real —, as massas proletárias que ele representa. Ele não pode continuar sem fundamento social, como pura vontade de forçar o curso da História. No próprio interior do partido, a contradição se exprime como a diferença entre a política de Lênin e Trotsky, que custe o que custar “governam em direção à revolução mundial”, e o próprio corpo do partido que tende a se cristalizar socialmente e tomar a forma de uma casta privilegiada.

É apenas nessa perspectiva que se pode compreender a derrota de Trotsky, sua liquidação em 1927, e sobretudo, o que é essencial, seu colapso ideológico desde 1923. À luta de Trotsky contra a burocracia faltava uma base porque ele mesmo era objetivamente um artífice dessa burocracia. Trotsky não pode reprovar Stálin por fazer uma política anti-operária e anti-democrática quando ele próprio inaugurou essa política. Ele não pode criticar a repressão exercida contra a Oposição quando ele mesmo participou da repressão do Grupo Operário e da Verdade Operária. Ele não tem mais a liberdade de se basear na vanguarda das fábricas porque ele se desfez dela. Ele não tem uma plataforma geral contra Stálin porque ele próprio se fez prisioneiro da contradição que consiste em dirigir o proletariado em função de seus interesses supremos e de encontro com seus interesses imediatos. A virada de 1923 parece muitas vezes difícil de entender. Na verdade, nessa época, o caráter revolucionário do bolchevismo está por um fio: a política de Lênin e Trotsky orientada para a política mundial. Na ausência dessa revolução, o fio deve se romper. A contradição demasiado forte deve se abolir. Assim a vinda de Stálin representa a explosão da contradição e o surgimento de um novo termo. Para se afirmar, o novo regime não precisa entrar em guerra contra todos os valores precedentes. Eles se arruinaram por si mesmos e, perdendo seu verdadeiro conteúdo, já se tornaram em certo sentido meios de mistificação; assim Stálin pode surgir sem que sua política pareça romper de imediato com a política bolchevique. Assim a luta que ele conduz contra Trotsky pode aparecer como uma luta de pessoas. E o próprio Trotsky pode afirmar que se trata de uma “conspiração sem princípio, dirigida contra ele pessoalmente”. Na verdade, trata-se de uma ruptura absoluta com o passado, como o futuro mostrará, mas aparentemente, é apenas uma transição insensível, uma questão de pessoas. Trotsky, que quis ver na própria existência do partido e da sobrevivência formal da ditadura do proletariado uma garantia histórica para a revolução mundial, prolonga, pela atitude que ele toma, o momento da contradição no stalinismo, querendo acreditar que esse partido burocratizado, que conduz uma política contrarrevolucionária, é um elemento essencial para o proletariado universal. Tal é o sentido das estranhas declarações que relatamos sobre a unidade do partido e em geral o sentido de sua linha de conciliação. Tal é o sentido também de seus sobressaltos intermitentes. Ao mesmo tempo que esconde o Testamento e acusa Stálin de abandonar a política leninista, ele exige um curso novo, uma verdadeira democratização do partido, e declara, a despeito da burocratização, que “o partido sempre tem razão”. Ele não tem mais a liberdade de agir como revolucionário porque ele participa de um processo que o conduz a virar as costas às massas. Ele não tem a liberdade de agir como burocrata porque ele sempre se definiu, qualquer que fosse sua tática, em função do ideal revolucionário.

Suas contradições se expressam talvez da maneira mais explosiva em sua hesitação quando se trata de datar o “Termidor”. Em 1923, ele rejeita toda analogia com a reação termidoriana; em 1926, ele prevê a possibilidade de um curso termidoriano; ao mesmo tempo ele ataca violentamente os esquerdistas do Centralismo democrático, para os quais o Termidor já estava feito. Em novembro de 1927, após uma manifestação de rua em que os partidários da Oposição são oprimidos pelos bandos stalinistas, ele afirma que acabamos de ver uma repetição geral do Termidor. Em 27, com os 121, ele afirma não ter jamais pensado que o partido ou seu Comitê Central fosse termidoriano. Em 28-29 ele anuncia de novo a ameaça termidoriana; depois em 30 ele bruscamente proclama: “Entre nós, o Termidor se arrastou longamente”. Enfim, em 35, em sua brochura Estado Operário, Termidor e Bonapartismo, ele escreve: “O Termidor da grande revolução russa não está diante de nós, mas já bem para trás. Os termidorianos podem celebrar o décimo aniversário de sua vitória”30.

00:00

Valeria a pena examinar atentamente a atitude de Trotsky no alvorecer do stalinismo, pois ela nos permite esclarecer a política (teórica) que ele conduziu até sua morte. Dissemos que Trotsky representou, de 23 a 27, as contradições do bolchevismo. Devemos agora acrescentar que ele jamais saiu dessa situação dividida. Em seguida, transportou para o domínio da teoria revolucionária a contradição na qual ele se encontrava objetivamente preso. Certamente ele foi obrigado pelos acontecimentos a perceber o caráter contrarrevolucionário do stalinismo, mas ele não foi capaz de ter uma visão geral da nova sociedade stalinista e de a definir. Ele transferiu para categorias econômicas — a coletivização, a planificação — o fetichismo que ele havia inicialmente professado a respeito de formas políticas —, Partido, Sovietes. Ele declarou ao mesmo tempo que “à diferença do capitalismo, o socialismo não se edifica automaticamente, mas conscientemente, (que) a marcha para o socialismo é inseparável do poder estatal”31, e que “a ditadura do proletariado encontrou sua expressão desfigurada mas incontestável na ditadura da burocracia”.32 Ele mostra que a burocracia encontrou uma base econômica e social autônoma,33 mas ele continua em todas as suas obras a afirmar que a burocracia não é um sistema de exploração, que ela é simplesmente uma casta parasitária. Ele escreve de maneira excelente: “O Termidor russo teria certamente aberto uma nova era do reino da burguesia, se esse reino não tivesse se tornado caduco no mundo inteiro”,34 indicando com isso que o modo de exploração fundado na propriedade privada foi ultrapassado pelo curso da história, sem que por isso o socialismo seja realizado, e ao contrário ele diz e repete que o reino da burocracia é puramente transitório e que ele deve afundar diante das duas únicas possibilidades históricas: capitalismo ou socialismo.


Esperando evitar os mal entendidos, nós já insistimos o suficiente sobre o sentido de nossa crítica. O stalinismo é para nós um sistema de exploração, que convém compreender, como convém compreender o capitalismo moderno, com vistas a contribuir para o movimento operário, o único suscetível de os derrubar. Quando nós apreciamos o bolchevismo, principalmente em sua fase de decadência, é mantendo com ele um laço de participação, pois sua força e sua crise são aquelas da ideologia revolucionária. Aliás, as apreciações romântico-fatalistas, do tipo: “o fracasso do bolchevismo, o partido genial dos super-homens, mostra que a revolução é impossível”, nos são estranhas. O bolchevismo é para nós a expressão de uma época. Ele não fracassou porque o proletariado não tem futuro, mas porque ele era uma antecipação histórica. Ele fracassou porque a revolução socialista é em sua essência mundial e seus fundamentos — a concentração de forças produtivas, a interpenetração das economias — eram ainda insuficientes à época da Primeira Guerra mundial; ele fracassou porque a revolução socialista é por essência proletária e que suas condições — a capacidade de gestão do proletariado — não estavam maduras. Seria uma outra tarefa — que excede o quadro desse estudo — mostrar de um lado que as bases de uma tal revolução se alargaram ao mesmo tempo em que se estendeu a “barbárie”, de outro lado que essa revolução apresentaria traços — participação efetiva da vanguarda proletária no poder, importância dos órgãos autônomos de classe, papel reduzido do ou dos partidos — sensivelmente diferentes daqueles que revestiram a revolução russa.